setembro 08, 2012

AGOSTO - Entrevista e artigos


ENTREVISTA COM LAURENT CARDON

(Publicada originalmente em agosto de 2012 em www.leiturinhas.com.br)


Laurent Cardon, francês, radicado em São Paulo desde 1995. Formou-se pela escola de Animação em Gobelins, Paris. Trabalhou com séries e longa metragens na China, Coreia, Espanha, e recentemente no Vietnã como diretor de arte em um estúdio de animação 2 D. Mantém em São Paulo um estúdio de grafismo e animação CITRONVACHE. Além disso, leciona cinema em escolas.
Ele mal começou a trabalhar com Literatura Infantil no Brasil e já ilustrou inúmeros livros. Dentre eles o Um nó na cabeça, que ganhou esse ano (2012) o segundo lugar no prêmio Brasília de Melhor Livro de Literatura Infantil e Juvenil . É o autor de FLOP (PNBE 2012), ARANHA POR UM FIOCALMA CAMALEÃO! e PASSO A SAPO.

Visite o site do autor e conheça mais sobre o trabalho desse ilustrador-autor! 

LEITURINHAS EM MOVIMENTO!

LEITURINHAS – Dentre outros livros infantis, você ilustrou os de Rosa Amanda Strausz A COLEÇÃO DE BRUXAS DE MEU PAI e MAMÃE TROUXE UM LOBO PARA CASA! Comente um pouco sobre essa experiência.
LAURENT – Eu conhecia essas duas histórias anos antes de receber a proposta de ilustrá-las. A própria Rosa tinha me dado esses livros de presente, ilustrados naquela época por Fernando Nunes.
Eu recebi com grande prazer o convite, pela FTD, de ilustrá–los. Foi uma boa sacada a de juntar essas duas histórias em um livro só. Em um, há a relação pai/filhos quando chegam “intrusas” em casa. No outro há a relação mãe/filho quando chega um “intruso” em casa. Tudo isso através do olhar de crianças e um tom levemente cínico, mas bem humorado da Rosa, que eu conheço bem, por ter ilustrado vários livros dela anteriormente.
Fiquei mais animado ainda quando soube que a FTD queria fazer um livro diferenciado, também usando duas capas duplas invertidas, para reforçar essa brincadeira da percepção do mundo da criança em relação a adultos.
Usei cores vivas e uma técnica que lembra a gravura em madeira que eu já tinha desenvolvido em um outro livro meu: CALMA CAMALEÃO!
Dizem que o personagem do lobo parece comigo, pode ser... eu gosto de me disfarçar nos meus desenhos, mas isso fica  entre nós!

LEITURINHAS – Em certa entrevista você afirmou que gostaria de ilustrar novamente o livro UM NÓ NA CABEÇA, também de Rosa Amanda Strausz, o que de fato não só aconteceu como também esse livro acabou de ganhar o prêmio de melhor da Literatura Infantil (2012). Há algum outro trabalho que você também tenha vontade de refazer?
LAURENT – Isso foi uma coincidência incrível. Em uma entrevista para a revista ILUSTRAR, eu comentei que ia adorar reilustrar o primeiro livro que tinha ilustrado (UM NÓ NA CABEÇA). Eu não gostava mais daquelas ilustrações e com os anos, meu traço mudou muito. No dia seguinte, antes mesmo de essa matéria ser publicada, a FTD, que estava relançando todos os livros da Rosa, me contou que eles iam reeditar esse livro que eu tinha ilustrado há mais de dez anos com outras ilustrações, claro. Quando contei o assunto da matéria, eles se surpreenderam que eu tivesse esse desejo, já que nenhum ilustrador costuma reilustrar um livro, e toparam.
Depois de tantos anos, foi um grande prazer reinventar esse mundo de carneirinhos. Foi como uma terapia poder espantar meus “vícios gráficos” da época, como se fossem fantasmas… rs...
Escolhi dessa vez uma técnica mista, sem contorno, com tons menos ácidos  e fundos feitos com massa corrida.
Eu canso muito rápido das minhas ilustrações, sou muito crítico comigo mesmo, e é, sem dúvida, por isso que eu tento buscar novas linguagens a cada livro novo. Agora, cada vez que eu me encontro com uma folha branca pensando como vou começar, sempre me digo “dessa vez vou desestruturar todas as minhas linhas e voltar a usar desenho de criança, ousado, com manchas, riscos, rabiscos, colocar olhos nas orelhas, mãos no lugar dos pés etc... mas  sempre  volto a “reestruturar” meus desenhos, talvez pela obsessão do desenho acadêmico e do “volume”, que engessou minha criatividade durante muito tempo. Sem dúvida, por isso, eu gostaria de reilustrar a maior parte deles!

