abril 08, 2012

MARÇO - Entrevista e artigos


LAURA BERGALLO
(Entrevista publicada originalmente em março de 2012 em www.leiturinhas.com.br)


Escritora para jovens com quinze livros publicados (inclusive na França e nos EUA),
Laura Bergallo é também jornalista, publicitária e editora de publicações científicas. Seu livro A CRIATURA recebeu o
Prêmio Adolfo Aizen/2006, da União Brasileira de Escritores, como melhor livro juvenil dos anos de 2004/2005.

Seu livro ALICE NO ESPELHO ganhou o Prêmio Jabuti-2007 na categoria livro juvenil e foi selecionado para o Catálogo FNLIJ da 44th Bologna Children’s Book Fair (2007).



Seu livro OPERAÇÃO BURACO DE MINHOCA foi selecionado pelo Programa Mais Cultura, do Governo Federal e da Biblioteca Nacional, para distribuição em bibliotecas e pontos de leitura brasileiros, e pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola 2011 (PNBE 2011), para distribuição nas escolas federais, estaduais e municipais de todo o país.

Seu livro JOGO DA MEMÓRIA foi selecionado para o Catálogo da 48th Bologna's Children Book Fair (2011) e recebeu o selo Altamente Recomendávelda FNLIJ (2011).


ALICE NO PAÍS DAS LEITURINHAS


LEITURINHAS – Qual a história de suas LEITURINHAS? Quando e como surgiu seu interesse em ser escritora?

LAURA – Desde que me entendo por gente que adoro histórias. No começo, gostava de ouvi-las. Aos cinco ou seis anos, já alfabetizada, passei a adorar lê-las. E também a partir daí comecei a escrever cadernos e mais cadernos repletos de desenhos e histórias.
Aos nove anos ganhei de aniversário dos meus pais um presente inesquecível, que me encantou e só fez aumentar minha vontade de ser escritora: uma pilha enorme de livros, com clássicos com “Senhora”, “O Guarani”, “A Moreninha” e “Diva”, entre vários outros. A essa altura já tinha devorado toda a maravilhosa coleção de Monteiro Lobato (minha inspiração desde então, pela vivacidade, criatividade e genialidade literária), e não parei mais.
Mais tarde um pouco, na escola, conheci outras obras maravilhosas como, entre outras, “Esaú e Jacó”, “Lucíola” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (na minha opinião, o mais genial produto do mais genial dos escritores brasileiros), e isso tudo foi só o começo de uma história de grande identificação com o texto bem feito e a palavra bem escolhida.

LEITURINHAS – Como você concilia a múltipla jornada entre ser jornalista, publicitária, editora e escritora?

LAURA – Tenho que confessar que é muito, muito difícil. Como investir numa carreira literária exclusiva é uma ação muito arriscada num país como o nosso, em que raros autores vivem exclusivamente do que escrevem, tenho sido obrigada a priorizar outras funções, por uma questão de sobrevivência material. Assim, não sobra muito tempo ou muita energia para escrever livros.
Mas aproveito as “horas vagas” (que nunca são tão “vagas” assim) para escrever: fins de semana, finais de noite, etc. E aos pouquinhos vou chegando lá: assim, já tenho 15 livros para jovens, mesmo tendo publicado pela primeira vez há pouco mais de 10 anos.

LEITURINHAS – Seu livro ALICE NO ESPELHO ganhou o prêmio Jabuti em 2007, a que você atribui esse sucesso? Quais os “ingredientes” da obra que você acredita terem sido fundamentais na elaboração bem sucedida de uma Alice moderna?

LAURA – Sinceramente acho que ganhar prêmios exige sempre alguma dose de sorte. Porque em todos os concursos há uma grande quantidade de boas obras. O que faz uma ganhar da outra, além da indispensável qualidade (evidentemente), são fatores subjetivos que variam de acordo com o momento e com os jurados de cada concurso específico.
“Alice no espelho”, na minha opinião, ganhou o Jabuti porque é uma obra que consegue falar de um assunto delicado como os transtornos alimentares na adolescência de forma leve e sem pieguice, e também porque consegue utilizar a impagável história de Lewis Carroll de uma maneira original e pertinente. 

LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS você já conseguiu depreender de pessoas que leram ALICE NO ESPELHO?

LAURA – “Alice no espelho”, pelo feedback que consigo ter, tem sido um livro muito apreciado pelas pessoas que, como eu, questionam essa loucura em que vivemos, da obrigatoriedade da “beleza” e da juventude custe o que custar, e que se recusam a submeter o próprio corpo a violências inimagináveis (como cirurgias e procedimentos invasivos de todos os tipos) em nome de se enquadrar em um padrão imposto pela indústria da estética.

LEITURINHAS – Além do prêmio Jabuti você teve ainda outras duas obras premiadas: OPERAÇÃO BURACO DE MINHOCA, pelo PNBE (Programa Nacional da Biblioteca Escolar) e JOGO DA MEMÓRIA, pelo FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), além disso, você tem livros publicados nos EUA e na França. Diante de tantas conquistas, quais são seus próximos desafios?

LAURA – Meus próximos desafios são vários. Um deles, sem dúvida, continua sendo conseguir tempo para escrever. É impressionante como o tempo parece passar mais rápido a cada dia. Outro desafio é não desanimar diante de um mercado literário minguante e pouco promissor. Outro ainda é aceitar serenamente (tenho tentado!) que também essa área é dominada por grupinhos políticos que se articulam para conseguir as melhores fatias da torta - e que, se você não fizer o jogo deles, não vai experimentar nem um farelo...

LEITURINHAS – Mediante as LEITURINHAS que você já fez, faz e escreve, o que você diria aos escritores que estão iniciando sua carreira e àqueles que já construíram uma sólida? E aos seus pequenos e grandes leitores?

LAURA – Aos escritores iniciantes: iniciem! Sem grandes ilusões (porque a coisa é complicada), mas não desistam! Nada supera o prazer de escrever para quem realmente gosta disso.
Aos escritores com carreira sólida: continuem escrevendo e encantando o mundo com o poder da palavra escrita. Em livro impresso ou digital, o importante é que boas histórias continuem sempre a ser contadas.
Aos meus pequenos e grandes leitores: leiam!!!!
A todos: visitem o meu site (www.laurabergallo.com.br) e deixem um recado para mim. Responderei com grande prazer!

A ESCOLA E O DESAFIO DE FORMAR LEITORES I
(Artigo publicado originalmente em março de 2012 na coluna LITERATURA E ENSINO em www.leiturinhas.com.br)

Por Leny Fernandes Zulim

O tema desta nossa conversa é espinhoso. Por alguns motivos: primeiro, porque é uma tarefa difícil de ser cumprida pela escola; segundo, porque como professores, os mediadores mais diretos da leitura, temos consciência da necessidade de darmos conta desse desafio sob pena de falharmos em um dos nossos mais sérios deveres e ao mesmo tempo sabemos como é difícil e gigantesco esse desafio; terceiro, falhando em relação a ele, falhamos também na qualidade da formação de leitores para que possam usufruir da literatura como um bem que alimenta o espírito e humaniza o ser, assunto já discutido anteriormente.
Marina Colasanti, premiada escritora (Fragatas para terras distantes - 2004:214), fala sobre o assunto afirmando que “se saber ler é indispensável para o desempenho do cotidiano, não basta para fazer o leitor. É no passo seguinte, quando depois de aprender a ler o que está escrito aprende-se a ler o que não está escrito, que se faz o leitor.” A afirmativa de Colasanti traz à tona algumas reflexões iniciais: a) mais do que nunca, a leitura é indispensável nos atos mais comezinhos da vida humana, invadidos que somos, provocados que somos pelas mais diferentes formas (e apelos) de informações e textos; b) ao falar em ler o que está escrito, a autora citada nos lembra que a leitura passa, obrigatoriamente, por três fases: 1 - a decodificação dos signos, sejam eles  linguísticos e/ou não linguísticos, o que exige o estabelecimento de  relação  entre signos e significados;  2 -  compreensão, que é o reconhecimento da temática que o  texto aborda e seus tópicos  principais, envolvendo  três diferentes níveis: a leitura  literal,  baseada naquilo que  o texto diz, chamada  também  de   leitura  do significativo; a leitura inferencial, que estabelece  relações de caráter intra e  intertextual, além das relações contextuais, chamada por Bragatto de  leitura significativa; a leitura interpretativa, o mais profundo desses três níveis, estabelecendo a ligação dos conteúdos explícitos e implícitos, presentes  no  texto,  com  o conhecimento de mundo do  leitor. Fica patente que esse último nível da leitura – a interpretação – apresenta-se como uma fase em que o leitor precisa utilizar-se da sua capacidade crítica. Isso significa dizer que nesse momento o leitor julga o que lê, conclui, interligando seus conhecimentos anteriores àqueles fornecidos pelo texto, ampliando informações e reformulando conceitos, o que implica em preencher espaços vazados deixados pelo autor, conhecer as condições extra-textuais de produção do texto, ler as entrelinhas e reconhecer a polissemia textual. Vamos a um rápido exemplo, tomando como texto o poema Andorinha, de Manuel Bandeira:

Andorinha lá fora está dizendo:
- passei o  dia à toa à toa!
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa à toa!


Uma primeira leitura, decodificando os signos linguísticos e atingindo o nível de compreensão, permite no diálogo do leitor com o texto pura e simples, perceber de pronto: a ave cantando o fato de ter passado o dia no ócio; a “cantiga” de um “eu” que, em contrapartida, afirma passar a vida no ócio; o tom de melancolia desse “eu”. Essa percepção do leitor permite concluir: enquanto a andorinha canta o fato de ter passado um dia à toa, uma voz melancólica lamenta o fato de passar a vida inteira no ócio.
O nível da interpretação, porém, mostra-se bem mais abrangente e profundo no diálogo do leitor com as condições extra-textuais de produção, se ele tiver um conhecimento: a) sobre a vida do poeta no ócio, constantemente em hospitais, devido à tuberculose que o acompanhou desde a adolescência; b) como consequência, a constante presença da morte, que desde muito jovem ameaçou a vida de Bandeira; c) também como consequência, a tristeza de uma vida reservada e solitária.
Parece claro que, só a partir desse conhecimento é possível ao leitor compreender a imensa e profunda tristeza, bem como a solidão, que emanam da cantiga mais triste e do ócio da vida expressos no verso que encerra o poema (passei a vida à toa, à toa) em oposição à andorinha que canta, casualmente, o fato de passar um dia da vida assim.
Formar um leitor com competência de leitura para atribuir um sentido mais profundo à leitura, como no exemplo registrado, é o que se espera da escola (professor, sobretudo, como o mais direto mediador de leitura). Ocorre que evidências e pesquisas vêm demonstrando (e a triste situação do Brasil no ranking do Pisa o comprova cabalmente) que isso não acontece e as exceções só confirmam a regra. Dificilmente o Ensino Fundamental consegue formar leitores capazes de atingir esse último nível – a interpretação – com profundidade. E aí somos obrigados a admitir que estamos falhando miseravelmente, pois se concordamos com Colasanti de que o leitor só se forma quando é capaz de ir além do que diz explicitamente o texto, lendo as entrelinhas, o não dito, o sugerido...
Burlamaqui lembra que a função do professor é introduzir crianças e jovens no mundo das letras, incentivando o gosto pelo livro, o desenvolvimento do hábito de leitura, pois em síntese é ele que vai mostrar e indicar livros para ler segundo a preferência. Por isso, o mais óbvio: primeiro, e antes de tudo, deve ele ser um leitor apaixonado cujo brilho nos olhos motive o aluno a querer ler também o livro de que ele fala. Um professor – leitor saberá oferecer, na prática em sua sala de aula, um ambiente propício, acolhedor e rico em termos de leitura. Cartazes, caixas com livros e textos avulsos, gibis, jornais, folhetos de propaganda em lugares estratégicos chamam a atenção e instigam à leitura. Na verdade todo material impresso é importante, nesse sentido, para que se estimule o ato de ler. Frise-se aqui, a importância de oportunizar ao aluno o manuseio dos mais diferentes textos para se chegar ao objetivo de formar o leitor. Silva aborda a importância do exemplo como fator de aprendizado, dizendo textualmente: “(...) se num primeiro momento de sua existência a criança aprende e se situa no mundo através de atribuição de significados a pessoas, objetos e situações presentes em seu ambiente familiar, então devemos inferir que esse mesmo ambiente deve ser potencialmente significativo em termos de livros, leitores e leitura”. Acontece que, infelizmente, não é assim para a maioria dos estudantes brasileiros. Para eles, a escola acaba se tornando a única possibilidade de contato com o mundo da leitura, pois a casa e os pais não lhes oferecem esse material. Para virar esse jogo que nos deixa em posição vergonhosa no ranking mundial é preciso reformular o trabalho docente em relação à leitura. Esse será o tema de nosso próximo encontro, com sugestões bem práticas para se levar à sala de aula. Até lá!

