ENTREVISTA COM CLEUZA FERNANDES
(Publicada originalmente em maio de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
CLEUZA MARIA DA SILVA FERNANDES nasceu em Marilândia do Sul – PR. Viveu sua infância e adolescência na bela Fazenda São Roque, onde também deu início a sua carreira no magistério, aos 15 anos. Mais tarde cursou Pedagogia, Pós- Graduação em Administração, Supervisão e Orientação Educacional pela UNOPAR – Universidade Norte do Paraná, em Londrina, local onde reside desde 2002. Durante a carreira do magistério atuou na docência, direção escolar e na diretoria administrativa da Secretaria Municipal de Educação de Londrina. No ano de 2012 publicou o seu primeiro livro MENSAGENS PARA AQUECER O CORAÇÃO e em seguida CHAPEUZINHO ROSA CHOQUE, uma homenagem à pureza e à esperteza das crianças, um alerta.
LEITURINHAS DA CHAPEUZINHO
“Tem livros que nos causam um verdadeiro encanto, um enamorar, um querer ´ficar`.”
(Cleuza Fernandes)
LEITURINHAS – Conte um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância até agora.
CLEUZA – Minhas LEITURINHAS foram marcadas por alguns autores, em especial por Cecília Meireles, a primeira autora que me encantou através das suas poesias meninas, como a “Canção dos Tamanquinhos” (troc...troc...), que eu gostava de recitar e estalar a língua, a “Bailarina”, que me fazia sonhar de olhos abertos, me sentindo a própria, a “Língua do Nhém”, que tanto me divertia. Também Vinícius de Moraes com sua “Aquarela”, a “Casa” e outros poetas brasileiros que me acenderam o gosto pela poesia. Mas nem só a poesia alimentou meu mundo encantado. Monteiro Lobato me apresentou o Minotauro, foi quando me apaixonei pela Mitologia Grega, seus heróis e suas histórias fascinantes. Depois vieram os contos dos Irmãos Grimm, os romances de José de Alencar, e Berjavel, os pensamentos e reflexões de Roberto Shinyashiki, as crônicas de Rubem Alves e a leitura do livro dos Salmos, Eclesiastes e Sabedoria, que aprecio bastante.
LEITURINHAS – Recentemente você lançou o livro CHAPEUZINHO ROSA CHOQUE. Comente um pouco sobre o processo de criação dessa obra.
CLEUZA – O processo se criação da Chapeuzinho se deu de uma forma bem natural, podemos dizer até que uma coincidência. A ideia surgiu quando eu desenvolvia um projeto sobre Chapeuzinho Vermelho com meus alunos, ao mesmo tempo em que circulava na mídia notícias sobre o desaparecimento de crianças no Paraná. Percebendo a semelhança nos casos, resolvi aproveitar o projeto e inserir no conteúdo algumas medidas preventivas quanto à segurança das crianças. No ano seguinte comecei a imaginar um texto para dar sentido às dicas de segurança, mas de uma forma lúdica e reflexiva. Nasceu então a “Chapeuzinho Rosa Choque: em quem ama não descuida”. Vale lembrar que hoje uma grande maioria das crianças são tratadas pelos pais e a sociedade em si como pequenos adultos, pois são muito espertas, tem facilidade em lidar com as novas tecnologias, participam das conversas dos adultos, assistem toda programação da TV sem restrições e têm uso desregrado da internet. Tudo isso acaba causando um excesso de confiabilidade dos pais em relação às crianças e, por consequência, expondo- as a riscos por muitas vezes camuflados por detrás das falsas aparências, dos lobos em forma de cordeiros. Chapeuzinho Rosa Choque vem mostrar que não basta ser uma criança esperta, mas consciente, e esse é papel de todos nós.
LEITURINHAS – Como você tem percebido a recepção dos leitores de CAHPEUZINHO ROSA CHOQUE?
Ao ler Chapeuzinho Rosa Choque os leitores identificam de imediato a mensagem contida nos “Mandamentos da Criança Esperta” porque os pais, em sua maioria, já vêm trabalhando esses quesitos com eles. É a oportunidade de confirmar o aprendizado trazido de casa e de se reconhecer na Chapeuzinho a menina esperta, e na professora a verdadeira da história.
LEITURINHAS – Seu livro tem a versão on-line disponível na internet, como você avalia a leitura de um livro no ambiente virtual e no impresso?
CLEUZA – Leitura é leitura e é válida nas duas versões. Há quem prefira a on-line, mas, a leitura impressa é a oportunidade que o leitor tem de manter um contato físico com o livro e livros devem ser manuseados, lidos com os olhos, com os dedos, precisam ser sentidos. Gostoso mesmo é estar em uma biblioteca ou livraria e poder pegar nos livros, folhear, admirar as ilustrações, ler o resumo e, por fim, escolher aquele que nos cativar, é muito bom! Tem livros que nos causam um verdadeiro encanto, um enamorar, um querer “ficar”. Só podemos encontrá-los se estiverem impressos, pois, livro impresso é livro vivo.
