janeiro 03, 2013

Artigos e Entrevista - Dezembro/ 2012


ENTREVISTA

GISLAYNE AVELAR DE MATOS mestra em educação pela UFMG, graduou-se em Pedagogia, pela FUMEC-BH em 1975, especializou-seem Terapia Familiar Sistêmica pela PUC Minas em 1987. Com esta formação participou de trabalhos junto a equipes pluridisciplinares compostas de profissionais das áreas terapêutica e educacional.

No período de l990 a l993 especializou-se em Art en Thérapie et en Psychopédagogie - Diplôme d’Université  pela Université René Descartes-Paris V e pelo INECAT- Institut  National d’Expression, de Création, d’Art et de Thérapie-Paris.
Ainda neste período, participou do “Programme de Formation Interculturelle”, da Association Interferences Culturelles-Paris, formando-se em interculturalidade na mesma associação.
Em sua formação como arte-terapeuta e arte-educadora, dedicou-se ao aprofundamento do estudo da utilização de contos como recurso terapêutico e educacional e preparou-se na arte de contar histórias.
Na Association Interferences Culturelles-Paris trabalhou como organizadora de noites de contos, onde o objetivo era apresentar diferentes culturas através de seus contos populares.

De regresso ao Brasil em l993 idealizou e criou juntamente com a psicóloga Cecília Andrés Caram o Projeto Convivendo com Arte, que promove a formação de novos contadores de histórias e também o Projeto Noite de Contos, realizado mensalmente na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, no período de1994 a2000.

Publicou artigos em revistas especializadas além dos livros: A palavra do contador de histórias e O ofício do Contador de Histórias, este último em co-autoria com Inno Sorsy, contadora de histórias de origem africana, radicada em Londres, editados pela Martins Fontes e indicados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil com a “menção altamente recomendável” na categoria: teóricos em 2005.
Em 2010 lançou: Storytelling: Líderes narradores de Histórias pela Editora Qualitymark, Rio de Janeiro e Histórias de quem conta histórias, em co-autoria com diversos contadores de histórias, organizado por Lenice Gomes e Fabiano Moraes, editado pela Cortez, São Paulo, 2010. Em 2012: A arte de encantar: o contador de histórias contemporâneos e seus olhares, em co-autoria com diversos contadores de histórias, organizado por Lenice Gomes e Fabiano Moraes, editado pela Cortez, São Paulo, 2012.

Atualmente ministra cursos e palestras em instituições públicas e privadas em diversas cidades do Brasil e participa, como instrutora de oficinas e contadora de histórias, de festivais internacionais e encontros nacionais e internacionais de contadores de histórias. Além de orientar projetos em algumas cidades do Brasil.

Acesse o site de GISLAYNE MATOS, clicando no link abaixo:


CONTANDO LEITURINHAS...

 
LEITURINHAS - Conte um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância até agora.

GISLAYE – Na infância, embora minha mãe fosse professora, não havia muitos livros de criança na minha casa, não havia essa atenção com a importância da leitura que vemos hoje, a não ser, penso eu, em famílias que eu estudo, a cultura letrada, a formação escolar dos pais já era maior. Como morava no interior e não tínhamos bibliotecas, livrarias e bancas de jornais, o meu pai assinava as revistas “Conhecer” e “Seleções” e comprava enciclopédias quando por lá passava um vendedor ambulante. Então essas eram as leituras mais comuns na minha casa, e eu ficava fascinada. Certa vez o vendedor ambulante levou o Tesouro da Juventude que meu pai adquiriu prontamente e esta foi minha coleção da infância.  Na escola me lembro muito do livro de Maria Clara Machado: AS MAIS BELAS HISTÓRIAS.

LEITURINHAS - Como surgiu a vontade de contar histórias? Comente sobre sua trajetória como contadora de história.

