novembro 15, 2011

ENTREVISTA - MARCIA TIBURI

BRINCANDO DE FILOSOFAR

(Entrevista publicada originalmente em outubro/novembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Marcia Tiburi é graduada em Filosofia e Artes e mestre e doutora em Filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles Filosofia em Comum (Ed. Record, 2008), Filosofia Brincante (Record, 2010) e Olho de Vidro (Record 2011). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie, colunista da revista Cult.



 
LEITURINHAS – O que você lia durante a sua infância, seja literatura, seja filosofia?
MARCIA – Eu não lia. Eu preferia outras coisas, como andar de bicicleta e brincar com a turma da rua. Só quando eu quebrei o braço, aos 9 anos, é que parei pra ler os contos dos irmãos Grimm e me apaixonei pelas histórias. Depois, aos 10, li Mês de Cães danados do Moacyr Scliar, que foi bem importante pra mim. Mas antes eu não lia nada. Acho legal falar isso porque muita gente acha que pra gostar de ler é preciso começar cedo. Eu comecei aos 9 e, mesmo assim, nunca gostei de ler muita coisa, nunca gostei de histórias para crianças (eu achava as de Grimm algo muito diferente de Monteiro Lobato, por exemplo). Nunca gostei das meras narrativas. Mas é verdade também que nem em casa e nem na escolar eu tive uma educação que incentivasse isso. Aos 13 eu descobri os textos filosóficos e aí enlouqueci de felicidade. Mas foi sempre por minha própria conta que eu descobri os livros, bisbilhotando as bibliotecas. 
LEITURINHAS – Que tipo de leitura você considera interessante para despertar o senso crítico e a reflexão de crianças em idade escolar? Algum clássico da literatura pode ser utilizado como ferramenta neste sentido?
MARCIA – Eu nunca trabalhei com crianças e por isso, tenho, na verdade, apenas o amparo da observação doméstica. Eu vi minha filha crescendo no meio dos livros e gostando de tudo. Ela leu muita coisa boa, pois a Literatura Infantil e de nossos dias é algo incrível! Mas eu continuo achando que não há autor mais maravilhoso do que Lígia Bojunga. Minha filha leu muito a Lígia e suas obras são clássicos da Literatura Infantil brasileira. Com tudo o que há de bom em termos reflexivos e narrativos. 
LEITURINHAS – Uma vez que o livro Filosofia em Comum buscava dialogar com pessoas e áreas externas à Filosofia, fique à vontade para comentá-lo aos nossos leitores.
MARCIA – Eu escrevi livros bem acadêmicos. Ou seja, aqueles livros que só especialistas leem. Eu não me realizava com isso. A minha produção em Filosofia dos últimos tempos é bem mais interdisciplinar, embora o cerne metodológico seja “filosofia”. No Filosofia em Comum eu quis brincar com a questão do método e isso ficou exposto na forma do livro. Ele não é um livro sobre filosofia, muito menos sobre o que as pessoas no mundo acadêmico chamam de “história da filosofia”. Filosofia em Comum é um livro despretensioso, mas ousado, que busca levar pessoas a uma experiência de pensamento dada na escrita, enquanto, ao mesmo tempo, questiona o que significa escrever e ler filosofia. Eu o denominei “dispositivo”, pois acredito que ele leva pessoas a pensarem por conta própria ao entrarem no processo de pensamento que ali está exposto. O que eu acho de mais bacana no livro é esta ideia de que um livro de Filosofia está escrito, mas que, ao ser lido, o leitor se torna também autor no ato mesmo de sua interpretação. Ou seja, há um livro não escrito pelo leitor que é também autor. Esta experiência intangível para os outros é o que há de mais fabuloso na Filosofia. E ela é tão especial e maravilhosa que as pessoas ficam loucas para falar sobre ela. Daí que queremos sempre coletivizar o que pensamos. Mas fazer com que este coletivo se torne filosófico implica democratizar as ideias, implica poder transformar a coisa em diálogo, pois, do contrário, pode simplesmente virar pensamento comum. Eu buscar um pensamento em comum, não um pensamento comum. O limite delicado entre pensar- junto (categoria básica do livro) e o senso comum (que o livro combate) é o grande desafio do Filosofia em Comum. Com esta “filosofia em comum” eu queria mostrar que pensar é sempre algo que se relaciona ao coletivo e pode ser emancipatório, revolucionário, e por isso não pode nunca perder de vista a crítica e a autocrítica.    
