ENTREVISTA COM JONAS RIBEIRO
Jonas Ribeiro, formado em Língua e Literatura Portuguesas pela PUC-SP. Formado pelos tantos livros que leu por prazer em bibliotecas públicas ou que, sem pensar duas vezes, garimpou em livrarias. Vive inventando um jeito de aproximar as pessoas dos livros e da leitura. Visitou mais de 1001 escolas e escreveu mais de 101 livros. O Jonas estuda piano, a ternura e a bobeira espontânea. E também gosta de ficar sem fazer nada, só para sentir o vento suave da existência.
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PALAVRAS DE JONAS
LEITURINHAS – Em um texto pequeno autobiográfico, disponível em um de seus vários livros, você afirma que se não fossem seus pais você não seria escritor hoje. Comente um pouco a respeito da importante colaboração de Jane e Toninho em sua produção literária.
JONAS – Eles foram e são imprescindíveis em minha carreira. No entanto, precisei convencê-los com ações e resultados palpáveis de que estava determinado a me tornar escritor, viver para a literatura, de literatura. Na adolescência, não entendia o motivo por que eles duvidavam da minha escolha. Hoje os entendo melhor e sei que quaisquer pais se preocupariam se ouvissem dos filhos que gostariam de virar artistas. Dá a impressão de que esses mesmos pais terão de pagar as contas dos filhos a vida inteira, e pior: serão obrigados a sustentar os netos por um tempo indeterminado. Na época em que fiz minha escolha profissional, algumas profissões costumavam trazer estabilidade, garantias, status, um faturamento seguro. Por outro lado, a carreira de um escritor apontava apenas para o incerto, o nebuloso. Acontece que, nas últimas duas décadas, os valores inverteram. Quem aprendeu a conviver com a incerteza e a instabilidade tem chances maiores no mercado de trabalho.
Mas eu sabia que meus pais precisavam sentir que haviam acertado na minha educação. Mergulhei no trabalho com afinco e passei uns doze anos escrevendo de segunda a segunda, com uma disciplina impecável. Eles se deram conta de que eu não estava brincando. Baixaram a guarda. Os resultados começaram a pipocar. O primeiro contrato, o segundo, o primeiro lançamento, os primeiros direitos autorais, e tudo ganhou embalo. Claro que se meu pai precisasse de ajuda para pagar as contas, encararia qualquer trabalho e deixaria a literatura de lado. Como ele teve como me sustentar, aproveitei o tempo e fiz jus à oportunidade. Quanto à minha mãe, sempre manteve um clima amoroso e harmonioso dentro de casa, também fez o possível e o impossível para eu ter privacidade para escrever por horas a fio sem ser interrompido. Sem falar nas refeições saborosas que ela preparava e ainda prepara. Seria o cúmulo do absurdo e da ingratidão dizer que consegui tudo sozinho. Mentira! Eles foram e são maravilhosos. Querem saber mais? Até ajudou o fato de um dia eles terem duvidado de mim. Isso fortaleceu minha vontade de vencer, de conquistar meu tempo e meu espaço para escrever.
LEITURINHAS – Qual a história de suas LEITURINHAS? O que o Jonas, criança, jovem e adulto, gostava e ainda gosta de ler?
JONAS – Modéstias à parte, sou um excelente leitor. Li e leio demais. Comecei a ler sistematicamente aos quatorze anos, quando passei a frequentar duas bibliotecas públicas, a Clarice Lispector e a Cecília Meireles. Emprestava livros das duas. Lia, relia, procurava entender as estruturas de linguagem, estudava escolas literárias, chegava a ler de dois a cinco livros por dia. Contos, crônicas, romance, poesia, policial, psicologia, filosofia, assuntos diversos, revistas. Claro que tenho os meus queridos: Lygia Bojunga, Erico Veríssimo, Graciliano, Cora, Cecília, Quintana, Manoel de Barros, José Mauro de Vasconcelos, Eva Furnari, Marina Colasanti, Rosamunde Pilcher, Sérgio Sant´Anna, Mia Couto, Michael Ende, Jung e mais uma montanha de escritores. Leio também o que os amigos e as editoras que admiro publicam. Atualmente, o estudo de piano faz com que dedique um tempo menor para a leitura. Na maioria das vezes, quando tenho um tempo livre, estou conversando com Debussy, Villa-Lobos, Beethoven, Carlos C. Iafelice, Bach.