GISLAYNE – Meu avô era um exímio contador de histórias como, aliás, a maioria dos avós daquela época. O prazer que sentia ao ouvi-lo ficou gravado em minha memória afetiva. Além das histórias de assombração, que eram suas prediletas ele também gostava muito da história de Minas Gerais, dos bandeirantes, da procura pelas pedras preciosas, etc. Ele me fez experimentar o deleite da escuta, a curiosidade pelos mistérios e o interesse pela história dos povos.

LEITURINHAS – Em suas abordagens a respeito da adequação dos contos para determinadas fases da vida, você afirma que “O bom ouvinte aprecia qualquer história, independente da fase a que se destina”. Qual seria, portanto, o perfil do
bom ouvinte?

GISLAYNE – Um conto pode sim, agradar a pessoas de qualquer faixa etária.
Recentemente, no Boca do Céu – o maravilhoso festival de contadores organizado por Regina Machadoem São Paulo– uma contadora muito jovem contou a história de João Jiló com tanta graça que pouco importava a idade dos ouvintes. Todos que ali estavam desfrutaram de um momento muito prazeroso com a escuta desse conto. Um bom ouvinte é aquele que está aberto a se deixar encantar pelos contos e ter prazer com a escuta deles.


LEITURINHAS – Um bom contador de histórias é necessariamente um bom ouvinte? Quais as
caraterísticas de um bom contador?

GISLAYNE – Houve um tempo em que isso me passava pela cabeça, mas hoje não penso assim.
Um bom contador precisa de outras coisas além de uma boa escuta. Uma boa escuta pressupõe uma postura de aprendiz permanente diante dos contos. Pois os contos são mestres muito sábios. Eles nos ensinam sobre como viver melhor e como morrer dignamente. Eles nos ensinam a rir de nós mesmos, a não gastar energia com coisas fúteis ou negativas, por exemplo. Sobretudo eles no ajudam a nos conhecer melhor. E esse é um dos requisitos para se tornar um bom contador, conhecer-se melhor. No centro da poética da arte de contar histórias está o “ser do contador”. Além disso, um contador precisa trabalhar sobre seus instrumentos básicos: corpo e voz.

LEITURINHAS – De que forma você utiliza a contação de histórias como recurso
terapêutico em escolas, empresas e demais instituições?

GISLAYNE – Independentemente do contexto, o ponto comum é que o ouvinte é um ser humano e como seres humanos todos temos necessidade de uma filosofia de vida. Os contos veiculam valores imprescindíveis para vivermos uma vida harmoniosa em qualquer situação e lugar onde estivermos.  Eles nos ensinam a viver melhor desenvolvendo nossa capacidade de nos relacionarmos bem conosco mesmo, com os outros e com o mundo.

LEITURINHAS – Você usa a contação de história como instrumento terapêutico, dada sua
formação profissional. Você tem ou já teve a oportunidade de contar
histórias em momentos de lazer? Qual a recepção do ouvinte nesta e naquela
situação?

GISLAYNE – Durante 7 anos, através dos projetos “Noite de Contos” e “Convivendo com Arte”, idealizados por mim e pela psicóloga Cecília Caram, formamos novos contadores e contamos histórias mensalmente na sala Juvenal Dias do Palácio das Artes,em Belo Horizonte.Mas, como esse movimento do conto teve inícioem Belo Horizontecom esses projetos, no início eu era a única contadora no palco. Ao longo desses anos muitos outros contadores vieram participar do projeto.
Portanto tenho sim a experiência de contar em momentos de lazer. No caso do conto em contexto terapêutico ele acontece de acordo a necessidade do cliente. A forma de se contar no palco e no consultório é diferente, mas a escuta é muito parecida nos dois casos. Salvo que no consultório o cliente sabe que o conto está sendo entregue a ele como um recurso para sua reflexão sobre determinado assunto. E poderemos lançar mão de seus elementos para clarear uma situação.

LEITURINHAS – O que aprendemos na escola de hoje é muito voltado para as necessidades do mercado e o trabalho é uma das áreas da vida, não é tudo. Como você observa a questão do interesse em ouvir e contar histórias no Brasil atualmente?