LEITURINHAS – Seu livro FLOP: A HISTÓRIA DE UM PEIXINHO JAPONÊS NA CHINA foi selecionado pelo PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), na edição 2012 e acaba de ser eleito pela Revista Crescer como um dos melhores livros infantis de 2012. Comente um pouco sobre o processo de criação desse livro e os resultados obtidos a partir dele.
LAURENT - O processo de criação desse livro é um pouco incomum.
Eu morava no Vietnã, em Hochiminh (Saigon) e passeando na frente de uma loja de peixes ornamentais vi que vendiam peixinhos vivos, tatuados com ideogramas chineses. No Vietnã e na Ásia, em geral, o peixe tem um valor simbólico importante. Representa a liberdade, a riqueza, o amor…
Como gosto muito de realizar filmes de ficção, eu não podia perder essa oportunidade. Então escrevi uma história com o objetivo de realizar um curta metragem com uma criança de 8 anos que compra um peixe tatuado, só que a história era bem mais delirante: O peixe, um dia, de tão triste de ficar preso, some do aquário, e o menino percorre as ruas da cidade em busca dele seguindo as pocinhas de água que o peixinho tinha deixado como rastro. Não tive tempo de acabar as filmagens e o filme  morreu aí.
Foi só quando voltei pro Brasil que resolvi desenterrar esse roteiro, para fazer um livro de imagem, adaptando a história, introduzindo um segundo personagem, uma menina, que divide a mesma paixão com seu peixe de estimação ao ponto de não conseguir se comunicar com o mundo... O menino e a menina que se encontram ao final viveram a mesma história, viveram o mesmo sonho, eles entenderam, os dois, que devolvendo a liberdade aos peixes poderiam enfim se encontrar.
Para reforçar essa solidão, e o mundo insípido ao seu redor, usei tons monocromáticos onde só os peixes são coloridos.
O nome do livro ia ser “Flop, a história de um peixinho japonês no Vietnã”, mas aqui no Brasil, o Vietnã só evoca a Guerra. Ninguém ia entender. Então a China, onde morei também, acabou virando a sede da história.
Sinceramente eu nãoo esperava que esse livro fosse encontrar tanto sucesso, apesar de eu gostar bastante dessa história. Quando mostrei o projeto do livro (o boneco), para a Editora Panda books, que tinha perguntado pra mim se eu não tinha uma história na gaveta, para o PNBE, tive que finalizar o livro em 1uma semana para entregar no prazo. Foi tudo muito corrido!
É um livro sobre solidão, amizade e comunicação. Temas que têm assunto tanto em sala de aula, como em discussão entre pais e filhos, é também um livro que tem, eu acho, uma leitura fácil mas com vários níveis de compreensão,  apesar de não ter texto, e que liberta o imaginário da criança.