LEITURINHAS – Há mais livros seus a serem publicados futuramente? Comente um pouco sobre esses projetos.
CLEUZA - Sim, tenho alguns livros para serem publicados e são infantis. Estou trabalhando nos projetos e ainda nesse ano pretendo publicar um livro, pelo menos um, na verdade um “cutuco”, que vem questionar sua identidade, afinal... Quem é você? Aguardem!
LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS, além de seus livros, você indicaria para os pequenos e grandes leitores?
CLEUZA – Eu indico para aos leitores de toda idade uma visita regular a uma livraria. Existe uma diversidade imensa de livros, de autores consagrados e novos autores a serem conhecidos, de histórias para serem lidas. Uma livraria é como se fosse um mundo encantado. Você literalmente viaja e quem ainda não viveu isso deveria ler CORAÇÃO DE TINTA, uma deliciosa aventura de Cornelia Funke, em que os personagens do livro ganham vida e se envolvem na trama a medida que a história é lida em voz alta. Fantástico!
Os clássicos da literatura que vêm passando por diversas adaptações com temáticas atualizadas. Vale a pena conferir!
Para a criançada que gosta de poesia: OU ISTO OU AQUILO?, de Cecília Meireles e para quem gosta de parlendas, adivinhações e trava línguas: QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA, da Editora Caramelo.
Para despertar o valor das amizades: O PEQUENO PRÍNCIPE, de Antoine Saint-Exupéry.
Para os adultos indico meus livros prediletos:
Romance: AS DAMAS DA LICORNE, de Berjavel, A CASA DAS ORQUÍDEAS, de Lucinda Rylei;
Crônicas: O RETORNO É TERNO, de Rubem Alves;
Autoajuda: A CARÍCIA ESSENCIAL, de Roberto Shiniashik e tem ainda os caçulinhas recém lançados para quem não conhece TRIIM, das professoras Kika e Deka, e o COLCHÃOZINHO O INCOMODADO, de Kadu Sachelli, autor mirim de Apucarana. Aposto que vão gostar!
LEITURINHAS – Como é possível que as escolas entrem em contato com você para receber uma visita sua e efetuar uma tarde/noite de autógrafos ou mesmo uma palestra?
CLEUZA – Caso alguém se interesse poderá me encontrar pelo e-mail: cleuza.masif@hotmail.com. Obrigada!
HAVERÁ TEMAS ESPECÍFICOS PARA A POESIA INFANTIL?
(Série: A ação formadora da poesia infantil)
Por Márcia Hávila Mocci
(Publicado originalmente em maio de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
A poesia infantil de elevado valor literário e estético busca, além do trabalho artístico com a linguagem, temáticas que correspondam aos interesses dos pequenos leitores. Os poemas que falam da vivência infantil propiciam uma identificação imediata com a criança, pois a esta apraz tudo o que se relaciona as suas experiências. Roseana Murray, com apurada sensibilidade, explora o jogo do faz-de-conta que desperta a imaginação do leitor e com o qual toda criança gosta de brincar.
O pirata
Roseana Murray
O menino brinca de pirata
Sua espada é de ouro
E sua roupa de prata.
Atravessa os sete mares
Em busca do grande tesouro.
Seu navio tem setecentas velas de pano
E é o terror do oceano.
Mas o tempo passa e ele se cansa
De ser pirata.
E vira outra vez menino.
A presença de personagens infantis na poesia, de acordo com Zilberman (2005, p.129), é um fator relevante e cumpre o papel destinado ao texto literário a que Candido (1972) chama de função humanizadora da literatura, pois, ao se ver retratada no texto, a criança passa a compreender e analisar algumas situações conflitivas que também são vivenciadas por ela, e o texto literário aponta-lhe, através da experiência das personagens, maneiras de resolver seus próprios dilemas.
A menininha
Sérgio Capparelli
Era uma vez
Uma menininha
Que por não ter par.
Dançava sozinha.
..................................
Essa menina
gostava de danças,
Mas só dançava
com suas lembranças.
..............................
A criança aprecia poemas e histórias que falem sobre a natureza e que tenham animais como protagonistas, pois seu apreço por eles é notório. Zilberman (2005), argumenta que os bichos são apropriados à literatura infantil, pois algumas de suas características tornam possível uma simbologia com a própria criança. A presença dos animais também significa uma tentativa de, através da identificação, aproximar o leitor do texto literário. Muitos autores, cientes dessa empatia, apropriam-se do tema incorporando-o aos títulos das obras: A televisão da bicharada e A dança dos pica-paus, de Sidônio Muralha, Boi da cara preta de Sérgio Capparelli e A arca de Noé, de Vinícius de Moraes, são alguns exemplos.
