julho 05, 2012

JUNHO - ENTREVISTA E ARTIGOS

ENTREVISTA - Maria Cristina Furtado

Sou carioca, cresci tocando violão, cantando, lendo e criando muitas histórias. Tornei-me escritora infanto0juvenil em 1985, e desde então procuro passar em meus livros a importância de vivermos em harmonia com o meio ambiente e a necessidade de termos uma sociedade onde a igualdade, a inclusão, o respeito e a dignidade do ser humano sejam prioridades.

Sou psicóloga, professora e teóloga, mas para os meus pequenos leitores prefiro ser uma “contadora e cantadora de histórias” que deseja, com o violão debaixo do braço, compartilhar a emoção de minhas histórias pelos quatro cantos do Brasil.

LEITURINHAS – Você é autora de uma série de livros que transitam de temáticas que vão da inclusão social a lendas. Além disso, seus livros vêm acompanhados de músicas compostas e executadas por você. Como é ser uma artista tão versátil?

MARIA CRISTINA – É muito bom! As coisas vão acontecendo naturalmente! A inclusão, a liberdade, a solidariedade, a luta pela vida, o amor, a ecologia, o respeito ao outro, etc., que para mim são essenciais na vida de qualquer pessoa. Quando começo a escrever uma história, eu ainda não sei o que vai acontecer, e de repente um desses temas surge e passa a fazer parte da história.
As músicas e letras, quando estou escrevendo, surgem junto com os personagens e a história. Eu não faço as músicas para que a história seja musicada. Ela faz parte do processo criativo. Vai surgindo... Em determinado momento eu vejo os personagens dançarem e cantarem em minha imaginação. Então, largo o computador, pego o meu violão, e a música vai me envolvendo...
É uma viagem pelo mundo da imaginação!!!!!!! Adoro fazer isso!!!!
Porém, há momentos de alegria, de tristeza e de emoção. Por exemplo: no meu livro O GUARDIÃO DAS FLORESTAS, quando o macaquinho, que eu batizei de Mairarê (O amanhã) nasce no meio de um grande tiroteio, com a mãe quase morrendo, e a índia que o trouxe ao mundo começou a cantar, eu me emocionei ao fazer a música. Eu vivi aquele momento como se fosse real.

LEITURINHAS – Já que você conta e canta as músicas de suas histórias, qual o ponto de partida de sua criação literária (a música, a narrativa, outra manifestação)?

MARIA CRISTINA – A narrativa. A música, como disse antes, vem surgindo junto com o texto e os personagens.

LEITURINHAS – No livro A FÁBRICA MÁGICA, genialmente ilustrado por Claudio Martins, você conclui com uma pergunta ao leitor: “E você, aprendeu alguma lição? Qual foi?”. Quais as respostas, orais ou escritas, que você já obteve a essa pergunta?

MARIA CRISTINA – Eu estou muito feliz com as respostas. Elas não estão sendo muito diferentes. As respostas estão girando em torno de que ‘se deve amar e respeitar as pessoas como elas são’.

LEITURINHAS – Você teve o livro VIVA A LIBERDADE relançado em uma nova coleção, a que se deve o sucesso dessa obra?

MARIA CRISTINA – Eu acredito que todos nós, em todas as épocas, precisamos de liberdade.
Quando escrevi este livro estávamos iniciando a década de 80, vínhamos de um longo período ditatorial no Brasil, e eu queria escrever sobre a importância da democracia, da liberdade de expressão, do respeito aos cidadãos, etc. E o livro foi muito bem aceito e entendido, na época, pelas crianças, pais, mães, professores, etc.
Hoje, a ligação que vejo sendo feita dessa ‘fábula com a vida’, é da liberdade que as pessoas desejam ter nos locais em que vivem. Por exemplo: liberdade nas escolas onde existe bullying, e nas comunidades carentes onde o tráfico é forte.
Portanto, o interesse por este livro talvez seja porque que ele continue atual. Em muitos lugares há um tigre para ser expulso, e se precisa de coragem e união para isso acontecer.

LEITURINHAS – Em FLOR DE MAIO a trajetória percorrida pela borboleta e suas fiéis amigas, cigarra e formiga, chama a atenção para a esperança e a superação que movem as personagens. Enquanto psicóloga, teóloga, mãe, esposa e contadora, quais as reações que você observa em crianças e adultos ao contar essa história?