LEITURINHAS – Você publicou até agora 4 livros de imagens "Calma, camaleão", "Flop - a história de um peixinho japonês na China, “Aranha por um fio” (2012) e está para sair “Passo a sapo”, ambos da coleção sobre funções vitais dos animais. Diante disso percebe-se que você tem procurado desenvolver suas habilidades como ilustrador e autor. Como é a experiência de criar, pensar, um livro todo sozinho?
LAURENT - O Mercado brasileiro não oferece muitos livros de imagem por ora. O que é uma pena. O livro de imagem pode contornar, substituir muitos textos redundantes escritos por autores que são tão descritivos que acabam deixando pouco espaço ao imaginário da criança. E para mim, é um prazer muito grande, quase um jogo, uma diversão mergulhar nessa linguagem visual. Venho da animação e do story board de filme, da linguagem cinematográfica, de forma geral, onde as histórias devem ser, antes de tudo, contadas visualmente, e eu me provoco muito para puxar o limite, tentando buscar até onde uma história pode ser contada sem apoio de texto e de diálogos...
Foi a Eva Furnari, quem primeiro me incentivou a escrever minhas próprias histórias, e devo muito a ela!
Adoro contar histórias e desenho compulsivamente. Muitas elas nascem num canto de mesa de restaurante ou no banheiro (risos), o simples olhar para um objeto que só falta ter vida própria já me inspira. Tenho várias histórias na gaveta e no papel, me sinto numa fase muito criativa.
Estou atualmente finalizando o próximo livro da coleção sobre as funções vitais dos animais VAGALUMICE, para a editora Biruta, e outros livros sobre o tema do Medo para a mesma editora.

LEITURINHAS – Qual é a maior frustração de um ilustrador/autor? E a maior realização?
LAURENT - Do ponto de vista da Criação, seria a angústia na frente da folha branca, ter uma ideia e não saber como a contar e em qual estilo.
E a melhor… entregar no prazo! He! He! He!
Do ponto de vista do Reconhecimento, eu acho que aí todos os ilustradores autores vão concordar, é de ver seu livro ausente nas livrarias, que só será visto se a pessoa souber que existe ou por encomenda. A visibilidade em prateleiras de livros infantis nas livrarias é difícil.  Se o livro não for vendido em programas do governo e for mal distribuído em livraria ele pode morrer aí...
Agora, eu pessoalmente gosto muito de participar da apresentação dos meus livros de uma maneira interativa, desenhando com as crianças, me sinto um mágico no palco... Já tive belas experiências em escolas ou em salões de livros!

LEITURINHAS – Você aprecia a observação do mundo em movimento, como você faz para gravar e posteriormente tentar reproduzir isso em suas ilustrações e animações?
LAURENT - É verdade que estou meio obcecado pela compreensão “mecânica” do mundo em movimento, por deformação do desenho animado, sem dúvida. Eu costumo decompor em 24 imagens os gestos e as emoções das pessoas e dos objetos em movimento, de maneira compulsiva.
Quando se trabalha com ilustração de livro e particularmente em livro de imagem, o ilustrador deve sintetizar para uma atitude só o sentido de uma ação ou de uma expressão. Eu, pessoalmente, rabisco e jogo muito papel fora até conseguir o desenho que conversa mais, e que passa mais vida e emoção, como se para registrar essa atitude, decompondo o movimento de um personagem, em câmera lenta, eu congelasse a imagem que me parece mais adequada.

LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS (livros de imagens, HQs, etc.) você indicaria aos pequenos e grandes leitores?
LAURENT - Eu teria uma biblioteca de livros para indicar, e tenho uma grande lista de livros estrangeiros, que infelizmente não poderia indicar já que não sei se foram traduzidos para o português, particularmente de HQ. Também a literatura infantil cresceu muito no Brasil. Estou certamente passando perto de muita coisa boa.
Alguns que me passam pela cabeça:
Para os pequenininhos, eu gosto muito de NINOCA, da Lucy Cousin.
Um outro livro de grande sucesso (que lamentavelmente não foi um livro de imagem, pois não precisava de texto): DA TOUPEIRA  QUE QUERIA  SABER QUEM TINHA FEITO COCO NA CABEÇA DELA, de Werner Holzwarth.
Um livro de imagem: LADRÃO DE GALINHA, sobre amizade e solidariedade.
PEDRO E A LUA, de Odilon Morais.
Livros do Shel Silverstein  (Cosac Naify).
Livros de Gilles Eduar.
Ä BABAYAGA, de Rebecca Dautremer.
Qualquer livro infantil escrito por Sean taylor (autor inglês residente no Brasil)
Existem duas revistas para crianças TOCA (5 -6 anos) e PETECA (7-8), da editora MAGIA DE LER, que são bem bacanas (estão nas livrarias).
CONTOS DA RUA BROCA, de Pierre Gripari.
MATILDA, de Roal Dahl.
Alguns dos Livros que eu ilustrei:
PROCURA-SE LOBO, de Ana Maria Machado (Editora Ática).
A  GALINHA PRETA, conto russo do século XIX (Editora SM).
HISTORIAS GRECO-ROMANASHISTORIAS ARABES, de Ana Maria Machado.
ESPANTOSO, de Fanny Abramovitch.
Livros de Júio Verne (Editora  FTD).