O buraco do tatu
Sérgio Capparelli
O tatu cava um buraco
À procura de uma lebre,
Quando sai pra se coçar,
Já estáem Porto Alegre.
O tatu cava um buraco,
E fura a terra com gana,
Quando sai pra respirar,
Já está em Copacabana.
...........................................
O uso de animais sempre esteve presente na temática infantil. Para a escritora espanhola Teresa Colomer (2001), uma explicação possível para o fato é que a figura do animal cria uma certa distância entre a criança e uma história transgressora de normas sociais ou muito dura afetivamente, como aquelas em que aparece a morte. Portanto, “la excitación producida por la vulneración de las normas de conducta será menor si los actores no son humanos”. (COLOMER, 2001, p. 11)
Um dos animais mais utilizados nos poemas infantis é o pato e o motivo, além dos já citados, é o fato do vocábulo propiciar o uso de aliterações, facilitando a composição dos versos. Muitas vezes, os animais não se portam de acordo com modelos pré-determinados e apresentam comportamento transgressor, até mesmo inconsequente, como o “Pato pateta” de Vinícius de Moraes que, movido pela curiosidade e atrevimento, realiza mil travessuras tornando-se protagonista de cenas cômicas e inusitadas.
O pato
Vinícius de Moraes
Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o pato
Para ver o que é que há
O pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De genipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela.
Se pensarmos em temas “apropriados” para a poesia infantil, deparamo-nos com uma questão polêmica: haverá temas específicos, ou “ mais adequados” para a criança? É muito difícil dizer que este assunto e não aquele pode ser apreendido poeticamente pela criança, uma vez que “a criação de uma sensibilidade para a arte e para a criação em geral independe dos ‘temas’ por ela veiculados” (AVERBUCK, 1982, p. 70). A partir do que, podemos inferir que não é o “que” se fala, mas o “como” se fala que confere literariedade e beleza à poesia; é o trabalho artístico com a linguagem que faz um texto poético ou não.
Temas abstratos e de teor filosófico como a morte, o questionamento da identidade, a transitoriedade das coisas e do tempo também podem ser abordados pela poesia infantil, porém, ao fazê-lo é preciso que haja sensibilidade e sutileza por parte do poeta. Em O vestido de Laura, Cecília Meireles questiona a efemeridade das coisas devido à mudança permanente dos seres. Por meio das imagens, a criança visualiza um vestido cheio de flores, aves e estrelas, que se desmanchará se “não formos depressa”:
O vestido de Laura
Cecília Meireles
O vestido de Laura
É de três babados,
Todos bordados.
O primeiro, todinho,
Todinho de flores
De muitas cores.
No segundo, apenas
Borboletas voando,
Num fino bando.
O terceiro, estrelas,
Estrelas de renda
talvez de lenda...
O vestido de Laura
Vamos ver agora,
Sem mais demora!
Que as estrelas passam,
Borboletas, flores
Perdem suas cores.
Se não formos depressa,
Acabou-se o vestido
Todo bordado e florido!
REFERÊNCIAS
AVERBUCK, Lígia Morrone. A poesia e a escola. In: ZILBERMAN, Regina. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. Ciência e cultura. São Paulo, SBPC, 24 (9), setembro/1972.
COLOMER, Teresa. Lectura y vida Revista Latinoamericana de lectura. Coden Lviddg, ISSN 0325/8637, 2001.
ZILBERMAN, Regina. E para a poesia não vai nada? In: __________ Como e por que ler a Literatura Infantil Brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
ROMANCE NA FAZENDA
(por Deusiane de Andrade)
(Publicado originalmente em maio de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Vinte de novembro, primeira vez que te vi... menina levada com meus 15 anos, estava fugindo das broncas da minha mãe através da floresta escura às sete horas da noite. Era aniversário do meu avô, o dono da fazenda onde eu morava, e eu tinha acabado de destroçar o bolo dele... me embrenhei mata adentro, e estranhamente comecei a seguir o som de batuques que eu ouvia, cada vez mais próximos e intensos. Ao chegar à clareira vi uma grande fogueira acesa, com pessoas de pele avermelhada em ciranda, cantando e dançando em sincronia. Estavam com poucas vestimentas e aparentemente com a face pintada de carmim, fazendo estender de forma mágica um brilho escarlate pelo céu e ao redor daquele círculo. Havia pequeninas casas em volta, na época eu chamava de triângulos, depois soube que eram ocas da tribo que viviam perto da fazenda. Subitamente, ele entrou em minha frente, fazendo com que eu caísse de susto na grama molhada, e ele, com toda calma e suavidade, me segurou para que eu levantasse. Olhos negros de uma serenidade profunda, pele morena, um cabelo muito liso que descia até seus ombros fortes... perto dele me sentia ao mesmo tempo segura e curiosa para conhecer mais a respeito de sua história, seus costumes, tudo