ENTREVISTA - Maria Cristina Furtado
Sou
carioca, cresci tocando violão, cantando, lendo e criando muitas
histórias. Tornei-me escritora infanto0juvenil em 1985, e desde então
procuro passar em meus livros a importância de vivermos em harmonia com
o meio ambiente e a necessidade de termos uma sociedade onde a
igualdade, a inclusão, o respeito e a dignidade do ser humano sejam
prioridades.
Sou
psicóloga, professora e teóloga, mas para os meus pequenos leitores
prefiro ser uma “contadora e cantadora de histórias” que deseja, com o
violão debaixo do braço, compartilhar a emoção de minhas histórias
pelos quatro cantos do Brasil.
LEITURINHAS
– Você é autora de uma série de livros que transitam de temáticas que
vão da inclusão social a lendas. Além disso, seus livros vêm
acompanhados de músicas compostas e executadas por você. Como é ser uma
artista tão versátil?
MARIA
CRISTINA – É muito bom! As coisas vão acontecendo naturalmente! A
inclusão, a liberdade, a solidariedade, a luta pela vida, o amor, a
ecologia, o respeito ao outro, etc., que para mim são essenciais na
vida de qualquer pessoa. Quando começo a escrever uma história, eu
ainda não sei o que vai acontecer, e de repente um desses temas surge e
passa a fazer parte da história.
As
músicas e letras, quando estou escrevendo, surgem junto com os
personagens e a história. Eu não faço as músicas para que a história
seja musicada. Ela faz parte do processo criativo. Vai surgindo... Em
determinado momento eu vejo os personagens dançarem e cantarem em minha
imaginação. Então, largo o computador, pego o meu violão, e a música
vai me envolvendo...
É uma viagem pelo mundo da imaginação!!!!!!! Adoro fazer isso!!!!
Porém,
há momentos de alegria, de tristeza e de emoção. Por exemplo: no meu
livro O GUARDIÃO DAS FLORESTAS, quando o macaquinho, que eu batizei de
Mairarê (O amanhã) nasce no meio de um grande tiroteio, com a
mãe quase morrendo, e a índia que o trouxe ao mundo começou a cantar,
eu me emocionei ao fazer a música. Eu vivi aquele momento como se fosse
real.
LEITURINHAS
– Já que você conta e canta as músicas de suas histórias, qual o ponto
de partida de sua criação literária (a música, a narrativa, outra
manifestação)?
MARIA CRISTINA – A narrativa. A música, como disse antes, vem surgindo junto com o texto e os personagens.
LEITURINHAS
– No livro A FÁBRICA MÁGICA, genialmente ilustrado por Claudio Martins,
você conclui com uma pergunta ao leitor: “E você, aprendeu alguma
lição? Qual foi?”. Quais as respostas, orais ou escritas, que você já
obteve a essa pergunta?
MARIA
CRISTINA – Eu estou muito feliz com as respostas. Elas não estão sendo
muito diferentes. As respostas estão girando em torno de que ‘se deve amar e respeitar as pessoas como elas são’.
LEITURINHAS – Você teve o livro VIVA A LIBERDADE relançado em uma nova coleção, a que se deve o sucesso dessa obra?
MARIA CRISTINA – Eu acredito que todos nós, em todas as épocas, precisamos de liberdade.
Quando
escrevi este livro estávamos iniciando a década de 80, vínhamos de um
longo período ditatorial no Brasil, e eu queria escrever sobre a
importância da democracia, da liberdade de expressão, do respeito aos
cidadãos, etc. E o livro foi muito bem aceito e entendido, na época,
pelas crianças, pais, mães, professores, etc.
Hoje,
a ligação que vejo sendo feita dessa ‘fábula com a vida’, é da
liberdade que as pessoas desejam ter nos locais em que vivem. Por
exemplo: liberdade nas escolas onde existe bullying, e nas comunidades carentes onde o tráfico é forte.