Mas a lista é interminável!!!!!!!



KAZUO EM QUADRINHOS
(Publicado  originalmente em agosto de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
Batman, simplesmente ressurgiu!
(Por alexandre Kazuo)

Enfim Batman ressurgiu. De forma inédita o diretor Christopher Nolan quis que o morcego ressurgisse a luz do dia. Batman nos quadrinhos é uma lenda urbana que apenas aparece na escuridão da noite. A impressão que se tem é que o material total rodado pela produção de ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ poderia dar vazão não apenas a um, mas a dois filmes. O roteiro do capitulo final de Batman pelo diretor Christopher Nolan sugere um alongamento temporal onde o vilão Bane, absurdamente bem aproveitado neste roteiro, derrota Batman e como um déspota espartano, toma o comando de Gotham City. Observa-se uma brusca mudança de estação, pois Batman ressurge numa manhã eterna de inverno permeado por gelo na metrópole decadente de Gotham.

Como este texto está nesta seção e não na seção Videoteca, obviamente apontaremos as similaridades com os muitos roteiros das histórias em quadrinhos. ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ evoca levemente mais uma vez o ‘Cavaleiro das Trevas’ do aclamado roteirista Frank Miller. Aqueles que já leram a série publicada originalmente nos anos 80 e republicada no fim dos anos 90, pela editora Abril, perceberão o exílio de oito anos por parte de Bruce Wayne (o ator Christian Bale) e a necessidade de forjar a sua própria morte enquanto similaridades com a aclamada série. A presença do monstruoso vilão Bane remeterá os leitores bat-fanáticos a saga ‘A Queda do Morcego’ publicada pela editora Abril durante os anos 90 nos títulos ‘Batman’ e ‘Liga da Justiça & Batman’ aqui no Brasil. Nas HQs Bane lesou de forma extremamente grave a coluna cervical de Bruce Wayne. Nos quadrinhos Batman foi substituído por Jean Paul Valley, o herói Azrael, o anjo vingador da ordem templária de São Dumas. No roteiro de Jonathan Nolan dirigido por Christopher Nolan, a ausência de Wayne/Christian Bale dá margem para a ascensão de John Blake (o ator Joseph Gordon Levitt) que gritantemente cumpre a função de um Robin, nos quadrinhos o discípulo de Batman. Além da possibilidade de observarmos um Bruce Wayne/Christian Bale, manco, exausto e segundo laudos médicos desprovido de cartilagens nos joelhos e nos cotovelos.

Uma outra série ainda publicada pela editora Abril é evocada pelo roteiro de ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’. Trata-se da saga ‘Terremoto’ onde um terremoto descomunal assola Gotham City. No roteiro do mais recente filme não é exatamente um terremoto que assola a cidade, mais sim explosivos plantados em estratégicos pontos de Gotham City, que deixam a cidade ilhada do resto dos Estados Unidos da América. Lembrando que a cidade é descrita enquanto uma megalópole fictícia dentro dos EUA. O roteiro é diferenciado ao terminar a saga afirmando uma ligação das origens de Batman com a Liga das Sombras enunciada no filme ‘Batman Begins’ (2003), intimamente atrelada ao personagem Rah’s Al Ghul que no citado filme foi personificado pelo ator japonês Ken Watanabe (‘O Último Samurai’, ‘Memórias de uma Gueixa’). Temos a presença de Tália, filha de Al Ghul, vivida por Marilion Cotrillard.

