dezembro 18, 2011

Entrevista com Luiz Henrique Budant


LITERATURÊ POZNA£EM (LITERATURA POLONESA)
(Publicada orignalmente em dezembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Nasci em 11 de abril de 1990, em Paranaguá, Paraná. Com sete anos minha família mudou-se para Imbaú, também Paraná. Lá vivi até os 17 anos. Comecei o curso de Direito na UEPG, desisti. Decidi fazer letras-polonês na UFPR.

LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS?
LUIZ - Aprendi a ler com cinco ou seis anos, não me recordo bem. Minha lembrança mais antiga em relação à leitura é a seguinte: estava com meus avós em Itapoá/SC, quando vi uma placa com o anúncio "Capela da Bênção", a qual reagi: "Vó! Olha lá a CÁPELADABÊNÇÃO". Desde então, sempre gostei de ler, às vezes quase compulsivamente. Adorava gibis, em especial os do Tio Patinhas. Depois, não me lembro exatamente quando, ganhei meu primeiro livro: Os Contos dos Irmãos Grimm, numa capa marrom, dura. Mais do que o livros dos Irmãos Grimm, foram os gibis que marcaram toda minha infância. E confesso que ainda os guardo. Depois veio a mitologia clássica, que, à parte seu vocabulário difícil e seus trechos censuráveis (ou talvez por eles mesmos) me fascinavam - a leitura de mitologia me tomou anos, até a oitava série, quando fui obrigado a ler Édipo Rei. Continuo achando uma maldade fazer uma criança ler tal peça, mas, de qualquer forma, foi o que aconteceu. Mais ou menos na mesma época li pela primeira vez O Incidente em Antares. O livro me encantou. Ainda me orgulho de conseguir achar o trecho que quero na edição que tenho.
Outro título que me fascinou, já com 15 ou 16 anos, foi Cem Anos de Solidão. A primeira leitura serviu apenas para causar deslumbramento, a segunda, para causar ainda maior deslumbramento, a terceira, para entender que as aventuras da família Buendía foram escritas porque havia necessidade de um latino-americano escrever algo tão tempestuoso, terrível e maravilhoso.
Depois, já na faculdade, a leitura de Bruno Schulz (na tradução de Henryk Siewierski) me comoveu. Schulz foi o cara que decidiu mitificar a sua infância, recriando em suas páginas sua cidade, mas ao mesmo tempo uma cidade que nunca existiu, onde viveu uma infância que não poderia ter existido, na qual poderíamos "juntar estrelas cadentes na neve".
Acho que minha história com as LEITURINHAS começa assim. E está longe de acabar.

LEITURINHAS - Quais são as LEITURINHAS de sua preferência?
LUIZ - Entre poesia e prosa, prosa. Entre romance e conto, conto. Gosto de ficção e new journalism. Literatura de testemunho, talvez. Meus autores preferidos são Jorge Luís Borges (de longe o que gosto mais), Fernando Pessoa, Bruno Schulz (que o Brasil ainda não teve a felicidade de descobrir), Milorad Paviæ - autor de um livro mágico chamado O Dicionário Khazar -, Günter Grass, Osman Lins, Machado de Assis e Paulo Leminski. Para que figurem nomes femininos na lista: Clarice Lispector e Hanna Kral (autora polonesa, ainda sem tradução). Se pensarmos em um período histórico, toda a literatura polonesa escrita no período entre as duas guerras mundiais me interessa.

LEITURINHAS - Relate um pouco sobre sua viagem recente à Polônia.     
LUIZ - A Polônia fica numa parte da Europa onde a história demora para chegar, demora para partir e da qual muitas pessoas sabem muito pouco. A "outra Europa" (lembremo-nos da expressão usada por Aleksander Jovanoviæ) começa ali - e ela é misteriosa e fascinante.
Esse país de onde tanta gente foi embora e veio fazer uma parte do Brasil, uma parte esbranquiçada, aloirada, meio em desacordo com os trópicos foi a que decidi que estudaria. O país e sua língua. E foi para isso que fiz essa viagem. Para visitar Auschwitz (ou Oœwiêcim), mas também para conhecer um pouco da cultura da Galícia, uma cultura que sumiu traumaticamente. Para ver a lembrança do horror, mas também para andar pelas ruas de Gdañsk (no N da Polônia) e sentir o ar salgado e aquele sol que esquenta, mas não muito. Para ver o casario do tempo da liga hanseática, para ir a Zakopane e caminhar pelas montanhas. Para conhecer a praça do mercado de Cracóvia e ouvir os poloneses reclamando dos pombos - o que eles pensariam da praça Santos Andrade?, eu me perguntava.
Voltei com a certeza de que vale muito a pena o esforço de tirar o véu de "Cristo das Nações" da Polônia e mostrar seu verdadeiro rosto que, sim, tem cicatrizes, mas ainda mantém-se lindo.

LEITURINHAS - Como é dar aula de polonês para brasileiros?
LUIZ - A primeira coisa a se perguntar é "o que te levou a estudar polonês?". A resposta, quase invariavelmente com "meu pai...", "minha mãe...", "meu avô..." ou "minha bisavó...". Convenhamos, o polonês não tem o apelo comercial que um inglês, um espanhol ou um alemão tem. O apelo se dá de outra forma: a língua apela ao sangue.
Aos estudantes causa pavor o sistema de declinações, mas, antes dele, o sistema fonológico da língua, que não poderia ser mais complicado para um falante de português, acostumado às vogais e às sílabas abertas da "Última flor do Lácio". Quem não se assustaria ao se deparar com algo do tipo "W Szczebrzeszynie chrzaszcz brzmi w trzcinie" [em Szczebrzeszyn o besouro canta no ‘mato']?
Vencido o pavor inicial, os alunos acabam por se sentir tremendamente orgulhosos de conseguir pronunciar tantas consoantes e de conseguirem declinar palavras de maneiras tão esdrúxulas. Ensinar polonês é um desafio, um desafio divertido, mas um desafio.

LEITURINHAS - Conte-nos uma de suas "histórias misturadas", daquelas que você gostava de inventar quando era criança.
LUIZ - Na verdade, quem inventava essas histórias era minha mãe, pois eu reclamava que ela sempre contava as mesmas histórias para que eu dormisse... ela passou a misturar! E eu adorava! Não consigo me recordar bem, o que sei é que as personagens se misturavam, por exemplo: a cinderela e a branca de neve se juntaram para fazer um complô contra a madrasta que queria maltratar os três porquinhos. Era assim que funcionava. Perguntei a minha mãe e ela também não consegue se lembrar exatamente de uma história, mas era o que acontecia.