GISLAYNE – Esse movimento em torno dos contos é relativamente novo no Brasil, se pensarmos que, no caso do ocidente, teve início na Europa, EUA e Canadá no início da década de 1970 e no Brasil e América Latina em torno do finalzinho dos anos 1980 e início de 1990.
Visto por especialistas como um fenômeno de sociedade, a redescoberta dos contos está intimamente relacionada às necessidades de uma sociedade que começou a se sentir sem rumo, perdendo o sentido da existência e por isso foi buscar nos contos tradicionais, nas sociedades pré-modernas e religiões orientais algum oxigênio e outro entendimento possível da vida e da morte. 
Mas no Brasil as coisas demoram a chegar. Vemos por exemplo a situação da educação escolar. Ainda que voltada para o trabalho e às necessidades do mercado (e eu, pessoalmente tenho duras críticas a esse respeito), não consegue ser eficiente nem nas respostas a essa demanda.
Todos os dias ouvimos nos noticiários que não temos mão de obra formada, e nem estamos falando de “bem” formada.  Se com toda a pressão do mercado que, no mundo atual tornou-se o centro de tudo, isso patina, que dirá a educação humanista voltada para valores que envolvam cooperação, solidariedade, harmonia, arte, beleza, etc. Os contos têm a ver com esta última. O seu universo não é o econômico, ou pelo menos este não é o seu objetivo final, portanto acho que o papel dos contadores nesse momento do Brasil é trabalho de quebrar pedra, mas são pedras para se construir catedrais e por isso vamosem frente. Oque poderemos colher está no futuro, não é para já.
 
LEITURINHAS – Dentre as várias histórias da tradição oral estão os contos de fadas. As pessoas gostam de ouvi-los na versão original ainda hoje? Ou preferem suas
 releituras?

GISLAYNE – Eu não conto releituras, busco sempre os clássicos e acho que as pessoas gostam muito.

LEITURINHAS – Como você avalia a retomada frequente de contos de fadas nas telas de
cinema e nas releituras da Literatura Infantil?

GISLAYNE – Por muito tempo as afirmativas científicas nos chegaram como verdades acabadas e únicas. Acreditamos que essa era a forma por excelência que nos levaria ao conhecimento, no seu sentido mais abrangente.
É muito comum escutarmos as pessoas dizerem que “é científico” concluindo que é verdade incontestável. Mas a ciência não é capaz de trazer todas as respostas às questões humanas. Os contos maravilhosos, com suas fadas, metamorfoses, situações improváveis, reis e príncipes, rainhas e princesas nos introduzem num outro modo de conhecer e num outro mundo a conhecer.
A linguagem dos contos é simbólica, seus personagens são arquetípicos, eles são jorros de poesia no sentido de que a poesia é a forma possível de se dizer o indizível. O mundo de hoje está sedento do simbólico, dos mistérios, dos impossíveis que se tornam possíveis e os contos matam em nós essa sede.  Penso que hoje eles são uma necessidade. São o oxigênio que não nos deixa perder a dimensão do humano. 

 
LEITURINHAS - Você ainda ministra cursos de contação de histórias? Qual o procedimento para entrar em contato com você e solicitar sua visita?

GISLAYNE – Ministro cursos em muitas cidades. Em geral sou convidada e quando chego o grupo já foi organizado, seja por uma instituição ou por pessoas que se juntam e me chamam. A melhor maneira é enviar um e-mail para contato@convivendo.com.br . Coloco na mala direta o endereço eletrônico e os telefones da pessoa interessada, para que ela seja informada de quando darei um curso aberto ao público, em sua cidade e, se for o caso, se as pessoas externas ao grupo contratante poderão participar.
Quando é um grupo de pessoas que está interessado basta me contatar pelo mesmo e-mail e acertamos o programa, valores, datas, etc.
 
LEITURINHAS – Conte uma história que você acredita que todos nós deveríamos ter a oportunidade de ouvir/ler algum dia.