Portanto,
o interesse por este livro talvez seja porque que ele continue atual.
Em muitos lugares há um tigre para ser expulso, e se precisa de coragem
e união para isso acontecer.
LEITURINHAS
– Em FLOR DE MAIO a trajetória percorrida pela borboleta e suas fiéis
amigas, cigarra e formiga, chama a atenção para a esperança e a
superação que movem as personagens. Enquanto psicóloga, teóloga, mãe,
esposa e contadora, quais as reações que você observa em crianças e
adultos ao contar essa história?
MARIA
CRISTINA – As mais incríveis possíveis! Essa história se tornou um
best-seller. Já foi contada em inúmeros lugares e lida pelas crianças e
suas famílias em todo o Brasil. Como peça teatral atravessou o Brasi, e
foi encenada até no Teatro do Morro da Urca (Pão de açúcar), no ano da
ECO 92. E agora inspirou um filme que ainda este ano deverá ser lançado.
As alegrias e emoções que eu tenho vivido por causa de ‘Flor de Maio’ são enormes!
Uma
vez eu estava contando esta história na enfermaria de um hospital de
Ortopedia, quando acabei a história, uma das crianças presentes disse,
rindo e chorando: “Tia, se ela voou, eu também vou voar. Eu vou andar
outra vez”.
Em
uma outra ocasião, estávamos no teatro, encenando a história. E durante
a apresentação eu vi uma moça chorando, chorando muito. Fiquei
espantada porque a história é alegre, e com vários momentos engraçados.
Quando terminou a peça, a moça me procurou e me agradeceu pela
história. Ela disse que seu filho ficou doente por anos, e preso em uma
cama. Ele havia falecido há bem pouco tempo, e ela não se conformava.
Porém, enquanto assistia à peça, entendeu que ele tinha voado. Ele
precisava voar... Ele agora estava livre como a borboleta!
Eu
teria muitas outras histórias sobre ‘Flor de maio’ para contar. Mas, só
posso dizer que quando se escreve uma história, muitas vezes, ela
ultrapassa aquilo que o autor imagina. Flor de Maio foi assim!!!
LEITURINHAS
– Você afirma ao final de seus livros que amigos e familiares,
frequentemente, lhe ajudam a produzir seus livros. Na história de
PRETINHO MEU BONECO QUERIDO percebe-se bem essa referência. Como é esse
processo familiar de criar histórias e compor canções?
MARIA
CRISTINA – A criação das histórias e das músicas é por minha conta, mas
o controle de qualidade antes da ‘história e músicas’ serem mostradas à
Editora do Brasil é da família.
Na
reedição de ‘Pretinho, meu boneco querido’, a participação da minha
filha mais velha, Cristiane, foi essencial. Como ‘historiadora’ ela me
ajudou a atualizar a história da escravidão no Brasil, a importância
que os escravos tiveram para o nosso desenvolvimento e o quanto eles
precisaram lutar para conseguir a liberdade. A primeira edição do
livro foi em 1990, e de lá para cá, muita coisa mudou em relação a esse
tema. Eu precisei pesquisar muito.
Por sua vez, a minha caçula, Leandra, sempre participa cantando no CD. A meu ver, a voz dela dá um toque especial!
Sempre
peço a minha sobrinha, Elisabete, que leia a história e dê o seu
parecer, antes de eu mandar o texto para a editora. Ela é professora e
acho primordial ouvir a sua crítica. Normalmente, também conto a
história para algumas crianças, filhos ou filhas, netos e netas de
amigos meus ou de sobrinhos, e vejo a reação dessas crianças. Quando
minhas filhas eram pequenas, o ‘crivo’ pertencia principalmente a elas.
Já desisti de um texto que havia feito, quando uma de minhas filhas não
concordou com o final que eu dei à história. Ela ficou tão zangada e
magoada que eu acabei abandonando a história.
