ENTREVISTA - ILAN BRENMAN
(Publicado originalmente em maio de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
Mestre
e Doutor pela faculdade de Educação da Usp, bacharel em psicologia pela
Puc de São Paulo, autor de mais 40 livros infantis e juvenis (muitos
premiados e outros traduzidos no exterior).
CONTANDO LEITURINHAS
LEITURINHAS
– Se você tivesse apenas uma meia página em branco para descrever as
LEITURINHAS que marcaram a sua vida, o que “caberia nesse papel”?
ILAN
– Fui formado pela geração que devorou os livros de Ruth Rocha, Ana
Maria Machado, Ziraldo, Marcos Rey, João Carlos Marinho, Pedro
Bandeira... e claro, não esquecendo do pai de todos: Monteiro Lobato.
LEITURINHAS – Você conta e escreve histórias. Em qual das duas situações você se realiza mais? De que maneira você consegue coletar feedbacks em relação ao que narra, seja desta ou daquela maneira?
ILAN
– Comecei como contador de histórias no começo dos anos 90 do século
passado, circulei por centenas de espaços pelo Brasil e pelo mundo, tive
muitos ouvintes, desde bebê a pessoas mais velhas. Contar histórias
sempre foi uma experiência maravilhosa na minha vida, mas com o passar
dos anos, fui percebendo que a demanda crescia, o corpo enfraquecia e a
mente se fortalecia. No final dos anos 90, comecei a registrar com mais
vigor minhas criações literárias e no começo do ano 2000, publicava meu
primeiro livro de ficção infantil (O pó do Crescimento,
ed. Wmf). Com esse livro tive a consciência de que a literatura podia
me levar muito mais longe do que podia imaginar, o contador de histórias
podia sussurrar suas invencionices sem precisar estar com seu corpo
presente. Continuei por anos contando histórias, mas aos poucos fui
fazendo uma transição para a literatura. Eu era um contador de histórias
que escrevia e hoje sou um escritor que conta histórias.
O feedback
do contar histórias é imediato: olhares, silêncio, sustos e os
comentários posteriores. Na literatura o retorno vem um pouco mais
lento, e-mail(s) recebidos, prêmios, resenhas em jornais e revistas.
LEITURINHAS
– Você tem quase 50 livros de Literatura Infantil publicados, alguns
deles escritos em espanhol, outros fazem parte do catálogo da Feira
Internacional do livro em Bolonha, outros ainda têm o selo do PNBE
(Programa Nacional do Livro Didático) e outros prêmios. Com tantas
conquistas, quais são os próximos passos de um escritor e contador de
histórias?
ILAN
– Estou agora ansioso com três publicações que sairão (no segundo
semestre) na Coreia do Sul. Não tenho na cabeça os próximos passos em
relação aos meus livros, fico sempre trabalhando com muita dedicação e
paixão nos meus projetos e torço para que os leitores gostem das minhas
maluquices literárias.
LEITURINHAS
– A personagem Laura de seu livro ATÉ AS PRINCESAS SOLTAM PUM parece
ter uma curiosidade sem limites. Em PAI, TODOS OS ANIMAIS SOLTAM PUM? a
menina continua afiada nas perguntas. De onde partiu e parte a
inspiração para compor uma personagem assim tão.. criança? Por que é o
pai o “explicador oficial” das curiosidades de Laura?
ILAN
– Grande parte da minha obra saiu de dentro da minha casa, tenho duas
filhas (8 e 5 anos) e elas são pura poesia e traquinagem. Sou um
observador atento da infância, e é dessa observação que nasce parte da
minha criação. As princesas nasceram de um pum real, ele foi soltado por
uma das minhas filhas e a frase que dá titulo ao livro foi falado pela
minha esposa. O pai, claro, é uma autorreferência.
LEITURINHAS – Você é um autor muito criativo. De onde parte seu processo de criação? O que há de especial enquanto você escreve um livro?
ILAN
– Como disse na pergunta anterior, observação do cotidiano é algo que
me encanta, pequenas miudezas da alma, gestos, falas, expressões faciais
etc. Da relação entre observação do mundo que me circunda e do mundo
interior que possuo é que nasce a literatura.