GISLAYNE – Esta história me parece muito atual e necessária. É comum encontrarmos pessoas carregadas de desesperanças quando veem tanta corrupção, tanto amadorismo, tanta precariedade nos serviço essenciais desse nosso país tão querido e rico. Enfim, o discurso é sempre o mesmo: “não tem jeito, o Brasil não tem concerto”. A essa conversa sempre tento argumentar sobre a necessidade de fazermos nossa parte e pensarmos que não será para nós, são nossos netos ou bisnetos que poderão desfrutar do que fizermos hoje. O imediatismo é que nos traz esse sentimento de desesperança. O conto a seguir está no CADERNO DE CONTOS PARA AS FASES DA VIDA, editado pelo Projeto Convivendo com Arte.


A parreira de trinta anos
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Elemento: Altruísmo
Ditado: O futuro pertence a quem sabe esperar.

Um rei passeava pelo seu reino. De repente, ele ordenou ao cocheiro que parasse a carruagem, pois vira, à margem da estrada, um homem idoso plantando uma muda de parreira.
O rei entendia bem de uvas e sabia que aquela muda era de uma espécie rara: levaria, pelo menos, trinta anos para começar a produzir.
Observando a idade do homem, não se conteve, aproximou-se e disse:
— Meu amigo, você sabe que esta parreira vai levar uns trinta anos para começar a produzir?
O homem respondeu-lhe que sabia. O rei argumentou:
— Na sua idade, provavelmente, você não terá oportunidade de saborear as uvas dessa magnífica parreira!
O idoso respondeu-lhe que não estava pensando nisso, pois plantava para as gerações futuras - seus netos e bisnetos e, se ele não a plantasse, certamente, aquela espécie se extinguiria.
O rei sorriu e disse-lhe:
— Vamos fazer um trato: quando esta parreira começar a produzir, se você ainda for vivo e eu também, por favor, leve-me uns cachos de uva para que eu possa saboreá-las.
O rei despediu-se, continuou seu passeio e logo se esqueceu do homem e do trato feito, pois chegou à conclusão de que daí a trinta anos, certamente, ele e o velho não estariam vivos.
O tempo passou. Trinta anos se passaram. A parreira, finalmente, floresceu, formaram-se cachos e as uvas amadureceram. Todos na região ficavam encantados ao ver cachos tão grandes de uvas doces como o mel.
O homem, agora, muito velhinho e encurvado, não se esqueceu do trato com o rei e fez questão de levar-lhe os primeiros cachos colhidos.
Chegando ao palácio, se fez anunciar. O rei foi informado de que ali estava um velhinho, com uma cesta de uvas, dizendo estar cumprindo um trato feito há mais de trinta anos.
O rei, também já bem idoso, recebeu-o com todas as honras e ficou muito feliz, degustando as uvas. Em recompensa por aquele gesto, presenteou-o com sacos de moedas de ouro. O velho viveu na opulência o resto de seus dias, deixando muito rica toda sua família e sua descendência.
Ora, morava naquela região uma mulher muito invejosa. Quando ficou sabendo da inespe­rada riqueza do homem, pensou: “se o rei recompensou tão generosamente aquele velho, por um cesto de uvas, certamente vai me oferecer, muito mais, se eu lhe levar um cesto bem maior”.
Assim pensando, assim o fez, dirigindo-se ao palácio real. Só que suas uvas eram muito comuns, daquelas parreiras que não demoram a produzir.
Chegando ao palácio ela se fez anunciar. O rei mandou lhe dizer que não a conhecia e não aceitava aquelas uvas. Ainda ordenou aos criados que a expulsassem com a promessa de uma surra se insistisse na entrega.
Ela saiu sem entender o porquê da atitude real.
Mas, nós que conhecemos a história desde o princípio, entendemos bem o procedimento do rei, não é mesmo?