Quando
termino uma história também peço ao meu marido para ler. A sua opinião,
para mim, é muito importante. No livro ‘O guardião das florestas’,
Jarí, meu marido, além de fazer a crítica, teve uma participação
especial no CD. Antes da música ‘Rio Amazonas’ iniciar, entra a voz
dele como o comandante de uma aeronave que sobrevoa a Amazônia.
Se
depender de mim, todos participam. É divertido! Eu adoro isso, e acho
que eles também! É uma maneira de a minha família estar presente no
livro.
LEITURINHAS
– Você é uma escritora diferenciada porque além de escrever, conta suas
histórias e canta as músicas nelas contidas. Quais os procedimentos
necessários para receber uma visita da contadora de histórias MARIA
CRISTINA FURTADO em qualquer parte do Brasil?
MARIA
CRISTINA – Fazer o pedido para a Editora do Brasil. É através da
editora que eu viajo, visito as escolas, e participo de eventos
‘contando e cantando as minhas histórias’.
Em
todas as regiões do Brasil tem um representante da Editora do Brasil.
Procure falar com a Assessoria Pedagógica da editora, na região, pois
se ela e os responsáveis por aquela área acreditarem que é viável, eu
irei até lá, com o maior prazer.
Para
se conseguir o telefone da editora de qualquer região é fácil. Basta
entrar no site da Editora do Brasil. Se não conseguir acessar, pode
entrar no meu site: www.mariacristinafurtado.com.br e deixar uma
mensagem. Eu a repassarei para a editora.
VIDEOTECA
SESSÃO DE CINEMA: AVANTE VINGADORES!
(por Alexandre Kazuo)
Estreou
no finzinho de abril o tão falado filme dos Vingadores. Na coluna KAZUO
EM QUADRINHOS mencionamos, no ano passado, a interligação entre os
filmes ‘Thor’ e ‘Capitão América’ prelúdios para um filme que uniria os
heróis, título de ambos os filmes, a outros. A semente dos Vingadores
versão Hollywood já surgia no epílogo veiculado depois dos créditos do
primeiro filme do ‘Homem de Ferro’, em que Nick Fury (Samuel L.
Jackson) já procurava Tony Stark (Robert Downley Jr) para o tal projeto
Vingadores. Um super-grupo de heróis? Super-heróis ou, como o desfecho
do próprio filme menciona, os meros mortais dizendo que é acolhedor
saber que existe alguém olhando por eles. A cultura cristã monoteísta
fez desaparecer traços de culturas politeístas como a grega ou a
nórdica (O politeísta é aquele que cultua diversos deuses ao invés de
apenas um e os helênicos tomavam para si vários deuses antropomórficos,
ou seja, que tinham forma de homens; eram coléricos, vingativos ou
mesmo poderiam ter compaixão e sentir certa inveja da frivolidade dos
mortais).
É
da própria mitologia não grega, mas nórdica que surge o pivô da
discórdia entre os Vingadores. Loki (Tim Hiddleston) é meio irmão de
Thor. Ambos são filhos de Odin, o pai dos deuses nas crenças cultivadas
entre povos do Norte da Europa, atuais Dinamarca, Suécia, Noruega,
Holanda ou norte da Alemanha. São crenças vikings. Loki
pertence a uma raça de gigantes, mas foi criado como filho legítimo por
Odin. Oportunamente Loki se manifesta aos mortais em ‘Os Vingadores’ em
solo alemão; filosofa sobre a condição ilusória da liberdade diante de
mortais obrigados a se ajoelharem perante ele. A deixa perfeita para a
aparição do Capitão América, ex-combatente da II Guerra, responsável no
universo Marvel Comics pela deposição de der führer Hitler. Um mito nórdico lendário se defronta a um ícone da cultura pop yankee.
Steven Rogers alterego do Capitão América foi cobaia de um experimento
genético que amplificou seu metabolismo tornando-o um super-soldado.
Seria a fórmula que talvez Hitler gostaria de ter obtido para
viabilizar a raça pura? Rogers sofre com sua condição inumana,
tornou-se indestrutível, desperto na pós-modernidade após setenta anos
em hibernação glacial.