LEITURINHAS –
O seu livro ATÉ AS PRINCESAS SOLTAM PUM foi selecionado entre os 30
melhores livros infantis no ano de 2009 e permaneceu durante 60 semanas
como o livro mais vendido da Livraria da Vila. A que se deve o sucesso
dessa obra? O que isso significa em um país em que a leitura compete com
as mais variadas formas alienantes de entretenimento?
ILAN
– O segredo do sucesso de um livro é sempre um enigma, talvez por isso o
chamemos de "segredo". Antes do livro das princesas, já tinha publicado
mais de vinte livros, mas o que aconteceu com esse livro foi algo
fenomenal, no começo até fiquei meio assustado com a repercussão. O que
vejo é que o livro faz os leitores darem muita risada, ele encanta
várias idades, meninas e meninos. Creio que descontruir a imagem das
princesas (coisa que não fiz de caso pensado) pode ser uma das respostas
do sucesso do livro, só sei que quando eu o escrevi, me diverti muito,
não fiquei pensando em nada além da própria narrativa.
LEITURINHAS – Em seu ponto de vista, quais são os ingredientes necessários para se fazer LEITURINHAS com qualidade e prazer?
ILAN
– A palavra principal é TEMPO. Precisamos de tempo para buscar boas
obras, para ler boas obras e para compartilhar boas obras. Quanto mais
adentramos nesse gigantesco mundo da literatura infantil, mais vemos a
diversidade de textos, projetos gráficos, ilustradores etc. Uma boa obra
para crianças tem que respeitar sua inteligência, não acreditar que
elas são entendem palavras e narrativas simples, sempre busquem ir além
daquilo que acreditamos ser sua compreensão. Uma obra para crianças não
pode ter medo de falar sobre o que realmente interessa à alma infantil:
aventura, terror, poesia, amor, tristeza, morte, vida, amizades,
medos... Uma boa obra para crianças tem que contemplar a beleza do
objeto LIVRO. É claro, o mais importante: parar a correria da vida para
contar e ler histórias para a criançada.
LEITURINHAS
– Em seu projeto DEGUSTAÇÃO DE HISTÓRIAS, há uma união de leitura e
culinária. Qual a receptividade desse tipo de proposta? Você considera
esta uma maneira alternativa de formar novos leitores? Há outros
projetos, como este, previstos para 2012?
ILAN
– Este projeto nasceu da vontade que tive de unir dois dos alimentos
mais importantes das nossas vidas: comida e narrativas. A Degustação de
Histórias tem sete anos de existência, ela acontece todos os meses do
ano na livraria da vila em São Paulo. É um projeto pioneiro que junta
adultos para ouvirem histórias, comerem alimentos preparados por um
Chesf e beberem um bom vinho. A ideia não é criar novos leitores, mas
isso acaba acontecendo naturalmente quando os convidados querem ir atrás
das histórias que contei.
LITERATURA E ENSINO
A ESCOLA E O DESAFIO DE FORMAR LEITORES III
Por Leny Fernandes Zulim
(Publicado originalmente em maio de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
Continuemos nossa reflexão sobre a difícil e desafiadora tarefa do
professor e da escola para formar leitores. Difícil e desafiadora tarefa
porque a maioria de nossos alunos não vive em um ambiente rico
culturalmente falando, com o contato estreito e cotidiano com livros,
revistas e jornais. Nesse sentido, oportuno se faz lembrar aqui o livro Amigos secretos, de
Ana Maria Machado. Nele, a personagem Lu apresenta-se como exemplo de
alguém com uma bela história de leitura. Fica patente no livro que essa
história está ancorada no quadro de referências que ela sempre encontrou
em seu lar. Lu tornou-se leitora porque aprendeu pelo exemplo dos que
estavam à sua volta. Vejamos o trecho em que Pereba, o narrador, comenta
o ambiente da casa de Lu, pois ele explicita o que acabamos de afirmar:
Ainda
outro dia o Tiago estava dizendo que, cada vez que vai lá [na casa da
Lu], alguém fala de alguma leitura diferente e ele fica morrendo de
vontade de ler. Quer dizer, na casa da Lu tem sempre alguém lendo, tem
sempre um livro aberto emborcado em cima de uma mesa, um outro do lado
da poltrona com um marcador dentro, outro esquecido no meio das fitas de
vídeo, uma pilha na mesinha de cabeceira. Até no banheiro tem sempre
uns dois livros diferentes. É legal a gente ir ao banheiro na casa da Lu
porque acaba lendo uma crônica ou umas piadas enquanto está lá sentado
fazendo outras coisas. (p. 17)
Esse trecho parece ensinar a nós, professores, o que cansamos de ler e
ouvir, teoricamente. Primeiro quem lê estimula aqueles que estão ao seu
redor a ler, estabelecendo o chamado circuito do livro; segundo, um
ambiente físico e humano propiciador de leitura é fundamental para
formar leitores. Se a maioria de nossos alunos não tem uma vivência com
um ambiente assim em casa, é preciso que escola e professores tentem
suprir essa falha da melhor maneira possível. Que fique então registrado
aqui: um professor leitor, lendo sempre para os seus alunos (contos,
crônicas líricas, divertidas, informativas, poesias) e com os seus
alunos (hora de ler é hora de ler para todos, inclusive para ele),
cotidianamente com um livro na mão, comentando a gostosura que está
vivendo com o enredo, é o estopim para estimular o ato de ler; uma sala
de aula com cartazes falando de livros, com caixas de livros e revistas
para que os alunos possam ler nos intervalos e nos momentos de folga,
quando terminam em tempos diferentes suas atividades, são dois grandes
estimuladores de leitura. Só para ficarmos nesses poucos exemplos por
agora, é bom levar isso em conta ao planejarmos nossas próximas aulas.
