novembro 08, 2011

RELEITURINHAS - Por Carla Kühlewein

O DESPERTAR DE ALICE (PARTE II)

(Publicado originalmente em outubro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

por Carla Kühlewein

Publicada em 1865, por Lewis Carol, ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é um clássico da Literatura Infantil que tem sido revisitado com frequência. Desde sua publicação várias adaptações, readaptações cinematográficas e bibliográficas já foram lançadas. Ora, uma obra que resiste a três séculos e ainda hoje instiga novas criações é certamente digna de atenção. Uma reverência a Lewis Carol e à menina adormecida mais instigante da Literatura Infantil!
No cinema, o livro já teve lançados 15 filmes nos mais diversos formatos, sem contar as séries adaptadas pra TV. A versão cinematográfica mais recente, estreada em 2010, é a do diretor Tim Burton. Com enredo alinhado à versão original, a RELEITURA de Burton devolve Alice ao País das Maravilhas, em plena puberdade. Com a ajuda de numerosos efeitos especiais e uma pitada da excentricidade, característica do cineasta, o filme reaviva o antigo clássico e endossa a tendência contemporânea de se fazer RELEITURAS.
Na Literatura as versões, reversões e inversões de Alice e suas aventuras não cessam, ao contrário, "brotam" aos montes. De alguma forma o universo surreal em que Alice mergulha encanta escritores contemporâneos que têm se dedicado a "deitar e rolar" nesse território ocupado por figuras bizarras como a Gata Risonha, o Chapeleiro Maluco e toda uma "galera" amalucada.
O texto original de Carol apresenta duas partes: ALICE NO FUNDO DO ESPELHO e O QUE ALICE ENCONTROU POR LÁ. Tanto as versões cinematográficas quanto os livros costumam apresentar mesclas dessas duas partes ou referências a esta ou aquela, é o caso de ALICE NO ESPELHO, de Laura Bergallo.
ALICE NO ESPELHO é uma RELEITURINHA do texto original em contexto bem específico: Alice é uma adolescente que, como tantas outras, quer ser magra, magérrima. O desejo vira obsessão, e esta leva à anorexia, assunto delicado, que recebe detalhamento em relação a sintomas e consequências no final do livro, com um apêndice informativo.  
A relação da Alice anoréxica com a de Carol manifesta-se à medida que a garota lembra-se do pai e da história da ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, que ele costumava lhe contar. Conforme surgem complicações na vida da adolescente, ela logo se lembra das diversas maneiras que a Alice fictícia encontrava para se livrar delas, como "fazer de conta", por exemplo.
A trama se segue sempre com a vida conturbada de uma garota magérrima que se acha obesa cada vez que se olha no espelho, faz de tudo para não deixar que os outros percebam que ela fica horas sem comer. Assim se segue num despertar e adormecer constante, repleto de sensações múltiplas, até que Alice tem uma crise, devido ao jejum e abstinência a que se submetia constantemente, e desmaia no chão do próprio quarto.
Assim como a personagem de Carol, a Alice anoréxica ingressa no "país das maravilhas" somente após adormecer. Ou seja, tudo o que acontece de fantástico, neste ou naquele livro, acontece no sonho, na dormência, na sonolência. Pois bem, eis que a garota, então, resolve atravessar o espelho, como na história original, e surpreendetemente consegue! Já "do lado de lá" ela se depara com uma adolescente gordinha e muito simpática chamada ECILA, que nada mais é do que ALICE ao contrário.
                A partir desse momento a trama se desenvolve em uma cadência única. A Alice (do espelho) mergulha em um mundo, fantástico, diferente, onde todas as pessoas passam por uma TRANSFORMAÇÃO que as torna incrivelmente belas, porém iguais. Como na versão de Lewis Carol, essa Alice também se perde e vive aventuras fantásticas, além disso, a cada personagem ou situação nova, ela faz relação com personagens da obra original, ora com a Rainha de copas, ora com o Coelho Branco e assim sucessivamente. 
                Conforme o enredo se desenlaça, a Alice de Bergallo atinge uma série de aprendizados, até compreender e conscientizar-se de que sua obsessão pela magreza a levara a desenvolver sintomas de anorexia.
Vale lembrar que quando ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS foi publicada, ela surgiu como uma obra que oferecia ao público infantil uma dose extra de fantasia e imaginação, destoando dos livros moralizantes e sisudos da época. Mesmo assim, a curiosidade e espontaneidade da personagem parecem apontar para uma menina muito próxima "do real". De fato, a Alice de Carol foi composta com base em uma "menina de verdade", Alice Lidell, sobrinha do autor. Talvez a isso se deva o caráter de veracidade que o comportamento da personagem principal da obra adquire na história.
Já ALICE NO ESPELHO concilia fantasia e questões da vida real. Não é uma obra moralizante, como os contos e fábulas de outrora, mas também não está isenta completamente do caráter educativo de que muitos livros de Literatura Infantil tem se servido atualmente. Da mesma forma a Alice de Bergallo sai do cotidiano para se deparar com um outro mundo, aparentemente estranho e sombrio, mas que na verdade revela semelhanças surpreendentes com a "realidade".
E nesse jogo de ir e vir (da e para a realidade, do e para o sonho), adormecer e despertar, as Alices alcançam os mesmos destinos, ainda que percorram caminhos diferentes, afinal, o que importa não é exatamente ONDE elas chegam mas o percurso que elas trilham até chegar lá.
Se a história de ALICE NO ESPELHO já lhe pareceu uma RELEITURINHA de bom tamanho, espere só para ler as aventuras da CHAPEUZINHO VERMELHO quando ela resolve dar uma "passeadinha" pelo país das maravilhas!
Mas isso já é outra história... que fica para a próxima edição.

Até lá!