LEITURINHAS – Fomos informados pela Editora do Brasil que você desenvolve um projeto nas escolas com seu livro "Palavra de filho". Conte-nos um pouco sobre o processo de elaboração e realização desse projeto.
JONAS – Este projeto foi criado pelo João Barbosa, o supervisor de divulgação da região Sul da Editora do Brasil. Ele criou esse projeto ao perceber no livro “Palavra de filho” um caminho para aproximar a escola da família. A história narra uma família com quatro integrantes. Pai, mãe, filho, filha. Nessa família, a mãe e a filha falam bastante. Já o pai e o filho, falam apenas pelo silêncio. Esse silêncio é insuficiente para tudo o que o filho tem para dizer ao seu pai. Com isso, o filho começa a escrever cartas para o pai. E toda vez que escreve, coloca a carta num envelope, passa cola, fecha a carta e assopra. Assim que assopra, todo o conteúdo da carta voa para o coração do pai. Com isso, o pai recebe o sopro de várias cartas. Sem saber de onde estão vindo tantas informações, o pai também resolve escrever para o filho. E, inconscientemente, coloca sua carta num envelope, passa um filete de cola e assopra. Daí, tudo o que está na carta do pai passa para o coração do filho. E os dois quebram o silêncio entre si. Passam a falar também com palavras. O projeto funciona da seguinte forma: os alunos presenteiam seus pais (ou quem na família ou no círculo de amigos faça o papel de pai) com um exemplar, geralmente no dia dos pais. O livro pode ser acompanhado de uma carta que o filho (ou a filha) redigiu para seu pai. O mais surpreendente acontece quando os pais leem o livro e são convidados pela escola a escrever uma carta para seu (s) filho (s). É pura emoção! As cartas dos filhos e dos pais são contundentes, reveladoras, emocionantes, chegam a deixar a gente com um nó na garganta.
Só sei que se tivesse de fazer uma lista com os meus dez livros preferidos, “Palavra de filho” entraria, seria um dos primeiros a ser citado. Trata-se de um livro visceral que tem mexido com os alunos e com suas respectivas famílias.
LEITURINHAS – O livro "Palavra de filho" aborda com ternura a relação pai e filho por meio da troca de cartas. Por que você selecionou esse meio de comunicação (carta) para compor essa história? Qual a recepção de leitura dessa obra que você tem captado ao longo de sua carreira como escritor?
JONAS – Escolhi a carta porque ela é confissão, intimidade, terapia, caligrafia, alma, verdade e muito mais. Porque ela nos tira do universo virtual e nos devolve para o plano real. Porque uma carta é escrita com exclusividade para uma única pessoa. Não podemos disparar uma carta para diversas pessoas. Não! Uma carta tem outro tempo. Não precisa ser respondida no mesmo dia. Pode ser respondida depois de semanas. Pode ser relida várias vezes antes de formularmos nossa resposta. Uma carta que escrevemos ou recebemos fala de nosso mundo particular, de nossas prioridades íntimas.
Contarei dois casos da recepção dessa obra nas escolas. Em 2010, estava no Colégio Mater Amabilis, em Guarulhos, São Paulo, e numa apresentação aberta, mais propriamente num sarau poético, um aluno leu uma das cartas que o filho escreve no livro. O pai desse aluno, por sua vez, leu a carta que no livro o pai escreve para o filho. Porém, quando foi ler a sua parte, esse pai engasgou e desatou a chorar. Chorou com integridade e beleza. Disse a todos que, em casa, quando ensaiou com o filho, não havia chorado. Para mim, esse momento foi um dos prêmios mais bonitos que minha obra recebeu. O outro momento foi mais recente, no final de setembro de 2012. O divulgador Jeferson, da Editora do Brasil, me levou à Escola São José de Capivari, em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. Apresentei-me numa sexta-feira para os alunos e, no dia seguinte, no sábado, os pais desses alunos foram à escola. A direção afirmou que a escola nunca havia recebido tantos pais para um evento. Teve pai que trocou o turno de trabalho com o colega para comparecer ao encontro com o escritor. E mais: pai que fazia mais de vinte anos que não lia um livro. Ele contou que sua esposa até se sentou diante dele para assistir ao momento. Nem a filha acreditou. Parou para ver pela primeira vez o pai lendo um livro. As duas contaram-me que o pai chorou, aliás, que os três choraram juntos.
