abril 15, 2014

Artigos - março




LITERATURA INFANTO BRASILEIRA: NAS TRILHAS DA RENOVAÇÃO VII
"Em busca de novas linguagens IV: a metanarrativa"
(Por Leny Fernandes Zulim)

 Aqui estamos para, mais uma vez, conversarmos sobre a literatura infanto-juvenil contemporânea. Este artigo aborda mais uma das múltiplas características que ela nos apresenta: a metanarrativa.

Denomina-se metanarrativa, ou metaficção, ao processo de elaboração da narrativa em que se fala da própria narrativa. Simples assim? Nem tanto. Na prática, a metanarrativa pode ser entendida como uma organização especial do discurso que olha para si mesmo, questionando-a, com uma técnica de construção que obriga o autor a uma preocupação particular com os mecanismos da linguagem e da gramática do texto, levando o leitor a refletir sobre como se dá essa escritura. Isto é: a trama que instiga o leitor à continuidade da leitura é organizada de forma que, em meio a personagens e conflitos, faz com que ele acompanhe, de certa forma, o modus operandi da escritura, ou seja, desvela-se a forma como a narrativa foi construída. Essa estratégia vem de longe, porém apenas mais recentemente tornou-se recorrente na produção literária infanto-juvenil do país.

Um dos melhores exemplos para referendar o que se afirmou sobre a metanarrativa vem de um dos maiores, senão o maior escritor brasileiro de todos os tempos: Machado de Assis (sempre ele), que na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, iniciadora da estética realista no Brasil, dá uma aula de crítica literária e, claro, de metanarrativa. Isso ocorre durante toda a obra em que acompanhamos a vida, a morte e o propósito da personagem narradora para escrever a trama. Mas, vamos nos ater ao rápido Capítulo IX, denominado Transição, para exemplificar.

Nele, com a competência que lhe é própria, Machado ensina pela voz do defunto autor Brás Cubas, como se faz para escrever um bom livro. Ele assim inicia o curto capítulo de que falamos: “E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição desse livro” (p.34). E, depois de lembrar datas de nascimento, juventude, etc. continua (id. ib.): “Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor; nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método”.

            Ora, chamando a atenção do leitor para como se deve trabalhar o tempo no romance, afirma a necessidade de um método, mas não encarcerado e rígido. Na seqüência ele aproveita para “cutucar” os românticos, adeptos de longas descrições e “florilégios” afirmando (id. ib.):

 Na verdade era tempo. Que isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável,, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. “É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha”.

Aí está: o autor abre as portas para que o leitor reflita e aprenda um pouco mais sobre a técnica de escrita da ficção. Belo exemplo para ilustrar o assunto deste artigo. Pois bem, esta é mais uma das fortes características da produção literária contemporânea para crianças e jovens do Brasil: debruçar-se sobre o “mistério” da criação literária, desvendando ao pequeno e jovem leitor, de certa forma, como ele se constrói, foi caminho intensamente percorrido por escritores que, no pós-70, tomaram para si a “missão” de oferecer ao seu público obras de grande qualidade estética. Para citar alguns exemplos: Sangue Fresco e O livro da Berenice, ambos de João Carlos Marinho; O fantástico mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira e Amigos secretos, de Ana Maria Machado, todas, de forma total ou parcial, tratando da metanarrativa.


Amigos Secretos: um livro que se constrói à frente do leitor


É fato comprovado que a literatura de Ana Maria Machado pauta-se pelo testemunho de uma época, tomando partido pela igualdade e pela paz, preocupando-se também com a formação crítica do leitor, o que a faz estreitar o diálogo entre autor e receptor, muitas vezes por meio da metaficção. Em Amigos secretos, mais uma vez se comprova o afirmado acima. O livro em questão é narrado por Pereba, adolescente que expressa suas dificuldades e medos, erros e acertos, compartilhando tudo com o leitor (Zulim: 2011).