O
Capitão América é discretamente inserido na trama pelo diretor Joss
Whedon, sem deixá-lo caricato a ponto de se tornar uma propaganda
gratuita de um americanismo. É um herói do povo e das ruas de Nova York
fazendo o verossímil, salvar inocentes nas avenidas e prédios, algo que
não aconteceu nos atentados do 11 de setembro de 2001. O ícone do herói
também envelheceu de forma menos caduca do que o ícone do Superman da
DC Comics. O inverossímil fica por conta do Homem de Ferro. O Capitão
América é menos vistoso que Tony Stark volúvel a desmedida hybris dos prazeres, do conhecimento e do capitalismo. O Homem de Ferro é retratado como um rockstar
em forma de super-herói. Surge ao som de ‘Shoot To Thrill’ do AC/DC e
sem a armadura passa o filme todo trajando uma camiseta do Black
Sabbath, cuja canção ‘Iron Man’ (homem de ferro) foi tema da
trilha sonora de seu primeiro filme. O cetro de Loki parece surtir
efeito mágico apenas nos que dispõem de um coração. Não é o caso de
Tony Stark que criou sua armadura enquanto possibilidade de um marca
passo em decorrência de estilhaços que se alojaram em seu aparelho
cardíaco após uma explosão. Stark é retratado como o dr. Fausto
perfeito e ele vê a face de Mefistófeles toda vez que desfruta dos
prazeres terrenos. Nem Loki consegue barganhar sua alma de playboy. O grande pecado de Stark é a autossuficiência.
O
grande traço humano do genial dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo) é a ira
que o transforma no incrível Hulk. Após experimentos com raios gama,
dr. Banner teve sua estrutura genética alterada, quando sua fúria
atinge o limite seu corpo se expande de forma esverdeadamente
descomunal e sua razão atrofia. Subvalorizado nos quadrinhos, o Hulk da
computação gráfica atual rasga prédios de concreto no peito, deixa o
deus Loki sem ar após pegá-lo por uma perna, socando-o no chão seguidas
vezes e jocosamente o chama de ‘deus fraco’. Mas o arquétipo de Hulk é
muito antigo, sobretudo se nos lembrarmos dos clássicos da literatura
universal. Banner é o médico que tenta conter o monstro dentro de si
como no clássico ‘Dr Jeckyll and Mr Hyde’ de RL Stevenson. Finalmente,
Thor é o deus bondoso que sente compaixão pelos humanos. De maneira
semelhante ao Prometeu da mitologia grega, que rouba o fogo do
conhecimento do Olimpo e entrega-o aos mortais, Thor vem à terra tentar
frear a desmedida de seu meio irmão Loki, que por sua vez anseia
dominá-los.
Os
mais religiosos devem estar me julgando um herege ou coisa parecida.
Mas a necessidade de manter laços com o grandioso vem desde sempre na
história da humanidade. Bem como a necessidade narcisista de
constatarmos a nós mesmos da maneira que gostaríamos de nos ver
projetados num espelho. Poderosos e inalcançáveis, sem nos
arrependermos de nossos atos desmedidos. Querer ser um deus nunca foi
algo censurável. E as crianças o fazem singelamente, com capas
amarradas no pescoço, espadas de madeira e máscaras coloridas sobre a
face.
Meu coração de seda
Está cheio de luzes,
Com sinos perdidos
Com lírios e abelhas,
Irei bem longe,
Mais longe que aquelas colinas,
Mais longe que os mares,
Para perto das estrelas,
Para pedir ao Cristo nosso Senhor
Para devolver a alma que tinha
Antigamente, quando era criança,
Amadurecida com lendas,
Com um boné emplumado
E uma espada de madeira.
(Frederico Garcia Lorca, Stranded/1979)
LITERATURA E ENSINO
LITERATURA INFANTIL, JUVENIL OU INFANTO-JUVENIL?