LEITURINHAS – Como é estudar “a ternura e a bobeira cotidiana”?
JONAS – É estar atento a toda e qualquer sutileza. Mais do que um estudo, uma grande brincadeira. Adoro pessoas ternas e quando alguém, além de terno, consegue expressar livremente suas bobeiras, fico encantado. Crio um amigo de infância na mesma hora. Embora o mundo exija que sejamos cada vez mais desconfiados, nada como viver desarmados e ser visceral, ser a gente mesmo, integralmente, essencialmente. Uma pessoa boba não tem motivos para rir. Ela ri e pronto. A risada chega e ela ri. É simples assim. Já uma pessoa que carrega um arsenal de máscaras e subterfúgios psicológicos, tem uma dificuldade de rir sem motivos, de rir por rir. Ela precisa de um motivo plausível para rir. Daí, já não estamos diante de um riso imbuído de bobeira.
LEITURINHAS – Você estuda piano, isso o influencia de algum modo a escrever suas obras? Você pensa em musicar alguma de suas histórias? E teatro, há projetos nesse sentido para alguma delas?
JONAS – Quando estou estudando piano, uma parte de mim está atenta e a outra está relaxada, disponível para pensar e criar novas histórias. A cabeça de um músico funciona como a cabeça de uma costureira. A gente divaga, delira, alça voos fabulosos. Ainda não toco como gostaria de tocar. As viagens cortam meus estudos. Claro que algumas melodias me trazem cenas, personagens, cenários, ritmos. Sinto que, hoje em dia, minhas histórias exalam uma cadência, uma musicalidade mais gostosa. É comum eu dar mais atenção ao andamento do que à ideia, mas tudo isso é muito sutil, leva tempo para ser aprendido. Mas, por incrível que pareça, o aprendizado chega tudo de uma vez. De repente, a gente se vê escrevendo com leveza, sem a intenção de agradar gregos e troianos. Escrevemos porque escrevemos, feito o que acontece com a respiração. Respiramos porque a respiração acontece, naturalmente. Meu professor de piano se chama Carlos Henrique Cascarelli Iafelice. Ele é filho da ilustradora Claudia Cascarelli. Um músico divertido, sábio, generoso, e, acima de tudo, um compositor de mão cheia. O Carlinhos está compondo músicas para os meus livros. Por ora, foram escritas seis músicas para piano. Daqui a alguns anos, quando tiver segurança e maturidade musicais, pretendo visitar escolas para tocar. Por muito tempo fui visto como o contador de histórias que escrevia. Hoje sou o escritor que conta histórias. Amanhã quero ser o escritor que toca piano. Como já visitei mais de 1080 escolas pelo país, e sempre contando histórias, sei que daqui a algum tempo, a pilha vai encrespar e ficarei um contador de histórias chato pra chuchu. Antes que isso aconteça, passei a estudar para um dia tocar nas escolas. Fico sonhando com o dia em que entrarei numa escola e me sentarei ao piano para tocar as músicas que o Carlinhos anda criando para os meus livros. Sei que precisarei nos próximos anos reduzir a visitação escolar para conseguir tocar com desenvoltura. Enfim...
Não sei escrever para teatro. Conto sempre com profissionais que adaptam meus livros para o teatro. No momento, há um grupo ensaiando “O baile das caveiras”, da Franco Editora.