LEITURINHAS - Apresente-nos um texto em polonês que seja de sua autoria.
TRADUÇÃO DO TEXTO - Minha forma preferida de arte é a Literatura. O primeiro livro que me interessou tinha por título "Incidente em Antares" escrito pelo escritor brasileiro Érico Veríssimo. Trata-se de um romance sobre uma greve numa pequena cidade do sul do Brasil, na qual todos os trabalhadores (e até mesmo os coveiros) participaram; mais tarde, contra tal greve e pelo seu direito de serem enterrados, os defuntos da cidade entraram em greve, e como? - marcharam em direção à praça central e decidiram dizer tudo que sabiam sobre o que se passava na cidade. Poder-se-ia resumir o romance em uma frase: "depois da morte, não é preciso ter medo da verdade".
Hoje sei que "Incidente em Antares" não é o melhor livro da literatura brasileira e nem o melhor livro daquele autor, mas foi ele o começo da minha paixão por Literatura.
Tinha, talvez, quinze anos, quando li pela primeira vez "Cem Anos de Solidão", do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, e decidi que estudaria literatura. Mesmo se escrevesse durante cem anos, não conseguiria fazer um resumo desse livro. Há nele uma força tempestuosa, irada, mas também bela, de criação e destruição.
Conheci a literatura polonesa já na universidade, quando tive a disciplina "Introdução à Literatura Polonesa", tendo sido obrigado a ler Gombrowicz e Dorota Mas³owska. Depois, por recomendação de um outro professor, li "Gottland", de Mariusz Szczygie³, "Prawiek i Inne Czasy", de Olga Tokarczuk, e dois livros de Bruno Schulz (porém em português). Além disso, li vários livros da assim chamada literatura eslava. Em especial um escritor sérvio causou-me muito boa impressão: Milorad Paviæ.
O mais curioso livro desse senhor bigodudo chama-se "O Dicionário Khazar". É um romance mágico sobre o destino de um povo, sobre os mecanismos da literatura e, é claro, sobre sonhos, sobre amor: em poucas palavras, é um romance sobre a aventura do ser humano na terra. Vale a pena lê-lo.
Jorge Luís Borges, escritor argentino, escreveu que a maior invenção da humanidade é o livro, e concordo com ele. Se é assim, a literatura deve ser, pois, o mais interessante das ciências; e é assim!

dezembro 04, 2011

NOVEMBRO

ENTREVISTA COM WILL LEITE - LEITURANDO NA WEB
(Entrevista publicada originalmente em novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)




Will Leite é natural de Porecatu/PR, mas há 4 (quatro) anos reside em Apucarana. É graduado em Publicidade e Propaganda e pós-graduado em Design, Cognição e Mídia pela Faculdade Pitágoras de Londrina - PR. É autor do blog Will Tirando (www.willtirando.com.br), onde posta tiras diárias desde 2007. O blog recebe hoje cerca de 20 mil visitas por dia. Em 2011, Will foi convidado a participar do livro MSP Novos 50, a última edição da série MSP 50, em homenagem aos 50 anos de carreira de Maurício de Sousa.

 




LEITURINHAS
- Qual a história das suas leiturinhas? O que você lia quando criança, seja literatura, seja HQ?
WILL - Eu confesso que não era um bom leitor quando criança. Arrependo-me hoje por isso. No entanto era muito observador e curioso. Folheava todos os livros e revistas da minha casa (de enciclopédias a revistas de bordado), procurando por ilustrações. E apreciava-as por horas. Tentava redesenhar algumas.
Minha família nunca teve o costume de comprar revistas de quadrinhos, gibis para mim. Mas lembro que lia a Turma da Mônica sempre quando criança. Lembro também de ler tiras da Mafalda, Calvin e Haroldo, Asterix e Obelix nos livros da escola.

LEITURINHAS - O que te levou a desenvolver a linguagem das HQ's, as ilustrações ou as histórias? Você se considera, além de desenhista, um autor?
WILL - Me considero sim, um autor. Tenho personagens fixos, e conto com leitores fiéis ao blog. Invento histórias, personagens, situações. Considero-me um autor.
O gosto por desenhar foi um bom incentivo ao começar a fazer HQ's e ilustrações.
Outra coisa que me motivou muito foi a facilidade em se publicar na internet. A web me mostrou muita coisa interessante e me deu espaço pra começar e mostrar o que eu fazia também.

LEITURINHAS - Explique-nos como foi todo o processo de recriação dos personagens de Maurício de Souza, que lhe rendeu a menção na última Bienal. De que maneira a obra dele lhe influenciou?
WILL - O processo foi - pelo menos para mim - o mais natural possível. Eu só precisava reinterpretar os personagens da Turma da Mônica no meu traço. A escolha de cada personagem a ser reinterpretado não foi ao acaso. Escolhi os que mais combinavam com meu humor. Mas, claro, não poderia deixar os tradicionais de fora (Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Chico Bento). O enredo das historinhas era livre. Só devíamos tomar cuidado com o fato de aquilo ser, querendo ou não, destinado a crianças.
Sem dúvida, o trabalho do Mauricio tem influência no meu trabalho (e de grande parte dos artistas de quadrinhos nacional). Principalmente nas técnicas para ilustrar a história, expressões, criação de personagem etc.

LEITURINHAS - Quais criadores dos quadrinhos nacionais são importantes para você?
WILL - Eu admiro muita gente. Mas nacionalmente há uma série de artistas que me influenciou bastante. O Mauricio, como já foi dito é um deles. Gosto muito dos ilustradores ‘das antigas', da época do Pasquim: Ziraldo, Jaguar, Millôr, Henfil, Glauco. Mas tem gente que se destaca ainda - e principalmente hoje - que são mestres como Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai, Orlandeli, Allan Sieber. E tem também uma turma nova, que está aparecendo principalmente na internet que admiro muito, como Ricardo Tukomoto, Carlos Ruas, Fábio Coala, André Dahmer etc.

LEITURINHAS - Dentre os quadrinhos norte-americanos, há algum que te influencia? Sejam super-heróis (MARVEL/DC) ou quadrinhos adultos da linha Vertigo?
WILL - Não tive influência de nenhuma dessas linhas, porque nunca fui de ler esse tipo de quadrinho. E até hoje não é o que eu gosto de ler. Eu faço conteúdo principalmente para internet, e tenho maior afinidade àqueles que produzem conteúdo de leitura rápida.

LEITURINHAS - Qual sua visão sobre os quadrinhos europeus e os mangás orientais?
WILL - Prefiro não opinar sobre. Como disse anteriormente, leio muito pouco (quase nada) desse tipo de trabalho.

LEITURINHAS - Quais LEITURINHAS você recomenda para os pequenos e grandes leitores? Sejam quadrinhos, seja literatura?
WILL - No quadrinho, recomendo os clássicos que estamos acostumados a ver na escola mesmo: Turma da Mônica, Mafalda, Calvin e Haroldo etc.
Na literatura, eu tenho uma admiração muito grande pelos contos e crônicas do Luís Fernando Veríssimo. Inspiram-me bastante. Foi lançado recentemente o livro As Cobras - Antologia, do Veríssimo. É uma coletânea com as melhores tiras das Cobras, de autoria dele. Eu gostei bastante!



 KAZUO EM QUADRINHOS

 Iced Earth e a estética das capas de Hq’s
Por Alexandre Kazuo
(Artigo publicado originalmente em novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Há alguns meses mencionei neste espaço os trabalhos do renomado ilustrador Alex Ross em colaboração com a banda novaiorquina Anthrax. Também norte-americana, a banda de heavy metal Iced Earth oriunda da Flórida costumeiramente recorre à estética das ilustrações de HQ’s nas capas de seus álbuns. O Iced Earth foi fundado pelo guitarrista Jon Schaffer e passou a obter grande repercussão na cena heavy metal mundial a partir de meados da década de 90. A grande relação com as HQ’s expressa pela banda se materializou musicalmente no álbum ‘The Dark Saga’ de 1996. Era um disco conceitual em que o tema das letras versava sobre o personagem Spawn do ilustrador Todd McFarlane, também mencionado nesta coluna há algum tempo atrás.