LEITUIRNHAS – Já voltado ao público que lê Literatura Infantil, você lançou Filosofia Brincante, apresente-nos essa obra.
MARCIAFilosofia Brincante é filho do Filosofia em Comum. Eu gostaria de dar a base para a experiência de pensamento para quem ainda tem uma relação com a brincadeira. Quis intensificar no livro a relação que as crianças têm com as palavras e os traços enquanto brinquedos, ou seja, objetos de desejo, de descoberta e invenção do mundo. 
LEITURINHAS – Como os adultos podem estimular uma criança a “brincar de pensar”?
MARCIA – O inverso é possível. Muita gente adulta leu o Filosofia Brincante. Eu achei isso muito bom, pois a infância é uma experiência de linguagem, mais do que um estado gnosiológico. Por isso que tantos adultos conseguem escrever para crianças, porque se relacionam à infância como experiência de linguagem. A única coisa que os adultos podem dar às crianças além de amor e cuidado (a responsabilidade que isso implica) é a sua própria experiência de linguagem enquanto adultos, mas ela só é válida quando há autoconsciência do que significa esta diferença e autotematizá-la é algo por demais complexo. Adulto é muitas vezes alguém que esqueceu que um dia foi criança e perdeu assim sua própria experiência enquanto adulto. 
LEITURINHAS – Você tem tido a oportunidade de verificar a receptividade dos leitores de Filosofia Brincante no meio virtual ou pessoalmente?
MARCIA – Claro, tenho participado de feiras e tem sido muito legal. Adoro estar com crianças. Sempre digo que se eu tivesse começado a escrever pra crianças talvez eu tivesse feito só isso pela vida afora.  Mas agora tenho tantos projetos que não vou, infelizmente, conseguir me preparar para isso a esta altura da vida. No entanto, tenho mais um livro infantil que deve sair pela Cosac Naify em breve. 
LEITURINHAS – Quais as suas preferências nas histórias em quadrinhos?
MARCIA – As HQ’s influenciaram algum aspecto de Filosofia Brincante? Eu gosto de quadrinhos, muito, mas eles não influenciaram, acho eu, o Filosofia Brincante. Eu gosto muito dos nossos brasileiros, Fábio Moon, Gabriel Bá e também do Rafael Grampá. 
LEITURINHAS – O que te estimula e influencia a escrever? Fique à vontade para apresentar os romances que formam a “Trilogia Íntima” aos nossos leitores.
MARCIA – Não tem nada que me estimule, eu acho. Eu só escrevo porque gosto muito, preciso e é assim que eu aprendi a viver. Tem épocas que fico muito empolgada com meus ensaios de Filosofia. Neste ano publiquei um estudo no qual investi meus últimos 5 anos, chama-se Olho de Vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem (Record, 2011) e entreguei um romance que comecei a escrever em 1998. Ou seja, antes de todos os meus livros. Este romance será publicado pela Record em 2012. Ele é bem diferente dos livros da Trilogia Íntima porque ele não é experimental como aqueles. É um livro bem mais simples, do ponto de vista formal, mas muito mais complexo, do ponto de vista afetivo.  
LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS você recomenda para os pequenos e grandes leitores?
MARCIA – Eu recomendo que leiam tudo. Leiam muito, leiam o que tiverem vontade. E não tenham preguiça. Tem muito livro legal nas livrarias e bibliotecas. O que eu recomendo é um passeio semanal à biblioteca municipal.