LEITURINHAS – Como autor de 100 livros, quais estratégias de incentivo à leitura deles você costuma utilizar? Há alguma receita “mágica” na cartola do Jonas que poderia ser compartilhada?
JONAS – Para incentivar a leitura, declamo poesias, conto histórias e falo muito bem dos livros que adorei ler. Funciona.
A receita que guardo na cartola é... Ser inteiro e procurar fazer o que me traz felicidade, o que traz novos sentidos para minha jornada. Ou melhor, a receita é ser simples. Sou fã incondicional de pessoas simples. Diante de uma pessoa simples, a gente não precisa fingir nada, nem esconder nossas fraquezas, ficamos desarmados, desnudos, felizes. Pessoas simples nos deixam à vontade com a vida, conosco, com Deus e o mundo. A receita é trazer a simplicidade para os momentos corriqueiros.
LEITURINHAS – O que um autor de 100 livros de sucesso pode esperar como realização, a partir de agora? Há algum livro ou projeto no forno, esperando para sair fresquinho e saboroso?
JONAS – Quando a gente já tem quantidade de livros publicados, a ficha cai. A gente vê que nem tudo o que publicou tem qualidade. Isso é bom porque já não temos nem o compromisso e nem o desejo de escrever tantos livros por ano. Escrevemos quando o livro desabrocha dentro da gente. O livro acontece na vida da gente, o que é bem diferente de sentar para escrever um livro. A qualidade está em primeiro lugar. Um livro infantil, para quem escreve, pode ser mais significativo que um romance adulto. Não é mais o número de horas que trabalhamos e sim a intensidade com que trabalhamos. É a teoria da relatividade. A nossa relatividade. Sim, chega o momento em que seguimos nossas prioridades criativas e escrevemos por imperativo biológico, como já dizia Villa-Lobos.
No forno, para sair, estão dois. “O abacateiro bagunceiro”, com ilustrações de Romont Willy, sairá pela Callis Editora. E “Histórias de Cantiga”, com ilustrações de Claudia Cascarelli, organização de Celso Sisto. Quinze escritores foram convidados pelo Celso e pela Cortez para escrever uma história baseada numa cantiga de roda. Minha história se chama “Que chulé espetacular!”. Escolhi a cantiga do sapo que não lava o pé porque não quer.
LEITURINHAS – Se alguma escola tiver interesse de adquirir seus livros e receber uma visita sua, quais os procedimentos mais eficazes para isso?
JONAS – Entrar em contato com uma das editoras que me publicam e fazer a solicitação. Claro que a editora pedirá um número x de exemplares adotados. Caberá à escola e à editora alinharem os ponteiros, ajeitarem os pauzinhos. E, para finalizar, agradeço a sua companhia. A gente se vê por aí, em algum livro inventado para abraçar e acarinhar leitores.
KAZUO EM QUADRINHOS
NEIL GAIMAN E OS SEUS DIAS DE SOLDADO DO INFERNO
(Por Alexandre Kazuo)
Neil Gaiman e Todd McFarlane são atualmente desafetos declarados. Gaiman algo muito grande no mercado editorial e mito vivo da nona arte. McFarlane retornou ao título Spawn, que lhe deu grande visualização no mercado de HQ’s durante os anos 90, há pouco quando a publicação chegou ao número 200 nos EUA. Como citamos na coluna anterior, Todd McFarlane foi o artista que incialmente obteve melhores resultados junto a Image Comics. Spawn, mesmo criticado como todos os outros títulos da Image, por ter muita ilustração e pouco roteiro, conseguiu atingir boa resposta comercial.
Spawn é a abreviação de hellspawn, que traduzido do inglês quer dizer ‘cria do inferno’. Segundo o enredo, diversos spawns foram enviados à Terra pelo demônio Malebólgia, natural do sétimo círculo do inferno. Os spawns são soldados em treinamento, os que perseverarem servirão às forças do inferno no dia do juízo final. Malebólgia reside no oitavo de nove círculos infernais, devidamente inspirados no inferno da ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri. O Spawn que perambula pelos becos de Nova York no fim do século XX era Al Simmons, agente que realizava serviço sujo para o governo yankee. Ao morrer em serviço, Simmons vai para o inferno. Malebólgia se interessa por seu perfil e propõe um pacto mefistofélico a Simmons, ludibriado pela ideia de rever a esposa Wanda Blake. Simmons volta à Terra com o corpo desfigurado e coberto por um tipo de traje/armadura simbionte que recobre seu corpo. Uma breve alusão ao ‘Fausto’ de J. Goethe.
