outubro 05, 2012

SETEMBRO - Artigos e entrevista

ENTREVISTA - JANDERSON CUNHA


JANDERSON CUNHA nasceu em ARAPONGAS, PR, em 1977, onde reside até hoje sobrevivendo de bicos e biscates. Só veio a conhecer os livros e leitura depois de adulto. No meio do caminho abandonou o curso de Psicologia, pois no meio do caminho tinha uma tal de poesia.
Lança as suas mal traçadas linhas e junto sua cara a tapa. TRIBUNA do  NORTE. Pois o que lhe falta em talento, sobra em paixão. Realiza saraus e oficinas de poesias em Arapongas e na bela região do Vale do Ivaí. Publicou os livros:
O PERFUME da PEDRA, 2010 (poesias) Editora Aleluia;
LUDENS, (co-autoria) 2010, Editora Amplexo; 
MEU LIVRO, MEU AMIGO (literatura infantil), edição do autor em parceria com o PROJETO VAMOS LER  do JORNAL. 

LEITURINHAS DELIRANTES!

LEITURINHAS – Conte um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância à fase atual.
JANDERSON – Na minha infância a única lembrança que tenho é de meu pai me mostrando nas enciclopédias os nomes dos escritores brasileiros. Não tive uma infância rica em leitura, entretanto minha avó e meu pai eram (hoje faço esse diagnóstico) bons contadores de causo principalmente causos relacionados ao “ sobrenatural”. Eles falam em termos como: assombração, nem sei se essa palavra ainda é usada. Mas acredito que isto fez arraigar em mim o habito de ouvir e logo, ler, já que ler é uma forma diferente de ouvir – bom isto é um conceito meu questionável? Claro. Quando eu tinha uns doze anos iniciei  uma coleção de gibis, CHICO BENTO, CASCÃO, HOMEM ARANHA, HULK, BATMA, TIO PATINHAS, mas o favorito era o ZÉ CARIOCA. Hoje leio filosofia, ciência, poesia e romance.



LEITURINHAS – Como e quando surgiu seu interesse pela poesia?

JANDERSON – Meu interesse, ou melhor, paixão, pela poesia nasceu de um momento em que eu passava por uma crise de renite (quem tem sabe bem como é) e estando eu num pronto socorro a espera da consulta fui tomado por uma revolta  pela demora desta. Eu não podia desconta minha raiva na atendente isto seria uma grosseria, então fiz um texto bem critico, mas não sei por que cargas d’água o texto ganhou uma forma de poema.

Mostrei a alguns amigos e estes gostaram e disseram: “você tá virando
poeta”. Na semana seguinte fui a biblioteca e pequei um livro emprestado era o do poeta Casemiro de Abreu, e logo que li os primeiros versos do poema , meus oito anos, fiquei maravilhado  daí pra frente passei a ler poesia sempre, todo dia quase. Mas deixo claro
que eu ouvia muito LEGIAO URBANA, CAZUZA,  OSVADO MONTENEGRO, RAUL SEIXAS, CHICO BUARQUE, GUILERME ARANTES. O que acredito me deixa sintonizado com a poesia, com beleza, a sensibilidade. Também leio muito o livro dos salmos.


LEITURINHAS – Quais os principais desafios de ser poeta no Brasil?
JANDERSON – Olha essa é uma pergunta aberta e eu não posso falar em nome de uma “classe” haja vista que cada um tem suas lutas, lutas diferentes. Posso dizer que as minhas maiores dificuldades são as de: primeiro se aceitar como poeta, se postar na sociedade como tal, já que o poeta é um ser inútil e a sociedade só “respeita” o que lhe serve que lhe é útil. Conheço muita gente que escreve poemas  maravilhoso, mas não gostam de mostrar muito menos de ser chamado de poeta. E isto é compreensível pois num pais onde já viveu BANDEIRA, DRUMMOND, QUINTANA, VINICIUS DE MORAES, JOAO CABRAL , se apresentar como um poeta soa coma uma agressão a grande musa. Mas eu sou dos que acha que o poeta não é só linguagem, é atitude também, gosto de citar essa frase do Michel Foucault “Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa”. Obviamente a segunda dificuldade é publicar

o livro e comercializa-lo. Eu tenho tentado vender meus livros a um preço que eu possa pagar as contas de edição e depois, aliviado, tomar uma cerveja.