novembro 08, 2011

RELEITURINHAS - Por Carla Kühlewein

O DESPERTAR DE ALICE (PARTE II)

(Publicado originalmente em outubro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

por Carla Kühlewein

Publicada em 1865, por Lewis Carol, ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é um clássico da Literatura Infantil que tem sido revisitado com frequência. Desde sua publicação várias adaptações, readaptações cinematográficas e bibliográficas já foram lançadas. Ora, uma obra que resiste a três séculos e ainda hoje instiga novas criações é certamente digna de atenção. Uma reverência a Lewis Carol e à menina adormecida mais instigante da Literatura Infantil!
No cinema, o livro já teve lançados 15 filmes nos mais diversos formatos, sem contar as séries adaptadas pra TV. A versão cinematográfica mais recente, estreada em 2010, é a do diretor Tim Burton. Com enredo alinhado à versão original, a RELEITURA de Burton devolve Alice ao País das Maravilhas, em plena puberdade. Com a ajuda de numerosos efeitos especiais e uma pitada da excentricidade, característica do cineasta, o filme reaviva o antigo clássico e endossa a tendência contemporânea de se fazer RELEITURAS.
Na Literatura as versões, reversões e inversões de Alice e suas aventuras não cessam, ao contrário, "brotam" aos montes. De alguma forma o universo surreal em que Alice mergulha encanta escritores contemporâneos que têm se dedicado a "deitar e rolar" nesse território ocupado por figuras bizarras como a Gata Risonha, o Chapeleiro Maluco e toda uma "galera" amalucada.
O texto original de Carol apresenta duas partes: ALICE NO FUNDO DO ESPELHO e O QUE ALICE ENCONTROU POR LÁ. Tanto as versões cinematográficas quanto os livros costumam apresentar mesclas dessas duas partes ou referências a esta ou aquela, é o caso de ALICE NO ESPELHO, de Laura Bergallo.
ALICE NO ESPELHO é uma RELEITURINHA do texto original em contexto bem específico: Alice é uma adolescente que, como tantas outras, quer ser magra, magérrima. O desejo vira obsessão, e esta leva à anorexia, assunto delicado, que recebe detalhamento em relação a sintomas e consequências no final do livro, com um apêndice informativo.  
A relação da Alice anoréxica com a de Carol manifesta-se à medida que a garota lembra-se do pai e da história da ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, que ele costumava lhe contar. Conforme surgem complicações na vida da adolescente, ela logo se lembra das diversas maneiras que a Alice fictícia encontrava para se livrar delas, como "fazer de conta", por exemplo.
A trama se segue sempre com a vida conturbada de uma garota magérrima que se acha obesa cada vez que se olha no espelho, faz de tudo para não deixar que os outros percebam que ela fica horas sem comer. Assim se segue num despertar e adormecer constante, repleto de sensações múltiplas, até que Alice tem uma crise, devido ao jejum e abstinência a que se submetia constantemente, e desmaia no chão do próprio quarto.
Assim como a personagem de Carol, a Alice anoréxica ingressa no "país das maravilhas" somente após adormecer. Ou seja, tudo o que acontece de fantástico, neste ou naquele livro, acontece no sonho, na dormência, na sonolência. Pois bem, eis que a garota, então, resolve atravessar o espelho, como na história original, e surpreendetemente consegue! Já "do lado de lá" ela se depara com uma adolescente gordinha e muito simpática chamada ECILA, que nada mais é do que ALICE ao contrário.
                A partir desse momento a trama se desenvolve em uma cadência única. A Alice (do espelho) mergulha em um mundo, fantástico, diferente, onde todas as pessoas passam por uma TRANSFORMAÇÃO que as torna incrivelmente belas, porém iguais. Como na versão de Lewis Carol, essa Alice também se perde e vive aventuras fantásticas, além disso, a cada personagem ou situação nova, ela faz relação com personagens da obra original, ora com a Rainha de copas, ora com o Coelho Branco e assim sucessivamente. 
                Conforme o enredo se desenlaça, a Alice de Bergallo atinge uma série de aprendizados, até compreender e conscientizar-se de que sua obsessão pela magreza a levara a desenvolver sintomas de anorexia.
Vale lembrar que quando ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS foi publicada, ela surgiu como uma obra que oferecia ao público infantil uma dose extra de fantasia e imaginação, destoando dos livros moralizantes e sisudos da época. Mesmo assim, a curiosidade e espontaneidade da personagem parecem apontar para uma menina muito próxima "do real". De fato, a Alice de Carol foi composta com base em uma "menina de verdade", Alice Lidell, sobrinha do autor. Talvez a isso se deva o caráter de veracidade que o comportamento da personagem principal da obra adquire na história.
Já ALICE NO ESPELHO concilia fantasia e questões da vida real. Não é uma obra moralizante, como os contos e fábulas de outrora, mas também não está isenta completamente do caráter educativo de que muitos livros de Literatura Infantil tem se servido atualmente. Da mesma forma a Alice de Bergallo sai do cotidiano para se deparar com um outro mundo, aparentemente estranho e sombrio, mas que na verdade revela semelhanças surpreendentes com a "realidade".
E nesse jogo de ir e vir (da e para a realidade, do e para o sonho), adormecer e despertar, as Alices alcançam os mesmos destinos, ainda que percorram caminhos diferentes, afinal, o que importa não é exatamente ONDE elas chegam mas o percurso que elas trilham até chegar lá.
Se a história de ALICE NO ESPELHO já lhe pareceu uma RELEITURINHA de bom tamanho, espere só para ler as aventuras da CHAPEUZINHO VERMELHO quando ela resolve dar uma "passeadinha" pelo país das maravilhas!
Mas isso já é outra história... que fica para a próxima edição.