Além de tentar entender sua nova condição existencial, Spawn convive com o demônio Violador que realiza um papel de tutor, bem como ameaças dos tempos de serviços para o governo yankee na persona de Jason Wynn. Ou envolvendo-se em confusões com a máfia do submundo local liderada por Tony Twist. Se Spawn é um soldado do inferno, logo o céu precisa tomar partido nesta guerra. Nos primeiros números de ‘Spawn’ inicialmente publicados no Brasil pela ed. Abril, os leitores são apresentados a Angela, a caçadora de spawns. Preocupado com a inconsistência argumentativa, McFarlane contratou os serviços de Alan Moore, Dave Sim, Neil Gaiman e Frank Miller. Gaiman apresenta o céu do universo de McFarlane, concebe Angela, que se assemelha a uma amazona ou uma valquíria da mitologia nórdica. No Brasil Angela aparece pela primeira vez na edição número 9 de ‘Spawn’, da Abril. Gaiman apresenta a personagem num roteiro que lembra uma espécie de manual de caça a spawns. O relato se dá na Idade Média onde um Spawn medieval, antecessor de Al Simmons acaba emboscado por Angela, que ressurgirá no fim do século XX. O encontro entre Angela e Spawn prossegue na minissérie ‘Angela’, editada em três edições e que originalmente também saiu no Brasil via Abril no fim dos anos 90.
Os processos
Entre 2000 e 2002, Gaiman e McFarlane se engalfinharam nos tribunais americanos, primeiro em nome dos direitos autorais do personagem Miracleman. Noutra instância Gaiman reivindicava exatamente algo a receber pela criação de Angela, do personagem Nicholas Cagliostro e do Spawn Medieval. No fim dos anos 90 McFarlane lucrou muito valendo-se de seu personagem. Chegou a ser acionista da Mattel brinquedos que dispôs o selo McFarlane Toys, em que obviamente as action figures, carro chefe, eram aquelas dedicadas aos personagens de Spawn. Quando Batman amargava as péssimas adaptações cinematográficas dirigidas por Joel Schumacher, o estúdio New Line produziu um filme intitulado ‘Spawn o soldado do inferno’ (1998). Al Simmons foi encarnado pelo desconhecido Michael Jay White onde os bons coadjuvantes roubavam a cena. O veterano Martin Sheen (de ‘Apocalypse Now’, pai de Charlie Sheen do seriado ‘Dois homens e meio’) surgia como o vilão Jason Wynn. John Leguizano comparecia numa performance hilária do Violador.
Por volta de 2004, um jogador de hockey da NHL, liga profissional norte-americana, chamado Tony Twist processou McFarlane pelo uso de seu nome. Twist alegou que o mafioso Tony Twist que aparecia nas histórias de Spawn era inspirado em si mesmo. McFarlane teve problemas, uma vez que é um entusiasta do hockey. Com os processos, o criador de Spawn perdeu muito dinheiro e a inconsistência argumentativa de ‘Spawn’ fez com que o título sofresse com o teste do tempo. A Image já não é algo tão grande e a Marvel Comics retomou hegemonia na virada do milênio impulsionada pelas grandes incursões cinematográficas de seus personagens.