(Por Leny Fernandes Zulim)
1- Considerações de ordem geral:
Parece
haver um consenso entre os estudiosos do assunto quando se fala a
respeito de textos literários para crianças e adolescentes: eles não
podem prescindir de sua essência, isto é, devem apresentar-se como obra
artística que se concretiza na linguagem. O que equivale dizer: deve
ser, antes de tudo, literatura. Ando (2007) lembra que “o conceito de
literatura infantil ainda é visto de forma pejorativa como se a
menoridade do receptor fosse transferida ao produto literário, que se
tornaria, então, uma espécie de pseudoliteratura.” A mesma autora
afirma também (id.ib.) que o lugar ocupado pela literatura infantil na
arte literária reflete o lugar ocupado pela criança na sociedade:
inserida num mundo regido pelo adulto ela tem um lugar de inferioridade
social.
Vulgarmente,
a expressão Literatura Infantil, ou Juvenil, pode lembrar uma
literatura minimizada, adaptada, apequenada, livre de dificuldades de
linguagem, de digressões ou reflexões, que estariam acima da
compreensão infantil e dos adolescentes. Contudo, em essência, garantem
vários teóricos[1]
sua natureza tem de ser a mesma daquela literatura que se destina aos
adultos, ou seja, precisa apresentar uma linguagem artística,
diferenciada daquela cotidiana, singularizada pela natureza de seu
leitor/receptor: a criança e/ou o adolescente. Por sua vez, Turchi
(2002) [citando Castro], lembra que se a co-existência do fictício e do
imaginário marcam o jogo estético da literatura em geral, o que vai
determinar a especificidade estética da literatura infantil é a
possibilidade de alcançar o máximo de imaginário com o mínimo de
discurso.
Por
outro lado, duas grandes pensadoras do assunto, Marisa Lajolo e Regina
Zilberman (1988), afirmam que, contra todo o menosprezo com que esse
gênero é por vezes tratado, ele tem se tornado, cada dia mais,
relevante segmento da indústria editorial, passando a integrar, mais
recentemente, os currículos universitários. Por isso, faz-se necessário
lembrar que a produção literária brasileira destinada às crianças e
adolescentes, produzida no Brasil entre os anos 60 do século passado e
esse início de Século XXI, aponta para a consolidação do gênero tanto
na perspectiva da produção e consumo, vale dizer quantidade, quanto no
plano interno, nas formas e conteúdos desses livros, vale dizer
qualidade. Dois fatos o confirmam: 1- os vários prêmios internacionais
recebidos por autores brasileiros, de que são exemplos o Hans C.
Andersen conferido a Lygia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado e o Latino
Norma-Fundalectura, outorgado a Marina Colasanti; 2- o grande número de
traduções de obras do gênero para outros idiomas como ocorreu com O Menino Maluquinho, de
Ziraldo, para ficarmos apenas com um título. Fechemos, portanto, a
discussão desse tópico: a literatura, seja ela voltada para a criança
ou para o adolescente, acima de tudo precisa ser arte, recriando a vida
e o mundo por meio das palavras. E a produção contemporânea no Brasil
vem dando conta disse galhardamente. Não dá, portanto, para ignorar
essa produção ao pensarmos na leitura literária para o Ensino
Fundamental.
2-A explicação para o título:
É
pouco apropriado rotular obras literárias classificando-as em mais ou
menos adequadas para determinada idade ou série. A escolha de uma obra
ficcional para ler é determinada, sobretudo, pela história de leitura
de um leitor real, aliada a seu interesse imediato. Crianças e
adolescentes, contudo, têm preferência por textos diferentes ao
escolherem o que vão ler. (Zulim: 2011). Cecília Meireles (1984)
corrobora a afirmativa dizendo que tudo é uma literatura só. Mas,
segundo ela, são as crianças [ou adolescentes] que estabelecem a
fronteira entre uma e outra a partir de sua preferência.
