LITERATURÊ POZNA£EM (LITERATURA POLONESA)
(Publicada orignalmente em dezembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)
Nasci em 11 de abril de 1990, em Paranaguá, Paraná. Com sete anos minha família mudou-se para Imbaú, também Paraná. Lá vivi até os 17 anos. Comecei o curso de Direito na UEPG, desisti. Decidi fazer letras-polonês na UFPR.
LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS?
LUIZ - Aprendi a ler com cinco ou seis anos, não me recordo bem. Minha lembrança mais antiga em relação à leitura é a seguinte: estava com meus avós em Itapoá/SC, quando vi uma placa com o anúncio "Capela da Bênção", a qual reagi: "Vó! Olha lá a CÁPELADABÊNÇÃO". Desde então, sempre gostei de ler, às vezes quase compulsivamente. Adorava gibis, em especial os do Tio Patinhas. Depois, não me lembro exatamente quando, ganhei meu primeiro livro: Os Contos dos Irmãos Grimm, numa capa marrom, dura. Mais do que o livros dos Irmãos Grimm, foram os gibis que marcaram toda minha infância. E confesso que ainda os guardo. Depois veio a mitologia clássica, que, à parte seu vocabulário difícil e seus trechos censuráveis (ou talvez por eles mesmos) me fascinavam - a leitura de mitologia me tomou anos, até a oitava série, quando fui obrigado a ler Édipo Rei. Continuo achando uma maldade fazer uma criança ler tal peça, mas, de qualquer forma, foi o que aconteceu. Mais ou menos na mesma época li pela primeira vez O Incidente em Antares. O livro me encantou. Ainda me orgulho de conseguir achar o trecho que quero na edição que tenho.
Outro título que me fascinou, já com 15 ou 16 anos, foi Cem Anos de Solidão. A primeira leitura serviu apenas para causar deslumbramento, a segunda, para causar ainda maior deslumbramento, a terceira, para entender que as aventuras da família Buendía foram escritas porque havia necessidade de um latino-americano escrever algo tão tempestuoso, terrível e maravilhoso.
Depois, já na faculdade, a leitura de Bruno Schulz (na tradução de Henryk Siewierski) me comoveu. Schulz foi o cara que decidiu mitificar a sua infância, recriando em suas páginas sua cidade, mas ao mesmo tempo uma cidade que nunca existiu, onde viveu uma infância que não poderia ter existido, na qual poderíamos "juntar estrelas cadentes na neve".
Acho que minha história com as LEITURINHAS começa assim. E está longe de acabar.
LEITURINHAS - Quais são as LEITURINHAS de sua preferência?
LUIZ - Entre poesia e prosa, prosa. Entre romance e conto, conto. Gosto de ficção e new journalism. Literatura de testemunho, talvez. Meus autores preferidos são Jorge Luís Borges (de longe o que gosto mais), Fernando Pessoa, Bruno Schulz (que o Brasil ainda não teve a felicidade de descobrir), Milorad Paviæ - autor de um livro mágico chamado O Dicionário Khazar -, Günter Grass, Osman Lins, Machado de Assis e Paulo Leminski. Para que figurem nomes femininos na lista: Clarice Lispector e Hanna Kral (autora polonesa, ainda sem tradução). Se pensarmos em um período histórico, toda a literatura polonesa escrita no período entre as duas guerras mundiais me interessa.
LEITURINHAS - Relate um pouco sobre sua viagem recente à Polônia.
LUIZ - A Polônia fica numa parte da Europa onde a história demora para chegar, demora para partir e da qual muitas pessoas sabem muito pouco. A "outra Europa" (lembremo-nos da expressão usada por Aleksander Jovanoviæ) começa ali - e ela é misteriosa e fascinante.
Esse país de onde tanta gente foi embora e veio fazer uma parte do Brasil, uma parte esbranquiçada, aloirada, meio em desacordo com os trópicos foi a que decidi que estudaria. O país e sua língua. E foi para isso que fiz essa viagem. Para visitar Auschwitz (ou Oœwiêcim), mas também para conhecer um pouco da cultura da Galícia, uma cultura que sumiu traumaticamente. Para ver a lembrança do horror, mas também para andar pelas ruas de Gdañsk (no N da Polônia) e sentir o ar salgado e aquele sol que esquenta, mas não muito. Para ver o casario do tempo da liga hanseática, para ir a Zakopane e caminhar pelas montanhas. Para conhecer a praça do mercado de Cracóvia e ouvir os poloneses reclamando dos pombos - o que eles pensariam da praça Santos Andrade?, eu me perguntava.