Tanto Schaffer quanto o vocalista Matt Barlow, cunhado do guitarrista e atualmente retirado da cena musical, são colecionadores de HQ’s e fãs declarados de quadrinhos. Em cada faixa de ‘The Dark Saga’ é possível notarmos as letras escritas pela dupla se referindo a passagens ou personagens do universo de Spawn. A segunda faixa ‘I Died For You’ que alterna momentos melodiosos com partes pesadas soa como o lamento de Al Simmons, morto numa conspiração e posteriormente aceitando um pacto com o demônio Malebolgia que concede a Simmons mais uma chance de reencontrar a esposa. A ultrapesada ‘Violate’ representa o demônio Violador que nas HQ’s teria a função de ser um tutor de Al Simmons já tornado Spawn. A levada cadenciada e majestosa de ‘The Hunter’ menciona Angela a caçadora de spawns enviada pelo céu. Vale lembrar que Angela, dotada de um visual que lembra uma valquíria da mitologia nórdica, foi criada por Neil Gaiman (em ‘Sandman’, ‘Stardust’) e os direitos autorais sobre a personagem renderam algumas desagradáveis disputas judiciais entre Todd McFarlane e seu criador. Para arrematar o projeto estético de ‘The Dark Saga’ Jon Schaffer conseguiu cessão da imagem da capa de ‘Spawn’ 50 (no Brasil ‘Spawn’ número 49, da editora Abril) diretamente com Todd McFarlane.

Posteriormente, o Iced Earth recorreu a outro profissional das HQ’s, Greg Capullo que também se notabilizou por trabalhos com o personagem Spawn. Capullo trouxe a ilustração da capa de ‘Something Wicked This Way Comes’, lançado em 1997, álbum até hoje extremamente cultuado pelos fãs de metal tradicional. A capa tinha menções a cultura egípcia, algo tradicional no universo do metal, sobretudo por causa das capas do Iron Maiden. Ali observamos Set Abominae criado por Jon Schaffer, mas que pela primeira vez se personificou através dos traços de Capullo. A partir de então Set Abominae (entre os fãs da banda é também conhecido como ‘The Watcher’ ou ‘o observador’) passou a ser o mascote oficial do Iced Earth. Definitivamente um tributo ao Eddie criado pelo britânico Derek Riggs e que figura em todas as capas do Iron Maiden. Set Abominae se assemelha a um faraó recém-saído da tumba utilizando um cajado que traz o símbolo ankh na ponta, símbolo este que representa a vida na cultura egípcia.

Em outubro se deu o lançamento de ‘Dystopia’, o mais novo álbum do Iced Earth que, é claro, traz Set Abominae estampando a sua capa. A ideia de Jon Schaffer era trazer uma vibração musical semelhante àquela que se ouvira em ‘Something Wicked This Way Comes’, algo que tem sido positivamente aclamado pela imprensa especializada mundial. Recentemente a Voice Music re-lançou no Brasil edições oficiais em cd tanto de ‘Something Wicked This Way Comes’ quanto do mencionado ‘The Dark Saga’. ‘Dystopia’ foi lançado no mercado europeu e norte-americano. No Brasil o álbum será disponibilizado pela Shinigami Records.


RELEITURINHAS

 O DESPERTAR DE ALICE (PARTE II)
Por Carla Kühlewein
(Artigo publicado originalmente em novembro de 2011 em http://www.leiturinhas.com.br/)
               

                Se você se lembra, já ouviu falar ou é fã incondicional da série brasileira Castelo Rá-Tim-Bum, voltada ao público infantil, então já pode se considerar um leitor "antenado" com a temática desse artigo.  De mais a mais, enquanto muito se copia e se plagia nesse país de criatividade e malandragem infinitas, alguns se dedicam à velha e cobiçada arte de fazer Literatura! Flávio de Souza é um desses empenhados artistas. Há anos dedica-se a (re)ler e (re)escrever as particularidades do universo infantil, quer seja com produções cinematográficas, como o já citado Castelo Rá-Tim-Bum, quer seja com livros de Literatura Infantil.
Ator, diretor, figurinista, dramaturgo, sonoplasta, autor, Flávio é um verdadeiro homem das Artes. Na Literatura ele se destaca principalmente pelas RELEITURINHAS de contos de fadas, sempre dinâmicas e recheadas de surpresas. O destaque aqui vai para Chapeuzinho adormecida no país das maravilhas. Mas não era a Alice? Bom... no país de Souza tudo se modifica, então, vejamos mais de perto o que essa RELEITURA traz de novo, de novo!
Pelo título a inversão de papéis já se prenuncia, quem dormirá no país das maravilhas dessa vez não será a loirinha de vestido azul (assim estereotipada pela Disney), mas a eterna insubordinada Chapeuzinho vermelho. Acontece, porém, que a "culpa" (eterna culpa) por essa inversão recai sobre o pai de uma menina, que meio entediado com as velhas histórias, resolve modificá-las "um pouquinho" ao contá-las para a filha. Eis que o que parecia ser no início distração e pura balela, transforma-se em uma divertida e movimentada história, repleta de RELEITURINHAS pra todos os gostos, tipos e tamanhos.
A história da Chapeuzinho, no livro de Souza, se inicia parecida: capinha vermelha, floresta, vovozinha, mas quando a pobre se perde na floresta... aí a coisa muda de figura. Lá ela encontra: os três porquinhos, um lobo bobo e mais uma galera amalucada como ela só. A história toma rumos inesperados, surpreende a cada página, e Flávio, na voz do narrador/pai, acrescenta, modifica, incrementa o quanto pode. Ao ponto de a Chapeuzinho encontrar-se perdida no país das maravilhas ao lado de ninguém mais ninguém menos do queda filha da bruxa (do Mágico de Oz), o sapo (aquele que era príncipe) e o coelho branco (o da Alice mesmo). Os quatro foram até o Mágico de Voz pedir para voltar pra casa e a história termina como não poderia deixar de ser: surpreendente. Mas isso você confere lá no livro. Deixemos o suspense no ar...
No meio de tanta confusão é possível imaginar quantas vozes ecoam direta e indiretamente pelos personagens clássicos que aparecem. Em se tratando de RELEITURAS, é preciso considerar que quando o escritor imprime a uma personagem clássica um novo perfil, aquele (o antigo) não se dissipa, ao contrário, permanece, como uma voz em contratempo, ecoando ao longe, como se lembrasse o leitor de onde o "novo" personagem surgiu e para onde ele tende a voltar.  E haja personagens reinventadas: um Mágico de voz, uma filha da bruxa, uma chapeuzinho que só sabe indagar "É?", um coelho branco estressado que volta e meia resmunga um "Pombas!", gíria antiga, porém, hilária.
Em geral as RELEITURAS para serem assim consideradas e não perderem o caráter cômico, às vezes até irônico, existem por causa da polifonia (jogo das diversas vozes presentes no texto), pois se forem lidas sem as relações clássico/novo perdem na intertextualidade e no efeito impactante que provocam durante a leitura.
Essa multiplicidade de vozes, que ecoam aos milhares, faz emanar os brados de Alices, Chapeuzinhos, Lobos, Coelhos brancos, Bruxas do universo clássico, de outras leituras e do universo imaginário criado por Souza. Tudo isso somado gera um repertório de personagens que saltam das páginas e povoam a imaginação do leitor.
                Flávio de Souza empresta à Literatura Infantil recursos muito interessantes da linguagem cinematográfica, como a cadência gradativa de fatores, interligadas, como se fossem cenas de filme de ação. A história percorre um fio condutor que só se interrompe ao final, com o desenlace de todos os conflitos, ou ao menos parte deles. A narrativa de Souza obedece à lógica do texto dramático à medida que se constrói com base em um conflito central que modula todos os outros. Não é só o desfecho da trama que surpreende, toda ela é feita de um material curiosamente envolvente. Uma mistura deliciosa de aventura e imaginação faz a ponte com comportamentos humanos típicos da atualidade, como a intolerância para raciocínios lentos (coelho branco) ou a postura quase didática da fada (ao perguntar insistentemente "tudo certinho?").
                Afinal, as RELEITURINHAS partem de conceitos cristalizados em obras clássicas para revelar as mesmas personagens, porém com nova roupagem, elaborada a partir de condutas humanas características da época que o autor vivencia. Com vocês, um pouquinho do universo diverso de Flávio de Souza:

A Cidade Preciosa estava mais perto. Mas ainda estava longe. Eles ainda iam ter que andar muito pela estrada invisível para chegar lá. A Chapeuzinho decidiu que ia sentar para descansar de qualquer jeito:
- Eu não aguento mais!
O coelho entrou em pânico:
- Nós não podemos parar! Eu tenho que chegar ao reino de Copas o quanto antes! Eu já estou para lá de atrasado, pombas!
- Mas eu estou muito cansada e com muita fome!
Ao ouvir isso, o coelho até se esqueceu da pressa e disse, olhando firme para a cestinha dela:
- Oba! Você também? Vamos comer o seu lanchinho, boneca?
- Mas é para minha avó!
Sem ligar para o olhar de desprezo do sapo, o coelho já ia atacar a cestinha da Chapeuzinho, quando a bruxa Griselda apareceu, disfarçada de bondosa velhinha, acenando e dizendo:
- Olá! Olá!
O coelho apontou e disse:
- Vejam só, é uma bondosa velhinha!
                O sapo avisou:
- Que nada! É a bruxa Griselda disfarçada!
A bruxa mandou o sapo ficar quieto e disse para a Chapeuzinho:
- Pobrezinha! Você está com fome, linda menina!
- Estou mesmo!
O coelho levantou o braço e agitou, coo um aluno pede licença para sair da classe para ir ao banheiro, e disse:
- eu também estou, dona bondosa velhinha!
O sapo insistiu:
- Não caiam na conversa dela!
A bruxa e o coelho mandaram o sapo ficar quieto, e a bruxa disse para a Chapeuzinho, oferecendo a maçã:
- Que tal comer esta linda e suculenta maçã?
O sapo tentou impedir:
- Não faça isso!
Desta vez a bruxa, o coelho e a Chapeuzinho mandaram o sapo ficar quieto, A Chapeuzinho ia pegar a maçã, mas o coelho foi mais rápido:
- Eu vi primeiro!
A Chapeuzinho gritou de fome e de raiva, e o sapo tentou mais uma vez impedir uma tragédia:
- Não faça isso!
Mas não conseguiu!
(...)

(SOUZA, Flávio de. Chapeuzinho adormecida no país das maravilhas. São Paulo: FTD, 2005.)


Até as próximas RELEITURINHAS!


 

novembro 15, 2011

ENTREVISTA - MARCIA TIBURI

BRINCANDO DE FILOSOFAR

(Entrevista publicada originalmente em outubro/novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Marcia Tiburi é graduada em Filosofia e Artes e mestre e doutora em Filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles Filosofia em Comum (Ed. Record, 2008), Filosofia Brincante (Record, 2010) e Olho de Vidro (Record 2011). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie, colunista da revista Cult.



 
LEITURINHAS – O que você lia durante a sua infância, seja literatura, seja filosofia?
MARCIA – Eu não lia. Eu preferia outras coisas, como andar de bicicleta e brincar com a turma da rua. Só quando eu quebrei o braço, aos 9 anos, é que parei pra ler os contos dos irmãos Grimm e me apaixonei pelas histórias. Depois, aos 10, li Mês de Cães danados do Moacyr Scliar, que foi bem importante pra mim. Mas antes eu não lia nada. Acho legal falar isso porque muita gente acha que pra gostar de ler é preciso começar cedo. Eu comecei aos 9 e, mesmo assim, nunca gostei de ler muita coisa, nunca gostei de histórias para crianças (eu achava as de Grimm algo muito diferente de Monteiro Lobato, por exemplo). Nunca gostei das meras narrativas. Mas é verdade também que nem em casa e nem na escolar eu tive uma educação que incentivasse isso. Aos 13 eu descobri os textos filosóficos e aí enlouqueci de felicidade. Mas foi sempre por minha própria conta que eu descobri os livros, bisbilhotando as bibliotecas. 
LEITURINHAS – Que tipo de leitura você considera interessante para despertar o senso crítico e a reflexão de crianças em idade escolar? Algum clássico da literatura pode ser utilizado como ferramenta neste sentido?
MARCIA – Eu nunca trabalhei com crianças e por isso, tenho, na verdade, apenas o amparo da observação doméstica. Eu vi minha filha crescendo no meio dos livros e gostando de tudo. Ela leu muita coisa boa, pois a Literatura Infantil e de nossos dias é algo incrível! Mas eu continuo achando que não há autor mais maravilhoso do que Lígia Bojunga. Minha filha leu muito a Lígia e suas obras são clássicos da Literatura Infantil brasileira. Com tudo o que há de bom em termos reflexivos e narrativos. 
LEITURINHAS – Uma vez que o livro Filosofia em Comum buscava dialogar com pessoas e áreas externas à Filosofia, fique à vontade para comentá-lo aos nossos leitores.
MARCIA – Eu escrevi livros bem acadêmicos. Ou seja, aqueles livros que só especialistas leem. Eu não me realizava com isso. A minha produção em Filosofia dos últimos tempos é bem mais interdisciplinar, embora o cerne metodológico seja “filosofia”. No Filosofia em Comum eu quis brincar com a questão do método e isso ficou exposto na forma do livro. Ele não é um livro sobre filosofia, muito menos sobre o que as pessoas no mundo acadêmico chamam de “história da filosofia”. Filosofia em Comum é um livro despretensioso, mas ousado, que busca levar pessoas a uma experiência de pensamento dada na escrita, enquanto, ao mesmo tempo, questiona o que significa escrever e ler filosofia. Eu o denominei “dispositivo”, pois acredito que ele leva pessoas a pensarem por conta própria ao entrarem no processo de pensamento que ali está exposto. O que eu acho de mais bacana no livro é esta ideia de que um livro de Filosofia está escrito, mas que, ao ser lido, o leitor se torna também autor no ato mesmo de sua interpretação. Ou seja, há um livro não escrito pelo leitor que é também autor. Esta experiência intangível para os outros é o que há de mais fabuloso na Filosofia. E ela é tão especial e maravilhosa que as pessoas ficam loucas para falar sobre ela. Daí que queremos sempre coletivizar o que pensamos. Mas fazer com que este coletivo se torne filosófico implica democratizar as ideias, implica poder transformar a coisa em diálogo, pois, do contrário, pode simplesmente virar pensamento comum. Eu buscar um pensamento em comum, não um pensamento comum. O limite delicado entre pensar- junto (categoria básica do livro) e o senso comum (que o livro combate) é o grande desafio do Filosofia em Comum. Com esta “filosofia em comum” eu queria mostrar que pensar é sempre algo que se relaciona ao coletivo e pode ser emancipatório, revolucionário, e por isso não pode nunca perder de vista a crítica e a autocrítica.    
LEITUIRNHAS – Já voltado ao público que lê Literatura Infantil, você lançou Filosofia Brincante, apresente-nos essa obra.
MARCIAFilosofia Brincante é filho do Filosofia em Comum. Eu gostaria de dar a base para a experiência de pensamento para quem ainda tem uma relação com a brincadeira. Quis intensificar no livro a relação que as crianças têm com as palavras e os traços enquanto brinquedos, ou seja, objetos de desejo, de descoberta e invenção do mundo. 
LEITURINHAS – Como os adultos podem estimular uma criança a “brincar de pensar”?
MARCIA – O inverso é possível. Muita gente adulta leu o Filosofia Brincante. Eu achei isso muito bom, pois a infância é uma experiência de linguagem, mais do que um estado gnosiológico. Por isso que tantos adultos conseguem escrever para crianças, porque se relacionam à infância como experiência de linguagem. A única coisa que os adultos podem dar às crianças além de amor e cuidado (a responsabilidade que isso implica) é a sua própria experiência de linguagem enquanto adultos, mas ela só é válida quando há autoconsciência do que significa esta diferença e autotematizá-la é algo por demais complexo. Adulto é muitas vezes alguém que esqueceu que um dia foi criança e perdeu assim sua própria experiência enquanto adulto. 
LEITURINHAS – Você tem tido a oportunidade de verificar a receptividade dos leitores de Filosofia Brincante no meio virtual ou pessoalmente?
MARCIA – Claro, tenho participado de feiras e tem sido muito legal. Adoro estar com crianças. Sempre digo que se eu tivesse começado a escrever pra crianças talvez eu tivesse feito só isso pela vida afora.  Mas agora tenho tantos projetos que não vou, infelizmente, conseguir me preparar para isso a esta altura da vida. No entanto, tenho mais um livro infantil que deve sair pela Cosac Naify em breve. 
LEITURINHAS – Quais as suas preferências nas histórias em quadrinhos?
MARCIA – As HQ’s influenciaram algum aspecto de Filosofia Brincante? Eu gosto de quadrinhos, muito, mas eles não influenciaram, acho eu, o Filosofia Brincante. Eu gosto muito dos nossos brasileiros, Fábio Moon, Gabriel Bá e também do Rafael Grampá. 
LEITURINHAS – O que te estimula e influencia a escrever? Fique à vontade para apresentar os romances que formam a “Trilogia Íntima” aos nossos leitores.
MARCIA – Não tem nada que me estimule, eu acho. Eu só escrevo porque gosto muito, preciso e é assim que eu aprendi a viver. Tem épocas que fico muito empolgada com meus ensaios de Filosofia. Neste ano publiquei um estudo no qual investi meus últimos 5 anos, chama-se Olho de Vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem (Record, 2011) e entreguei um romance que comecei a escrever em 1998. Ou seja, antes de todos os meus livros. Este romance será publicado pela Record em 2012. Ele é bem diferente dos livros da Trilogia Íntima porque ele não é experimental como aqueles. É um livro bem mais simples, do ponto de vista formal, mas muito mais complexo, do ponto de vista afetivo.  
LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS você recomenda para os pequenos e grandes leitores?
MARCIA – Eu recomendo que leiam tudo. Leiam muito, leiam o que tiverem vontade. E não tenham preguiça. Tem muito livro legal nas livrarias e bibliotecas. O que eu recomendo é um passeio semanal à biblioteca municipal.