KAZUO EM QUADRINHOS


CONTOS DE GAIMAN
(Alexandre Kazuo)

Aclamado no início dos anos 90 enquanto algo muito grande nas HQ’s, o britânico Neil Gaiman ganhou notoriedade ao assumir uma proposta de reformulação do titulo ‘Sandman’ do selo Vertigo da editora DC Comics. O título se refere ao ‘sandman’ (homem areia, traduzido) do folclore anglo-americano onde uma entidade carrega grãos de areia e as sopra nos olhos das crianças. Com os olhos pesados as crianças passam a ter sono. O Sandman original era o detetive Wesley Dods em histórias inspiradas em contos de revistas pulp norte-americanas da década de 50.
Gaiman mudou completamente a proposta mantendo apenas o título. A conexão com o sono e o sonhar se dava agora na persona de Morpheus, o novo protagonista do título. O nome do personagem remetia ao Morpheus da mitologia grega, ícone relacionado ao sonho. ‘Sandman’ de Neil Gaiman se estendeu por 75 números, de 1989 até por volta de 1996, quando a série se encerrou.  ‘Sandman’ revelou o talento de Gaiman enquanto contador de histórias. As mais diversas referências eram percebidas nos roteiros e aficionados pela série encontram algo novo até hoje em suas páginas. Adentrar o mercado editorial escrevendo livros seria inevitável na carreira de Neil Gaiman.
Odd e os gigantes do gelo
‘Odd e os gigantes do gelo’ disponível no Brasil pela Rocco jovens leitores, talvez seja até um item menos badalado na bibliografia de Gaiman. Ali reluzem ‘Deuses Americanos’, ‘Stardust’, ‘Os Filhos de Anansi’ ou as coletâneas de contos ‘Coisas Frágeis’. Odd é um pequeno menino que parece viver em algum rincão longínquo entre a Dinamarca e a Noruega. Odd é frágil, ‘estranho’ e possui uma perna manca. Seu pai era um viking que faleceu e sua mãe escocesa casou-se novamente após a morte do progenitor. Odd parece procurar por algo, e resolve se embrenhar na floresta no intento de imitar algum feito viking de seu falecido pai. Em meio à jornada, Odd se depara com um urso cuja pata se via presa entre raízes de uma árvore após tentar alcançar uma colmeia. Mesmo temendo ser devorado pelo animal, Odd solta-o e além do urso, que nada faz ao menino, recebe a companhia de uma raposa e uma águia.
Na cabana que Odd encontra e utiliza para dormir, os animais misteriosamente começam a conversar. Odd percebe e os questiona. A raposa revela o inominável. Em Asgard, a raposa revela ter sido seduzida por uma donzela, descuidou-se e deixou a moça contemplar Mjjolnir o martelo de Thor. No descuido a raposa se revelou um gigante do gelo provavelmente vindo do Jotunheim, um dos nove mundos de Yggdrasil na mitologia nórdica. E em Asgard a astuta raposa respondia pelo nome de Loki! Os gigantes do gelo expulsaram Loki, Thor e Odin relegados a Midgard, ou seja, a representação entre os mundos de Yggdrasil para a Terra onde vivem os mortais. Thor ressurgido na forma do urso e Odin na forma da águia. Odd queria uma aventura viking e se deparou com três deuses nórdicos perdidos na Terra.
A versatilidade de Gaiman manipulando o pano de fundo de narrativas diversas impressiona. No caso de ‘Odd e os gigantes do gelo’ remetendo-se à mitologia escandinava, num estilo que poderia ser descrito enquanto um misto das narrativas de Borges com algo próximo ao ‘Deuses em Exílio’ do alemão Heirich Heine.
(‘Odd e os gigantes do gelo’ de Neil Gaiman, ilustrações de Brett Helquist, Rocco jovens leitores. 2009)
Em tempo:
Neil Gaiman completou 52 anos no último dia 10 de novembro!
- Outro grande das HQ’s britânicas, Alan Moore completou 59 anos no último dia 18 de novembro.
- A coluna passada foi fechada às pressas uma vez que a CPU do computador desde que vos escrevo teve de ser substituída. Acabamos nem mencionando a I Gibicon acontecida em Curitiba/PR entre os dias 25 e 28 de outubro. Trata-se de um evento de quadrinhos nos moldes dos Comicons realizados no Rio de Janeiro. Este que vos escreve por acaso esteve no Memorial de Curitiba no momento em que o italiano Tanino Liberatore assinava versões encadernadas de seu aclamado ‘RanXerox’ para diversos fãs. Diversas atrações ocorriam em diferentes pontos de Curitiba nos três dias. Além de Liberatore, os também italianos Fabio Civitelli e Moreno Burattini se faziam presentes. O primeiro é famoso por desenhar as histórias do cowboy ‘Tex’, o segundo pelos roteiros de ‘Zagor’ outro ícone das HQ’s de faroeste. Os brasileiros Joe Bennett, que trabalhou para Marvel, trabalha para a DC e já desenhou para Alan Moore também marcou presença; bem como o pioneiro dos quadrinhos nacionais, Watson Portela. O Gibicon será bienal!