LEITURINHAS – De que forma você capta a recepção dos leitores diante dos seus poemas? Quais as sensações que você depreende da relação autor/leitor?
JANDERSON – Eu fico todo besta (feliz) com os comentários, afinal quem não precisa de um reforço positivo. Gosto ainda mais quando alguém diz: nossa voe escreveu um absurdo, não entendi nada!. Embora eu julgue minha poesia simplória, escrachada ao estilo Mário Bortolotto.


LEITURINHAS – Você escreveu dois livros de poemas: O perfume da pedra (2010) e Lira delirante, que está sendo lançado agora em setembro. Nesse intervalo de dois anos, ou mesmo nos anteriores a ele, como tem sido seu processo de criação poética? O que mudou? O que permaneceu?
JANDERSON – Mudou que fiquei mais velho, poderia dizer experiente né pra ser politicamente correto. Bom a matéria prima fundamental é a vida que me fornece as experiências que os sentidos captam, essa continua uma loucura, rssr, se não eu não estaria redigindo este  papo. A intuição continua sendo o gatilho que dispara o tiro, as leituras hum, essas são essências. Conversar com outros autores isso me foi muito bom. Acredito que hoje consigo cravar melhor cada palavra e jogar com a formação de imagens.

LEITURINHAS – Se você pudesse manifestar em versos sua opinião a respeito da importância da leitura, como o faria?
JANDERSON – Bom, no meu livro infantil tem um poema que creio caber muito bem neste contexto:


Oi!
Eu sou o livro
E sou seu amigo
Quero que você
Olhe para mim
Como olha
Para o seu umbigo.
Fechado
Sou um amigo
Calado.
Aberto!
O amigo
Mais esperto.
Por isso
Quero que você
Fique comigo
Sempre por perto.


LEITURINHAS – Você também escreveu um livro infantil de poemas, MEU LIVRO, MEU AMIGO, ilustrado pelo também morador da cidade de Arapongas/PR, Luís Brasil. Comente a experiência de escrever para crianças e a parceria com o ilustrador.
JANDERSON – Escrever para as crianças foi muito bom, não sei se escrevi bem, mas gostei de fazer. A parceria como o ilustrador  foi  uma experiência bacana ainda mais que o LUIZ BRAZIL é uma pessoa maravilhosa de um coração generoso. Ele  consegui traduzir em desenho todo o meu texto de uma forma que eu gostei muito. Nós  fizemos algumas palestras para acriançada em Arapongas e Apucarana e não é que o Luiz também  gostou da experiência e já está escrevendo um livro infantil. Quem sabe ele não sai via Amplexos...


LEITURINHAS – Além de seus livros, que outras LEITURINHAS de poesia você indicaria aos pequenos e grandes leitores?
JANDERSON – Olha poesia para criança eu indicaria o  ARCA DE NOÉ, e  livros do PEDRO BANDEIRA. Já galera que estiver a fim  de começar a ler poesia recomendo o maior poeta paranaense Paulo Leminski e a poeta Martha Medeiros. Depois é só ir acrescentado no cardápio.