Continuemos, então, falando de atitudes estimuladoras do ato de ler.
- Preparar a leitura a ser feita. Ao ler um texto para a turma, a modulação de voz, o gestual do professor, tudo contribui para o envolvimento do aluno com a leitura. Portanto, escolher bem o texto é apenas o primeiro passo. É preciso, depois, preparar a leitura desse texto para que ele seja transmitido com vida e encante o aluno. Afinal, se o professor vivencia o enredo que lê com interesse e entusiasmo, ele estabelece sintonia com o seu público, recriando-o com originalidade, mas garantindo-lhe a essência (Coelho (1986);
- Conversar sempre com os alunos: Fazer da sala de aula um lugar em que idéias e informações circulem instiga os alunos a falar. É preciso, então, ouvi-los e incentivá-los a ouvir quem fala. Nesse caso, é salutar que o professor enfatize: quando alguém fala é uma questão de respeito ouvir. É assim que se constrói um ambiente rico e saudável no qual circulam informação, conhecimento, respeito e inclusive, afetividade. Essa atitude auxiliará os alunos não só no desenvolvimento da linguagem oral como no desenvolvimento da leitura e da escrita, tornando-os capazes de expor com clareza o que pensam.
- Presentear com livros: Livro também pode funcionar como brinquedo. Por isso, é interessante falar com os pais dos alunos incentivando-os a darem livros de presente em datas especiais. O livro precisa ser presente e brinquedo em Dia da Criança, Natal, aniversário... E o professor pode bem ser o exemplo quando for dar um prêmio a um aluno. A literatura infanto-juvenil contemporânea se utiliza com esmero dos recursos gráficos e ilustração de forma que existem livros encantadores, capazes de, num primeiro momento, serem vistos como brinquedos pelo seu colorido e diagramação. E isso conspira para que os pequenos queiram ler.