REFERÊNCIAS QUE SUSTENTAM ESSE ARTIGO

BANDEIRA, Manuel. Poemas escolhidos. São Paulo: Global, 1982.
BRAGATTO, Paulo. Pela leitura literária na escola de primeiro grau. São Paulo: Ática, 1995.
BURLAMAQUI, Fabiane V. Os primeiros passos na constituição de leitores autônomos: a formação do professor. In: TURCHI & SILVA (Orgs). Leitor formado, leitor em formação: leitura literária em questão. Assis, SP: Cultura Acadêmica, 2006.
COLASANTI, Marina. Fragatas para terras distantes. Rio de Janeiro: Record, 2004.
SILVA, Ezequiel Teodoro da. Leitura & realidade brasileira. Porto Alegre, RS: Mercado Aberto, 1998.
ZULIM, Leny Fernandes, Literatura no ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala-de-aula. Londrina, PR: Amplexo, 2011.


 O GÊNIO INDOMÁVEL ALAN MOORE
(Artigo publicado originalmente em março de 2012, na coluna KAZUO EM QUADRINHOS, em www.leiturinhas.com.br)

Por Alexandre Kazuo

O britânico Alan Moore atualmente tem 58 anos. O mesmo pertence à geração contra-cultural anglo-europeia vista durante os anos 70 do século XX. Moore é sempre colocado como um dos grandes roteiristas das HQ’s junto a Frank Miller e Neil Gaiman. Aliás, Moore e Gaiman (também britânico) sempre tiveram uma relação interessante, tanto de afinidade quanto de criatividade. A repercussão de Alan Moore tornou-se forte quando foi contratado pela DC Comics, no início da década de 80, tendo trabalhado com a linha convencional de super-heróis como Superman e Lanterna Verde. Entretanto foi no selo Vertigo, voltado para leitores adultos, que vimos os grandes trabalhos de Moore, hoje tidos como clássicos. Ainda em meio à atmosfera flower power dos anos 70 podemos citar o incomum Monstro do Pântano (Swamp Thing) por muito tempo roteirizado por Moore. O Monstro do Pântano era um ser elemental oriundo de um experimento científico mal sucedido que fundiu vegetal e consciência humana. A bizarra criatura mantinha um relacionamento com uma mulher, Abigail Cable, e contracenava com o controverso John Constantine, uma espécie de detetive de casos sobrenaturais. Constantine teve muitas histórias escritas por Moore e recebeu uma adaptação cinematográfica em 2005, com Keanu Reaves personificando-o.