Sim, há também a exuberante presença da Mulher Gato, outrora vivida por Michelle Pfeifer (em ‘Batman Returns’ de Tim Burton/1992), agora personificada por Anne Hathaway. Nunca houve uma Mulher Gato tão elegante, sem, de forma alguma, destoar da origem marginal de Selina Kyle (alter ego da personagem). Sensual, bela e graciosa, com um traje que evoca o folclórico traje da Mulher Gato da cômica série dos anos 60, Anne Hathaway herdou a máscara da Mulher Gato originalmente vestida por Pfeiffer de forma digna e inquestionável. Sob o sol de Apolo o deus grego solar, Batman pela primeira vez insurge enquanto um vulto negro numa manhã eterna da mítica Gotham. Este que vos escreve teve os olhos cheios quando o tenente Gordon (Gary Oldman) percebeu um sinalizador que aceso inflamou um morcego de fogo sinalizando que Batman sim ressurgia!

Se virão filmes de Superman ou da Liga da Justiça, ainda não temos plena certeza. Mas que ‘Batman Begins’‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’ e ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ configuram a mais poderosa trilogia cinematográfica dedicada ao personagem, isso este colunista atesta e carimba. Muito, mas muito acima da média!!!

VIDEOTECA
(Publicado originalmente em agosto de 2012 em www.leiturinhas.com.br) 
Ponto de reflexão: filhos da geração tiros em Columbine
(por Alexandre Kazuo)

A pré-estreia do filme ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ nos EUA acabou fustigada por um evento não muito agradável proporcionado por um jovem desequilibrado. Numa sessão exibida em 20 de julho último na cidade de Aurora no Colorado (Texas) James Holmes entrou armado e alvejou pessoas ali presentes num incidente que culminou na morte de doze pessoas. O fato não é único, rapidamente se recorda do massacre de Columbine (também nos EUA) que ocorreu por volta de 1999, quando dois jovens entraram armados numa escola e alvejaram a tiros muitos alunos que li se encontravam. Os brasileiros rapidamente se recordam do massacre de Realengo no Rio de Janeiro ocorrido ano passado onde outro jovem desequilibrado adentrou o recinto e matou crianças a tiro.

Nos EUA geralmente os ‘culpados’ pelos crimes acabavam sendo aquilo que nos anos 80 eram chamados de ‘atentados musicais’ ou ‘atentados culturais’. Ou seja, filmes, músicas feitas por bandas de rock e atualmente jogos de videogame violentos. Podem ter certeza, estes são os menores dos problemas num caso absurdo como os citados no parágrafo acima. O polêmico diretor e cineasta Michael Moore dissecou o fenômeno de forma imparcial e dotado de abordagem jornalística irrepreensível. Isso em seu premiado documentário ‘Tiros em Columbine’ de 2003, em que Moore tentou compreender o que ocorria na cidade de Littleton onde o massacre de Columbine aconteceu. Em pouco mais de duas horas de documentário observamos o óbvio. Não era bullying, nem pais violentos, ‘nem atentados culturais’, nem forças malignas que possuíram os garotos atiradores. Tratava-se da simples acessibilidade a armas de fogo que ali se observava. Littleton abrigava uma das maiores fábricas de artefatos bélicos dos EUA. Moore introduz seu filme abrindo uma conta num banco que dava uma carabina de presente àqueles que realizassem o procedimento. Pouco depois compra munições enquanto corta os cabelos. O barbeiro as vendia em seu estabelecimento.