MARIA CRISTINA – As mais incríveis possíveis! Essa história se tornou um best-seller. Já foi contada em inúmeros lugares e lida pelas crianças e suas famílias em todo o Brasil. Como peça teatral atravessou o Brasi, e foi encenada até no Teatro do Morro da Urca (Pão de açúcar), no ano da ECO 92. E agora inspirou um filme que ainda este ano deverá ser lançado.
As alegrias e emoções que eu tenho vivido por causa de ‘Flor de Maio’ são enormes!
Uma vez eu estava contando esta história na enfermaria de um hospital de Ortopedia,  quando acabei a história, uma das crianças presentes disse, rindo e chorando: “Tia, se ela voou, eu também vou voar. Eu vou andar outra vez”.
Em uma outra ocasião, estávamos no teatro, encenando a história. E durante a apresentação eu vi uma moça chorando, chorando muito. Fiquei espantada porque a história é alegre, e com vários momentos engraçados. Quando terminou a peça, a moça me procurou e me agradeceu pela história. Ela disse que seu filho ficou doente por anos, e preso em uma cama. Ele havia falecido há bem pouco tempo, e ela não se conformava. Porém, enquanto assistia à peça, entendeu que ele tinha voado. Ele precisava voar... Ele agora estava livre como a borboleta!
Eu teria muitas outras histórias sobre ‘Flor de maio’ para contar. Mas, só posso dizer que quando se escreve uma história, muitas vezes, ela ultrapassa aquilo que o autor imagina. Flor de Maio foi assim!!!

LEITURINHAS – Você afirma ao final de seus livros que amigos e familiares, frequentemente, lhe ajudam a produzir seus livros. Na história de PRETINHO MEU BONECO QUERIDO percebe-se bem essa referência. Como é esse processo familiar de criar histórias e compor canções?

MARIA CRISTINA – A criação das histórias e das músicas é por minha conta, mas o controle de qualidade antes da ‘história e músicas’ serem mostradas à Editora do Brasil é da família.
Na reedição de ‘Pretinho, meu boneco querido’, a participação da minha filha mais velha, Cristiane, foi essencial. Como ‘historiadora’ ela me ajudou a atualizar a história da escravidão no Brasil, a importância que os escravos tiveram para o nosso desenvolvimento e o quanto eles precisaram lutar para conseguir a liberdade.  A primeira edição do livro foi em 1990, e de lá para cá, muita coisa mudou em relação a esse tema. Eu precisei pesquisar muito.
Por sua vez, a minha caçula, Leandra, sempre participa cantando no CD. A meu ver, a voz dela dá um toque especial!
Sempre peço a minha sobrinha, Elisabete, que leia a história e dê o seu parecer, antes de eu mandar o texto para a editora. Ela é professora e acho primordial ouvir a sua crítica. Normalmente, também conto a história para algumas crianças, filhos ou filhas, netos e netas de amigos meus ou de sobrinhos, e vejo a reação dessas crianças. Quando minhas filhas eram pequenas, o ‘crivo’ pertencia principalmente a elas. Já desisti de um texto que havia feito, quando uma de minhas filhas não concordou com o final que eu dei à história. Ela ficou tão zangada e magoada que eu acabei abandonando a história.  
Quando termino uma história também peço ao meu marido para ler. A sua opinião, para mim, é muito importante. No livro ‘O guardião das florestas’, Jarí, meu marido, além de fazer a crítica, teve uma participação especial no CD. Antes da música ‘Rio Amazonas’ iniciar, entra a voz dele como o comandante de uma aeronave que sobrevoa a Amazônia.
Se depender de mim, todos participam. É divertido! Eu adoro isso, e acho que eles também! É uma maneira de a minha família estar presente no livro.

LEITURINHAS – Você é uma escritora diferenciada porque além de escrever, conta suas histórias e canta as músicas nelas contidas. Quais os procedimentos necessários para receber uma visita da contadora de histórias MARIA CRISTINA FURTADO em qualquer parte do Brasil?

MARIA CRISTINA – Fazer o pedido para a Editora do Brasil. É através da editora que eu viajo, visito as escolas, e participo de eventos ‘contando e cantando as minhas histórias’.
Em todas as regiões do Brasil tem um representante da Editora do Brasil. Procure falar com a Assessoria Pedagógica da editora, na região, pois se ela e os responsáveis por aquela área acreditarem que é viável, eu irei até lá, com o maior prazer.
Para se conseguir o telefone da editora de qualquer região é fácil. Basta entrar no site da Editora do Brasil. Se não conseguir acessar, pode entrar no meu site: www.mariacristinafurtado.com.br e deixar uma mensagem. Eu a repassarei para a editora.