Percebe-se, portanto, um divisor de águas quando falamos em textos literários denominados infantis e textos literários denominados juvenis.
É possível, assim, encontrar aspectos que permitem diferenciar a
literatura infantil da literatura juvenil? Parece certo que sim. Nesse
sentido, Turchi (2002/2004) vem em nosso socorro, mais uma vez,
sintetizando essa diferença ao afirmar que “se na literatura infantil
os aspectos visuais e gráficos costumam ocupar lugar de destaque na
obra, na literatura juvenil, os apelos visuais, embora ainda atraentes
aos olhos do jovem leitor, configuram-se como aspectos paralelos.
Bordini & Aguiar (1988) lembram que o primeiro passo para instigar
a leitura é a oferta de livros que levantem questões significativas
para o leitor. Ando (2007) fecha o assunto afirmando ser mais
pertinente a terminologia literatura infanto-juvenil para se
reportar tanto à produção literária destinada a crianças quanto à
voltada para adolescentes, englobando-se assim as duas faixas etárias.
Justifique-se
assim nossa escolha, denominando sempre literatura infanto-juvenil ao
tratarmos desse tipo de texto de ora em diante, levando em conta tanto
as características das obras a que nos referimos quanto à faixa etária
a que elas mais diretamente se destinam.
Em
nosso próximo encontro o assunto será a origem da literatura para
crianças e adolescentes, encontrada nas narrativas primordiais da Idade
Média, de tradição oral. E na sequência passamos à História da
literatura infanto-juvenil brasileira.
Quer conversar conosco? Entre em contato: lenyfz@ibest.com.br.
BIBLIOGRAFIA QUE EMBASA ESSE ARTIGO:
ANDO, Marta Yumi. A literatura infanto-juvenil e a formação do leitor. In: Máthesis-Revista de Educação. Jandaia do Sul: v. 8. n.1, 2007
BORDINI & AGUIAR. Literatura: a formação do leitor –alternativas metodológicas. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1988
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Ciência e Cultura, v. 24, n.9, p.803-809, 1972
COELHO, Nelly N. A literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo:. Moderna, 7 ed. 2003.
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil Brasileira: história e histórias. São Paulo; Ática, 1988.
MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 3 ed ,1984.
TURCHI, Maria Zaíra. O estatuo da arte na literatura infantil e juvenil. In: SILVA, V. M. T (org.). Literatura infanto-juvenil: leituras críticas. Goiânia: Ed. da UFG, 2002
---. O estético e o ético na literatura infanto-juvenil. In: CECCANTINI, J. L. (org.). Leitura e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. Assis: Cultura acadêmica, 2004.
ZULIM, Leny F. ZULIM. Literatura no ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala-de-aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.
KAZUO EM QUADRINHOS
E MAIS MANGÁS (PARTE II)
(Por Alexandre Kazuo)
Seguimos listando mais dois títulos respeitados de mangás japoneses publicados no Brasil.
‘One Piece’ de Eiichiro Oda: publicado
no Brasil pela Conrad até o número 34 e retornando às bancas neste
primeiro semestre de 2012 pela Panini. Iniciado no fim dos anos 90, por
volta de 1997 nas páginas do Shonen Jump, ‘One Piece’ se tornou um
‘mangá de batalha’ que angariou popularidade absurda, sendo publicado
no Japão até os dias atuais. Luffy é um pequeno garoto residindo numa
cidadezinha à beira do mar. Seu sonho é se tornar pirata a exemplo de
Shanks o ruivo. Shanks e seu bando estão utilizando a cidadezinha em
que Luffy vive como base. Porém piratas são nômades e não possuem
residência fixa. Shanks ironiza o pequeno Luffy como um irmão mais
velho, inclusive salvando-o de Higuma líder dos bandidos da montanha.
Numa ocasião Luffy ingeriu por acidente o gomu-gomu-no-mi um
fruto exótico trazido de algum lugar longínquo pelos homens de Shanks.