Antes dos atentados de 11 de setembro de 2001 o ato mais fácil a ser praticado por um cidadão yankee era o de obter uma arma de fogo. Michael Moore também explicita o inconsciente paranoico da cultura norte-americana. Por ser um império poderoso os yankees sempre temeram por sua soberania e isso desde as rusgas com a extinta União Soviética. Mais exatamente Moore identifica a gênese desta paranoia na abolição da escravatura, o homem yankee temia o diferente, o negro, o então ex-escravo. Algo que se intensificou durante o período de segregação racial nos anos 60. Os garotos de Littleton foram supostamente influenciados pelo filme ‘Matrix’ (1999) que trazia Marilyn Manson em sua trilha sonora. Naquela época Manson vivia o ápice de sua popularidade visualmente extravagante e em termos artísticos politicamente incorreto. A mídia e o establishment culparam Manson que incitou a curiosidade de Moore. O cineasta o entrevista nos camarins antes de um show e Manson se mostra alguém lúcido naquela nação de paranoicos. O cantor revela ter ciência de que no dia em que a mídia deu espaço absurdo para o massacre de Columbine (a saber 20/04/1999), os EUA promoviam sua maior ofensiva em Kosovo, no leste europeu. Tratava-se de um momento posterior a dissolução da antiga União Soviética. Manson diz que sua figura era um alvo interessante no momento em que o, na época, presidente Bill Clinton sofria acusações de assédio sexual. Por fim, Moore pergunta a Manson o que ele diria aos garotos assassinos de Littleton. Manson responde instantaneamente que ouviria o que eles tinham a dizer, pois talvez tenha sido o que faltou.

A banda inglesa de heavy metal Judas Priest fora acusada no fim dos anos 80 de ter influenciado um jovem americano de ter se suicidado. No quarto do garoto foi encontrado um LP da banda no toca discos. O processo foi um transtorno e o Judas Priest foi inocentado pela corte norte-americana que observou a banda amparada por seu direito de liberdade de expressão vigente na constituição yankee. Em 1990 a canção ‘A Touch of Evil’ (traduzindo: um toque maligno) do cultuado álbum ‘Painkiller’ expressou de forma plástica a reflexão dos integrantes do Priest. Entrecortavam-se imagens da banda executando a canção, de um homem com uma pá jogando discos num incinerador onde se lia a tarja ‘censurado’. Além das cenas de um menino que era exposto a atrações perigosas de circo como o engolidor de espadas, o homem que cospe fogo e a mulher que doma cobras venenosas. O garoto se mostrava assustado e pouco a vontade enquanto pais e professores aplaudem as atrações.

Temos aí um caso que Batman não resolverá...

LITERATURA E ENSINO
(Publicado originalmente em agosto de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
A ESTRUTURA DOS CONTOS DE ENCANTAMENTO
  (Leny Fernandes Zulim)