LITERATURA E ENSINO

                          CONTOS DE FADAS: LEITURA E PRÁTICAS EM SALA DE AULA III                                                                                            
(Leny Fernandes Zulim)

Nosso artigo de dezembro segue em temática já abordada, contos de fadas e práticas em sala de aula, apenas agora falando de faixas etárias posteriores, partindo do terceiro, quarto ano e chegando às séries finais do Ensino Fundamental. Comecemos por lembrar o que lemos em Ceccantini (2004: 159): “Certamente poucos subgêneros literários terão sido assimilados por pessoas de tão diferentes épocas e extratos sociais quanto o conto de fadas.” Impossível não concordar com o autor, quando leituras e mais leituras nos informam a universalização desses contos que cruzaram praticamente todas as fronteiras do planeta, depois da recolha que deles fizeram, sobretudo, Perrault e os irmãos Grimm. Perguntemos a uma criança que história mais gostou em sua vida ou que se lembra com carinho e, muito provavelmente, ouviremos o título de um desses contos. Ora, textos tão populares e amados não podem ser esquecidos quando se fala em literatura na sala de aula. Eles são um nicho que, quando bem aproveitados, podem tornar-se fonte para a formação de leitores competentes, capazes de ler um texto em profundidade.
Bettelheim (2007), por sua vez, afirma que o conto de fadas permite ao pequeno leitor ler sua mente na linguagem das imagens, compreendendo fatos antes de chegar à maturidade intelectual. E mais: com veemência diz que a criança precisa ser exposta a essa linguagem para entender e encontrar sentido em sua vida. Ratificando a ideia, vejamos o que afirma Silva (2006:240):

Quando se lê um livro ou se escuta uma história, nossa mente vai transformando a narrativa verbal em imagens, suscitadas por elementos presentes no próprio texto, combinados a imagens colhidas em nossa memória pessoal Esse caráter interativo da leitura faz com que cada leitor tenha a sua maneira peculiar de “ver” mentalmente uma mesma narrativa.

O encantamento com que a absoluta maioria das pessoas lembra os contos de fada torna esse tipo de narrativa um tesouro a ser explorado por professores, pais e demais mediadores de leitura, como também os bibliotecários e auxiliares. Falemos, portanto, de algumas práticas possíveis a partir da leitura dessas narrativas primordiais, tomando, como já afirmamos no início deste artigo, o trabalho com alunos do terceiro ano às séries finais do Ensino Fundamental.
Evidentemente é preciso levar em conta o perfil da turma e seu nível de leitura. E ninguém melhor que o professor para, conhecendo seus alunos, escolher dentre o rol de práticas que listamos aquelas que melhor se adéquam a eles, inclusive modificando-as, se achar conveniente. Vamos a elas:
1-      Ter sempre um “coelho na cartola”, ou melhor, um conto de fadas selecionado, isto é: sobraram alguns minutos livres na aula, antes do intervalo ou do final do período? Que tal tomar de um desses livros menos populares (como exemplo Pele de Asno ou A rainha da Neve) e ler para os alunos? Para isso estar sempre preparado, com um livro escolhido à altura da mão, conhecendo bem a história é fundamental;

