BRINCANDO DE FILOSOFAR
(Entrevista publicada originalmente em outubro/novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)
Marcia Tiburi é graduada em Filosofia e Artes e mestre e doutora em Filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles Filosofia em Comum (Ed. Record, 2008), Filosofia Brincante (Record, 2010) e Olho de Vidro (Record 2011). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie, colunista da revista Cult.
LEITURINHAS – O que você lia durante a sua infância, seja literatura, seja filosofia?
MARCIA – Eu não lia. Eu preferia outras coisas, como andar de bicicleta e brincar com a turma da rua. Só quando eu quebrei o braço, aos 9 anos, é que parei pra ler os contos dos irmãos Grimm e me apaixonei pelas histórias. Depois, aos 10, li Mês de Cães danados do Moacyr Scliar, que foi bem importante pra mim. Mas antes eu não lia nada. Acho legal falar isso porque muita gente acha que pra gostar de ler é preciso começar cedo. Eu comecei aos 9 e, mesmo assim, nunca gostei de ler muita coisa, nunca gostei de histórias para crianças (eu achava as de Grimm algo muito diferente de Monteiro Lobato, por exemplo). Nunca gostei das meras narrativas. Mas é verdade também que nem em casa e nem na escolar eu tive uma educação que incentivasse isso. Aos 13 eu descobri os textos filosóficos e aí enlouqueci de felicidade. Mas foi sempre por minha própria conta que eu descobri os livros, bisbilhotando as bibliotecas.
LEITURINHAS – Que tipo de leitura você considera interessante para despertar o senso crítico e a reflexão de crianças em idade escolar? Algum clássico da literatura pode ser utilizado como ferramenta neste sentido?
MARCIA – Eu nunca trabalhei com crianças e por isso, tenho, na verdade, apenas o amparo da observação doméstica. Eu vi minha filha crescendo no meio dos livros e gostando de tudo. Ela leu muita coisa boa, pois a Literatura Infantil e de nossos dias é algo incrível! Mas eu continuo achando que não há autor mais maravilhoso do que Lígia Bojunga. Minha filha leu muito a Lígia e suas obras são clássicos da Literatura Infantil brasileira. Com tudo o que há de bom em termos reflexivos e narrativos.
LEITURINHAS – Uma vez que o livro Filosofia em Comum buscava dialogar com pessoas e áreas externas à Filosofia, fique à vontade para comentá-lo aos nossos leitores.
MARCIA – Eu escrevi livros bem acadêmicos. Ou seja, aqueles livros que só especialistas leem. Eu não me realizava com isso. A minha produção em Filosofia dos últimos tempos é bem mais interdisciplinar, embora o cerne metodológico seja “filosofia”. No Filosofia em Comum eu quis brincar com a questão do método e isso ficou exposto na forma do livro. Ele não é um livro sobre filosofia, muito menos sobre o que as pessoas no mundo acadêmico chamam de “história da filosofia”. Filosofia em Comum é um livro despretensioso, mas ousado, que busca levar pessoas a uma experiência de pensamento dada na escrita, enquanto, ao mesmo tempo, questiona o que significa escrever e ler filosofia. Eu o denominei “dispositivo”, pois acredito que ele leva pessoas a pensarem por conta própria ao entrarem no processo de pensamento que ali está exposto. O que eu acho de mais bacana no livro é esta ideia de que um livro de Filosofia está escrito, mas que, ao ser lido, o leitor se torna também autor no ato mesmo de sua interpretação. Ou seja, há um livro não escrito pelo leitor que é também autor. Esta experiência intangível para os outros é o que há de mais fabuloso na Filosofia. E ela é tão especial e maravilhosa que as pessoas ficam loucas para falar sobre ela. Daí que queremos sempre coletivizar o que pensamos. Mas fazer com que este coletivo se torne filosófico implica democratizar as ideias, implica poder transformar a coisa em diálogo, pois, do contrário, pode simplesmente virar pensamento comum. Eu buscar um pensamento em comum, não um pensamento comum. O limite delicado entre pensar- junto (categoria básica do livro) e o senso comum (que o livro combate) é o grande desafio do Filosofia em Comum. Com esta “filosofia em comum” eu queria mostrar que pensar é sempre algo que se relaciona ao coletivo e pode ser emancipatório, revolucionário, e por isso não pode nunca perder de vista a crítica e a autocrítica.