- Sugerir é sempre melhor que impor determinada leitura. O texto literário, exatamente por estreitar o diálogo texto-autor-leitor, deve ser, o mais possível, escolhido livremente. Assim, o professor pode e deve sugerir leituras, já que se supõe, é um leitor experiente, mas deve, igualmente, evitar a imposição. O bom mesmo é ver o aluno percorrendo com os olhos um determinado livro e, cheio de curiosidade, escolher o que mais lhe agrada. Quando isso não é possível convém fazer valer a estratégia da sugestão de vários títulos para que a turma escolha. É pior que a livre escolha, mas muito melhor, ainda, que impor;
- Propor atividades diversificadas sobre o lido: É interessante que o professor ofereça sempre atividades diversificadas e lúdicas a respeito do que os alunos leram. Pode ser um painel em que escrevem sobre o livro; uma encenação; um desenho; uma maquete do cenário; um debate sobre determinada notícia lida no jornal que possa estar relacionada ao enredo, ao tema... E depois da leitura o que fazer? Aproveitar para aprender com ela. Lido o livro, o bom é conversar sobre ele. Após o término de uma leitura literária o professor não pode esquecer-se de proporcionar à turma um espaço para socializar as impressões de leitura. Essa roda de leitura é imprescindível, pois permite a partilha das idéias. Discutindo e confrontando idéias podem-se construir significados para a leitura e preencher os espaços vazados deixados pelo autor. Esse espaço de discussão permite, portanto, que se verbalizem inúmeras interpretações fazendo emergir o desejo de ir além, levando esses pequenos leitores a fazer da leitura um hábito cotidiano enriquecedor. E aí? Tudo termina com a roda da leitura? Parece que não. Normalmente, há muito mais a ser explorado e aprofundado, seja individual ou coletivamente. Toda obra traz um universo de temas e subtemas espalhados por suas páginas, que permitem ao professor explorar e propor inúmeras atividades com vistas a ampliar os conhecimentos da turma. Quanto se pode conhecer sobre história, ética, arte, ao ler, por exemplo, O canto da praça, de Ana Maria Machado; quanto se pode conhecer de Geografia e história ao ler A menina que fez a América, de Ilka Brunhilde Laurito. Por isso é que enfatizamos a necessidade de que o professor de língua e literatura tenha um conhecimento razoável de História, Geografia, enfim das outras áreas do conhecimento. E quando ele não tem esse conhecimento é preciso ter a curiosidade de pesquisar, falar com colegas, buscar respostas enfim... É oportuno lembrar aqui o que afirma Roland Barthes no conhecido texto Aula:
A
literatura assume muitos saberes. Num romance como Robinson Crusoé, há
um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico,
antropológico (Robinson passa da natureza à cultura). Se, por não sei
que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas
devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária
que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento
literário.
Fechamos nossa conversa por aqui, hoje. Em nossos próximos encontros
vamos falar da literatura infanto-juvenil e fazer um passeio por sua
história no Brasil. Até lá ou a qualquer momento se você quiser fazer
contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
BIBLIOGRAFIA QUE SUSTENTA ESSE ARTIGO:
BARTHES, Roland. Aula. (Trad. Leyla Perrone-Moisés). São Paulo: Cultrix, 1988;
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 7. ed. São Paulo: Moderna, 2002.
MACHADO, Ana Maria. Amigos secretos. São Paulo: Ática, 2004;
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Amplexo, 2011.
_______. Leitura literária: uma proposta concreta de trabalho. Apucarana: Col. Objetivo Mater Dei, 1996.
VIDEOTECA
A LENDA DOS CAVALEIROS DE ATENA: RENASCIMENTO!
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em maio de 2012 em ww.leiturinhas.com.br)
Na
última coluna ‘Kazuo em quadrinhos’ este que vos escreve mencionou três
mangás de grande popularidade no Japão e que foram publicados em versão
brasileira. Entre eles ‘Saint Seiya’ que se tornou extremamente popular
no Brasil com o título ‘Cavaleiros do Zodíaco’. Como explicamos naquela
coluna, o que aconteceu no Brasil foi um tanto quanto diferente daquilo
que houve no Japão. Lá um mangá primeiro atinge grande popularidade e
depois ganha sua versão anime. No Brasil o desenho animado foi exibido
na metade dos anos 90 pela extinta TV Manchete sem nunca ter sido
editado o mangá em nosso país. Não é exagero afirmar que a mobilização
criada por algumas editoras no inicio deste milênio no intuito de
importar e traduzir títulos de mangás para o mercado nacional tenha
ocorrido devida a ‘explosão Cavaleiros do Zodíaco’.
As
aventuras de Seiya surgiram no Japão na metade dos anos 80. Com a
popularidade do mangá nas páginas do Shonen Jump a Toei Company
rapidamente produziu a versão anime dos personagens de Masami Kuramada.
Exibido entre 1986 e 1989, porém o anime que teve a inserção de eventos e
personagens a mais na trama, não teve o desfecho realizado. A Toei
interrompeu a produção de Saint Seiya e o desfecho que se via no mangá
só ganhou versão desenho animado por volta de 2004, o chamado ‘capítulo
Hades’. Isso quase que paralelamente ao ‘Lost Canvas’ outra série que
apresentava a batalha acontecida 200 anos antes do momento em que Seiya e
seus amigos enfrentavam as ameaças contra a deusa Atena. Nesta
redescoberta de Saint Seiya no século XXI a Toei percebeu a demanda de
público que os personagens ainda tinham. Na primeira semana de abril
estreiou o primeiro episódio de ‘Saint Seiya Omega’ uma versão
contemporânea que dará enfoque aos sucessores de Seiya, Shiryu, Hiyoga,
Shun e Ike.