VIDEOTECA

SESSÃO DE CINEMA: AVANTE VINGADORES!
(por Alexandre Kazuo)

Estreou no finzinho de abril o tão falado filme dos Vingadores. Na coluna KAZUO EM QUADRINHOS mencionamos, no ano passado, a interligação entre os filmes ‘Thor’ e ‘Capitão América’ prelúdios para um filme que uniria os heróis, título de ambos os filmes, a outros. A semente dos Vingadores versão Hollywood já surgia no epílogo veiculado depois dos créditos do primeiro filme do ‘Homem de Ferro’, em que Nick Fury (Samuel L. Jackson) já procurava Tony Stark (Robert Downley Jr) para o tal projeto Vingadores. Um super-grupo de heróis? Super-heróis ou, como o desfecho do próprio filme menciona, os meros mortais dizendo que é acolhedor saber que existe alguém olhando por eles. A cultura cristã monoteísta fez desaparecer traços de culturas politeístas como a grega ou a nórdica (O politeísta é aquele que cultua diversos deuses ao invés de apenas um e os helênicos tomavam para si vários deuses antropomórficos, ou seja, que tinham forma de homens; eram coléricos, vingativos ou mesmo poderiam ter compaixão e sentir certa inveja da frivolidade dos mortais).

É da própria mitologia não grega, mas nórdica que surge o pivô da discórdia entre os Vingadores. Loki (Tim Hiddleston) é meio irmão de Thor. Ambos são filhos de Odin, o pai dos deuses nas crenças cultivadas entre povos do Norte da Europa, atuais Dinamarca, Suécia, Noruega, Holanda ou norte da Alemanha. São crenças vikings. Loki pertence a uma raça de gigantes, mas foi criado como filho legítimo por Odin. Oportunamente Loki se manifesta aos mortais em ‘Os Vingadores’ em solo alemão; filosofa sobre a condição ilusória da liberdade diante de mortais obrigados a se ajoelharem perante ele. A deixa perfeita para a aparição do Capitão América, ex-combatente da II Guerra, responsável no universo Marvel Comics pela deposição de der führer Hitler. Um mito nórdico lendário se defronta a um ícone da cultura pop yankee. Steven Rogers alterego do Capitão América foi cobaia de um experimento genético que amplificou seu metabolismo tornando-o um super-soldado. Seria a fórmula que talvez Hitler gostaria de ter obtido para viabilizar a raça pura? Rogers sofre com sua condição inumana, tornou-se indestrutível, desperto na pós-modernidade após setenta anos em hibernação glacial.

O Capitão América é discretamente inserido na trama pelo diretor Joss Whedon, sem deixá-lo caricato a ponto de se tornar uma propaganda gratuita de um americanismo. É um herói do povo e das ruas de Nova York fazendo o verossímil, salvar inocentes nas avenidas e prédios, algo que não aconteceu nos atentados do 11 de setembro de 2001. O ícone do herói também envelheceu de forma menos caduca do que o ícone do Superman da DC Comics. O inverossímil fica por conta do Homem de Ferro. O Capitão América é menos vistoso que Tony Stark volúvel a desmedida hybris dos prazeres, do conhecimento e do capitalismo. O Homem de Ferro é retratado como um rockstar em forma de super-herói. Surge ao som de ‘Shoot To Thrill’ do AC/DC e sem a armadura passa o filme todo trajando uma camiseta do Black Sabbath, cuja canção ‘Iron Man’ (homem de ferro) foi tema da trilha sonora de seu primeiro filme. O cetro de Loki parece surtir efeito mágico apenas nos que dispõem de um coração. Não é o caso de Tony Stark que criou sua armadura enquanto possibilidade de um marca passo em decorrência de estilhaços que se alojaram em seu aparelho cardíaco após uma explosão. Stark é retratado como o dr. Fausto perfeito e ele vê a face de Mefistófeles toda vez que desfruta dos prazeres terrenos. Nem Loki consegue barganhar sua alma de playboy. O grande pecado de Stark é a autossuficiência.