Até lá!

novembro 01, 2011

KAZUO EM QUADRINHOS - OUTUBRO


Você se lembra do Piteco?
Por Alexandre Kazuo 

(Publicado originalmente em outubro de 2011 em http://www.leiturinhas.com.br/)


Eu tenho um primo, mais novo dotado de praticamente metade da minha faixa etária (tenho 29 anos). Quando ele ainda era bem pequeno, ainda com dois ou três anos, mas já prestando atenção em personagens de desenhos animados e videogames; eu perguntava a ele se ele "conhecia o Piteco?". A ideia era justamente deixá-lo curioso a respeito de personagens infantis de uma época muito anterior a dele. Citado brevemente a muitas colunas atrás neste espaço do Leiturinhas, o criador Maurício de Souza revelou ter iniciado a sua carreira como autor de HQ's não com personagens infantis, mas sim, com histórias de terror. Era um gênero em alta durante a década de 60 do século XX. Porém ao apresentar um simpático cachorrinho azul ao seu editor, Maurício de Souza se voltou ao público infantil com o Bidu. Essa revelação se deu numa coluna assinada pelo próprio Maurício na revista Wizard magazine, quando a mesma era publicada no Brasil pela editora Globo durante os anos 90. A Wizard é uma publicação norte-americana voltada aos bastidores, autores e mercado das histórias em quadrinhos.

Não apenas as crianças da Turma da Mônica povoavam as histórias, tiras e o universo criado por Maurício de Souza. Piteco era o homem das cavernas em tramas que obviamente se davam na pré-história. Vestido com uma roupa rudimentar, descabelado e barbudo, Piteco geralmente fugia da Thuga, sua pretendente a acasalamento. Tiradas a respeito dos tempos pré-históricos e do início da história da humanidade geralmente eram observadas nas tramas que Maurício dedicava ao Piteco. Ainda nestes tempos primitivos havia o pacato Horácio, um pequeno dinossauro verde. Pacífico, sereno e às vezes existencialista, Horácio contracenava com Lucinda, uma dinossauro fêmea cor de rosa. O conceito das histórias de terror não foi extinto no imaginário de Maurício de Souza que redefiniu personagens mórbidos para o público infantil. Tratava-se da turma do Penadinho o equivalente tupiniquim para o Gasparzinho, "fantasminha camarada" norte-americano. Junto ao Penadinho, tínhamos a Dona Morte, Lobisomem, Frankenstein e a simpática caveira Cranicola.

O pé nas tramas de ficção científica se dava nas histórias do Astronauta, que utilizava um traje azul arredondado e viajava pelos confins do universo numa nave redonda alaranjada. Do espaço também vinha a mais terrível ameaça ao universo da Turma da Mônica, o vilão Capitão Feio, emissário do império Fedegoso. No início dos anos 90, o Capitão Feio chegou a protagonizar inclusive um jogo para o antigo videogame Master System, intitulado Turma da Mônica contra Capitão Feio. A população indígena do Brasil se via caracterizada pelo indiozinho Papa Capim. O sertão e o interior do nosso país se viam reverenciados pelo carismático Chico Bento e a turma da zona rural com Zé Lelé, Zé da Roça e a namorada do Chico, Rosinha. Nos anos 70, quando Pelé se tornou uma marca dotada de extremo potencial de marketing, Maurício de Souza criou o Pelezinho a representar o futebol. Mais recentemente Maurício desenvolveu sua versão para Ronaldinho Gaúcho, que protagoniza algumas revistas recentes.

Hoje em dia há versões adolescentes para as eternas crianças da Turma da Mônica, Magali, Cascão, Cebolinha e da própria Mônica tentando tornar os personagens contemporâneos em relação às crianças e os pré-adolescentes atuais. Mas no passado, Maurício de Souza mantinha um núcleo voltado ao público teen com a bela Tina, que contracenava com o, gente fina, Rolo, Zecão e sua namorada, Pipa. As tramas eram voltadas ao público juvenil com histórias sobre encontros, que davam errado, e o lado bem humorado dos relacionamentos.

A marca Turma da Mônica é licenciada por Maurício de Souza em diversas frentes, como parques temáticos, desenhos animados, brinquedos e, no passado, até jogos de videogame. No fim dos anos 80, especiais para cinema de desenhos animados protagonizados pela Turma da Mônica obtiveram grande repercussão. Maurício é agora relacionado ao âmbito da Literatura Infantil com o lançamento de O Maior Anão do Mundo (ed. Melhoramentos) na última bienal de literatura do Rio de Janeiro, que aconteceu no início de setembro. Maurício ilustra a obra que conta com roteiro de Ziraldo. Maurício de Souza e suas criações merecem figurar nesse espaço pelo pioneirismo nos quadrinhos brasileiros. Um criador persistente, tão "durão"' quanto sua criatura, ou seja, o Piteco!