novembro 08, 2011

RELEITURINHAS - Por Carla Kühlewein

O DESPERTAR DE ALICE (PARTE II)

(Publicado originalmente em outubro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

por Carla Kühlewein

Publicada em 1865, por Lewis Carol, ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é um clássico da Literatura Infantil que tem sido revisitado com frequência. Desde sua publicação várias adaptações, readaptações cinematográficas e bibliográficas já foram lançadas. Ora, uma obra que resiste a três séculos e ainda hoje instiga novas criações é certamente digna de atenção. Uma reverência a Lewis Carol e à menina adormecida mais instigante da Literatura Infantil!
No cinema, o livro já teve lançados 15 filmes nos mais diversos formatos, sem contar as séries adaptadas pra TV. A versão cinematográfica mais recente, estreada em 2010, é a do diretor Tim Burton. Com enredo alinhado à versão original, a RELEITURA de Burton devolve Alice ao País das Maravilhas, em plena puberdade. Com a ajuda de numerosos efeitos especiais e uma pitada da excentricidade, característica do cineasta, o filme reaviva o antigo clássico e endossa a tendência contemporânea de se fazer RELEITURAS.
Na Literatura as versões, reversões e inversões de Alice e suas aventuras não cessam, ao contrário, "brotam" aos montes. De alguma forma o universo surreal em que Alice mergulha encanta escritores contemporâneos que têm se dedicado a "deitar e rolar" nesse território ocupado por figuras bizarras como a Gata Risonha, o Chapeleiro Maluco e toda uma "galera" amalucada.
O texto original de Carol apresenta duas partes: ALICE NO FUNDO DO ESPELHO e O QUE ALICE ENCONTROU POR LÁ. Tanto as versões cinematográficas quanto os livros costumam apresentar mesclas dessas duas partes ou referências a esta ou aquela, é o caso de ALICE NO ESPELHO, de Laura Bergallo.
ALICE NO ESPELHO é uma RELEITURINHA do texto original em contexto bem específico: Alice é uma adolescente que, como tantas outras, quer ser magra, magérrima. O desejo vira obsessão, e esta leva à anorexia, assunto delicado, que recebe detalhamento em relação a sintomas e consequências no final do livro, com um apêndice informativo.  
A relação da Alice anoréxica com a de Carol manifesta-se à medida que a garota lembra-se do pai e da história da ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, que ele costumava lhe contar. Conforme surgem complicações na vida da adolescente, ela logo se lembra das diversas maneiras que a Alice fictícia encontrava para se livrar delas, como "fazer de conta", por exemplo.
A trama se segue sempre com a vida conturbada de uma garota magérrima que se acha obesa cada vez que se olha no espelho, faz de tudo para não deixar que os outros percebam que ela fica horas sem comer. Assim se segue num despertar e adormecer constante, repleto de sensações múltiplas, até que Alice tem uma crise, devido ao jejum e abstinência a que se submetia constantemente, e desmaia no chão do próprio quarto.
Assim como a personagem de Carol, a Alice anoréxica ingressa no "país das maravilhas" somente após adormecer. Ou seja, tudo o que acontece de fantástico, neste ou naquele livro, acontece no sonho, na dormência, na sonolência. Pois bem, eis que a garota, então, resolve atravessar o espelho, como na história original, e surpreendetemente consegue! Já "do lado de lá" ela se depara com uma adolescente gordinha e muito simpática chamada ECILA, que nada mais é do que ALICE ao contrário.
                A partir desse momento a trama se desenvolve em uma cadência única. A Alice (do espelho) mergulha em um mundo, fantástico, diferente, onde todas as pessoas passam por uma TRANSFORMAÇÃO que as torna incrivelmente belas, porém iguais. Como na versão de Lewis Carol, essa Alice também se perde e vive aventuras fantásticas, além disso, a cada personagem ou situação nova, ela faz relação com personagens da obra original, ora com a Rainha de copas, ora com o Coelho Branco e assim sucessivamente. 
                Conforme o enredo se desenlaça, a Alice de Bergallo atinge uma série de aprendizados, até compreender e conscientizar-se de que sua obsessão pela magreza a levara a desenvolver sintomas de anorexia.
Vale lembrar que quando ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS foi publicada, ela surgiu como uma obra que oferecia ao público infantil uma dose extra de fantasia e imaginação, destoando dos livros moralizantes e sisudos da época. Mesmo assim, a curiosidade e espontaneidade da personagem parecem apontar para uma menina muito próxima "do real". De fato, a Alice de Carol foi composta com base em uma "menina de verdade", Alice Lidell, sobrinha do autor. Talvez a isso se deva o caráter de veracidade que o comportamento da personagem principal da obra adquire na história.
Já ALICE NO ESPELHO concilia fantasia e questões da vida real. Não é uma obra moralizante, como os contos e fábulas de outrora, mas também não está isenta completamente do caráter educativo de que muitos livros de Literatura Infantil tem se servido atualmente. Da mesma forma a Alice de Bergallo sai do cotidiano para se deparar com um outro mundo, aparentemente estranho e sombrio, mas que na verdade revela semelhanças surpreendentes com a "realidade".
E nesse jogo de ir e vir (da e para a realidade, do e para o sonho), adormecer e despertar, as Alices alcançam os mesmos destinos, ainda que percorram caminhos diferentes, afinal, o que importa não é exatamente ONDE elas chegam mas o percurso que elas trilham até chegar lá.
Se a história de ALICE NO ESPELHO já lhe pareceu uma RELEITURINHA de bom tamanho, espere só para ler as aventuras da CHAPEUZINHO VERMELHO quando ela resolve dar uma "passeadinha" pelo país das maravilhas!
Mas isso já é outra história... que fica para a próxima edição.

