dezembro 04, 2011

NOVEMBRO

ENTREVISTA COM WILL LEITE - LEITURANDO NA WEB
(Entrevista publicada originalmente em novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)




Will Leite é natural de Porecatu/PR, mas há 4 (quatro) anos reside em Apucarana. É graduado em Publicidade e Propaganda e pós-graduado em Design, Cognição e Mídia pela Faculdade Pitágoras de Londrina - PR. É autor do blog Will Tirando (www.willtirando.com.br), onde posta tiras diárias desde 2007. O blog recebe hoje cerca de 20 mil visitas por dia. Em 2011, Will foi convidado a participar do livro MSP Novos 50, a última edição da série MSP 50, em homenagem aos 50 anos de carreira de Maurício de Sousa.

 




LEITURINHAS
- Qual a história das suas leiturinhas? O que você lia quando criança, seja literatura, seja HQ?
WILL - Eu confesso que não era um bom leitor quando criança. Arrependo-me hoje por isso. No entanto era muito observador e curioso. Folheava todos os livros e revistas da minha casa (de enciclopédias a revistas de bordado), procurando por ilustrações. E apreciava-as por horas. Tentava redesenhar algumas.
Minha família nunca teve o costume de comprar revistas de quadrinhos, gibis para mim. Mas lembro que lia a Turma da Mônica sempre quando criança. Lembro também de ler tiras da Mafalda, Calvin e Haroldo, Asterix e Obelix nos livros da escola.

LEITURINHAS - O que te levou a desenvolver a linguagem das HQ's, as ilustrações ou as histórias? Você se considera, além de desenhista, um autor?
WILL - Me considero sim, um autor. Tenho personagens fixos, e conto com leitores fiéis ao blog. Invento histórias, personagens, situações. Considero-me um autor.
O gosto por desenhar foi um bom incentivo ao começar a fazer HQ's e ilustrações.
Outra coisa que me motivou muito foi a facilidade em se publicar na internet. A web me mostrou muita coisa interessante e me deu espaço pra começar e mostrar o que eu fazia também.

LEITURINHAS - Explique-nos como foi todo o processo de recriação dos personagens de Maurício de Souza, que lhe rendeu a menção na última Bienal. De que maneira a obra dele lhe influenciou?
WILL - O processo foi - pelo menos para mim - o mais natural possível. Eu só precisava reinterpretar os personagens da Turma da Mônica no meu traço. A escolha de cada personagem a ser reinterpretado não foi ao acaso. Escolhi os que mais combinavam com meu humor. Mas, claro, não poderia deixar os tradicionais de fora (Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Chico Bento). O enredo das historinhas era livre. Só devíamos tomar cuidado com o fato de aquilo ser, querendo ou não, destinado a crianças.
Sem dúvida, o trabalho do Mauricio tem influência no meu trabalho (e de grande parte dos artistas de quadrinhos nacional). Principalmente nas técnicas para ilustrar a história, expressões, criação de personagem etc.

LEITURINHAS - Quais criadores dos quadrinhos nacionais são importantes para você?
WILL - Eu admiro muita gente. Mas nacionalmente há uma série de artistas que me influenciou bastante. O Mauricio, como já foi dito é um deles. Gosto muito dos ilustradores ‘das antigas', da época do Pasquim: Ziraldo, Jaguar, Millôr, Henfil, Glauco. Mas tem gente que se destaca ainda - e principalmente hoje - que são mestres como Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai, Orlandeli, Allan Sieber. E tem também uma turma nova, que está aparecendo principalmente na internet que admiro muito, como Ricardo Tukomoto, Carlos Ruas, Fábio Coala, André Dahmer etc.

LEITURINHAS - Dentre os quadrinhos norte-americanos, há algum que te influencia? Sejam super-heróis (MARVEL/DC) ou quadrinhos adultos da linha Vertigo?
WILL - Não tive influência de nenhuma dessas linhas, porque nunca fui de ler esse tipo de quadrinho. E até hoje não é o que eu gosto de ler. Eu faço conteúdo principalmente para internet, e tenho maior afinidade àqueles que produzem conteúdo de leitura rápida.