O
site Omelete foi praticamente o único veículo da mídia que noticiou a
estréia deste primeiro episódio com exibição simultânea no Japão,
França, Taiwan e Brasil, mais exatamente em São Paulo. O editor Marcelo
Forlani acompanhou a exibição que foi muito bem recebida pelos fãs e
ainda trouxe uma palavra de Eduardo Vilarinho responsável pelo site
oficial dos Cavaleiros do Zodíaco no Brasil (www.cavzodiaco.com.br).
Vilarinho explicou que a expansão da internet com certeza fez a
produtora Toei perceber as demandas pela série fora do Japão. No Brasil
os personagens se tornaram populares, na França onde há um publico
consumidor de quadrinhos absurdo, o mangá e consequentemente seus
personagens também tem grande aceitação. Em território japonês, segundo
Vilarinho, a idéia da Toei além de lançar uma nova série o objetivo
seria buscar a antiga audiência que com certeza acompanhará o novo anime
junto a seus filhos. Exibidos semanalmente os episódios estarão indo ao
ar no Japão possivelmente pelos próximos sete ou oito meses. Vilarinho
afirma que já há negociações para a exibição da série na televisão
brasileira.
Após
a exibição o primeiro episódio foi disponibilizado no You Tube por fãs e
diversos links podiam ser acessados já contendo inclusive legendas em
português. Este que vos escreve obviamente viu o primeiro episódio
através do You Tube, a exibição em São Paulo acontecida no último dia 04
de abril foi restrita a membros do fã clube. Muitos detalhes foram
respeitados, como a velha música de abertura em novos arranjos, porém
interpretada por Make Up, seu artista original. Toru Furuya que fazia a
voz de Seiya na versão japonesa também assume o personagem que dá o ar
da graça na primeira seqüência. Entretanto, trata-se aqui da ‘passagem
de bastão’. Shina a amazona da cobra está treinando um novo jovem
chamado Kouga, pretendente a armadura de Pegasus que um dia pertenceu a
Seiya. A ação é dinâmica e denuncia o quanto a série original se vê
datada em muitos aspectos. Por outro lado o roteiro de Masami Kuramada
era interessante e abria perspectivas diversas para continuar sendo
explorado.
Aqueles que acompanham os fansubs
especializados em animes com certeza acompanharão a série muito antes
de seu lançamento oficial no Brasil, caso realmente aconteça. Resta
aguardar novas informações.
KAZUO EM QUADRINHOS
O IMPERDOÁVEL FRANK MILLER
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em maio de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
Na
virada de 2011 para 2012 Frank Miller fora ‘cutucado’ por outro gênio
das histórias em quadrinhos, Alan Moore. Ambos mais Neil Gaiman são
tomados por muitos como os três grandes das HQ’s e não sem razão. Alan
Moore andou reclamando do intento da DC Comics que está prestes a lançar
uma nova série envolvendo os personagens de seu consagrado ‘Watchmen’ e
intitulada ‘Before Watchmen’. Para Moore, autor e também detentor dos
direitos sobre os personagens, Watchmen era algo que originalmente se
postava na contramão de quadrinhos de entretenimento como Homem Aranha,
Superman ou X-Men. A critica surgia tanto no enredo da série original
quanto na sua formatação mercadológica, ou seja uma série com começo
meio e final definitivo. Moore, britânico e assumidamente ‘de esquerda’
‘cutucou’ o norte-americano Frank Miller, descrevendo-o enquanto alguém
‘de direita’.