Possivelmente, ‘Watchmen’ (1986-1987) foi o grande sucesso de Moore nas HQ’s. Em meio ao panorama de crepúsculo da Guerra Fria, durante a década de 80, Moore percebeu de forma vanguardista o sepultamento da chamada ‘Era de Bronze’ dos super-heróis e a futura ascensão dos anti-heróis. Era o momento em que os títulos dos X-Men surgiam como os mais vendidos da Marvel Comics e sua aura amoral sobretudo vinha escoltada pelo personagem Wolverine. ‘Watchmen’ era um tributo à chamada ‘Era de Ouro’ dos super-heróis, em que o super-grupo ‘Minutemen’ era recordado de forma saudosa enquanto seus sucessores ’Watchmen’ tomavam de assalto o mundo. Logo tratava-se do vislumbre mais verossímil possível de um grupo de super-heróis, caso os mesmos existissem na vida real. Ou seja, teriam problemas conjugais, poderiam ser milionários ou antissociais e seus atos designariam muitas consequências. ‘Watchmen’, a HQ, foi publicada no Brasil na época de seu lançamento e depois relançada com acabamento superior no fim dos anos 90, ambas às vezes pela editora Abril. Ali observamos o mascarado e brutal justiceiro Roscharch ressabiado com a morte misteriosa do Comediante. Eles integraram o Watchmen dissolvido pela justiça dos homens e o primeiro paranoicamente desconfia de uma trama que vise à eliminação dos que faziam parte do extinto super-grupo. Rorscharch procura o politicamente correto Coruja atualmente aposentado e vivendo sua entediante identidade civil. Além do Coruja Rorscharch, procurará o casal Dr. Manhattan e Júpiter no intuito de solucionar o mistério. Rorscharch é mais repulsivo que Wolverine, e justiceiro. O Coruja poderia ser descrito como um ‘Batman da classe média’. Dr. Manhattan cientista genial vítima de um experimento nuclear evoca arquétipos de personagens como Hulk, Coisa e Sr. Fantástico. Convive com o dilema de tornar-se inumano devido aos poderes que adquiriu. O desprezível Comediante se faz enquanto um verdadeiro ‘capitão américa’ realizando serviço sujo para o governo yankee.

Embora alguns fãs tenham criticado a adaptação cinematográfica de ‘Watchmen’, lançada em 2008, o diretor Zack Snyder, na medida do possível, tentou manter as coisas fiéis à trama original. Foi amparado inclusive pelo desenhista Dave Gibbons único autor original creditado no filme. Alan Moore não teve envolvimento e segundo afirmam imprensa especializada e críticos, o mesmo repassa para os desenhistas com quem trabalhou todo dinheiro recebido referente aos royalties. Sabe-se que Moore desaprovou a adaptação de ‘V de Vingança’ lançada em 2006 2003 e que trazia seu nome nos créditos. ‘Watchmen’ voltou a ser notícia nos veículos ligados ao mercado dos quadrinhos e entretenimento porque a DC Comics já divulga novas séries com os personagens da HQ. Tal intuito teria sido impulsionado pelo relativo sucesso do filme que foi sim bem produzido e caracterizado. Cheio de tiradas, tanto em relação ao universo dos quadrinhos quanto a ícones da cultura pop, e conduzido por uma trilha sonora fantástica, a transição dos ‘Minutemen’ para ‘Watchmen’ é mostrada no início ao som de ‘Times They Are a Changin’ de Bob Dylan. O funeral do Comediante surge ao som de ‘The Sound of Silence’ de Simon and Garfunkel. Dr. Manhattan desintegra vietnamitas ao som de ‘Ride of The Valkyries’ (de Richard Wagner) no maior estilo ‘Apocalypse Now’ (do cineasta Francis Ford Copolla).

Recentemente, e como mencionamos nesta coluna anteriormente, Alan Moore que anda se expondo bastante através da internet, teria disparado algumas opiniões de ‘esquerda’ em relação ao norte-americano Frank Miller. Moore toma-o enquanto alguém simpático a uma postura de ‘centro-direita’, algo expresso na HQ ‘Holy Terror’ criada por Miller, mas ainda inédita no Brasil. Nas últimas semanas, Moore disparou esperadas críticas à DC Comics pela iniciativa da mesma editar novas histórias com os personagens do aclamado ‘Watchmen’. Moore detém os direitos autorais acerca da série, mas segundo o site Omelete e o site da Rolling Stone Brasil, o mesmo não quer abrir processos judiciais e sim está questionando a legitimidade artística da proposta. Como afirmamos, ‘Watchmen’ fora feito em contrapartida a séries intermináveis e HQ’s populares como Superman, Homem Aranha ou X-Men. Sob a óptica de Moore, estes personagens não são mais do que entretenimento barato. As novas séries com os personagens de ‘Watchmen’ foram produzidas por nomes respeitados como Len Wein (editor original da série, criador do Wolverine), os irmãos Andy e Adam Kubert (famosos por trabalhar com X-Men, entre outros) além do roteirista J. C. Straczynski, que ganhou projeção na Marvel trabalhando com X-Men e Homem Aranha. Os roteiros pretendem apresentar os personagens antes dos eventos da série ‘Watchmen’ original.