Quem o ingere ganha uma elasticidade corporal similar a elasticidade da
borracha. Ao perceber que a pele e os membros de Luffy esticavam além
do normal, Higuma pensou em vender o garoto para o circo. Shanks salvou
Luffy que era mantido refém por Higuma num pequeno bote espreitado por
um tubarão. Luffy saiu ileso, Shanks teve um braço devorado.
O
bando de Shanks deixa a cidadezinha. Dez anos depois, Luffy se lança ao
mar sozinho num pequeno barco. Deseja viver grandes aventuras, buscar
companheiros para sua futura tripulação e encontrar o tesouro One Piece
supostamente escondido pelo lendário Gold Roger, o rei dos piratas. A
trama não cita o nome dos lugares nem do período em que os personagens
estão vivendo. Sabe-se que corsários e piratas navegaram errantes pelos
oceanos do mundo na época das Grandes Navegações entre os séculos XIV e
XV. Piratas eram vagabundos e desajustados, pessoas que não se
enquadravam ao padrão social deste citado período. ‘One Piece’ mantém a
imagem do pirata personagem praticamente esquecido pelo imaginário da
literatura infantil contemporânea. Apesar da trama que estampa um
sonhador Luffy, temos a caracterização verossímil de um pirata, não
caricata e romantizada como por exemplo, um Capitão Gancho de Peter
Pan. ‘One Piece’ talvez tenha oportunamente pego carona na geração que
se encantou com o Jack Sparrow vivido por Johnny Deep na franquia
hollywoodeana ‘Piratas do Caribe’. Sparrow mais parece um hippie
vagabundo que com certeza se assemelhava mais aos piratas que devem ter
existido do que com piratas caricatos dos contos de fada. Porém, o
primeiro filme protagonizado por Jack Sparrow estreou em 2003. ‘One
Piece’ é lido no Japão desde o fim dos anos 90.
‘Neon Genesis Evangelion’ de Yoshiyuki Sadamoto:
publicado no Brasil pela Conrad e pela JBC. ‘Neon Genesis Evangelion’ é
um titulo bastante badalado e que obteve boa repercussão no ocidente.
As obras de ficção científica no Japão sempre tiveram um ‘fraco’ por
criaturas gigantescas desde os tempos de Godzilla entre os anos 50 e
60. Uma forma de explorar tremores de terra e maremotos que desde
sempre assolam a terra do sol nascente. O gigantesco Ultraman popular
por séries tokusatsu inclusive exibidas no Brasil também se
enquadra nesta categoria. Animes e filmes envolvendo robôs gigantes é
algo mais do que trivial no Japão, pois sua cultura convive
pacificamente com alto desenvolvimento tecnológico e robótica.
Evangelion pertence a estirpe de Macross e Gundam animes povoados por robôs gigantes denominados mechas (lê-se ‘mécas’) pelos entendidos e espaçonaves futuristas.
Shinji
Ikari é um menino tímido que acredita não ser considerado pelo pai, o
respeitado dr. Ikari. O velho Ikari é responsável pelo projeto
Evangelion e pela organização NERV, que dispõem gigantescas armaduras
cibernéticas desenvolvidas para serem pilotadas por humanos. Uma
estranha ameaça alienígena chega ao Japão no ano de 2015 onde
gigantescas formas de vida denominadas ‘anjos’ surgem e se acomodam
esmagando prédios e cidades. Inesperadamente, Shinji é designado para
um treinamento cujo objetivo é prepara-lo para servir o projeto
Evangelion. Apesar da pouca idade dos protagonistas o tom de Evangelion
é de perca da inocência atraindo um publico adolescente mais maduro. O anime de Evangelion é conhecido no Brasil por exibições na tv a cabo e pelos sites de fãs (fansubs) que viabilizavam downloads.