O grande traço humano do genial dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo) é a ira que o transforma no incrível Hulk. Após experimentos com raios gama, dr. Banner teve sua estrutura genética alterada, quando sua fúria atinge o limite seu corpo se expande de forma esverdeadamente descomunal e sua razão atrofia. Subvalorizado nos quadrinhos, o Hulk da computação gráfica atual rasga prédios de concreto no peito, deixa o deus Loki sem ar após pegá-lo por uma perna, socando-o no chão seguidas vezes e jocosamente o chama de ‘deus fraco’. Mas o arquétipo de Hulk é muito antigo, sobretudo se nos lembrarmos dos clássicos da literatura universal. Banner é o médico que tenta conter o monstro dentro de si como no clássico ‘Dr Jeckyll and Mr Hyde’ de RL Stevenson. Finalmente, Thor é o deus bondoso que sente compaixão pelos humanos. De maneira semelhante ao Prometeu da mitologia grega, que rouba o fogo do conhecimento do Olimpo e entrega-o aos mortais, Thor vem à terra tentar frear a desmedida de seu meio irmão Loki, que por sua vez anseia dominá-los.

Os mais religiosos devem estar me julgando um herege ou coisa parecida. Mas a necessidade de manter laços com o grandioso vem desde sempre na história da humanidade. Bem como a necessidade narcisista de constatarmos a nós mesmos da maneira que gostaríamos de nos ver projetados num espelho. Poderosos e inalcançáveis, sem nos arrependermos de nossos atos desmedidos. Querer ser um deus nunca foi algo censurável. E as crianças o fazem singelamente, com capas amarradas no pescoço, espadas de madeira e máscaras coloridas sobre a face.

Meu coração de seda
Está cheio de luzes,
Com sinos perdidos
Com lírios e abelhas,
Irei bem longe,
Mais longe que aquelas colinas,
Mais longe que os mares,
Para perto das estrelas,
Para pedir ao Cristo nosso Senhor
Para devolver a alma que tinha
Antigamente, quando era criança,
Amadurecida com lendas,
Com um boné emplumado
E uma espada de madeira.

(Frederico Garcia Lorca, Stranded/1979)

LITERATURA E ENSINO 


LITERATURA INFANTIL, JUVENIL OU INFANTO-JUVENIL?                                                                 
 (Por Leny Fernandes Zulim)

1-      Considerações de ordem geral:
Parece haver um consenso entre os estudiosos do assunto quando se fala a respeito de textos literários para crianças e adolescentes: eles não podem prescindir de sua essência, isto é, devem apresentar-se como obra artística que se concretiza na linguagem. O que equivale dizer: deve ser, antes de tudo, literatura. Ando (2007) lembra que “o conceito de literatura infantil ainda é visto de forma pejorativa como se a menoridade do receptor fosse transferida ao produto literário, que se tornaria, então, uma espécie de pseudoliteratura.” A mesma autora afirma também (id.ib.) que o lugar ocupado pela literatura infantil na arte literária reflete o lugar ocupado pela criança na sociedade: inserida num mundo regido pelo adulto ela tem um lugar de inferioridade social.
Vulgarmente, a expressão Literatura Infantil, ou Juvenil, pode lembrar uma literatura minimizada, adaptada, apequenada, livre de dificuldades de linguagem, de digressões ou reflexões, que estariam acima da compreensão infantil e dos adolescentes. Contudo, em essência, garantem vários teóricos[1] sua natureza tem de ser a mesma daquela literatura que se destina aos adultos, ou seja, precisa apresentar uma linguagem artística, diferenciada daquela cotidiana, singularizada pela natureza de seu leitor/receptor: a criança e/ou o adolescente. Por sua vez, Turchi (2002) [citando Castro], lembra que se a co-existência do fictício e do imaginário marcam o jogo estético da literatura em geral, o que vai determinar a especificidade estética da literatura infantil é a possibilidade de alcançar o máximo de imaginário com o mínimo de discurso.
Por outro lado, duas grandes pensadoras do assunto, Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1988), afirmam que, contra todo o menosprezo com que esse gênero é por vezes tratado, ele tem se tornado, cada dia mais, relevante segmento da indústria editorial, passando a integrar, mais recentemente, os currículos universitários. Por isso, faz-se necessário lembrar que a produção literária brasileira destinada às crianças e adolescentes, produzida no Brasil entre os anos 60 do século passado e esse início de Século XXI, aponta para a consolidação do gênero tanto na perspectiva da produção e consumo, vale dizer quantidade, quanto no plano interno, nas formas e conteúdos desses livros, vale dizer qualidade. Dois fatos o confirmam: 1- os vários prêmios internacionais recebidos por autores brasileiros, de que são exemplos o Hans C. Andersen conferido a Lygia Bojunga Nunes e Ana Maria Machado e o Latino Norma-Fundalectura, outorgado a Marina Colasanti; 2- o grande número de traduções de obras do gênero para outros idiomas como ocorreu com O Menino Maluquinho, de Ziraldo, para ficarmos apenas com um título.  Fechemos, portanto, a discussão desse tópico: a literatura, seja ela voltada para a criança ou para o adolescente, acima de tudo precisa ser arte, recriando a vida e o mundo por meio das palavras. E a produção contemporânea no Brasil vem dando conta disse galhardamente. Não dá, portanto, para ignorar essa produção ao pensarmos na leitura literária para o Ensino Fundamental.