CENA 1, AÇÃO!
(Artigo publicado originalmente em março de 2012, na coluna VIDEOTECA, em www.leiturinhas.com)

Por Alexandre Kazuo

A partir deste mês este espaço VIDEOTECA no LEITURINHAS trará algo acerca de produções cinematográficas, animações e lançamentos de DVD’s, que tragam algum vínculo para com aquilo que abordamos no site. Agora para 2012 estão previstos lançamentos de incursões cinematográficas de roteiros que tomam como ponto de partida contos infantis clássicos. Há também as adaptações cinematográficas de personagens das histórias em quadrinhos, algo que tem inclusive guiado a linha editorial das próprias HQ’s num empreendimento que revitalizou os parâmetros criativos das editoras Marvel e DC Comics. Isso além das animações, sejam moderníssimas como o recente ‘As Aventuras de Tintin’ (que também adapta um personagem de HQ), ou clássicas. O universo dos mangás orientais também chama pelos desenhos animados, pois os grandes sucessos se tornam aquilo que os japoneses e seguidores de mangás tomam como animes.

Este que vos escreve já abordou diversos personagens das HQ’s recentemente surgidos nas telas do cinema na coluna Kazuo em Quadrinhos, um enfoque que será amplamente expandido neste espaço. Confirmadas para este ano de 2012, já temos as estreias de ‘Batman - Dark Knight Rise’ terceira parte da trilogia iniciada por Christopher Nolan em 2003 com ‘Batman Begins’. Além da estreia do filme dos Vingadores (‘The Avengers’) que se origina nos pontos que interligaram os filmes ‘Homem de Ferro’ e ‘Homem de Ferro 2’, ‘Thor’ e ‘Capitão América’. No caso dos personagens envolvidos em Vingadores, a Marvel Comics tem deliberadamente pautado os roteiros das atuais HQ’s tomando o processo de contemporanização que os personagens sofreram ao serem inseridos nos roteiros do cinema. Por exemplo, o ator Samuel L. Jackson é visto como o coronel Nick Fury desde o epílogo posterior aos créditos e letreiros finais do primeiro filme de ‘Homem de Ferro’. O Nick Fury dos quadrinhos não é afro-descendente, nem careca. A editora Marvel já cogita torná-lo plasticamente semelhante a Samuel L. Jackson. O agente Coulson (o ator Clark Clegg) que passa ativamente a participar do projeto Vingadores a partir de ‘Homem de Ferro 2’, foi criado apenas para os filmes, mas devido a sua popularidade já se discute sua inclusão nas HQ’s norte-americanas. O agente Coulson apareceu nos quadrinhos mais precisamente numa HQ digital.

Fora das tramas que trazem super-heróis poderosos e cenas de ação mirabolantes, tivemos há cerca de dois anos uma versão sombria e revitalizada do clássico ‘Alice no País das Maravilhas’, de Lewis Carroll. Conduzida pelo diretor Tim Burton, famoso por suas excentricidades e estética dark, seu ‘Alice no País das Maravilhas’ gerou repercussões diversas, algumas até negativas. Entretanto o sucesso cinematográfico criou novo interesse pela obra original e a estética sombria caiu no gosto da juventude atual leitora de livros como ‘Crepúsculo’ e ‘Lua Nova’. Estes livros se põem a repaginar (de forma pálida é verdade) o mito de ‘Drácula’, clássico da literatura de horror escrito por Bram Stocker. Burton, querido da geração que atualmente passa dos trinta anos é lembrado de maneira saudosa por ‘Edward Mãos de Tesoura’ ou pelos seus dois Batman, de 1989 e 1992. Em processo de finalização já se tem ‘Dark Shadows’, em que Burton apresenta uma trama povoada por vampiros personificados por velhos colaboradores no elenco. Johnny Depp, o Edward, e também Ichabod Crane em ‘A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça’ (de 1999, só para citar duas colaborações com Burton) se fará presente junto a Michelle Pfeifer, a Mulher Gato de ‘Batman Returns’ (1992).