A obra vai se construindo ante os olhos do leitor já a partir do primeiro capítulo e assim segue até o último, quando Pereba explica, enfim, o porquê do livro. Ocorre que, ele e os amigos do Clubinho se deparam, depois de uma situação que só se explica pela presença do fantástico, fartamente utilizado na literatura, com personagens de obras clássicas nacionais (como as do Sítio, capitaneadas por Emília) e internacionais (como Tom Sawyer, D. Quixote, Peter Pan e capitão Gancho), para citar alguns. Depois de viverem as mais variadas aventuras, esses “amigos” somem sem deixar rastro. É aí que o pessoal do Clubinho decide pedir auxílio para tentar encontrar esses “amigos secretos.” A estratégia encontrada por eles e contar tudo através de um livro, esperando que os leitores possam ajudá-los. Pereba, Lu e Lorena são inicialmente os indicados para a tarefa por dominarem a escrita. Mas quem dos três? Feito um sorteio Pereba, que é redator do Clubinho, é nomeado para escrever o livro. Mas ele informa, desde o início, que “escrever é uma coisa muito complicada (...). Tem que ser feito sozinho. Quem manda na escrita pode ser o escritor, mas quem manda na leitura é o leitor” ( p.11) provando, já de início, que mereceu ser indicado para escrever o livro.

Outra coisa: Pereba tem consciência de que escrever ficção exige certa técnica e conhecimento, quando afirma:

...a gente ia ter que tomar muito cuidado, disfarçar um pouco, trocar os nossos nomes, mudar umas coisinhas. Como tudo isso é secreto e a gente tem medo de que descubram, é importantíssimo não dar pistas. Quer dizer, se ficarmos dizendo ‘a verdade’ todo mundo pode ver que somos nós... Melhor fazer mais natural, para disfarças (p. 9-10)

E assim, o leitor acompanha o desenrolar da missão de Pereba, e segue conhecendo as aventuras vividas pela turma do clubinho deparando-se com uma quantidade de personagens clássicos já conhecidos. Sobre isso, lê-se em Zulim (2011: 77):

Nesse caso, não só a turma do Clubinho –das quais Lu é o maior exemplo de leitora- entra no mundo da literatura, mas também os leitores, que fazem contato com obras e personagens do espanhol Miguel de Cervantes (através de Dom Quixote e Sancho Pança); do norte-americano Mark Twain (com Tom Sawyer e Huckleberry Finn); do inglês James Matthew (com Peter Pan, Sininho e o Capitão Gancho) e do brasileiro Monteiro Lobato (com os personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo).

   
O leitor que acompanha a “feitura” do livro por Pereba fica sabendo também que, além de um ato solitário, escrever é também um trabalho árduo, que exige paciência, pois é preciso ser refeito, revisto. E, ao final, no último capítulo, Pereba fica de fora, o leitor se depara com a avaliação da turma sobre seu trabalho como escritor (Zulim:2011). E é da Lu uma última sugestão: ela propõe que se alguém leu e tem alguma idéia para ajudar é só escrever para a editora e assim, talvez, a turma possa viver novas aventuras compartilhando-as com seus leitores.


Para finalizar: conforme as obras citadas como exemplo no início deste artigo, a metanarrativa, quando bem elaborada, é um tipo de obra de ficção que tem todos os ingredientes para conquistar o leitor, pois ele é chamado a participar, interagindo com o narrador, o que o faz mais diretamente participante e, de certa forma, mais conhecedor das “ferramentas” necessárias à boa escrita.
Por hoje é isso. Até nosso próximo encontro.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ed. FTD, 1991

BANDEIRA, Pedro. O fantástico mistério de Feiurinha. São Paulo, 4 ed. FTD, 1986.

MACHADO, Ana Maria. Uma vontade louca. São Paulo: Ática, 1998

. __. Amigos secretos. São Paulo; Ática, 2004.

MARINHO, João Carlos. Sangue Fresco. São Paulo, 6 ed.: Global Editora, 1986

___. O livro da Berenice. São Paulo; Global Editora, 1986

ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.