LEITURINHAS - Qual sua visão sobre os quadrinhos europeus e os mangás orientais?
WILL - Prefiro não opinar sobre. Como disse anteriormente, leio muito pouco (quase nada) desse tipo de trabalho.

LEITURINHAS - Quais LEITURINHAS você recomenda para os pequenos e grandes leitores? Sejam quadrinhos, seja literatura?
WILL - No quadrinho, recomendo os clássicos que estamos acostumados a ver na escola mesmo: Turma da Mônica, Mafalda, Calvin e Haroldo etc.
Na literatura, eu tenho uma admiração muito grande pelos contos e crônicas do Luís Fernando Veríssimo. Inspiram-me bastante. Foi lançado recentemente o livro As Cobras - Antologia, do Veríssimo. É uma coletânea com as melhores tiras das Cobras, de autoria dele. Eu gostei bastante!



 KAZUO EM QUADRINHOS

 Iced Earth e a estética das capas de Hq’s
Por Alexandre Kazuo
(Artigo publicado originalmente em novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Há alguns meses mencionei neste espaço os trabalhos do renomado ilustrador Alex Ross em colaboração com a banda novaiorquina Anthrax. Também norte-americana, a banda de heavy metal Iced Earth oriunda da Flórida costumeiramente recorre à estética das ilustrações de HQ’s nas capas de seus álbuns. O Iced Earth foi fundado pelo guitarrista Jon Schaffer e passou a obter grande repercussão na cena heavy metal mundial a partir de meados da década de 90. A grande relação com as HQ’s expressa pela banda se materializou musicalmente no álbum ‘The Dark Saga’ de 1996. Era um disco conceitual em que o tema das letras versava sobre o personagem Spawn do ilustrador Todd McFarlane, também mencionado nesta coluna há algum tempo atrás.

Tanto Schaffer quanto o vocalista Matt Barlow, cunhado do guitarrista e atualmente retirado da cena musical, são colecionadores de HQ’s e fãs declarados de quadrinhos. Em cada faixa de ‘The Dark Saga’ é possível notarmos as letras escritas pela dupla se referindo a passagens ou personagens do universo de Spawn. A segunda faixa ‘I Died For You’ que alterna momentos melodiosos com partes pesadas soa como o lamento de Al Simmons, morto numa conspiração e posteriormente aceitando um pacto com o demônio Malebolgia que concede a Simmons mais uma chance de reencontrar a esposa. A ultrapesada ‘Violate’ representa o demônio Violador que nas HQ’s teria a função de ser um tutor de Al Simmons já tornado Spawn. A levada cadenciada e majestosa de ‘The Hunter’ menciona Angela a caçadora de spawns enviada pelo céu. Vale lembrar que Angela, dotada de um visual que lembra uma valquíria da mitologia nórdica, foi criada por Neil Gaiman (em ‘Sandman’, ‘Stardust’) e os direitos autorais sobre a personagem renderam algumas desagradáveis disputas judiciais entre Todd McFarlane e seu criador. Para arrematar o projeto estético de ‘The Dark Saga’ Jon Schaffer conseguiu cessão da imagem da capa de ‘Spawn’ 50 (no Brasil ‘Spawn’ número 49, da editora Abril) diretamente com Todd McFarlane.

Posteriormente, o Iced Earth recorreu a outro profissional das HQ’s, Greg Capullo que também se notabilizou por trabalhos com o personagem Spawn. Capullo trouxe a ilustração da capa de ‘Something Wicked This Way Comes’, lançado em 1997, álbum até hoje extremamente cultuado pelos fãs de metal tradicional. A capa tinha menções a cultura egípcia, algo tradicional no universo do metal, sobretudo por causa das capas do Iron Maiden. Ali observamos Set Abominae criado por Jon Schaffer, mas que pela primeira vez se personificou através dos traços de Capullo. A partir de então Set Abominae (entre os fãs da banda é também conhecido como ‘The Watcher’ ou ‘o observador’) passou a ser o mascote oficial do Iced Earth. Definitivamente um tributo ao Eddie criado pelo britânico Derek Riggs e que figura em todas as capas do Iron Maiden. Set Abominae se assemelha a um faraó recém-saído da tumba utilizando um cajado que traz o símbolo ankh na ponta, símbolo este que representa a vida na cultura egípcia.