o que quisesse me contar sobre sua vida. Porém, o barulho cessou naquele instante, e todos daquela grande roda se voltaram para nós, com gritos fortes e olhares reprovadores. Meu pavor foi tão grande naquela hora que pensei: vou correr pelo mesmo caminho que eu vim. Quando me virei, trombei de frente com meu pai, que me segurou aliviado e ao mesmo tempo irado com o que eu tinha feito. Ele conversou um pouco com o chefe da tribo e o rapaz que segurou minha mão, e depois me puxou pelo braço fortemente, explicando que não podemos ultrapassar os limites da fazenda, ali era a terra dos indígenas. O castigo que levei foi doloroso, visto que aprontei duas vezes, mas apesar disso, a noite toda fiquei pensando na sensação que tive ao olhar aquele jovem índio, e senti-lo me levantando do chão. No dia seguinte pela manhã, soube por minha avó que papai e o cacique fizeram o acordo pacífico de ambos prestarem serviços uns aos outros, e um dos que iriam trabalhar na lavoura seria o rapaz por quem inocentemente eu tinha me apaixonado. Todos os dias eu passeava de cavalo perto de onde ele ficava, e começamos a conversar, de longe, para que ninguém nos impedisse. Passado alguns meses, meu avô, junto com o cacique, promoveram uma espécie de festa na fazenda, o dia em que minha vida mudou para sempre. Enquanto todos se distraíam com a dança, ele me puxou pela mão e me levou embaixo de um pessegueiro que ficava atrás de casa. Foi ali que demos nosso primeiro beijo, selamos para sempre algo que nunca acabaria, custasse o que custasse. Momentos depois nos surpreenderam e houve muito alvoroço por parte de minha família e dos indígenas. Meu pai me trancou no quarto e disse que eu ficaria lá durante o dia todo. Pela manhã, acordei com uma das empregadas que me trouxe um bilhete do meu amado: “Te espero amanhã às 10 da noite em meu cavalo em frente a sua janela. Lembra que você tinha me falado que fugiríamos um dia para casa de sua madrinha na cidade se tudo desse errado? Esse será o nosso dia!”. Estava tudo combinado, e eu sentia uma coragem imensa que eu não sabia dizer de onde vinha. O dia passou lentamente, mas por fim chegou o momento em que saí com todo cuidado da janela até o cavalo onde ele estava me esperando. Foi demorada a trajetória, passamos frio, fome, sede, um cansaço imenso, até que chegamos à beira da estrada e partimos de carona com um conhecido dele até a cidade de minha madrinha. Vivemos escondidos lá sem que ninguém nos encontrasse por cinco anos, e quando nos acharam já estávamos casados. Fomos acolhidos de volta à fazenda e bem recebidos, com muita festa e dança, e finalmente nosso filho pôde conhecer a mistura de duas culturas e etnias da qual ele faz parte, e foi respeitando e se apaixonando cada vez mais pela diversidade que ele se tornou um famoso e renomado antropólogo e lutador dos direitos dos povos indígenas.
ANGELA: A VÊNUS DE MILO DE NEIL GAIMAN?
(Por Alexandre Kazuo)
(Publicado originalmente em maio de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Embora a questão Miracleman tenha sido resolvida pela justiça americana, algo que há mais de dez anos colocou Neil Gaiman e Todd McFarlane em condições opostas num tribunal, outras ‘pendengas’ ainda restavam. Como afirmamos aqui anteriormente, Neil e Todd brigavam pelos direitos autorais do personagem britânico Miracleman. Todd abandonou a disputa no decorrer de 2012. Entre as disputas remanescentes envolvendo Gaiman e McFarlane estão os direitos autorais de Angela, a caçadora de spawns que antagonizava com o Spawn de McFarlane. A personagem foi utilizada trivialmente nas series regulares do título Spawn. Porém seus momentos mais chamativos são sem dúvida aqueles em que ela apareceu pelas primeiras vezes, conduzida por seu criador, Neil Gaiman.
Como também já abordamos anteriormente nesta coluna, a primeira aparição de Angela, se deu no Brasil em Spawn número 9 (série original ed. Abril). As consequências do confronto que acontece entre o misto de amazona/valquira e o soldado do inferno prossegue na minissérie em 3 edições “Angela” (também editora Abril). Tudo devidamente escrito por Neil Gaiman. Se Spawn é treinado para ser o líder das tropas infernais no dia do juizo final, o céu também tem uma contraparte. Angela é um anjo caçador de spawns. O primeiro número de sua minissérie nos apresenta a mesma caçando um dragão no dia de seu aniversário de cem mil anos. Após vencer o monstro, Angela é abordada por Surielle e uma horda de 333000 mil anjos. É detida sob acusação de traição. Os Elísios se veem compostos por anjos que são todas mulheres, desenhadas de forma que atenda os anseios do público masculino pelo ótimo Greg Capullo. Gaiman designa o céu enquanto uma grande corporação cujas entrelinhas podem apresentar disputas entre as vaidades tipicamente femininas daquelas que a compõem.