Em tempo:
- A citada sequência escrita pelos grandes Alan Moore, Dave Sim, Neil Gaiman e Frank Miller em Spawn foi vista nos números 8, 9, 10 e 11 nos EUA. Moore descreveu o inferno de Malebólgia, ciceroneando o infanticida Billy Kincaid. Gaiman encarregou-se do citado céu de Angela e Miller uma história urbana em que Spawn se vê numa encruzilhada formada por uma briga de gangues. No Brasil são os números 8, 9 e 10 de ‘Spawn’, da editora Abril. O número escrito por Dave Sim foi visto apenas nos EUA, seu personagem Cerebus acompanha Spawn a uma jornada ao inferno dos criadores. A história era a personificação metalinguística da crítica dos artistas da Image em relação aos seus trabalhos anteriores em marcas registradas das grandes editoras Marvel e DC. Numa das cenas, Spawn e o porco, em preto e branco, Cerebus caminham pelo corredor de uma prisão. De um lado das celas, as mãos dos criadores estendem-se por entre as grades. Do outro as grades deixam projetar os punhos e mãos de Wolverine, Superman, Batman e outros personagens sutilmente mencionados.
- Spawn atualmente se vê publicado no Brasil pela editora Pixel Media que retomou a publicação agora em 2012!
LITERATURA E ENSINO
CONTOS DE ENCANTAMENTO: O QUE FAZER COM ELES EM SALA DE AULA? (Leny Fernandes Zulim)
Em nosso encontro de setembro o tema da conversa foi a significação e o símbolo de que se revestem os contos de encantamento. Com uma linguagem alegórica, cheia de símbolos, essas narrativas dizem bem mais do que aparentemente possamos pensar. E, de certo modo, os pequenos leitores processam essa linguagem, através da qual aprendem a lidar com os conflitos e problemas que a vida reserva em seu cotidiano.
Interessa, aqui, pensar um pouco sobre práticas de que os professores, e outros mediadores de leituras como pais e bibliotecários, podem se utilizar para explorar esse tipo de narrativas tão ricas em sua significação. Essas práticas tomam formas diferentes dependendo do grau de escolaridade dos leitores. Passando do leitor da primeira infância e chegando aos acadêmicos dos cursos de formação de professores: Letras e Pedagogia, especificamente, hoje abordamos práticas sugeridas para o leitor da primeira infância ao leitor iniciante Vamos a algumas sugestões:
Comecemos por lembrar que a inclusão do leitor em determinada faixa etária depende, como bem afirma Coelho (2000), da inter-relação entre sua idade cronológica e seu nível de amadurecimento psíquico, intelectual, afetivo e história de leitura. Nessa primeira fase, falamos de crianças de um aos três anos (primeira infância) e dos três aos quatro anos (segunda infância), utilizando os estágios apresentados por Coelho (2000).
Para os pais e para quem atende crianças de um a dois anos, em berçários, é preciso lembrar que é a fase em que os pequenos iniciam o reconhecimento da realidade que os rodeia. É a fase caracterizada pelos contatos afetivos e pelo tato, em que a criança tem o impulso de pegar tudo o que está ao alcance da mão. Cabe ao adulto, nessa fase, estimular o impulso por gravuras, desenhos e ilustrações incluídos como brinquedos. Também os versos infantis, que chamam a atenção pela variação da voz de quem conversa com ela ou declama versos simples. Assim como o bebê é capaz de dormir impulsionado por um acalanto, sem entender ainda a letra, ele pode também escutar uma história que ainda não entende muito bem. Quando pais ou professores mostram uma figura de determinada personagem de um conto de encantamento, podem e devem introduzir frases concisas a respeito. Ao mostrar a figura da Bela Adormecida, por exemplo, dizer: Essa é a princesa Bela Adormecida. Priolli (2008), afirma que a criança, nessa idade, já percebe que a fala do dia-a-dia é diferente daquela usada numa leitura, devido à cadência, ao ritmo, à entonação e modulação de voz e à emoção. Nesse estágio, além de figuras coloridas, livros de pano e de plástico são os melhores. Na banheira, antes, durante e/ou após o banho a criança pode ser acompanhada por um deles e ser estimulada com frases curtas a respeito do que ela vê ao virar as páginas. Nessa fase, figuras e rápidas histórias com o lobo mau e as bruxas é sempre sucesso. Por isso leituras como Os três porquinhos, Chapeuzinho Vermelho e Pedro e o lobo, para citar algumas, é sucesso na certa. Se a história cai no gosto da criança ela vai querer ouvi-la várias vezes. E a forma que encontra para experimentar de novo o que aprovou.