Quando falamos a respeito dos contos de encantamento, não podemos deixar de abordar sua estrutura, significação e símbolos. O que nos leva a determinados teóricos que, debruçando-se sobre esse tipo de narrativa com o objetivo de melhor conhecê-lo, acabaram por legar estudos importantes a respeito do assunto.
Iniciemos por um dos primeiros e mais importantes, realizado nas primeiras décadas do século passado: falamos do formalista russo Wladimir Propp que, tomando como objeto de estudo um corpus de mais de quatro centenas dessas narrativas, analisou-lhes profundamente a estrutura, classificando-as a partir das funções desempenhadas pelas personagens. Nesse estudo, denominado Morfologia do conto, o pesquisador elencou trinta e uma funções desempenhadas pelos personagens que se repetiam nas diversas narrativas.  Do modelo estrutural de Propp, Coelho (2000:109/110) extrai cinco invariantes, segundo ela “sempre presentes nos contos em questão.” São elas:
A-     Aspiração ou desígnio: o enredo dos contos de encantamento (sejam eles maravilhosos ou de fadas) apresenta sempre como foco nuclear uma aspiração (desejo próprio) ou desígnio (determinação de alguém) que leva o protagonista à ação. Exemplifiquemos tomando por base o conto Chapeuzinho Vermelho. A conhecida menina da capinha vermelha, por desígnio da mãe, desloca-se para a casa da vovó para levar-lhe uma cesta de doces. Já no caso de Cinderela o que a leva a ir ao baile do príncipe é a aspiração de encontrá-lo.
B-     Afastamento da casa: para poder realizar esse desígnio (ou aspiração) o herói ou protagonista precisa afastar-se de casa. Para isso, empreende uma viagem ou simplesmente desloca-se para um ambiente que lhe é estranho. A título de exemplo, lembremos mais uma vez Chapeuzinho Vermelho Cinderela. A primeira segue para a casa da vovó, tomando um caminho que lhe é estranho (na floresta). A segunda precisa deslocar-se para o palácio. Mais um caso? Pensemos no Patinho Feio de AndersenPara encontrar sua real identidade ele precisa afastar-se de onde está.
C-    O herói precisa vencer desafios e obstáculos para cumprir a missão pretendida. Esses obstáculos e desafios, aparentemente, parecem insuperáveis para o herói. Lembremos Cinderela. Como chegar ao Palácio Real para participar do baile se ela sequer tem um vestido e sapatos apropriados? E que carruagem poderia levá-la até lá? Mais um exemplo? Vamos à Pele de Asno. Como a pequena princesa poderia livrar-se do incesto com o pai? Difícil, quase impossível.
D-    O auxiliar do herói. Ante a quase impossibilidade de cumprir a missão devido aos sérios desafios e obstáculos, esse herói protagonista vai contar com a ajuda de um auxiliar mágico, seja ele natural ou sobrenatural. Esse auxiliar afasta ou neutraliza os perigos e obstáculos, permitindo que a missão chegue a bom termo. Para ficarmos nos exemplos anteriores, lembremos a fada madrinha no caso de Cinderela, que como um auxiliar sobrenatural lhe oferece tudo o que necessita para ir ao baile. No caso de Pele de Asno, uma fiel empregada da casa (um auxiliar natural, portanto) ajuda a princesinha a esconder-se na floresta disfarçada com a terrível e malcheirosa pele do asno.
E-     O herói cumpre sua missão e é recompensado. A estrutura dessas narrativas de caráter maniqueísta segue fielmente o final feliz, com o herói sendo reconhecido e encontrando a felicidade. Felicidade, aliás, que quase sempre termina num casamento com o felizes para sempre. Lembremos Cinderela, A Bela adormecida, etc..

Coelho (2000:110) lembra que: “A essas invariantes básicas correspondem inúmeras variantes, circunstâncias acidentais que tornam cada conto único ou simplesmente diferente dos demais.” Basta lembrar, por exemplo, que tanto A bela Adormecida quanto Branca de Neve são resgatadas à vida pelo beijo do príncipe encantado. Mas as circunstâncias em que isso ocorre diferem de uma para outra.
É bom lembrar ainda que essas invariantes que estruturam o enredo desses contos tão sedutores guardam uma identificação essencial entre elas e as exigências básicas que a vida real faz a cada um de nós. “As personagens nada mais são do que símbolos ou alegorias da grande aventura humana, que cada qual vive a seu modo, ou de acordo com as circunstâncias” afirma Coelho (id. Ib.116). Ou seja, cada um de nós tem sonhos, ideais, desígnios, projetos a serem alcançados; para serem realizados, eles por vezes exigem que enfrentemos um cenário estranho, desconhecido; nessa busca pela realização de ideais e sonhos há que se vencer desafios e obstáculos e, por vezes, contando com o auxílio de mediadores. Por sua vez, a realização de um sonho ou ideal trará, em conseqüência, a busca pela realização de novos ideais e sonhos que se sucedem por toda a vida.  Por hoje ficamos aqui. Em nosso próximo encontro vamos abordar a significação e símbolos nos contos de encantamento. Continuamos à disposição pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.