Se a recriação de uma trama oriunda da literatura infantil dá certo, como em ‘Alice No País das Maravilhas’, os estúdios de Hollywood geralmente apostam novamente na fórmula. Absurdamente ligado ao universo da literatura infantil teremos em muito breve ‘Branca de Neve e o Caçador’ numa tentativa de recriação do clássico conto ‘Branca de Neve e os Sete Anões’. A previsão de estreia se dá para junho. Os trailers já podem ser visualizados via internet. O papel de rainha má coube à bela Charlize Theron, o caçador em questão no título será vivido pelo grandalhão Chris Hemsworth, que deu vida a ‘Thor’ e também será o deus do trovão no filme de Vingadores. Kristen Stewart será a Branca de Neve. As imagens do trailer são dinâmicas e ousadas, pertinentes à estética hollwoodyana atual de filmes dotados de entonação épica/fantasiosa movidos por grandes cenas de ação.

Até a próxima!

ERAM MUITAS VEZES
(Artigo publicado originalmente em março de 2012, na coluna RELEITURINHAS, em www.leiturinhas.com.br)

Por Carla Kühlewein

Contar histórias é um hábito milenar e mesmo diante das mais variadas tecnologias, está longe de se esgotar. Recontar histórias então... tem se tornado quase uma “compulsão”, os escritores literários que o digam. Volta e meia ressurge das antigas algum conto clássico, numa narrativa mais dinâmica, recheada de personagens e situações bem próximas da realidade. Princesas independentes, príncipes de caráter duvidoso, sapos que se recusam ser beijados, rainhas rebeldes, reis relapsos, tudo é possível no reino das RELEITURINHAS.
                Na terra do “era uma vez” nem a Chapeuzinho Vermelho escapou às inovações mirabolantes dos profissionais da literatura. Flávio de Souza que o diga... em ERAM QUATRO VEZES, o escritor, dramaturgo, cineasta, roteirista e tals, elabora uma peça de teatro com a dinâmica que lhe é peculiar, porém com um ingrediente extra: recontar mais de uma vez a mesma história, só que de acordo com perspectiva diferentes.
                Seguindo a linha das RELEITURAS modernas, Flávio reconta a história de Chapeuzinho conforme a versão de quatro personagens diferentes, daí o título do livro apresentar o número 4: Chapeuzinho, mãe, lobo e caçador. A mesma estratégia utilizada na recente produção cinematográfica DEU A LOUCA NA CHAPEUZINHO. Num misto de feedbacks e mudanças de ponto de vista, o autor garante dinamismo ao texto, característica que lhe é peculiar nas obras literárias infantis.
A primeira parte da peça apresenta velha e conhecida história da menininha da capinha vermelha que sai para entregar doces à vovozinha, mas em dado momento, a narrativa é interrompida pelo narrador, Bromélio Antúrio, que anuncia o recomeço da história. Assim segue uma nova versão, desta vez sob a óptica da mãe de Chapeuzinho (Chapéu Rosa). O mesmo procedimento se repete, na sequência, com o lobo e o caçador (peça-chave da trama).
Algo surpreendente durante o percurso de ERAM QUATRO VEZES, marcado pelo ir e vir da história de Chapeuzinho, é que muitos fatores novos são apresentados ao leitor, porém, como se revelam coerentes com a versão original da história, ganham curiosamente um caráter natural, como se sempre tivessem feito parte do conto de Chapeuzinho Vermelho, só não haviam sido revelados (ao menos não antes de Flávio decidir fazê-lo).
                Ainda que o conto da menina da capinha vermelha (Rotkäpchen) seja recontada há séculos, pelos mais diversos meios e idiomas, a obra de Flávio de Souza apresenta uma maneira múltipla de apresentar diversas perspectivas de uma mesma história, segundo um mesmo foco narrativo, isso tudo bem manifesto em um texto dramático, num vai e vem constante promovido por Bromélio Antúrio, o representante textual das teclas rew e view do controle remoto.
                Enquanto o Flávio descansa e pensa na próxima RELEITURINHA, nós ficamos aqui esperando uma, duas, três, muitas vezes as RELEITURINHAS!

Boas RELEITURINHAS!