O confronto de Angela e Spawn em “Spawn” número 9 é tomado enquanto estopim da suposta traição de Angela. Na Terra, Gabrielle é a representante dos Elisios que concede as habilitações de caça a spawns. Angela não se entende muito bem com a representante e inclusive, transgride se puder as normas de captura a soldados do inferno. As amigas de Angela rapidamente percebem o complô e têm a brilhante ideia de levar... Spawn como testemunha do julgamento de Angela nos Elisios!
Versatilidade
Não é nem de longe um dos melhores momentos da carreira de Neil Gaiman, que dificilmente é visto conduzindo super-heróis ou anti-herois em revistas regulares convencionais. É até estranho ver seus roteiros amarrados pelas fórmulas e clichês do gênero. Angela lembra algo como a amazona Xena da série “Xena a princesa guerreira” ou a guerreira “Red Sonja” vivida por Brigitte Nielsen nos anos 80 contracenando com Arnold Schwarzenegger. Até um affair carnal entre Angela e Spawn é sugerido quando ambos fogem para dentro da capa do anti-herói. Algo aliás bem explorado por Gaiman, pois a capa do Spawn pode servir de abrigo extradimensional numa situação de perigo. Num todo vale o caráter raro das citadas edições onde vemos mais uma demonstração da capacidade absurdamente eclética de Neil Gaiman. Sem medo de se apresentar ao que poderia se dizer ‘populacho’. E Angela é a heroína pin up dentre as criações de Gaiman, que não deve nada a Vampira e Psylocke (X-Men) ou Elektra (namorada do Demolidor).
A disputa pelos direitos autorais de Angela se viu sanada em acordo extra-judicial entre os envovidos há pouco mais de um ano atrás. Gaiman também reivindicava os direitos referentes aos personagens Cagliostro e Medieval Spawn que apareceram pela primeira vez na edição 9 de “Spawn”. Além disso, havia o suposto plagio de um roteiro feito por Gaiman e recusado por McFarlane, mas que acabou transparecendo na edição 26 de “Spawn”. Gaiman deveria ter recebido algo já em 2004 não pago por McFarlane na ocasião. Os valores não foram divulgados.
Em tempo:
- Há alguns anos atrás, Neil Gaiman foi contratado pela DC Comics para escrever títulos do Batman. Há uma previsão de relançamento em formato encadernado dessas histórias ainda para este primeiro semestre de 2013, pela Panini, segundo a revista Mundo dos Super-Heróis. Em alguns aspectos a junção Gaiman/Batman soa até insólita, uma vez que o personagem carrega uma característica demasiado urbana. Diga-se de passagem, muito bem explorada por Frank Miller que elevou o status de Batman àquele que ele possui hoje.
- Fora das HQ’s, os fãs de Gaiman seguem a espera do lançamento do romance “The Ocean at The end of the Lane”, ainda sem título em português.
- Os sites especializados em HQ’s, tanto brasileiros quanto yankees cogitam uma possível morte de Wolverine nos próximos números do título do personagem nos EUA. Supostamente Logan teria problemas com o fator de cura, algo que culminaria em sua morte. Na segunda metade dos anos 90, Wolverine esteve a beira do fim quando Magneto extraiu o adamantium de seu corpo em evento visto no número 2 do título “X-Men Gigante” ainda pela editora Abril. Os fãs de Logan aguardam o lançamento de “Wolverine – Imortal”, segunda incursão solo do personagem nos cinemas que estreia no fim deste semestre.
- Ainda sobre filmes da Marvel, “Homem de Ferro 3” estreiou no finzinho do último mês.
HISTÓRIA DA LITERATURA INFANTO FASE III: PARA ALÉM DE LOBATO
(Por Leny Fernandes Zulim)
(Publicado originalmente em maio de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
1-Uma rápida introdução: 1945-1970
Nos idos de 1945 do século passado o Brasil saía de uma guerra (a segunda guerra mundial) e de uma ditadura (a de Getúlio Vargas), alinhando-se à política norte-americana na filosofia capitalista e contra a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, com armas nucleares de ambas prontas a serem disparadas, o que deixava o mundo em suspense, esperando uma aniquilação total do planeta.
Em 1955 um novo governo, desta feita eleito pelo povo, com a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira e o plano de metas “cinqUenta anos em cinco”. Modernizando o país, JK implementou a indústria, de forma especial a automobilística, construiu Brasília, mudando a capital para o cerrado e aumentou visivelmente a dívida externa brasileira.