Se
Moore repudia tanto intentos capitalistas, talvez devesse devolver todo
o dinheiro que Watchmen lhe rendeu no meio da década de 80 e que com
certeza a DC Comics lhe pagou. Frank Miller por sua vez nunca teve
receio de conduzir personagens muito visualizados tais quais Wolverine,
Demolidor e principalmente Batman. E possivelmente, dentre os três
criadores citados até aqui, Miller atualmente é o mais bem sucedido no
que diz respeito a adaptações cinematográficas que rendem milhões. A
exemplo de Moore, Frank Miller surgiu nas HQ’s discretamente entre o fim
dos anos 70 e inicio dos anos 80 do século XX. Na Marvel Comics
transformou Wolverine no ‘cara durão’ em histórias hoje lendárias as
quais levavam Logan a um cenário nipônico. Na mítica minissérie em
quatro edições (originalmente pela ed. Abril) ‘Eu Sou Wolverine’, Logan
se envolve com Mariko Yoshida herdeira do clã Yoshida tendo quase se
casado com a mesma. Em seus mais de 200 anos, Logan supostamente poderia
ter tido treinamento samurai no Japão feudal. Em ‘Wolverine & Kitty
Pride’ em duas edições (originalmente também ed. Abril) Logan ressurgia
no Japão agora como tutor da então jovem Lince Negra. Miller encontrou
uma forma inteligente de transformar a ‘maquina de matar’ num guerreiro
honrado quase próximo a um samurai. Embora não detenha os direitos sobre
o personagem, há indícios de que as histórias de Frank Miller servirão
de base para o roteiro de ‘The Wolverine’ novo filme trazendo o velho
Logan.
Ainda
na Marvel, Frank Miller redefiniu o Demolidor na célebre ‘A Queda de
Murdock’ ilustrada por David Mazzucheli. A história era forte e polêmica
onde Karen Page então namorada de Matt Murdock (alter ego do
Demolidor), era uma viciada. No ápice da dependência quimica, Page vende
a identidade do Demolidor a representantes de Wilson Fisk, o Rei do
Crime. Isto citando apenas uma de muitas grandes histórias escritas por
Miller tendo o Demolidor como personagem. Rivalizando com ‘Watchmen’ de
Alan Moore, Frank Miller trouxe ‘O Cavaleiro das Trevas’ (1986) tendo
Batman como protagonista. Se Watchmen apresentava um vislumbre
verossímil acerca de um grupo de super-heróis; ‘O Cavaleiro das Trevas’
apresentava um vislumbre verossímil de Bruce Wayne. Um cinquentenário
Wayne se via aposentado e uma Gotham City absurdamente decadente via seu
índice de criminalidade expandir. Wayne resolve voltar a vestir o manto
do morcego. Sente o peso da idade e a decrepitude. Selina Kyle é
retratada de forma idosa. O Coringa ressurge tão logo as aparições de
Batman passam a ser noticiadas, será um confronto derradeiro em que
Batman se mostrará arrependido por não ter evitado tantas mortes antes.
Pela primeira vez a máscara de Robin é vestida por uma garota. Enquanto
poder amoral e paralelo a legislação vigente, Batman passa a incomodar o
estabilishment norte-americano. O embate final será contra o Superman por sua vez estando a serviço do governo yankee.
Vale ressaltar que o filme ‘Batman O Cavaleiro das Trevas’ (2007) não
adaptou totalmente a série homônima de Frank Miller. Entretanto tanto o
‘Cavaleiro das Trevas’ de Miller quanto seu ‘Batman Ano Um’, o qual
vislumbrava as primeiras aventuras de Bruce Wayne serviram de base para
os roteiros de ‘Batman Begins’ (2003) e ‘Batman O Cavaleiro das Trevas’.
Já
nos anos 90 Frank Miller teve muitos trabalhos editados pela Dark Horse
que se tornou um selo adulto bastante requisitado. Ali desenvolveu as
histórias de ‘Sin City, a cidade do pecado’. Em tramas absurdamente
adultas descritas enquanto noir, em preto e branco em sua quase
totalidade, ‘Sin City’ apresenta crônicas ou contos na linguagem HQ
onde os protagonistas são errantes, desajustados, prostitutas, matadores
ou policiais perseguidos por serem honestos numa cidade decadente onde a
lei dos homens praticamente não funciona. A primeira incursão
cinematográfica de Sin City se deu em 2005 com muito sucesso e uma nova
já tem permissão para ser iniciada. Além de Sin City, ‘300’ também fora
publicada pela Dark Horse e sua adaptação hollywoodeana obteve grande
resposta de público. Em ‘300’ Frank Miller recontava utilizando-se da
linguagem das HQ’s, a lenda helênica dos 300 de Esparta na Guerra do
Peloponeso relatada pelo historiador grego Tucidides (séc V a.C).
A
obra de Frank Miller nas HQ’s é vasta e seus trabalhos como produtor
executivo de adaptações de obras suas em Hollywood também são bastante
enaltecidas. Frank Miller está para as HQ’s assim como Clint Eastwood
está para o cinema!