LEITUIRNHAS – Já voltado ao público que lê Literatura Infantil, você lançou Filosofia Brincante, apresente-nos essa obra.
MARCIA – Filosofia Brincante é filho do Filosofia em Comum. Eu gostaria de dar a base para a experiência de pensamento para quem ainda tem uma relação com a brincadeira. Quis intensificar no livro a relação que as crianças têm com as palavras e os traços enquanto brinquedos, ou seja, objetos de desejo, de descoberta e invenção do mundo.
LEITURINHAS – Como os adultos podem estimular uma criança a “brincar de pensar”?
MARCIA – O inverso é possível. Muita gente adulta leu o Filosofia Brincante. Eu achei isso muito bom, pois a infância é uma experiência de linguagem, mais do que um estado gnosiológico. Por isso que tantos adultos conseguem escrever para crianças, porque se relacionam à infância como experiência de linguagem. A única coisa que os adultos podem dar às crianças além de amor e cuidado (a responsabilidade que isso implica) é a sua própria experiência de linguagem enquanto adultos, mas ela só é válida quando há autoconsciência do que significa esta diferença e autotematizá-la é algo por demais complexo. Adulto é muitas vezes alguém que esqueceu que um dia foi criança e perdeu assim sua própria experiência enquanto adulto.
LEITURINHAS – Você tem tido a oportunidade de verificar a receptividade dos leitores de Filosofia Brincante no meio virtual ou pessoalmente?
MARCIA – Claro, tenho participado de feiras e tem sido muito legal. Adoro estar com crianças. Sempre digo que se eu tivesse começado a escrever pra crianças talvez eu tivesse feito só isso pela vida afora. Mas agora tenho tantos projetos que não vou, infelizmente, conseguir me preparar para isso a esta altura da vida. No entanto, tenho mais um livro infantil que deve sair pela Cosac Naify em breve.
LEITURINHAS – Quais as suas preferências nas histórias em quadrinhos?
MARCIA – As HQ’s influenciaram algum aspecto de Filosofia Brincante? Eu gosto de quadrinhos, muito, mas eles não influenciaram, acho eu, o Filosofia Brincante. Eu gosto muito dos nossos brasileiros, Fábio Moon, Gabriel Bá e também do Rafael Grampá.
LEITURINHAS – O que te estimula e influencia a escrever? Fique à vontade para apresentar os romances que formam a “Trilogia Íntima” aos nossos leitores.
MARCIA – Não tem nada que me estimule, eu acho. Eu só escrevo porque gosto muito, preciso e é assim que eu aprendi a viver. Tem épocas que fico muito empolgada com meus ensaios de Filosofia. Neste ano publiquei um estudo no qual investi meus últimos 5 anos, chama-se Olho de Vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem (Record, 2011) e entreguei um romance que comecei a escrever em 1998. Ou seja, antes de todos os meus livros. Este romance será publicado pela Record em 2012. Ele é bem diferente dos livros da Trilogia Íntima porque ele não é experimental como aqueles. É um livro bem mais simples, do ponto de vista formal, mas muito mais complexo, do ponto de vista afetivo.
LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS você recomenda para os pequenos e grandes leitores?
MARCIA – Eu recomendo que leiam tudo. Leiam muito, leiam o que tiverem vontade. E não tenham preguiça. Tem muito livro legal nas livrarias e bibliotecas. O que eu recomendo é um passeio semanal à biblioteca municipal.