Até lá!

novembro 01, 2011

KAZUO EM QUADRINHOS - OUTUBRO


Você se lembra do Piteco?
Por Alexandre Kazuo 

(Publicado originalmente em outubro de 2011 em http://www.leiturinhas.com.br/)


Eu tenho um primo, mais novo dotado de praticamente metade da minha faixa etária (tenho 29 anos). Quando ele ainda era bem pequeno, ainda com dois ou três anos, mas já prestando atenção em personagens de desenhos animados e videogames; eu perguntava a ele se ele "conhecia o Piteco?". A ideia era justamente deixá-lo curioso a respeito de personagens infantis de uma época muito anterior a dele. Citado brevemente a muitas colunas atrás neste espaço do Leiturinhas, o criador Maurício de Souza revelou ter iniciado a sua carreira como autor de HQ's não com personagens infantis, mas sim, com histórias de terror. Era um gênero em alta durante a década de 60 do século XX. Porém ao apresentar um simpático cachorrinho azul ao seu editor, Maurício de Souza se voltou ao público infantil com o Bidu. Essa revelação se deu numa coluna assinada pelo próprio Maurício na revista Wizard magazine, quando a mesma era publicada no Brasil pela editora Globo durante os anos 90. A Wizard é uma publicação norte-americana voltada aos bastidores, autores e mercado das histórias em quadrinhos.

Não apenas as crianças da Turma da Mônica povoavam as histórias, tiras e o universo criado por Maurício de Souza. Piteco era o homem das cavernas em tramas que obviamente se davam na pré-história. Vestido com uma roupa rudimentar, descabelado e barbudo, Piteco geralmente fugia da Thuga, sua pretendente a acasalamento. Tiradas a respeito dos tempos pré-históricos e do início da história da humanidade geralmente eram observadas nas tramas que Maurício dedicava ao Piteco. Ainda nestes tempos primitivos havia o pacato Horácio, um pequeno dinossauro verde. Pacífico, sereno e às vezes existencialista, Horácio contracenava com Lucinda, uma dinossauro fêmea cor de rosa. O conceito das histórias de terror não foi extinto no imaginário de Maurício de Souza que redefiniu personagens mórbidos para o público infantil. Tratava-se da turma do Penadinho o equivalente tupiniquim para o Gasparzinho, "fantasminha camarada" norte-americano. Junto ao Penadinho, tínhamos a Dona Morte, Lobisomem, Frankenstein e a simpática caveira Cranicola.

O pé nas tramas de ficção científica se dava nas histórias do Astronauta, que utilizava um traje azul arredondado e viajava pelos confins do universo numa nave redonda alaranjada. Do espaço também vinha a mais terrível ameaça ao universo da Turma da Mônica, o vilão Capitão Feio, emissário do império Fedegoso. No início dos anos 90, o Capitão Feio chegou a protagonizar inclusive um jogo para o antigo videogame Master System, intitulado Turma da Mônica contra Capitão Feio. A população indígena do Brasil se via caracterizada pelo indiozinho Papa Capim. O sertão e o interior do nosso país se viam reverenciados pelo carismático Chico Bento e a turma da zona rural com Zé Lelé, Zé da Roça e a namorada do Chico, Rosinha. Nos anos 70, quando Pelé se tornou uma marca dotada de extremo potencial de marketing, Maurício de Souza criou o Pelezinho a representar o futebol. Mais recentemente Maurício desenvolveu sua versão para Ronaldinho Gaúcho, que protagoniza algumas revistas recentes.

Hoje em dia há versões adolescentes para as eternas crianças da Turma da Mônica, Magali, Cascão, Cebolinha e da própria Mônica tentando tornar os personagens contemporâneos em relação às crianças e os pré-adolescentes atuais. Mas no passado, Maurício de Souza mantinha um núcleo voltado ao público teen com a bela Tina, que contracenava com o, gente fina, Rolo, Zecão e sua namorada, Pipa. As tramas eram voltadas ao público juvenil com histórias sobre encontros, que davam errado, e o lado bem humorado dos relacionamentos.

A marca Turma da Mônica é licenciada por Maurício de Souza em diversas frentes, como parques temáticos, desenhos animados, brinquedos e, no passado, até jogos de videogame. No fim dos anos 80, especiais para cinema de desenhos animados protagonizados pela Turma da Mônica obtiveram grande repercussão. Maurício é agora relacionado ao âmbito da Literatura Infantil com o lançamento de O Maior Anão do Mundo (ed. Melhoramentos) na última bienal de literatura do Rio de Janeiro, que aconteceu no início de setembro. Maurício ilustra a obra que conta com roteiro de Ziraldo. Maurício de Souza e suas criações merecem figurar nesse espaço pelo pioneirismo nos quadrinhos brasileiros. Um criador persistente, tão "durão"' quanto sua criatura, ou seja, o Piteco!

outubro 16, 2011

OTUBRO - ENTREVISTA BILINGUE!

LEITURINHAS DE LÁ PRA CÁ, DE CÁ PRA LÁ...
(Entrevista publicada originalmente em outubro de 2011 em www. leiturinhas.com.br)


Hallo, ich bin Rafaela van Husen. Ich komme aus Deutschland, genauer aus dem Bundesland Nordrhein-Westfahlen. Ich gehe in die 6. Klasse der Marienschule Xanten, auf der  es  nur Mädchen gibt. Meine Hobbys sind: lesen, spielen, basteln und Vieles mehr. Ich hoffe, euch gefällt mein Interview.Olá, eu sou Rafaela Van Husen.
Olá, eu venho da Alemanha, do estado de Nordhein Westfahlen. Estou no sexto ano do Ensino Fundamental em um Colégio Mariano, na cidade de Xanten. Lá só estudam meninas. Meus hobbies são: ler, brincar, fazer trabalhos artísticos e muitas outras coisas. Eu espero que a minha entrevista agrade a vocês.
LEITURINHAS PRA LÁ E PRA CÁ
LEITURINHAS – Was machst du gerne in deiner Freizeit?
TRADUÇÃO – O que você mais gosta de fazer durante seu tempo livre?
RAFAELA    In meiner Freizeit spiele ich gerne. Lesen gehört natürlich auch dazu.
TRADUÇÃO – No meu tempo livre eu brinco muito. É claro que ler também faz parte.

LEITURINHAS – Aus welchem Grund liest du?
TRADUÇÃO – O que te motiva a ler?
RAFAELA – Mein Vater hat mir immer gesagt, dass man beim Lesen viel lernt. Dies hab ich ausprobiert, und es funktioniert.
TRADUÇÃO – Meu pai sempre disse que se pode aprender muito quando se lê, então eu resolvi experimentar e funcionou.

LEITURINHAS – Was würdest du den Kindern,  die noch nicht gern lesen, sagen?
TRADUÇÃO – O que você diria para as crianças que ainda não descobriram o prazer da leitura?
RAFAELA – Lesen ist sehr wichtig. Denn, würde man nicht lesen, hätte man viele Probleme.  Man muss nicht unbedingt mit einem dicken Buch anfangen. Dünnere sind auch gut. Ein kleiner Tipp: Aller Anfang ist schwer.
TRADUÇÃO – Ler é muito importante. Quem não lê pode ter muitos problemas. Não precisa começar com um livro grosso, os finos também são bons. Uma pequena dica: todo começo é difícil.