Em outubro se deu o lançamento de ‘Dystopia’, o mais novo álbum do Iced Earth que, é claro, traz Set Abominae estampando a sua capa. A ideia de Jon Schaffer era trazer uma vibração musical semelhante àquela que se ouvira em ‘Something Wicked This Way Comes’, algo que tem sido positivamente aclamado pela imprensa especializada mundial. Recentemente a Voice Music re-lançou no Brasil edições oficiais em cd tanto de ‘Something Wicked This Way Comes’ quanto do mencionado ‘The Dark Saga’. ‘Dystopia’ foi lançado no mercado europeu e norte-americano. No Brasil o álbum será disponibilizado pela Shinigami Records.


RELEITURINHAS

 O DESPERTAR DE ALICE (PARTE II)
Por Carla Kühlewein
(Artigo publicado originalmente em novembro de 2011 em http://www.leiturinhas.com.br/)
               

                Se você se lembra, já ouviu falar ou é fã incondicional da série brasileira Castelo Rá-Tim-Bum, voltada ao público infantil, então já pode se considerar um leitor "antenado" com a temática desse artigo.  De mais a mais, enquanto muito se copia e se plagia nesse país de criatividade e malandragem infinitas, alguns se dedicam à velha e cobiçada arte de fazer Literatura! Flávio de Souza é um desses empenhados artistas. Há anos dedica-se a (re)ler e (re)escrever as particularidades do universo infantil, quer seja com produções cinematográficas, como o já citado Castelo Rá-Tim-Bum, quer seja com livros de Literatura Infantil.
Ator, diretor, figurinista, dramaturgo, sonoplasta, autor, Flávio é um verdadeiro homem das Artes. Na Literatura ele se destaca principalmente pelas RELEITURINHAS de contos de fadas, sempre dinâmicas e recheadas de surpresas. O destaque aqui vai para Chapeuzinho adormecida no país das maravilhas. Mas não era a Alice? Bom... no país de Souza tudo se modifica, então, vejamos mais de perto o que essa RELEITURA traz de novo, de novo!
Pelo título a inversão de papéis já se prenuncia, quem dormirá no país das maravilhas dessa vez não será a loirinha de vestido azul (assim estereotipada pela Disney), mas a eterna insubordinada Chapeuzinho vermelho. Acontece, porém, que a "culpa" (eterna culpa) por essa inversão recai sobre o pai de uma menina, que meio entediado com as velhas histórias, resolve modificá-las "um pouquinho" ao contá-las para a filha. Eis que o que parecia ser no início distração e pura balela, transforma-se em uma divertida e movimentada história, repleta de RELEITURINHAS pra todos os gostos, tipos e tamanhos.
A história da Chapeuzinho, no livro de Souza, se inicia parecida: capinha vermelha, floresta, vovozinha, mas quando a pobre se perde na floresta... aí a coisa muda de figura. Lá ela encontra: os três porquinhos, um lobo bobo e mais uma galera amalucada como ela só. A história toma rumos inesperados, surpreende a cada página, e Flávio, na voz do narrador/pai, acrescenta, modifica, incrementa o quanto pode. Ao ponto de a Chapeuzinho encontrar-se perdida no país das maravilhas ao lado de ninguém mais ninguém menos do queda filha da bruxa (do Mágico de Oz), o sapo (aquele que era príncipe) e o coelho branco (o da Alice mesmo). Os quatro foram até o Mágico de Voz pedir para voltar pra casa e a história termina como não poderia deixar de ser: surpreendente. Mas isso você confere lá no livro. Deixemos o suspense no ar...
No meio de tanta confusão é possível imaginar quantas vozes ecoam direta e indiretamente pelos personagens clássicos que aparecem. Em se tratando de RELEITURAS, é preciso considerar que quando o escritor imprime a uma personagem clássica um novo perfil, aquele (o antigo) não se dissipa, ao contrário, permanece, como uma voz em contratempo, ecoando ao longe, como se lembrasse o leitor de onde o "novo" personagem surgiu e para onde ele tende a voltar.  E haja personagens reinventadas: um Mágico de voz, uma filha da bruxa, uma chapeuzinho que só sabe indagar "É?", um coelho branco estressado que volta e meia resmunga um "Pombas!", gíria antiga, porém, hilária.
Em geral as RELEITURAS para serem assim consideradas e não perderem o caráter cômico, às vezes até irônico, existem por causa da polifonia (jogo das diversas vozes presentes no texto), pois se forem lidas sem as relações clássico/novo perdem na intertextualidade e no efeito impactante que provocam durante a leitura.
Essa multiplicidade de vozes, que ecoam aos milhares, faz emanar os brados de Alices, Chapeuzinhos, Lobos, Coelhos brancos, Bruxas do universo clássico, de outras leituras e do universo imaginário criado por Souza. Tudo isso somado gera um repertório de personagens que saltam das páginas e povoam a imaginação do leitor.
                Flávio de Souza empresta à Literatura Infantil recursos muito interessantes da linguagem cinematográfica, como a cadência gradativa de fatores, interligadas, como se fossem cenas de filme de ação. A história percorre um fio condutor que só se interrompe ao final, com o desenlace de todos os conflitos, ou ao menos parte deles. A narrativa de Souza obedece à lógica do texto dramático à medida que se constrói com base em um conflito central que modula todos os outros. Não é só o desfecho da trama que surpreende, toda ela é feita de um material curiosamente envolvente. Uma mistura deliciosa de aventura e imaginação faz a ponte com comportamentos humanos típicos da atualidade, como a intolerância para raciocínios lentos (coelho branco) ou a postura quase didática da fada (ao perguntar insistentemente "tudo certinho?").
                Afinal, as RELEITURINHAS partem de conceitos cristalizados em obras clássicas para revelar as mesmas personagens, porém com nova roupagem, elaborada a partir de condutas humanas características da época que o autor vivencia. Com vocês, um pouquinho do universo diverso de Flávio de Souza:

A Cidade Preciosa estava mais perto. Mas ainda estava longe. Eles ainda iam ter que andar muito pela estrada invisível para chegar lá. A Chapeuzinho decidiu que ia sentar para descansar de qualquer jeito:
- Eu não aguento mais!
O coelho entrou em pânico:
- Nós não podemos parar! Eu tenho que chegar ao reino de Copas o quanto antes! Eu já estou para lá de atrasado, pombas!
- Mas eu estou muito cansada e com muita fome!
Ao ouvir isso, o coelho até se esqueceu da pressa e disse, olhando firme para a cestinha dela:
- Oba! Você também? Vamos comer o seu lanchinho, boneca?
- Mas é para minha avó!
Sem ligar para o olhar de desprezo do sapo, o coelho já ia atacar a cestinha da Chapeuzinho, quando a bruxa Griselda apareceu, disfarçada de bondosa velhinha, acenando e dizendo:
- Olá! Olá!
O coelho apontou e disse:
- Vejam só, é uma bondosa velhinha!
                O sapo avisou:
- Que nada! É a bruxa Griselda disfarçada!
A bruxa mandou o sapo ficar quieto e disse para a Chapeuzinho:
- Pobrezinha! Você está com fome, linda menina!
- Estou mesmo!
O coelho levantou o braço e agitou, coo um aluno pede licença para sair da classe para ir ao banheiro, e disse:
- eu também estou, dona bondosa velhinha!
O sapo insistiu:
- Não caiam na conversa dela!
A bruxa e o coelho mandaram o sapo ficar quieto, e a bruxa disse para a Chapeuzinho, oferecendo a maçã:
- Que tal comer esta linda e suculenta maçã?
O sapo tentou impedir:
- Não faça isso!
Desta vez a bruxa, o coelho e a Chapeuzinho mandaram o sapo ficar quieto, A Chapeuzinho ia pegar a maçã, mas o coelho foi mais rápido:
- Eu vi primeiro!
A Chapeuzinho gritou de fome e de raiva, e o sapo tentou mais uma vez impedir uma tragédia:
- Não faça isso!
Mas não conseguiu!
(...)

(SOUZA, Flávio de. Chapeuzinho adormecida no país das maravilhas. São Paulo: FTD, 2005.)


Até as próximas RELEITURINHAS!