Na segunda infância, para Coelho, é preciso brincar com o livro, quando se aprofunda a descoberta do mundo concreto e do mundo da linguagem. E o período de muita ilustração e pouco texto, ou nenhum texto, para que criança, a partir das figuras, crie seu próprio texto. Pode-se ler a história ou criá-la em cartolinas, e à medida que se for contando ir prendendo a imagem em um cavalete ou em um quadro mural. Nessa fase normalmente é do agrado da criança os livros de estilo lengalenga, com trechos que se repetem a cada página, o que permite sua participação mais direta. Exemplos desse tipo de narrativa encontram-se em livros como A casa sonolenta (Ática- Coleção abracadabra) e Maneco, Caneco Chapéu de Funil (Ática- Luís Camargo). Lembro de uma ex-aluna que criou o avental mágico com um grande bolso de onde ia tirando figuras componentes da história. À medida que ia contando, pregava as figuras com os pedacinhos de velcro estrategicamente presos no avental. Sucesso garantido. Nessa faixa etária, a criança, mais do que nunca, determina as leituras de que mais gosta pedindo que o adulto conte de novo. Aprofunda-se a descoberta do mundo concreto e do mundo da linguagem, o que torna tudo mais importante e significativo, como afirma Coelho (2000). A magia dos contos de encantamento envolve e seduz a criança, por isso quanto mais livros rodearem os pequenos, mais chance de formar o leitor.
Vamos, então, a mais algumas (afinal, em meio às considerações até aqui feitas, existem já algumas práticas) sugestões para desenvolver a leitura com essa galerinha de um a quatro anos:
a- Disponibilizar livros e gravuras (as princesas e os animais são os preferidos, sobretudo o lobo mau) ao redor da criança, de forma que ela possa manusear a gosto; dificultar o acesso a livros porque podem ser destruídos é uma idéia errônea; assim como os brinquedos, livros também podem ser destruídos nesse processo; aos poucos a criança vai entendendo como cuidar do livro;
b- Ler constantemente, modulando a voz e, se for o caso, sobretudo na primeira infância, sintetizar a história em frases simples;
c- Apresentar as clássicas histórias com o auxílio de fantoches prende o pequeno leitor;
d- Oportunizar aos pequenos a descoberta de que livro também pode ser visto como brinquedo, com suas páginas coloridas; aproveitar datas comemorativas como aniversário, dia da criança e Natal para presentear com livros (Zulim: 2011);
e- Misturar livros a brinquedos, fantoches, figuras. Entre uma diversão e outra os livros acabam se tornando tão atraentes quanto os próprios brinquedos;
f- Na hora do banho do bebê permitir que o bebê manuseie livros de plástico;
g- Reunir a família (atenção papais e mamães) e fazer a leitura para os pequenos, além de criar uma rede de afeto, sedimenta na criança o valor da leitura desde muito pequena;
h- Aproveitar os momentos anteriores ao dormir (seja em casa ou na escola, berçário...) para ler belas e coloridas histórias; ouvindo a voz modulada, suave ou mais forte, de acordo com o que pede o enredo, a criança vai serenando e o sono vem de forma tranqüila...
i- Todas essas sugestões práticas ajudam, mas é imprescindível uma atitude positiva do mediador (pais, avós, professor, bibliotecário, atendente...) em relação ao livro, do contrário o sucesso fica bem mais difícil.
j- Pedir, durante a leitura, a participação da criança: vamos soprar a casa desse porquinho preguiçoso; vamos imitar o Joãozinho mostrando o ossinho do frango prá bruxa... a leitura fica mais dinâmica e gostosa para esses pequenos leitores.
Fechamos com a afirmativa de Bordini & Aguiar (1988:19):
Para que se assegure a continuidade do comportamento positivo em relação ao livro, é preciso que o hábito não seja apenas como um padrão rotineiro de resposta, automaticamente provocado e realizado. A busca freqüente da literatura precisa surgir de uma atitude consciente, da disposição de enfrentar o desafio que o texto oferece como nova alternativa existencial.