2-A explicação para o título:
É pouco apropriado rotular obras literárias classificando-as em mais ou menos adequadas para determinada idade ou série. A escolha de uma obra ficcional para ler é determinada, sobretudo, pela história de leitura de um leitor real, aliada a seu interesse imediato. Crianças e adolescentes, contudo, têm preferência por textos diferentes ao escolherem o que vão ler. (Zulim: 2011). Cecília Meireles (1984) corrobora a afirmativa dizendo que tudo é uma literatura só. Mas, segundo ela, são as crianças [ou adolescentes] que estabelecem a fronteira entre uma e outra a partir de sua preferência.
Percebe-se, portanto, um divisor de águas quando falamos em textos literários denominados infantis e textos literários denominados juvenis. É possível, assim, encontrar aspectos que permitem diferenciar a literatura infantil da literatura juvenil?  Parece certo que sim. Nesse sentido, Turchi (2002/2004) vem em nosso socorro, mais uma vez, sintetizando essa diferença ao afirmar que “se na literatura infantil os aspectos visuais e gráficos costumam ocupar lugar de destaque na obra, na literatura juvenil, os apelos visuais, embora ainda atraentes aos olhos do jovem leitor, configuram-se como aspectos paralelos. Bordini & Aguiar (1988) lembram que o primeiro passo para instigar a leitura é a oferta de livros que levantem questões significativas para o leitor. Ando (2007) fecha o assunto afirmando ser mais pertinente a terminologia literatura infanto-juvenil para se reportar tanto à produção literária destinada a crianças quanto à voltada para adolescentes, englobando-se assim as duas faixas etárias.
Justifique-se assim nossa escolha, denominando sempre literatura infanto-juvenil ao tratarmos desse tipo de texto de ora em diante, levando em conta tanto as características das obras a que nos referimos quanto à faixa etária a que elas mais diretamente se destinam.
Em nosso próximo encontro o assunto será a origem da literatura para crianças e adolescentes, encontrada nas narrativas primordiais da Idade Média, de tradição oral. E na sequência passamos à História da literatura infanto-juvenil brasileira.
Quer conversar conosco? Entre em contato: lenyfz@ibest.com.br.

BIBLIOGRAFIA QUE EMBASA ESSE ARTIGO:
ANDO, Marta Yumi.  A literatura infanto-juvenil e a formação do leitor. In: Máthesis-Revista de Educação. Jandaia do Sul: v. 8. n.1, 2007
BORDINI & AGUIAR. Literatura: a formação do leitor –alternativas metodológicas. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1988
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Ciência e Cultura, v. 24, n.9, p.803-809, 1972
COELHO, Nelly N. A literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo:. Moderna, 7 ed. 2003.
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil Brasileira: história e histórias. São Paulo; Ática, 1988.
MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 3 ed ,1984.
TURCHI, Maria Zaíra. O estatuo da arte na literatura infantil e juvenil. In: SILVA, V. M. T (org.). Literatura infanto-juvenil: leituras críticas. Goiânia: Ed. da UFG, 2002
---. O estético e o ético na literatura infanto-juvenil. In: CECCANTINI, J. L. (org.). Leitura  e literatura infanto-juvenil: memória de Gramado. Assis: Cultura acadêmica, 2004.
ZULIM, Leny F. ZULIM. Literatura no ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala-de-aula. Londrina:  Ed. Amplexo, 2011.