LEITURINHAS – Schreib  eine Geschichte,  die du selbst erfunden hast.
TRADUÇÃO – Escreva uma história que você mesma tenha criado.
RAFAELA – Es war einmal ein Mädchen, sie konnte nicht lesen. Genauer gesagt, nicht sehen, sie war blind. Die Eltern gaben ihr nicht Bücher mit einer Schrift, sondern mit Zeichen. Es waren Punkte, auf die sie drüber fassen musste, um die Buchstaben zu erkennen. Sie freute sich so sehr, dass sie anfing, jedes Buch mit Blindenschrift zu lesen.
TRADUÇÃO – Era uma vez uma menina que não podia ler porque não podia ver, ela era cega. Por isso seus pais não davam livros com escrita pra ela, mas com pontos em alto relevo, assim ela podia passar a mão em cima deles e entender o que estava escrito.  Então ela ficou tão feliz que começou a ler livros com escrita para cegos.
LEITURINHAS – Welche Bücher würdest du anderen Kindern empfehlen?
TRADUÇÃO – Quais LEITURINHAS você indicaria para outras crianças?
RAFAELA – Für die Deutschen Kindern könnte ich viel empfehlen. Für die Brasilianischen empfehle ich Monika. Das ist sehr, sehr lustig. Viel Spaβ beim Lesen!
TRADUÇÃO – Para as crianças alemãs eu poderia dar várias dicas. Para as crianças brasileiras eu indico a Turma da Mônica. É muito, muito legal! Divirtam-se com as LEITURINHAS!

outubro 01, 2011

SETEMBRO - ARTIGOS E ENTREVISTA

FADAS PARA SEMPRE
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em agosto de 2011 em www.leiturinhas.com.br)


“Você vive em um conto de fadas”. Essa é uma expressão comum para se caracterizar alguém como sonhador, lunático ou mesmo um pouco... “fora da casinha”. Em verdade todos nós trazemos um conhecimento pequeno, médio ou grande sobre as figuras clássicas dos contos de fadas. A questão é que tais contos estão muito além de uma forma alienada de leitura, pois fazem parte do imaginário coletivo séculos a fio, de lá pra cá, muitos tecidos de diversos tamanhos foram construídos.
Os contos de fada surgiram na Idade Média com versões bem diferentes das que conhecemos hoje: eram voltados para o público adulto, muitos até tinham certa conotação sexual, a Branca de neve estava longe de ser a bela e pura figura feminina que nossos pais e avós revelaram.
Além disso, o enredo dessas histórias era composto por um tom macabro, que tendia, muitas vezes, para a violência e o obscurantismo. O famoso conto de Cinderela, por exemplo, era narrado com detalhes sádicos: como o fato de uma das irmãs da Borralheira cortar os dedos dos pés para conseguir calçar o sapato de cristal.
Até então esses contos eram passados de geração em geração oralmente. Por isso foram adquirindo, com o tempo, diversas versões, já que a cada narrativa algum elemento novo era acrescentado e outro retirado. Um dos primeiros escritores a registrar por escrito as versões desses textos foi o francês Charles Perrault, que ouvia as histórias e adaptava-as ao gosto da corte francesa, retirando-lhes as conotações sexuais e violentas.
No século XIX foi a vez de Jacob e Wilhelm Grimm, os famosos “irmãos Grimm”, adaptarem os contos de fadas, só que com uma intenção diferente da de Perrault, adaptavam pro escrito as histórias que ouviam para as crianças.
Além dos irmãos Grimm e de Perrault, Hans Cristhian Andersen também ficou conhecido pelas adaptações de contos de fadas para crianças, tentando incutir-lhes, sempre que possível, um tom comportamental, moralizante.
A soma das versões adaptadas desses três escritores resulta nas histórias que temos atualmente, em versões mais amenas, com mais requinte e riqueza de detalhes. Bem, de lá pra cá muita coisa mudou... de fio em fio, teceram e desteceram as roupas das fadas, dos príncipes e das princesas, até chegarem aos anti-heróis e às princesas independentes.
As RELEITUIRINHAS convidam você, leitor, leitora, a navegar por mares muitas vezes navegados, porém modificados a cada mergulho. Afinal, mesmo sabendo que fadas não existem, algo nos impele a continuar acreditando nelas. E é melhor parar por aqui... porque uma fada acaba de morrer por conta disso!




 A DESCONSTRUÇÃO DOS CLÁSSICOS
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em setembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)
               
A primeira versão da animação Shrek surpreendeu com a irreverência do enredo e a ousadia das releituras dos contos de fadas. Elevar um ogro ao papel de herói e ridicularizar a figura do príncipe “Encantado” (que nada tem de encanto) são apenas alguns exemplos das sequenciadas DESCONSTRUÇÕES que a Dream Works promove não só nessa como em outras produções cinematográficas.
A DESCONSTRUÇÃO, em termos literários, pode ser compreendida como um recurso estilístico que consiste em atribuir novos significados a personagens, histórias ou conceitos cristalizados como padrões em uma determinada época. Na Literatura Infantil esse fenômeno tem se evidenciado na releitura de histórias clássicas (principalmente das registradas pelos irmãos Grimm, Perrault e Andersen). Afinal, já faz algum tempo que Branca de Neve, Cinderela e toda a trupe andam bem... diferentes.
                Basta lembrar do sucesso do par romântico Fiona e Shrek, enquanto ogros. A trama dos contos de fadas envolvidos é tão DESCONSTRUÍDA que ao final os bons e velhos padrões são rompidos em todas as bases: vitória da feiura e do anti-herói. Surpreendentemente o casal monstruoso cai no gosto popular e passa a ser aclamado como o retrato fiel do relacionamento moderno.
                Não que Shrek seja o inverso absoluto do herói, afinal ele contempla característica positivas, como bondade e bom humor, por exemplo. Mas, há de se concordar que ser: preguiçoso, verde e horrendo definitivamente não é o perfil de herói com o qual uma donzela clássica sonhe.
                Em verdade, o advento do simpático casal de ogros parece ter estimulado o surgimento de outras tantas produções cinematográficas que seguem a mesma linha de construção, como a série de Deu a louca na chapeuzinho (...na cinderela, ...na branca de neve) ou a recente produção da Disney Enrolados, sem mencionar as incontáveis RELEITURINHAS de histórias e personagens clássicas infantis registradas em livros de todo o mundo.
                O mercado editorial infantil tem se mostrado, no Brasil e no mundo, cada vez mais propenso a esse novo formato de história infantil. O número de releituras clássicas preenche a cada dia as prateleiras de bibliotecas e livrarias de todo o planeta, anunciando uma tendência que parece ter chegado para ficar: reformular, readequar, readaptar o antigo. Nada mais propício para uma humanidade que caminha cada vez mais para a reinvenção.    
                Deste momento em diante, o RELEITURINHAS será o espaço para se observar mais de perto as mais variadas desconstruções do universo infantil, principalmente das produções literárias contemporâneas, testemunhas escritas dessa mania tão moderna chamada DESCONSTRUÇÃO.

Em breve as RELEITURINHAS...