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VIDEOTECA

OS VINGADORES X BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE
(por Alexandre Kazuo)

Seria inevitável e o próprio site Omeleteem seu Omeletvdisponibilizado via You Tube propôs em sua edição 186. Um debate bem humorado acerca de qual filme seria melhor. ‘Os Vingadores’ ou a terceira parte da incursão cinematográfica de Batman por Christopher Nolan? Enquanto assistia ‘Os Vingadores’ este que vos escreve teve um súbito fluxo de pensamento ali pelo momentoem que Lokiaprisionado é interrogado pela Viúva Negra, o qual dizia ‘eu gostaria que o novo filme do Batman fosse tão bom ou melhor’. Esses debates ressaltam algo que os principais nomes do staff do Omelete, Marcelo Forlani e Erico Borgo mencionaram no próprio debate. A velha rivalidade entre os fãs da Marvel diante dos fãs de DC Comics agora se deflagra em meio as adaptações cinematográficas dos mesmos. Da minha parte, minha familiaridade maior para com o personagem Batman falou mais alto. O que não desqualifica o filme dos Vingadores. Simplesmente minha afinidade com os X-Men dentre os supergrupos da Marvel sempre foi maior do que a afinidade com o time de Capitão América e Homem de Ferro.

Num primeiro momento as comparações entre um e outro filme são desproporcionais. Os Vingadores surgem no contexto dos filmes ‘solo’ de seus respectivos heróis lançados anteriormente. Como observado no debate do Omelete, é sem sombra de dúvida o primeiro filme de supergrupo de heróis que realmente funcionou no cinema. A Marvel aprendeu com a primeira trilogia de X-Men a lidar com tramas superpopulosas o que nesta citada ocasião gerou principalmente os comentários acerca de que Hale Berry/Tempestade fora mal aproveitada. Outro detalhe relevante foi amplamente frisado pela revista Mundo dos Super-heróis de maio (capa ‘Os Vingadores’) em seu extenso dossiê acerca do filme, foi a existência plena da Marvel Studios. Os lucros das primeiras grandes adaptações como X-Men e Homem Aranha do fim dos anos 90 para cá, foram aplicados pela Marvel na abertura de seu próprio estúdio cinematográfico, assim impedindo decisões dos grandes estúdios de intervirem em roteiros e descaracterizar os personagens dos contextos nas HQ’s. A fidelidade para com as HQ’s e a funcionalidade na telona são detalhes inquestionáveis em ‘Os Vingadores’. O filme está para a Marvel Studios assim como ‘Apocalypse Now’ está para Francis Ford Copolla ou ‘A Lista de Schindler’ está para Steven Spielberg, guardadas as devidas proporções.

Tão logo a repercussão de ‘Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ começou a ecoar, teve-se uma nota acerca de muito material extra rodado e não aproveitado na edição final do terceiro filme do Batman por Christopher Nolan. A expectativa pelo lançamento do filme em DVD com os extras já é absoluta. Este que vos escreve pensou em algo parecido principalmente quando as estações mudamem Gotham Citylogo após Bane ascender ao poder e explodir o estádio de futebol americano. Um dos trailers de divulgação antes do filme ser lançado mostrava uma dolorosa e sombria origem de Bane, algo que também não aparece na versão definitiva do filme. A impressão que se tem é a de que ‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ poderia talvez ser feito em duas partes ou num filme duplo como ‘Kill Bill’ de Quentin Tarantino. Como a DC não tem a palavra final como a Marvel possui junto a Marvel Studios, coube a Warner as decisões acerca da produção. Entretanto ‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ seguiu trazendo de forma conceitual aspectos de sagas clássicas das HQ’s do Batman, neste caso em especial ‘A Queda do Morcego’, ‘Terremoto’ e mais uma vez ‘O Cavaleiro das Trevas’ de Frank Miller. Mesmo numa avaliação mais isenta, ‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ não supera ‘Batman O Cavaleiro das Trevas’ de 2007, ainda que conceda um bom final a trilogia. Lembrando que ‘Batman O Cavaleiro das Trevas’ rendeu inclusive Oscar póstumo ao ator Heath Ledger por sua performance como Coringa.

Aguardemos o material extra do dvd de ‘Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge’. O dvd de ‘Os Vingadores’ já se vê disponível no mercado brasileiro em versão simples sem muitos atrativos.

Para ver o debate citado no Omeletev 186 clique no link a seguir!