2-      Vai ler um conto como O Barba Azul ou Ali Babá e os quarenta ladrões? Criar um ambiente meio mágico ou amedrontador: fechar as janelas e cortinas, acender velas ou uma lanterna e modular a voz na leitura, de forma a entrar em acordo com o enredo;

3-      Festival de contos de fadas – Vamos montar um festival de contos de fadas com várias atividades: a- Roda de leitura de contos de fadas que os alunos ainda não leram (eles podem pesquisar, entre colegas, na biblioteca, entre amigos fora da escola, títulos de contos de encantamento que ainda não leram) e levar para a roda de leitura. O professor pode propor uma mudança de cenário (Ex.: cada aluno traz um tapete e uma almofada, tirar as cadeiras para que leiam no chão). Não esquecer que uma música instrumental, de fundo, ajuda a ambientação; b- elaborar com os alunos o circuito dos livros de contos de fadas (cartazes e propagandas) que despertem, em outros alunos da escola, a vontade de ler o livro; c- Escolher, com a ajuda dos alunos, uma história (ou mesmo um trecho de uma das histórias lidas) para ser encenada. Escolher os atores e organizar uma apresentação para a escola; d- Selecionar um, ou mais de um, filme que haja no mercado para uma sessão de cinema, com direito a pipoca e conversa sobre o filme e o livro ao final;

4-      Propor aos alunos, após a leitura de determinado conto, que o reescrevam, mudando o final. Para isso deverão adequar o enredo à proposta de cada um. O professor acaba se surpreendendo com a criatividade expressa nos diversos textos que seus alunos elaboram;

5-      Trabalhar também com releituras (os adolescentes, nas séries finais do Ensino Fundamental, gostam muito delas) abundantes na produção da literatura infanto brasileira contemporânea. Depois de ler determinado conto, propor que leiam a releitura do texto. Como exemplos: O patinho feio, de Andersen - ler em seguida Pintinho Pelado de Cristina Luna; Chapeuzinho Vermelho, dos irmãos Grimm, ou Perrault - ler em seguida Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque; A história do lobo, de Marco Antonio de Moraes, Chapeuzinho Vermelho de raiva, de Mário Prata; Vem aqui Chapeuzinho, de Millôr Fernandes; Os músicos de Bremen, dos irmãos Grimm – ler em seguida Os saltimbancos, de Chico Buarque.


6-      Depois que os alunos conhecerem determinado texto e sua releitura, pedir que criem a própria releitura de um determinado conto. Esse trabalho pode ser feito individualmente ou em duplas, cada um escolhendo o texto original do qual pretende fazer a releitura. É interessante, neste caso, que o professor mostre aos alunos a diferença entre paráfrase e paródia. O primeiro tipo de releitura segue a base do enredo original, o segundo se afasta dele. Como exemplo de paráfrase temos o caso de Luz Verde, conto de Carlos Queirós Teles que é uma paráfrase do conto A Bela e a Fera; como paródia, lembramos aqui A história do lobo, de Marco Antonio de Moraes, releitura de Chapeuzinho Vermelho;

Hoje nossa conversa termina aqui. Nosso próximo encontro terá como tema práticas de leituras do conto de encantamento para cursos de formação de professores de Letras e Pedagogia. Até lá ou a qualquer momento se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
CECCANTINI, J. L. O conto de fadas, imemorável patrimônio da humanidade. In: À Roda de leitura: língua e literatura no jornal proleitura. PEREIRA & Benites (Orgs.). Assis, SP: Cultura Acadêmica, 2004.
SILVA, V. M. T.“João e Maria”, dos Grimm à tela do cinema. In: TURCHI, M.Z. & SILVA V. M.T (orgs.). Leitor formado, leitor em formação. Assis, SP: Cultura Acadêmica, 2006
TELLES, Carlos Queiroz. Luz Verde. In: KUPSTAS, Márcia (Org.). Sete faces do Conto de fadas. São Paulo: Moderna, 1993.
VILAS BOAS & ZULIM. Contos de fadas: antigos ou novos, sempre sedutores. In: Máthesis – Revista de Educação, V. 4, n. 1 e 2, dez. 2003. Jandaia do Sul, FAFIJAN. 2003.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Amplexo, 2011.