[1] Candido, Turchi, Meireles, Coelho, Lajolo e Zilberman, para lembrarmos alguns;

KAZUO EM QUADRINHOS

E MAIS MANGÁS (PARTE II)
(Por Alexandre Kazuo)

Seguimos listando mais dois títulos respeitados de mangás japoneses publicados no Brasil.

‘One Piece’ de Eiichiro Oda: publicado no Brasil pela Conrad até o número 34 e retornando às bancas neste primeiro semestre de 2012 pela Panini. Iniciado no fim dos anos 90, por volta de 1997 nas páginas do Shonen Jump, ‘One Piece’ se tornou um ‘mangá de batalha’ que angariou popularidade absurda, sendo publicado no Japão até os dias atuais. Luffy é um pequeno garoto residindo numa cidadezinha à beira do mar. Seu sonho é se tornar pirata a exemplo de Shanks o ruivo. Shanks e seu bando estão utilizando a cidadezinha em que Luffy vive como base. Porém piratas são nômades e não possuem residência fixa. Shanks ironiza o pequeno Luffy como um irmão mais velho, inclusive salvando-o de Higuma líder dos bandidos da montanha. Numa ocasião Luffy ingeriu por acidente o gomu-gomu-no-mi um fruto exótico trazido de algum lugar longínquo pelos homens de Shanks. Quem o ingere ganha uma elasticidade corporal similar a elasticidade da borracha. Ao perceber que a pele e os membros de Luffy esticavam além do normal, Higuma pensou em vender o garoto para o circo. Shanks salvou Luffy que era mantido refém por Higuma num pequeno bote espreitado por um tubarão. Luffy saiu ileso, Shanks teve um braço devorado.

O bando de Shanks deixa a cidadezinha. Dez anos depois, Luffy se lança ao mar sozinho num pequeno barco. Deseja viver grandes aventuras, buscar companheiros para sua futura tripulação e encontrar o tesouro One Piece supostamente escondido pelo lendário Gold Roger, o rei dos piratas. A trama não cita o nome dos lugares nem do período em que os personagens estão vivendo. Sabe-se que corsários e piratas navegaram errantes pelos oceanos do mundo na época das Grandes Navegações entre os séculos XIV e XV. Piratas eram vagabundos e desajustados, pessoas que não se enquadravam ao padrão social deste citado período. ‘One Piece’ mantém a imagem do pirata personagem praticamente esquecido pelo imaginário da literatura infantil contemporânea. Apesar da trama que estampa um sonhador Luffy, temos a caracterização verossímil de um pirata, não caricata e romantizada como por exemplo, um Capitão Gancho de Peter Pan. ‘One Piece’ talvez tenha oportunamente pego carona na geração que se encantou com o Jack Sparrow vivido por Johnny Deep na franquia hollywoodeana ‘Piratas do Caribe’. Sparrow mais parece um hippie vagabundo que com certeza se assemelhava mais aos piratas que devem ter existido do que com piratas caricatos dos contos de fada. Porém, o primeiro filme protagonizado por Jack Sparrow estreou em 2003. ‘One Piece’ é lido no Japão desde o fim dos anos 90.

‘Neon Genesis Evangelion’ de Yoshiyuki Sadamoto: publicado no Brasil pela Conrad e pela JBC. ‘Neon Genesis Evangelion’ é um titulo bastante badalado e que obteve boa repercussão no ocidente. As obras de ficção científica no Japão sempre tiveram um ‘fraco’ por criaturas gigantescas desde os tempos de Godzilla entre os anos 50 e 60. Uma forma de explorar tremores de terra e maremotos que desde sempre assolam a terra do sol nascente. O gigantesco Ultraman popular por séries tokusatsu inclusive exibidas no Brasil também se enquadra nesta categoria. Animes e filmes envolvendo robôs gigantes é algo mais do que trivial no Japão, pois sua cultura convive pacificamente com alto desenvolvimento tecnológico e robótica. Evangelion pertence a estirpe de Macross e Gundam animes povoados por robôs gigantes denominados mechas (lê-se ‘mécas’) pelos entendidos e espaçonaves futuristas.