KAZUO EM QUADRINHOS

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE ALICE COOPER
(Por Alexandre Kazuo)

No fim de 2011, alenda do rock horror show Alice Cooper lançou ‘Welcome 2 My Nightmare’, álbum que se pretendia enquanto continuação do clássico ‘Welcome to My Nightmare’ de 1975. Nascido Vincent Damon Furnier, Alice Cooper tem sua obra dividida em duas fases, a inicial entre os anos 60 e 70 do século XX com o Alice Cooper Group e a posterior ao fim dos anos 70 que se estende até os dias atuais. O Alice Cooper Group (que chegou a se apresentar no Brasil no fim dos anos 70) se dissolveu e o cantor em carreira solo trabalha com músicos contratados por seus produtores. A primeira parte de ‘Welcome to My Nigthmare’ segundo alguns entendidos na obra de Alice trazia de forma inédita a expressão de Steven um garoto/alter ego do cantor exposto nas canções ‘Steven, The Awakening’ e ‘Years Ago’. Anos mais tarde Steven se tornaria o personagem principal do álbum conceitual ‘The Last Temptation’ de 1994.

The Last Temptation a HQ

O álbum ‘The Last Temptation’ saiu na América do Norte acompanhado do número um de uma HQ homônima inspirada no conteúdo musical do disco. Alice Cooper na época desenvolveu a adaptação junto a ninguém menos que Neil Gaiman, naquele período badaladíssimo devido a publicação de ‘Sandman’ editada pelo selo Vertigo da DC Comics. A ilustração da HQ ficou por conta de Michael Zulli com as capas devidamente ilustradas por Dave McKean que também cuidava das capas da série ‘Sandman’. Originalmente ‘The Last Temptation’ deve mais duas edições além daquela encartada junto ao disco, então editadas pelo selo Marvel Music da Marvel Comics. Posteriormente ‘The Last Temptation’ foi reeditada pela editora Dark Horse um pouco depois tendo edição brasileira via Pandora Books em 2002, em português rebatizada ‘A Última Tentação’. Esta edição nacional encaderna os três exemplares mas infelizmente não faz contar as artes originais das capas criadas por Dave McKean.

A trama segundo o prefácio escrito pelo próprio Neil Gaiman este também incluso na edição brasileira apontaria temas não explorados pelas dez canções contidas no álbum ‘The Last Temptation’. Entretanto as canções ‘Bad Place Alone’, ‘Unholy War’ e ‘Cleansed by Fire’ nomeiam os três capítulos da HQ, em na tradução brasileira da Pandora Books respetivamente intitulados ‘Sozinho num local maligno’, ‘Guerra profana’ e ‘Purificado pelo fogo’. Na HQ Steven é um garoto normal e tímido, por vezes até mesmo ridicularizado pelos colegas de escola por ser muito introspectivo. Seus colegas o desafiam a entrar num estranho teatro que por acaso percebem sendo anunciado numa rua pela qual passam. O mestre de cerimônias os convida para entrar e os garotos induzem Steven a adentrar para provar que é corajoso. O mestre de cerimônias se caracteriza com uma bengala e cartola, seu rosto trás o contorno de seus olhos delineados em preto de maneira borrada. Trata-se do próprio Alice Cooper. Além do misterioso teatro que Steven mais tarde desconfia nunca ter existido, ou ter passado por um estado alucinógeno; há devaneios oníricos envolvendo sonhos do personagem. Em alguns momentos lembra muito a série ‘Sandman’ que tornou Gaiman consagrado. Num todo muito fica por conta da interpretação do leitor, algo que tanto Gaiman quanto Alice Cooper sabem bem explorar. Na interpretação desde que vos escreve, haveriam traços autobiográficos de Vincent Furnier amalgamados a devaneios que com certeza vieram a dar origem ao projeto estético que ele criou para Alice Cooper. No mesmo texto introdutório citado Gaiman se declara fã de Alice Cooper e admirador dos álbuns ‘Welcome to My Nightmare’ e ‘Trash’ (1989).