Voltei com a certeza de que vale muito a pena o esforço de tirar o véu de "Cristo das Nações" da Polônia e mostrar seu verdadeiro rosto que, sim, tem cicatrizes, mas ainda mantém-se lindo.
LEITURINHAS - Como é dar aula de polonês para brasileiros?
LUIZ - A primeira coisa a se perguntar é "o que te levou a estudar polonês?". A resposta, quase invariavelmente com "meu pai...", "minha mãe...", "meu avô..." ou "minha bisavó...". Convenhamos, o polonês não tem o apelo comercial que um inglês, um espanhol ou um alemão tem. O apelo se dá de outra forma: a língua apela ao sangue.
Aos estudantes causa pavor o sistema de declinações, mas, antes dele, o sistema fonológico da língua, que não poderia ser mais complicado para um falante de português, acostumado às vogais e às sílabas abertas da "Última flor do Lácio". Quem não se assustaria ao se deparar com algo do tipo "W Szczebrzeszynie chrzaszcz brzmi w trzcinie" [em Szczebrzeszyn o besouro canta no ‘mato']?
Vencido o pavor inicial, os alunos acabam por se sentir tremendamente orgulhosos de conseguir pronunciar tantas consoantes e de conseguirem declinar palavras de maneiras tão esdrúxulas. Ensinar polonês é um desafio, um desafio divertido, mas um desafio.
LEITURINHAS - Conte-nos uma de suas "histórias misturadas", daquelas que você gostava de inventar quando era criança.
LUIZ - Na verdade, quem inventava essas histórias era minha mãe, pois eu reclamava que ela sempre contava as mesmas histórias para que eu dormisse... ela passou a misturar! E eu adorava! Não consigo me recordar bem, o que sei é que as personagens se misturavam, por exemplo: a cinderela e a branca de neve se juntaram para fazer um complô contra a madrasta que queria maltratar os três porquinhos. Era assim que funcionava. Perguntei a minha mãe e ela também não consegue se lembrar exatamente de uma história, mas era o que acontecia.
LEITURINHAS - Apresente-nos um texto em polonês que seja de sua autoria.
TRADUÇÃO DO TEXTO - Minha forma preferida de arte é a Literatura. O primeiro livro que me interessou tinha por título "Incidente em Antares" escrito pelo escritor brasileiro Érico Veríssimo. Trata-se de um romance sobre uma greve numa pequena cidade do sul do Brasil, na qual todos os trabalhadores (e até mesmo os coveiros) participaram; mais tarde, contra tal greve e pelo seu direito de serem enterrados, os defuntos da cidade entraram em greve, e como? - marcharam em direção à praça central e decidiram dizer tudo que sabiam sobre o que se passava na cidade. Poder-se-ia resumir o romance em uma frase: "depois da morte, não é preciso ter medo da verdade".
Hoje sei que "Incidente em Antares" não é o melhor livro da literatura brasileira e nem o melhor livro daquele autor, mas foi ele o começo da minha paixão por Literatura.
Tinha, talvez, quinze anos, quando li pela primeira vez "Cem Anos de Solidão", do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, e decidi que estudaria literatura. Mesmo se escrevesse durante cem anos, não conseguiria fazer um resumo desse livro. Há nele uma força tempestuosa, irada, mas também bela, de criação e destruição.
Conheci a literatura polonesa já na universidade, quando tive a disciplina "Introdução à Literatura Polonesa", tendo sido obrigado a ler Gombrowicz e Dorota Mas³owska. Depois, por recomendação de um outro professor, li "Gottland", de Mariusz Szczygie³, "Prawiek i Inne Czasy", de Olga Tokarczuk, e dois livros de Bruno Schulz (porém em português). Além disso, li vários livros da assim chamada literatura eslava. Em especial um escritor sérvio causou-me muito boa impressão: Milorad Paviæ.
O mais curioso livro desse senhor bigodudo chama-se "O Dicionário Khazar". É um romance mágico sobre o destino de um povo, sobre os mecanismos da literatura e, é claro, sobre sonhos, sobre amor: em poucas palavras, é um romance sobre a aventura do ser humano na terra. Vale a pena lê-lo.
Jorge Luís Borges, escritor argentino, escreveu que a maior invenção da humanidade é o livro, e concordo com ele. Se é assim, a literatura deve ser, pois, o mais interessante das ciências; e é assim!