Shinji Ikari é um menino tímido que acredita não ser considerado pelo pai, o respeitado dr. Ikari. O velho Ikari é responsável pelo projeto Evangelion e pela organização NERV, que dispõem gigantescas armaduras cibernéticas desenvolvidas para serem pilotadas por humanos. Uma estranha ameaça alienígena chega ao Japão no ano de 2015 onde gigantescas formas de vida denominadas ‘anjos’ surgem e se acomodam esmagando prédios e cidades. Inesperadamente, Shinji é designado para um treinamento cujo objetivo é prepara-lo para servir o projeto Evangelion. Apesar da pouca idade dos protagonistas o tom de Evangelion é de perca da inocência atraindo um publico adolescente mais maduro. O anime de Evangelion é conhecido no Brasil por exibições na tv a cabo e pelos sites de fãs (fansubs) que viabilizavam downloads. Apesar da popularidade o tom adulto de Evangelion não o tornou atrativo às grandes emissoras de tevê aberta brasileiras. Entre crianças, adolescentes e também adultos colecionadores, séries como Evangelion abordam a exploração dos brinquedos licenciados. Não apenas os mangás e os animes são cultuados assim como as miniaturas e figuras de ação que protagonizam a série. O autor Yoshiyuki Sadamoto fundou o respeitado estúdio Gainax, é conhecido também por seus trabalhos no meio das artes gráficas o que inclui a arte da capa do álbum ‘Pilgrim’ (1998) do famoso guitarrista britânico Eric Clapton.

RELEITURINHAS

CONTO ÀS AVESSAS
(Por Carla Kühlewein)

A famosa história do personagem Pinóquio, cujo nariz cresce a cada mentira descabida que conta (e há alguma mentira “cabida”?) pode não ser um típico conto de fadas, com direito a reis, rainhas, sapos, princesas e reino encantado, mas sem dúvida tem ingredientes tais que o tornam clássico. Basta lembrar o trio: fada, grilo falante e boneco de madeira, que fala, dança e tudo o mais.
Um dos fatos que mais marcam essa história é a condição dada pela fada ao boneco de madeira: para que ele virasse um menino de verdade era preciso ouvir sua consciência, representada pelo grilo falante, isso inclui a obediência ao seu criador e pai Gepeto e a frequência à escola regular. A condição é aceita rapidamente por Pinóquio, que logo começa a passar por uma metamorfose: de madeira para um ser humano de verdade. Mas não demora muito para que ele tenda para o descumprimento das “regras” e como consequência veja seu nariz crescer a cada mentira que inventa.
Ao proferir as condições para que Pinóquio alcançasse o que sonhava, a fada parece ter se esquecido de um detalhe importante: a curiosidade. Conforme o boneco de madeira foi se tornando humano, não era só o físico que se lhe alterava, mas também o comportamento, as aptidões, o pensamento... a curiosidade, essa aleivosia tão tipicamente humana.
Esse é o ponto que serve de inspiração para Rubem Alves compor seu PINÓQUIO ÀS AVESSAS. Inconformado com as histórias clássicas que sempre elegem o personagem mais “certinho” como herói e relegam ao artista, ao criativo o castigo e a degradação, ele decide recontar a história de Pinóquio, invertendo a metamorfose: de menino de verdade para madeira. Qual a intenção de Rubem Alves ao fazer essa inversão? A resposta é simples: para dar sentido àquela boa e nova RELEITURINHA: contestar o padrão de comportamento estabelecido no sisudo e moralista conto clássico.
Na versão original os desvios, erros de Pinóquio trazem-lhe consequências de teor punitivo, como nariz crescendo e a ameaça constante de voltar a ser de madeira. Com uma condição assim tão radical para um menino de tão pouca idade e experiência, a fada está mais para bruxa do que para instauradora do bem. Sem falar do tom obsoleto e tradicional que eleva a escola como meio único e absoluto de formação do ser humano (ponto veementemente criticado por Rubem Alves em toda sua produção teórico-literária).
O fato é que, ao inverter a metamorfose de Pinóquio, Alves perverte, reverte, transgride os valores divulgados e cristalizadas pelo conto clássico, mecanismo de que se constituem as RELEITURINHAS de um modo geral.
Para abrilhantar a narrativa ousada de Rubem Alves, as ilustrações foram feitas por ninguém mais ninguém menos do que Mauricio de Souza. Atendendo ao convite do próprio Alves, no início do livro, imaginemos esta história como se fosse um teatro, em que o personagem principal (Felipe) é interpretado pelo “quelido” Cebolinha. Uma mistura assim tão bombástica só poderia resultar num divertido subversivo conto às avessas.
Quem quiser que reconte outra história, porque essa já está de pernas por ar!

Boas RELEITURINHAS!