Em 1960 Janio Quadros é eleito para presidente da república, mas alguns meses após a posse ele renuncia em meio a uma grave crise política e institucional, que poderia levar o país ao caos (e de certa forma levou). Por respeito à Constituição, homens públicos e as forças armadas garantiram a posse do vice-presidente, João Goulart, que não era bem visto por setores da sociedade devido às suas convicções políticas e à sua forma de governar, bastante populista. Goulart acaba por ser deposto poucos meses depois em uma situação que vai deflagrar a ditadura militar de 1964. Época difícil e sem liberdade de expressão.
Eram tempos em que a educação conhecia a pedagogia de Paulo Freire e a UNE- União Nacional dos Estudantes, que tinha um sério engajamento político, se comprometia seriamente com os destinos do país e arrebanhava os jovens estudantes para resistir à falta de liberdade.
Enquanto isso, a literatura e as artes... A poesia seguia o caminho das propostas internacionais, como bem o demonstram Drummond, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, para ficarmos nos nomes mais emblemáticos. Na ficção, surgem dois autores dos mais prestigiados: João Guimarães Rosa e Clarice Lispector, que dão início à renovação na prosa regionalista e ao intimismo psicológico. A cultura de massa norte-americana invade de forma cada vez mais forte a sociedade brasileira, sobretudo o cinema hollywoodiano. A mesma coisa acontece com revistas e livros estrangeiros. Por sua vez, Walt Disney chega ao país para ficar, com os gibis que traziam Pato Donald, Tio Patinhas e toda a turma, e que ganhava um brasileiro para conquistar de vez os leitores: o malandro Zé Carioca.
O teatro, com Boal, Guarnieri, Plínio Marcos e Vianinha conhece o Teatro Brasileiro de Comédia- o TBC, e o Arena, o que contribui grandemente fazer essa arte evoluir para uma dramaturgia mais comprometida com a denúncia das questões sociais como se vê em Eles não usam black tie e Revolução na América do Sul.
Os Diários Associados, de Chateaubriand, lançam a revista de variedades O cruzeiro, de vida longa e sucesso editorial: de política a concursos de misses tudo ali se noticiava. O sucesso da Rádio Nacional, com os programas musicais vê surgir o fenômeno Celly Campelo, com um tipo de música que conquista a juventude: era o rock que chegava emterras tupiniquins. Na década de 60, o grupo liderado por Roberto Carlos explode com a Jovem Guarda e, a forte Rede Record da época, com seus festivais, traz para a mídia a MPB com Elis Regina, Caetano, Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento e tantos outros nomes de peso, (ainda hoje) de nossa música.
Finalmente, eram tempos de um confronto entre dois fortes competidores: a cultura de elite e a cultura de massa. De um lado, o empenho pela elitização da cultura, que circulava entre as classes elevadas faz com que esta seja considerada um gênero menor; de outro, a cultura de massa, que dispõe de canais mais poderosos e populares, avança sobre os hábitos do homem urbano.
2- A literatura infanto-juvenil advoga o Brasil rural
O Brasil passava por um período de modernização em que a indústria tinha um projeto de envergadura. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte prenunciavam as metrópoles nas quais em breve se transformariam. Mas, o café, que fora o carro chefe da economia brasileira desde o início da república, continuava corporificando a filosofia de que o país devia ser fiel às suas origens de natureza agrícola (Lajolo & Zilberman 1985).
Na contramão dessa trilha que o país percorria, a literatura infanto-juvenil continua advogando a presença de um Brasil rural, localizando boa parte do cenário e de seus personagens em sítios e/ou fazendas, o que acaba por fazê-la porta-voz da política econômica que toma a agricultura como sustentação financeira do país. A título de exemplo, leia-se o trecho a seguir de Nas terras do rei Café, de Francisco Marins (1980: p.12): “O Brasil é um país agrícola. Todos deveriam conhecer bem as dificuldades e as lutas na terra. Dela é que saem quase todas as coisas de que nós, na cidade, precisamos para viver...” Contudo, há agora, como se percebe na citação de Marins, uma diferença recorrente na ficção direcionada a crianças e adolescentes, que a diferencia da fase anterior: o cenário rural serve para o transcurso da ação, porém os protagonistas estão ali para viverem suas ações e aventuras, mas ali não permanecem porque ali não é seu lugar. São pessoas de vida urbana que, circunstancialmente, se encontram no campo. Durante essas quase três décadas, vemos surgir algumas tendências que Lajolo e Zilberman (1985) em obra já consagrada, apontam:
2.1- O império do café
O café, por tantas décadas o principal produto agrícola do país, permitiu que a economia brasileira se modernizasse, mas ao mesmo tempo levava uma boa parcela de brasileiros a defender a filosofia de que o país deveria se manter fiel às suas origens, continuando a expandir essa cultura. Sobre isso, lemos em http://www.grupoescolar.com/pesquisa/ciclo-do-cafe.(acesso 2013): “A trajetória da cafeicultura e a cultura gerada nas fazendas e plantações chegaram aos núcleos urbanos semeando marcas imortalizadas pelos artistas plásticos brasileiros. Cada gole da bebida, transformada em símbolo nacional, aquece a cadeia produtiva de um dos principais itens da economia brasileira tendo sido por muito tempo o regulador do comércio internacional”. Essa idéia levou a literatura infanto do período a trazer o tema recorrentemente para a criação literária. É o caso de Baltazar Godói Moreira que trata do assunto de forma histórica em A caminho do oeste. Uma família abandona a propriedade agrícola no Vale do Paraíba, em profunda crise econômica, e desloca-se, corajosamente, para outra região cujas terras férteis, aliadas ao trabalho intenso, lhes permitem a recuperação financeira, mostrando o lavrador bem sucedido.