Em nosso encontro de novembro vamos dar continuidade e práticas de leitura, agora voltada para as faixas etárias posteriores. Até lá ou a qualquer momento se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
Bibliografia utilizada nesse artigo:
BORDINI &AGUIAR: Literatura: a formação do leitor – alternativas metodológicas. Porto alegre: Mercado Aberto, 1988;
COELHO, Nelly Novas. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000;
PRIOLLI, Julia. Fraldas e livros. In: Nova escola, Edição especial: Leitura- descobrir o prazer de ler é o primeiro passo para formar leitores (de qualquer idade). São Paulo: Fundação Victor Civita. Ed. Abril, 2008.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.
RELEITURINHAS
UM LOBO QUE NEM ERA MAU...
(Carla Kühlewein)
Quando o assunto é a índole do famoso “lobo mau” há sempre uma releitura para rever o assunto. Calma lá... será que era o lobo que era tão mau assim? Alguém por acaso faz ideia do comportamento que os três porquinhos tiveram para provocar o sopro destruidor do lobo? Que as casas dos três porquinhos foram destruídas, isso ninguém questiona. Mas... não poderia ter sido tudo um incidente ou um mero acaso?
Vejamos... em nossos arquivos de RELEITURINHAS contamos com duas versões interessantes a respeito: A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS TRÊS PORQUINHOS, do escritor norte-americano Jon Scieszka e OS TRÊS PORQUINHOS E O LOBO LALAU, do escritor brasileiro Luiz Fernando Emediato.
O livro de Scieszka apresenta, nada mais nada menos, do que a versão do lobo diante dos fatos contidos na clássica história de “Os três porquinhos”. Como ele mesmo afirma logo na primeira página do livro “ninguém jamais escutou o meu lado da história”. E assim seguem as justificativas do lobo em tentar explicar o porquê as casas dos porquinhos tiverem o destino que tiveram na história.
Tudo começa quando ele, o lobo, teve a ideia de fazer um bolo para a “querida e amada vovozinha”. Como ele estivesse resfriado, espirrava muito e acabou ficando sem açúcar. O jeito foi recorrer ao vizinho, porquinho, e ver se ele não poderia emprestar uma xícara de açúcar. Como a casa fosse de palha e o estivesse num resfriado daqueles, ele não resistiu e espirrou forte! O resultado, vocês já sabem... O mesmo obviamente aconteceu com a casa dos outros dois porquinhos.
E quem diria que o lobo fosse assim... tão inocente nessa história toda, não?
Já a versão de Emediato apresenta logo no início um lobo que de mau não tem nada de mau, ao contrário, conversa com passarinhos, alimentava-se de frutas e viva numa paz e tranquilidade na floresta. Até que um dia... chegaram os três porquinhos e acabaram com o sossego de todo mundo!
Espera aí... os três porquinhos? Sim, eles mesmos! Segundo Emediato, eles faziam a maior algazarra, um barulho daqueles e mesmo quando Lalau chegou tentando fazer amizade com eles, foi humilhado e ridicularizado pelos três pestinhas. O pobre lobo ficou tão assustado que fugiu, se escondeu numa caverna bem no meio da floresta.
E assim a história se desenrola para ter um final surpreendente, que não cabe aqui revelar, só pra deixar o leitor curioso e ir conferir direto no livro...
Exibir as “verdades” dos contos de fadas, supostamente ocultas durante muito tempo tem sido uma estratégia largamente adotada pelas RELEITURAS no Brasil e no mundo. De repente revela-se um fato inédito, e sugere-se que em verdade ele sempre existira, só não era divulgado... os motivos? O óbvio e ululante: o lobo tem sido retratado como mau porque os verdadeiros maldosos da história queriam ser preservados da revelação de sua verdadeira identidade.
E de RELEITURINHA em RELEITURINHA vão se desvendando as verdades, que despertam para um novo olhar, não só da leitura dos contos de fada, mas da existência humana como um todo.
Boas RELEITURINHAS!

