junho 13, 2014

ENTREVISTAS

ENTREVISTA: SILVIA LIBERATORE

(Publicada originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

SILVIA LIBERATORE: UMA LIVREIRA EM LONDRINA
Profissional de Relações Públicas e Publicitária pela Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado, mestra e doutora em Cultura e Comunicação pela PUC/SP (Programa de Semiótica da Cultura). Nascida e criada em São Paulo, Capital, dedicou-se à carreira como professora, coordenadora do Curso de Relações Públicas e vice-diretora da Faculdade de Comunicação da FAAP/Fundação Armando Alvares Penteado, além de ser empresária na área de comunicação com a SLiberat Produções e Promoções Culturais. Ao se aposentar veio para Londrina, em 2006, e começou um novo capítulo de sua história com novas ideias, que deram origem à LIVRARIA DA SILVIA.



Visite o site da LIVRARIA DA SILVIA, clicando no link a seguir: 

SILVIA ENTRE LEITURINHAS

LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até os dias de hoje?

SILVIA - Eu comecei a ler muito cedo, como filha única, minha mãe se dedicava bastante a mim e ambos, pai e mãe, sempre foram leitores vorazes. Mamãe era professora e papai foi jornalista, inclusive revisor, portanto livros e letras eram parte do nosso dia a dia. O livrinho mais lindo que tive – e tenho até hoje – era uma história das irmãs coelhinhas, com ilustrações típicas inglesas, lindo!!! Mas foi Monteiro Lobato que me prendeu aos livros, definitivamente. E a Emilia mais do que todos!

LEITURINHAS - O projeto de abrir a LIVRARIA DA SILVIA sempre existiu ou aconteceu ao longo de sua vida? Comente um pouco sobre sua trajetória nesse empreendimento.

SILVIA - Nada disso! Eu nunca imaginei que um dia viesse a ter algum – qualquer – comércio: sou péssima vendedora! Gosto é de comprar livros... ajuda a explicar? Pois é assim que, depois de me mudar para Londrina, já aposentada mas fazendo meu doutorado, não conseguia achar os livros que queria – nem encomendando –, primeiro achei o espaço (o ponto certo) e aí a Livraria “pulou” na minha frente, como uma coisa irresistível a ser feita... Minhas filhas riram quando as consultei, contando sobre minha ideia de abrir uma Livraria, e disseram que era um truque, um “golpe” de minha parte para poder ter tooooodos os livros que eu queira... É, pode ser, mas é um investimento bem maior, bem mais caro do que comprar na Livraria Cultura como fazia antes! Há quem diga que a Livraria fica escondida, mas “quem procura acha”, não é? Na verdade este local tem um charme especial, fica sob lindas árvores, num recanto de uma casa antiga agora transformada em um pequeno centro comercial.

LEITURINHAS - Qual o motivo especial de colocar seu próprio nome na livraria?

SILVIA - Quando inventei montar a Livraria, começou a função de achar um nome e as sugestões foram aparecendo de todos os lados, mas o engraçado é que eu dizia que precisava de um nome para a minha livraria. De quem mesmo? Ah! (Livraria) Da Silvia, então... Ficou como os amigos diriam: “Vou pra Livraria da Silvia”, não é? E o divertido é que muitos dos clientes acabam sendo meus novos amigos, alguns viram até mesmo “amigos de infância”!

LEITURINHAS - A LIVRARIA DA SILVIA é uma livraria de atendimento, o que a diferencia de loja de livro. Esclareça um pouco melhor essa diferença e em que ela afeta no público consumidor que a frequenta?

SILVIA - Podemos fazer a comparação com uma casa e um lar. Uma casa é como uma loja de livros ou uma fast-book, onde você vai e compra o livro que quiser, pronto. Especificamente para comprar aquele livro com objetivo definido. Uma livraria – esta Livraria – é um como um lar para pessoas se sentirem à vontade. Bem que não dá para colocar chinelos, mas é para entrarem e olharem, escolherem livros que possam interessar, sem pressa ou pressão. Podem (e devem) se sentar para ler um pouco e sentirem se é aquele livro mesmo que querem. Conhecem outros clientes, conversamos sobre assuntos diversos nos Papos na Livraria, cada um tem sua personalidade e gosto respeitado num espaço que é para lazer e diversão com uso da imaginação individual essencialmente.
  
LEITURINHAS - Além de ser um espaço que permite a leitura de livros no próprio local, a LIVRARIA DA SILVIA é também um local de encontro de artistas de um modo geral, professores a leitores que se reúnem para bate-papos sobre determinados temas, como você lida com essa versatilidade da livraria e em quê ela contribui para esse empreendimento?

SILVIA - A ideia é que uma Livraria seja um espaço de cultura, e como espaço de cultura, a Livraria da Silvia procura incentivar a troca de ideias, de experiências. Ou seria uma loja que vende livros, não uma livraria.

LEITURINHAS - Quais os próximos passos da LIVRARIA DA SILVIA? Algum projeto relacionado à arte ou a instituições de ensino?