Bibliografia básica utilizada nesse artigo:
COELHO, Nelly Novas. O conto de Fadas. São Paulo: Ática, 1987
_____. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Ed. Moderna, 2000.
CORSO, Diana e Mário Corso. Fadas no divã. Porto Alegre, Artmed Editora, 2007.
Vilas Boas & Zulim.  Contos de fadas: antigos ou novos, sempre sedutores. In: Máthesis: Revista de Educação. Jandaia do Sul, FAFIJAN, 2003, vol. 4

RELEITURINHAS
(Publicado originalmente em agosto de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
ENTRE A BRUXA E A FADA 
 por Carla Kühlewein
A Literatura Infantil está repleta de exemplares com as figuras da bruxa e da fada associadas ao mal e ao bem, respectivamente. Quando o assunto é RELEITURINHAS então, nem se fale... os exemplos pululam aos montes e parece que a lista está longe de se esgotar. O que não faltam são bruxas maldosas, maquinando as várias possibilidades de macular a boa fama das donzelas de plantão.
No entanto, na contramão dessa tendência óbvia e ululante, surgem obras que abalam as estruturas aparentemente tão bem consolidadas dos contos de fadas, calcadas nos velhos e surrados valores eternizados pelos escritos dos irmãos Grimm e Cia. Bartolomeu Campos de Queirós escreveu uma obra que só pelo título já atesta a veracidade de certas convenções ONDE BRUXA TEM FADA. Se se considerar que as duas figuras, conforme mencionado, representam no meio ficcional o mal e o bem, de fato o óbvio se confirma: o bem não existe sem o mal e vice-versa.
Nessa dicotomia insistente, entre lados opostos que, em verdade, se complementam, Bartolomeu compõem esta obra, com linguagem poética e sensibilidade aguçada, características típicas de toda sua produção literária. O enredo da história é tão surpreende ainda que o título aponte par ao óbvio; a fada Maria do Céu resolve descer á terra para cumprir seu papel, mas esbarra com uma série de dificuldades, incluindo a falta de pedidos, ora, numa realidade nua e crua em que pouco espaço sobra para sonhos e fantasia, é pouco provável que alguém apela para uma fada!
Ainda que as dificuldades de Maria do Céu parecessem intransponíveis, empenhada em realizar os desejos de alguns tantos mortais, ela recorre aos seres dotados de alma mais pura e, portanto, supostamente mais passíveis de sonhar: as crianças, pois como ele mesmo destaca no livro “Menino tem olhos novos e coração descansado”. Bem, ainda que o raciocínio da fada estivesse correto, não foi nada fácil pra ela convencer meninos e meninas a fazerem um pedido... de graça!
Até conseguir convencer um dos meninos a fazer um pedido, a Fada tinha hora e dia marcado pra voltar, mas quando conseguiu o que queria... curiosa como era, decidiu ficar na terra por mais tempo para devolver a esperança ao coração das crianças que encontrasse por lá. E foi ficando, até um dia os políticos do lugar se incomodarem com a presença dela.
Espera aí? Políticos? Sim, da mesma forma que Ruth Rocha, Ana Maria Machado e tantos outros escritores da Literatura Infantil escreveram em períodos ditatoriais, Queirós não fugiu ao rol. Em ONDE TEM BRUXA TEM FADA, ele trata de disseminar suas ideias revolucionárias, ou talvez ate reacionárias, ainda que metaforicamente na figura da fada que distribuía gratuitamente a esperança para quem quer que fosse.
A subversiva fada... os incontinentes políticos... a velha luta entre o bem e o mal! E lá de longe, Bartolomeu avisa, “onde tem bruxa tem fada...”, onde se planta as sementes da ditadura, do veto à liberdade, se colhe a busca pela livre expressão, pela vontade mesma de viver e ser individualmente. Eis uma RELEITURINHA pra lá de incontida, invertida, re-vertida, ais do que re-comendada aos leitores que não se conformam facilmente com as re-edições da vida.
Boas RELEITURINHAS!