Apesar da popularidade o tom adulto de Evangelion não o tornou atrativo
às grandes emissoras de tevê aberta brasileiras. Entre crianças,
adolescentes e também adultos colecionadores, séries como Evangelion
abordam a exploração dos brinquedos licenciados. Não apenas os mangás e os animes
são cultuados assim como as miniaturas e figuras de ação que
protagonizam a série. O autor Yoshiyuki Sadamoto fundou o respeitado
estúdio Gainax, é conhecido também por seus trabalhos no meio das artes
gráficas o que inclui a arte da capa do álbum ‘Pilgrim’ (1998) do
famoso guitarrista britânico Eric Clapton.
RELEITURINHAS
CONTO ÀS AVESSAS
(Por Carla Kühlewein)
A
famosa história do personagem Pinóquio, cujo nariz cresce a cada
mentira descabida que conta (e há alguma mentira “cabida”?) pode não
ser um típico conto de fadas, com direito a reis, rainhas, sapos,
princesas e reino encantado, mas sem dúvida tem ingredientes tais que o
tornam clássico. Basta lembrar o trio: fada, grilo falante e boneco de
madeira, que fala, dança e tudo o mais.
Um
dos fatos que mais marcam essa história é a condição dada pela fada ao
boneco de madeira: para que ele virasse um menino de verdade era
preciso ouvir sua consciência, representada pelo grilo falante, isso
inclui a obediência ao seu criador e pai Gepeto e a frequência à escola
regular. A condição é aceita rapidamente por Pinóquio, que logo começa
a passar por uma metamorfose: de madeira para um ser humano de verdade.
Mas não demora muito para que ele tenda para o descumprimento das
“regras” e como consequência veja seu nariz crescer a cada mentira que
inventa.
Ao
proferir as condições para que Pinóquio alcançasse o que sonhava, a
fada parece ter se esquecido de um detalhe importante: a curiosidade.
Conforme o boneco de madeira foi se tornando humano, não era só o
físico que se lhe alterava, mas também o comportamento, as aptidões, o
pensamento... a curiosidade, essa aleivosia tão tipicamente humana.
Esse
é o ponto que serve de inspiração para Rubem Alves compor seu PINÓQUIO
ÀS AVESSAS. Inconformado com as histórias clássicas que sempre elegem o
personagem mais “certinho” como herói e relegam ao artista, ao criativo
o castigo e a degradação, ele decide recontar a história de Pinóquio,
invertendo a metamorfose: de menino de verdade para madeira. Qual a
intenção de Rubem Alves ao fazer essa inversão? A resposta é simples:
para dar sentido àquela boa e nova RELEITURINHA: contestar o padrão de
comportamento estabelecido no sisudo e moralista conto clássico.
Na
versão original os desvios, erros de Pinóquio trazem-lhe consequências
de teor punitivo, como nariz crescendo e a ameaça constante de voltar a
ser de madeira. Com uma condição assim tão radical para um menino de
tão pouca idade e experiência, a fada está mais para bruxa do que para
instauradora do bem. Sem falar do tom obsoleto e tradicional que eleva
a escola como meio único e absoluto de formação do ser humano (ponto
veementemente criticado por Rubem Alves em toda sua produção
teórico-literária).
O
fato é que, ao inverter a metamorfose de Pinóquio, Alves perverte,
reverte, transgride os valores divulgados e cristalizadas pelo conto
clássico, mecanismo de que se constituem as RELEITURINHAS de um modo geral.
Para
abrilhantar a narrativa ousada de Rubem Alves, as ilustrações foram
feitas por ninguém mais ninguém menos do que Mauricio de Souza.
Atendendo ao convite do próprio Alves, no início do livro, imaginemos
esta história como se fosse um teatro, em que o personagem principal
(Felipe) é interpretado pelo “quelido” Cebolinha. Uma mistura assim tão
bombástica só poderia resultar num divertido subversivo conto às
avessas.
Quem quiser que reconte outra história, porque essa já está de pernas por ar!
Boas RELEITURINHAS!