Alex Ross: capas de discos e épicos de super-heróis
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em setembro de 2011 em http://www.leiturinhas.com.br/)

Entre o fim do mês de julho e início do mês de agosto, últimos, a imprensa especializada em rock pesado e heavy metal noticiou o fato do guitarrista brasileiro Andréas Kisser do Sepultura ter se juntado à banda norte-americana Anthrax. Kisser iria substituir o guitarrista Scott Ian que teve que se ausentar de alguns shows por problemas familiares. O Anthrax vive um bom momento na cena integrando o festival The Big 4, o qual reúne as quatro maiores bandas do thrash metal dos anos 80, Metallica, Megadeth, Slayer além do próprio Anthrax. Dentre as quatro o Anthrax era a mais irreverente. Scott Ian além de guitarrista é colecionador de histórias em quadrinhos. A canção I Am The Law (inclusa no clássico álbum Among The Living de 1986) se referia ao bordão I Am The Law (traduzindo: ‘eu sou a lei’) vociferado pelo  personagem britânico Juiz Dredd. No Brasil o Juiz Dredd teve poucas publicações e se tornou mais conhecido pela adaptação cinematográfica intitulada simplesmente O Juiz estrelada por Sylvester Stallone, do que pelos quadrinhos em si.

Em setembro o Anthrax estará lançando Worship Music, álbum que em primeiro lugar marca o retorno do vocalista original Joey Belladona após oito anos ausente. Em segundo, marca a terceira colaboração do renomado desenhista Alex Ross numa capa de disco do conjunto. Norte-americano, Ross ganhou reconhecimento mundial durante a década de 90, explodindo no mercado dos quadrinhos com a aclamada e luxuosa série Marvels. Originalmente publicada no Brasil pela Abril, Marvels trazia crônicas do universo Marvel narradas pelo fotografo jornalista Phil Sheldon. Ross apresentava um estilo absurdamente diferenciado dos ilustradores convencionais. Baseava suas criações num estilo vinculado a pintura de retratos e seus desenhos muitas vezes partiam de modelos reais.

Não demorou muito para a DC Comics também contrata-lo e propor a Alex Ross o trabalho que seria a sua resposta a editora rival. No fim dos anos 90, O Reino do Amanhã desenhado por Ross e escrito por Mark Waid obteve repercussão grandiosa e a exemplo de Marvels fora disponibilizada no Brasil pela Editora Abril. A trama de O Reino do Amanhã era um pouco mais ambiciosa e impactante. Em muitos aspectos Mark Waid se deixou influenciar pelo roteiro que Frank Miller concebera a O Cavaleiro das Trevas durante os anos 80. Em O Reino do Amanhã um futuro apocalíptico era vislumbrado. Nele os super-heróis ou ‘meta-humanos’ foram obrigados a se exilarem devido aos perigos que poderiam proporcionar. Os humanos optaram pela decisão após o Coringa ter mudado sua base de operações de Gotham City para Metropolis. O Superman não conseguia contê-lo e muitos anti-heróis surgiam e passaram a perseguir o Coringa que acaba assassinado por Magog. Numa interpretação um pouco mais profunda, Magog representava a onda de anti-heróis violentos que se propagou pelos quadrinhos dos anos 90, tais quais Spawn, Justiceiro e Wolverine. O Reino do Amanhã se dava enquanto um tributo à chamada ‘era de prata’ dos quadrinhos.

Alex Ross posteriormente realizou outros trabalhos para a DC Comics como os luxuosos Superman (Paz Na Terra) e Batman (Guerra contra o Crime), publicados enquanto livros e também disponibilizados no Brasil. Na internet é possível encontrar diversos trabalhos de Ross hoje em dia, inclusive alguns concebidos para o super-herói japonês Ultraman. Atualmente pouca gente se atenta para capas de discos, uma vez que tudo é escutado em arquivos MP3 em ipods ou computadores. O aspecto visual dos quadrinhos sempre manteve uma relação especial com capas de discos de rock.

TRABALHOS DE IMPACTO DESENHADOS POR ALEX ROSS: Marvels (quatro edições, originalmente publicada em 1995 pela editora Abril), O Reino do Amanhã (quatro edições, originalmente publicado em 1997 pela editora Abril).
COLABORAÇÕES DE ALEX ROSS EM CAPAS DE DISCOS DA BANDA ANTHRAX: We’ve Come For All (2003), Music of Mass Destruction (2004), Worship Music (2011).



ENTREVISTA - MARIA THERESA LACERDA
(Publicada originalmente em setembro de 2011 em ww.leiturinhas.com.br)


UMA VIDA ENTRE LIVROS


Meu nome é Maria Thereza Lacerda. Nasci na Lapa, há muuuitos anos e, também, há muuuuitos anos moro em Curitiba. Formação: bibliotecária e professora de francês. Ganhei bolsa para a França na década de 1950. Tive um companheiro francês, por mais de 30 anos. Ele era poeta premiado pela Academia Francesa. Trabalhei na Biblioteca Pública do Paraná e fiz pesquisa histórica na Secretaria Estadual da Cultura. Sou autora de sete livros, mas nenhum para crianças. Utilizo o computador. Tenho como atividade principal a leitura. Gosto de cinema e de trabalhar no computador. Ocasionalmente, faço palestras em centros culturais e sou sócia de academias onde estabeleço contatos culturais.



LEITURINHAS - Qual sua história com as LEITURINHAS dentro da biblioteca?
MARIA THERESA - Como bibliotecária, funcionária da Biblioteca Pública do Paraná fui chefe da secção chamada, na época, INFANTO-JUVENIL nos primeiros anos de criação dessa biblioteca (década de 1950). A censura era rígida, os pequenos leitores não podiam entrar no departamento dos adultos. Havia seleção de títulos, não só para aqueles que seriam acrescentados ao acervo, como também do ponto de vista "moral". Eu tinha um grande entusiasmo em atender essa secção, escolhia os livros, conversava com os leitores. Havia também, aos domingos, um teatro cujos atores eram os leitores. Eu vinha de muita leitura na minha infância e adolescência e gostava, especialmente, de Monteiro Lobato e Mark Twain. Assim, creio, tinha bastante conhecimento para trabalhar nesse setor.

LEITURINHAS - De onde veio seu gosto pelas LEITURINHAS?
MARIA THERESA - Da minha infância, da minha biblioteca particular alimentada pelo Serviço de Reembolso Postal, uma vez que não havia livraria na cidade onde eu morava. Eu morava na Lapa, mas até em Curitiba havia somente uma livraria e nenhuma biblioteca de empréstimo. Meu pai fazia vir muitos livros. Eu e meus irmãos brincávamos, mas líamos muito porque não havia TV. Íamos ao cinema e, no colégio, também fazíamos leituras.

LEITURINHAS - Como você observa a leitura de ontem e a de hoje?
MARIA THERESA - Hoje, sobretudo, não há censura. Vejo também que são os pais, antes de tudo, que criam o hábito de leitura nas crianças. Os interesses também são outros. Contudo, Monteiro Lobato ainda é muito lido.
Há uma espécie de inclinação natural de certas crianças para a leitura e, quando isso acontece, crianças pobres vão às bibliotecas e encontram meios de ler.

LEITURINHAS - Suas LEITURINHAS recomendadas aos pequenos e grandes leitores.
MARIA THERESA - Os livros seriam, basicamente, de ficção, mas também livros científicos adaptados para as crianças. Algumas biografias e livros de História. Para mim, seria, antes de tudo, Monteiro Lobato, Mark Twain, contos de fadas, José Mauro de Vasconcelos. Vejo que há uma grande busca de histórias de vampiros. Confesso-me defasada no conhecimento de novos autores. Há livros eternos, como o Pequeno Príncipe, O Menino do dedo verde e livros de aventuras (no meu tempo, pertenciam à coleção Terramarear).
Acho que, no Brasil, não se ensina poesia e não se faz leitura de poetas. Seria recomendável despertar na criança a noção de versificação, métrica etc.
Existem livros de poesia para crianças, como os de Sidónio Muralha, poeta português que viveu em Curitiba. Enfim, deve-se, sobretudo, conversar e descobrir o interesse do leitor e procurar atendê-lo.