RELEITURINHAS

UMA CERTA CHAPEUZINHO...
(Carla Kühlewein)

Não é apenas nas telas de cinema que a clássica história de Chapeuzinho Vermelho tem sido recontada em versão mais moderna, com direito a subversões tamanhas que os irmãos Grimm provavelmente jamais poderiam imaginar.
O livro infantil Uma Chapeuzinho Vermelho, de Marjolaine Leray  é um exemplo claro da proposta de ruptura com a velha e desusada imagem de uma menina frágil, ingênua diante de um lobo perverso. Um livro de poucas páginas, mínimas palavras e várias ilustrações sugere uma reviravolta no perfil passivo de uma das personagens mais revisitadas da literatura de encantamento, a doce e meiga Chapeuzinho Vermelho.
As ilustrações imitam o traçado infantil, composto apenas por lápis de cor em rabiscos, em sequência, apresentam a história numa perspectiva muito mais cinematográfica do que literária, propriamente dita. Os diálogos escassos, diretos, entre o lobo e a Chapeuzinho, fazem um recorte na história original, já que ela se inicia com esses dois personagens e neles se encerra.
A primeira cena afigura-se bem familiar: O lobo no canto direito da página, bem alto, parado, à espera de uma certa chapeuzinho que vem a seu encontro. Esta, por sua vez, minimamente pequena perto dele, caminha lentamente, cabisbaixa, como se não lhe notasse a presença.
A partir da segunda cena, os fatos já conhecidos no texto original se desencadeiam: o lobo rapta a Chapeuzinho, a fim de devorá-la. Trava com a menina da capa vermelha o tão famoso diálogo de perguntas pertinentes e respostas mentirosas, até o lobo é interrogado quanto aos seus dentões, a resposta não poderia ser diferente: “São Para te comer!”.
Mas então, como num movimento surpreendente, o mesmo executado pela simpática Chapeuzinho amarelo de Buarque, a Chapeuzinho Vermelho de Leray recusa-se a ser devorada. Para espanto do lobo e surpresa do leitor. Em seguida a boa solícita garota argumenta o mau hálito do lobo e oferece-lhe uma bala para amenizar o bafo. O lobo aceita-a, condolente, e para maior surpresa do leitor, ele morre envenenado.
A trajetória de uma Chapeuzinho tão surpreendente traz para essa personagem a aura maléfica que de antemão envolve o lobo, afinal, era ele quem deveria ser o vilão da história.
A partir das rupturas com do valor clássico, aparentemente incorruptível, constrói-se a RELEITURA, a medida que novos valores são propostos. No caso de “Uma Chapeuzinho Vermelho”, a inocência cede espaço à ousadia de uma menina que não só decide enfrentar seu arqui-inimigo, o lobo, como eliminá-lo.
Amarelo, Vermelho, esta, aquela, uma, nenhuma, seja qual for a Chapeuzinho, no contexto da contemporaneidade ela se apresenta como uma menina que enfrenta seu medo e resolve lidar com isso sozinha.
Para o bom leitor, uma ousada RELEITURINHA basta para que novos valores se afiguram diante de uma atitude falsamente caridosa. Ou alguém poderia imaginar que uma bala vinda de uma menina tão inocente pudesse causar um estrago tão grande?
Se a leitura deste livro aguçou sua curiosidade de conferir outras obras do gênero, aguarde que há mais por vir... a lista acabou de começar! Por hora fica a dica de Leray!
Boas RELEITURINHAS!