Em termos musicais, ‘The Last Temptation’ se mostrava um bom álbum de heavy/rock típico daquele período da carreira solo de Alice Cooper. O cantor vinha de uma série de resultados interessantes desenvolvidos com os dois discos lançados anteriormente, ‘Trash’ e ‘Hey Stoopid!’ de 1991 tomados como clássicos por fãs do hard rock da década de 80. ‘The Last Temptation’ contava com o guitarrista Stef Burns do Y&T além do aclamado tecladista Derik Sherinian (ex-Dream Theater) que por vezes se revezava entre a banda de Alice Cooper e o posto de tecladista contratado do Kiss. Na época uma grata revelação, o vocalista Chris Cornell concede participação especial nas canções ‘Unholy Wars’ e ‘Stolen Prayer’ que ele Cornell também co-escreveu. Chris Cornell se tornaria mundialmente reconhecido a frente do Soundgarden e do Audioslave.

18 anos depois

Atualmente Neil Gaiman é um nome incontestável da HQ mundial tendo significatividade e relevância também no mercado editorial literário. O livro ‘Stardust’ de Gaiman foi adaptado para o cinema por volta de 2007, porém seus feitos com o título ‘Sandman’ ainda são mencionados e amplamente cultuados por colecionadores. Dave McKean que sempre fugiu do tipo convencional de ilustração desenhada, optando por artes que envolviam colagens, uso de objetos reais e fotografia é um velho conhecido do público do rock/heavy metal. McKean desenvolveu um sem número de colaborações elaborando capas de discos encomendadas por bandas mais ou menos conhecidas. Dentre as mais lembradas talvez estejam a arte do encarte do álbum ‘Shades of God’ (1993) dos mestres britânicos do gothic metal, Paradise Lost. Bem como a capa do cult ‘Dreams of Carry On Kind’ banda de death metal do guitarrista James Murphy (ex-Testament, Death, Obituary). E a capa de ‘Metropolis part II - Scenes From a Memory’ álbum de 1999 que afirmou a carreira do quinteto novaiorquino Dream Theater referência máxima do progressive metal contemporâneo. É claro que McKean também ilustrou a capa de ‘The Last Temptation’.

Já Alice Cooper aos 64 anos segue em turnê divulgando ‘Welcome 2 My Nightmare’, neste momento Alice se vê em turnê conjunta com o Iron Maiden. O visual é sempre o mesmo, adornado por serpentes e dispondo de guilhotinas bem artefatos cenográficos trazidos de filmes de horror...


LITERATURA E ENSINO

SIGNIFICAÇÃO E SÍMBOLO NOS CONTOS DE ENCANTAMENTO
 (Por Leny Fernandes Zulim)