Ivan Engler de Almeida é outro que fala da força e da perseverança do homem do campo em O gavião da mata. O trecho em destaque (p. 75) mostra a visão da importância do café:
O café sempre dará lucro. Pode não dar aqui nesta zona, onde as
terras estão cansadas, mas no Oeste dá. Está na cultura do café a grandeza de
São Paulo e do Brasil. (...) A malária e o amarelão, de vez em quando atacavam
nhô Nito minando suas forças. Mas, mesmo doente, ele não se deixava abater:
tinha o espírito indomável de quem descende de boas raças européias: Por isso,
todos os dias, desde a manhã ao anoitecer, ele revolvia a terra com sua
enxadinha, batendo-a de encontro aos pedregulhos, fazendo levantar faíscas.
2.2- Sertão e cidade: modus vivendi em conflito
As fazendas de café, nessa tendência, não suscitam o reerguimento financeiro dos proprietários, apenas, mas quando estes moram na cidade ajudam na recuperação da saúde fragilizada pelas condições urbanas. É o caso de Na fazenda do ipê amarelo, mais uma vez de Ivan Engler de Almeida. Nele, o personagem Paulinho, pertencente a uma família de empresários, adoece como conseqüência do ar poluído da grande cidade. O médico propõe como receita uma troca de ares, o que o pai providencia de imediato, comprando uma fazenda e reconhecendo o valor do campo. Os trechos a seguir, comprovam isso:
O que temos a fazer é comprar uma fazenda. A gente vive nesta labuta diária,
no meio deste movimento de veículos, desta aglomeração de gente e se esquece das
maravilhas da natureza (1979: p. 13).
Com apenas um dia passado na fazenda já se sentiam recuperados das energias
gastas em uma semana de atividades em São Paulo. (1979: p.19)
Lajolo e Zilberman (1985), comentando a obra afirmam que o final de Na fazenda do Ipê amarelo é revelador, pois embora a vida no campo seja superior à da cidade em termos de qualidade, as atrações desta acabam por prevalecer. Paulinho oxigena os pulmões e recupera a saúde frágil nos domingos passados na Ipê amarelo, mas nem ele nem a família pensam em ali estabelecer-se.
Situação similar nos apresenta Francisco Marins, na saga de Taquara - Poca, cuja ação ocorre na fazenda do vovô, onde os netos Tiãozinho e Dudu se juntam a Tico-Tico, filho de um agregado da fazenda, para viverem aventuras. Dudu e Tiãozinho, contudo, apresentam-se sempre olhando o campo de fora. Como pessoas urbanas, não pensam em se estabelecer ali. A crise em que está a propriedade, faz com que Dudu busque no imaginário a flor mágica do samambaial, sonhe com o rei Café em pessoa e ajude a encontrar o tesouro de procedência incomum. Sobre o livro comentam Lajolo & Zilberman (1985) que o fato de o menino urbano ser o agente redentor das terras do vovô, comprova que a vida no campo foi desalojada pela concorrência com a mentalidade urbana. E isso faz com que Dudu veja a fazenda com os olhos de seus leitores, apresentando longas explanações sobre o cultivo do café e a história do sítio, uma vez que o livro circula entre o público da cidade que desconhece essa realidade. Já em No sertão do Mato Grosso (1964), do mesmo Ivan Engler de Almeida, as personagens adultas, vivendo agora na cidade, rememoram os “bons tempos do sertão”. André e Sidnei, médicos, aprendem as diferentes maneiras pelas quais a natureza se protege e ajuda os homens. O saber acumulado na infância vivida no campo, é utilizado para o exercício eficiente da profissão fazendo-os reconhecer a dívida para com a sábia natureza num “clima” de saudade e nostalgia. Nessa tendência, o sítio passa a cenário das mais variadas aventuras. Crianças urbanas estão nele ocasionalmente. Ali são autores de inúmeras proezas. Mas nem cogitam deixar a cidade. Ela, apesar de tudo é mais atrativa. Por hoje ficamos aqui. No próximo encontro trataremos das demais tendências dessa fase histórica. Continuamos à disposição pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Ivan Engler. O Gavião da Mata. In: Histórias da mata virgem. São Paulo: Ed. do Brasil, s/d.