SILVIA - Aumento dos Papos na Livraria, que são realizados aos sábados – tivemos muitos feriados atrapalhando o cronograma – e exposições de arte. No presente momento tenho duas telas maravilhosas de Julio Gentil, um artista plástico de Londrina bastante conhecido, em exposição na Livraria. Quanto às instituições de ensino, tenho dado apoio às iniciativas de estudantes sempre que ligadas aos livros, aos estudos. Por exemplo: alunos da Business Consultoria - Empresa Júnior do Curso de Administração da UEL me procuraram para saber sobre patrocínio para o COLAD - Conferência Londrinense de Administração, realizado em agosto. Com dinheiro seria difícil, mas foi possível ajudá-los com os presentes (livros) para os palestrantes, o que lhes possibilitou redirecionar o que gastariam neste item. Também já forneci livros para a premiação de um Concurso de Fotografias, para um estudante que precisava de apoio para uma viagem de estudos (ele tinha um projeto para financiamento muito bem bolado), e assim foi e será sempre que houver incremento à cultura.

LEITURINHAS - Sendo dona de um estabelecimento que promove a leitura, como você observa o baixo índice de leitores no Brasil e o alto índice de publicações?

SILVIA - Não sei se há, realmente, um alto índice de publicações. Imagino que exista um número enoooooorme de autores não publicados, sei que há um grande número de autores que publicam seus próprios livros, mas não sei com qual número eu deveria estabelecer a relação de alto (ou baixo) número de publicações. Pelo número de leitores? Não seria justo... uma vez que não sei quantas pessoas leem um mesmo livro e não é possível fazer uma relação com número de bibliotecas (não apenas há públicas, mas em cada escola, em classes, etc). Pela venda de livros? Em qual número eu deveria confiar? Infelizmente os números que vejo não me parecem confiáveis. É bom reparar como crescem ou diminuem conforme os objetivos da divulgação, então... Mas concordo com o baixo índice de leitores, só que não concordo com o argumento corrente sobre desinteresse. A mim parece, pela experiência destes poucos anos de Livraria, que as pessoas não têm acesso aos livros por mil razões diferentes, incluindo a alegação de que sejam caros. São caros pelos encargos de toda a cadeia produtiva, não por lucro deste ou daquele ponto. Porem o pior é a falta de distribuição dos livros, é a falta de pontos de venda, a falta de livrarias mesmo. São muitas as pessoas que gostam de ter seus próprios livros e isso não é característica de nenhuma classe social, econômica ou cultural. Também tenho uma variedade imensa de perfis de clientes que compram e trocam livros com amigos, vizinhos, parentes e todos compartilham livros com muito carinho. Há os que guardam e os que passam seus livros adiante, acreditando que eles devem ter vida própria, seguindo seu destino de encantar.

LEITURINHAS - Há quantas andam os audiolivros na livraria? Comente um pouco sobre esse universo ainda não muito conhecido no Brasil.
SILVIA - Infelizmente ainda saem muito pouco, são ferramenta de entretenimento ainda praticamente desconhecida. Mas são imbatíveis como companhia para viagens de carro! Acredito que como todas as formas de mídia, existam seus usuários bem específicos e estão em andamento algumas tentativas para utilização por pessoas com outras formas de deficiência além da visual, como deficiência motora. O fato é que para algumas dessas tentativas clínicas (como instrumentos de aproximação, por exemplo) já parecem ter algum resultado. Mas no dia a dia, onde o consumo pode ser bem maior, os audiolivros ainda são pouco conhecidos, mesmo. Tenho deixado rodar histórias na Livraria para exemplificar, mas é , realmente, um “trabalho de formiguinha”...

LEITURINHAS - Que dicas você daria para quem gostaria de adquirir o hábito mais constante da leitura ou mesmo aperfeiçoá-la?



SILVIA - Acredito que o gosto pela leitura se faz lendo. Lendo o que se gosta, lendo o que dá informação interessante, que vire conhecimento. Ninguém gosta de ser ignorante, todo mundo gosta de saber mais, seja no assunto que for, então eu acredito em muita informação sobre os inúmeros assuntos para leitura e muita oferta de leitura, sem preconceito. Há autores de que eu gosto e os de que eu não gosto, mas outras pessoas gostam. E daí? Que bom! Tem para todo mundo! O conteúdo é que tem que ser produtivo, construtivo, para a formação de um bom repertório de informações, de conhecimentos, e aí a pessoa poder escolher como usá-los. Com o aumento gradativo de leitura as pessoas vão selecionando naturalmente o que ler em seguida, mas tem que ter variedade, tem que haver oferta de diferentes textos, de preferência com qualidade. Mas pode ser ruim do ponto de vista de uns ou outros, só não pode ser chato, que aí vai afugentar mesmo! Não é só publicar, mas há que se saber fazer plural na cultura, no conhecimento, na educação do dia-a-dia que começa na família e não se limita ao tempo na escola. Há muita publicação e os livros estão cada vez mais atraentes, com capas instigantes, chamativas. Deixe livros disponíveis, livros interessantes – nada de chatice, de “temas obrigatórios” – que eles (os livros) vão chamar seu próprios leitores, não tenho nenhuma dúvida!