É Coelho (1987) quem afirma ter o homem, desde sempre, ficado completa e intensamente seduzido por narrativas que, de forma simbólica ou realista, falem da vida, da própria condição humana, desafiando-o a buscar seu real significado atrás da alegoria de que se revestem. Por isso, os contos de encantamento, de forma particular, encantam, seduzem e desafiam seus leitores, tal qual a Esfinge do mito grego que propunha: decifra-me ou devoro-te.
Escritos inicialmente não para as crianças, mas para ensinar boas maneiras aos adultos, esses contos que surgem tendo por fonte a tradição oral, falam do ser humano, revelando, por vezes, afinidade com os ritos de iniciação dos povos primitivos, em que, como afirmam Mello e Leonhardt (1987: 24) “o iniciado, para alcançar outra etapa da vida, submete-se a inúmeras provas cuja superação comprova seu amadurecimento”.
Segundo Richter e Merkel (1978), esses contos manifestam o desejo das classes oprimidas de libertar-se de sua condição social de inferioridade, mas com uma saída individual da situação opressiva em que se encontram, contando para isso, com a ajuda de seres ou objetos mágicos. Os teóricos afirmam, então, que essa saída acaba por levar ao conformismo e à manutenção do status quo, pois sua mensagem básica é de que, somente através de uma situação fantástica, é possível alcançar outro patamar na escala social. Contudo, assinalam, os contos têm a vantagem de apresentar às crianças um esboço compreensível da sociedade e das relações intersociais.
A escola, por sua vez, passa a utilizar-se largamente dessa literatura como auxiliar na formação moral do futuro adulto quando, a partir do século XVIII, a família burguesa e a sociedade em geral, começam ver a infância como uma fase que requer cuidados especiais, deixando para trás a idéia tida até então de criança como um adulto em miniatura.
Essas narrativas, contudo, a despeito desse pragmatismo, deixam entrever significações mais sutis quando se lhes desvela o véu da alegoria. Em seu sentido mais profundo abordam, simbolicamente, questões e dificuldades encontradas durante as diversas fases da vida pelas quais passamos, mas ensinam também que se as enfrentarmos com coragem podemos superar cada um deles.
 Cashdan (2000), outro teórico que se debruçou sobre esse tipo de literatura para estudar-lhe o significado, afirma que os contos de encantamento ajudam a criança a lidar com os conflitos internos que surgem durante a infância. Para ele, ao ouvir um conto de fadas, as crianças projetam, inconscientemente, aspectos de suas vidas nos diversos personagens da história, tomando-os como repositórios psicológicos para as contradições de seu eu. Dessa forma, a criança vai aprendendo que a vida nos brinda com fases, acontecimentos e fatos bons e maus e que temos que encará-los para assim viver melhor. Cashdan diz ainda que cada conto dessa natureza é único ao falar de algum defeito do eu, abordando temas como vaidade, gula, inveja, luxúria, avareza, preguiça e hipocrisia, para ele “os sete pecados capitais da infância”.
Nessa trilha segue Bettelheim com seu controvertido A psicanálise dos contos de fadas. Para ele, essas narrativas ajudam a criança a encontrar um sentido para a vida pois, sendo um produto do saber humano, lidam com experiências fundamentais do existir, entre elas a conquista da maturidade.
A verdade é que a leitura dessas narrativas promove o alargamento vivencial dos pequenos, incitando-os a buscarem respostas às inúmeras perguntas que se fazem, mas respeitando a compreensão infantil, porque a fantasia presente nas histórias, não representa a fuga do real, mas a forma mais apropriada para a sua percepção. Assim entendidas, essas narrativas funcionam como agentes emancipadores, projetando a vida para além do universo cotidiano. Afinal, é como afirmam Diana e Mario Corso (2006: 301):
Histórias não garantem a felicidade nem o sucesso na vida, mas ajudam. Elas são como exemplos, metáforas que ilustram diferentes modos de pensar e ver a realidade e, quanto mais variadas e extraordinárias forem as situações que elas contam,, mais se ampliará a gama de abordagens possíveis para os problemas que nos afligem.
 Hoje paramos aqui. Em nosso próximo encontro a conversa será sobre formas de ler os contos de encantamento para os pequenos e como estudá-los nos Cursos de formação de professores, vale dizer Letras e Pedagogia. Continuamos à disposição pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br

BIBLIOGRAFIA

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Ed Paz e Terra S/A. São Paulo. 2007. 
CASHDAN, Sheldon. Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
COELHO, Nelly Novas. O conto de fadas. São Paulo, Ática, 1987.
CORSO, Diana & Mário. Fadas no divã. Porto Alegre, Artmed, 2006.
MELLO, Ana Maria Lisboa de/ LEONHARDT, Dalva Rigon. A origem e o significado dos contos de fadas. In: Era uma vez Perrault- O Barba Azul. Porto Alegre, Kuarup, 1987.
RICHTER & MERKEL. A função da fantasia dos contos de fadas na educação burguesa. In: Boletim informativo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Rio de Janeiro, 1978.