_______. Na fazenda do ipê amarelo. São Paulo: Ed. do Brasil, 1979.
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1985.
MARINS, Francisco. Nas terras do rei Café. São Paulo: Melhoramentos, 1980.
GRUPO ESCOLAR. Disponível em: <www.grupoescolar.com/pesquisa/ciclo-do-cafe>. Acesso em: 20 abr. 2013.
CHAPEUZINHO VERMELHO PELO CINEMA AFORA
(Por Carla Kühlewein)
(Publicado originalmente em maio de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
“Pela estrada afora eu vou bem sozinha,
levar esses doces para a vovozinha.
Ela mora longe, o caminho é deserto
E o lobo mau fica aqui por perto”.
Lá se vai a doce e ingênua menina da capinha vermelha, cantando, saltitante, reproduzindo as recomendações de sua mãe quanto à segurança ao atravessar a floresta. É fácil lembrar essa cena quando nos reportamos à clássica obra dos irmãos Grimm CHAPEUZINHO VERMELHO, ouvida, contada ou assistida na infância.
Num momento em que a crise de valores sociais convive com o resgate histórico, o século XXI está cada vez mais recheado de versões cinematográficas de obras clássicas da literatura, dentre elas a impecável Chapeuzinho. No entanto, tais versões estão bem longe de reforçar a ingenuidade da menina do conto dos irmãos Grimm, ao contrário, o lobo que não se cuide porque a menina está solta!
Em 2005 estreou no cinema a animação “Deu a louca na Chapeuzinho”, produzida e dirigida pelo norte-americano Cory Edwards. A produção despertou a desconfiança de muitos por anunciar uma espécie de “repeteco” do já então famoso “Shrek”, mas acabou surpreendendo a uma grande parte dos telespectadores, tanto que sua continuidade não tardou a chegar – em 2011 foi lançada “Deu a louca na Chapeuzinho 2”.
A versão de Edwards conta com muita ação, aventura e uma dose extra de humor. Com enredo leve, porém dinâmico, o “Deu a louca” inscreve cenas compactas que apresentam as várias versões de um roubo do livro de receitas da vovó. Cada personagem (vovó, chapeuzinho, lobo e caçador) oferece sua versão dos fatos, cabe ao inspetor Nick Pirueta decifrar a charada. A continuidade do filme traz Chapeuzinho confinada em um centro de treinamento, quando é designada para investigar, ao lado do Lobo Mau, o desaparecimento de João e Maria.
No mesmo ano dessa versão cinematográfica de Chapeuzinho, a escritora Stephenie Meyer lança o primeiro livro da saga Crepúsculo, que em pouco tempo entraria para a lista dos mais vendidos do mundo. Num resgate de figuras clássicas, como o vampiro e o lobisomem, Meyer inscreve no cenário mundial uma tendência que parecia chegar pra ficar: a criação de personagens soturnas.
O primeiro livro da série, “Crepúsculo”, ganhou sua versão cinematográfica em 2008, dirigida por Catherine Hardwiche, a mesma diretora do filme “A garota da capa vermelha”, estreado no cinema em 2011. Nessa versão revela-se que, em verdade, a Chapeuzinho é o próprio lobisomem que assombra um pequeno vilarejo.
Não por acaso, a garota da capa vermelha apresenta traços bem semelhantes ao aspecto sombrio dos filmes inspirados na obra de Meyer: a associação da Chapeuzinho ao lobisomen torna-se quase uma marca registrada da diretora. De fato “quase”, pois vale lembrar que a série comentada aqui nas colunas passadas, ONCE UPON A TIME, traz também uma Chapeuzinho/Lobisomem.
Contudo não é só no século XXI que uma versão mais sombria da doce Chapeuzinho aparece. Em 1984, o cineasta Neil Jordan já havia lançado na telona uma versão nebulosa da personagem em “A companhia dos lobos”.
Se este influenciou a criação da garota da capa vermelha, não se pode afirmar ao certo, mesmo assim observa-se a tendência em se criar uma personagem bem ao gosto mórbido, de hábitos noturnos e com um lado macabro latente. A Chapeuzinho, nesse caso, não chega a ser a “vilã” da história, mas surpreendentemente torna-se a companhia dos lobisomens, homens de carne e osso que seduzem as donzelas que adentram pela floresta adentro.
Tanto na versão de 2011 (A garota da capa vermelha), quanto na de 1984 (A companhia dos lobos), a história clássica da CHAPEUZINHO VERMELHO tende para uma conotação mórbida e por vezes sexual, no caso do filme de Jordan. Seja como for, todo cuidado é pouco... a doce e meiga Chapeuzinho anda pro aí, solta, na companhia dos lobos, com sua capa vermelha, a despertar calafrios de quem dela ousar se aproximar, já que está à procura de João e Maria, será que os encontrará?
Para o próximo artigo: João e Maria e suas versões cinematográficas.
Boas RELEITURINHAS!


