junho 02, 2012

MAIO - Entrevista e Artigos

ENTREVISTA - ILAN BRENMAN
(Publicado originalmente em maio de 2012 em www.leiturinhas.com.br)

Mestre e Doutor pela faculdade de Educação da Usp, bacharel em psicologia pela Puc de São Paulo, autor de mais 40 livros infantis e juvenis (muitos premiados e outros traduzidos no exterior).






 CONTANDO LEITURINHAS

LEITURINHAS – Se você tivesse apenas uma meia página em branco para descrever as LEITURINHAS que marcaram a sua vida, o que “caberia nesse papel”?
ILAN – Fui formado pela geração que devorou os livros de Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Ziraldo, Marcos Rey, João Carlos Marinho, Pedro Bandeira... e claro, não esquecendo do pai de todos: Monteiro Lobato.

LEITURINHAS – Você conta e escreve histórias. Em qual das duas situações você se realiza mais? De que maneira você consegue coletar feedbacks em relação ao que narra, seja desta ou daquela maneira?
ILAN – Comecei como contador de histórias no começo dos anos 90 do século passado, circulei por centenas de espaços pelo Brasil e pelo mundo, tive muitos ouvintes, desde bebê a pessoas mais velhas. Contar histórias sempre foi uma experiência maravilhosa na minha vida, mas com o passar dos anos, fui percebendo que a demanda crescia, o corpo enfraquecia e a mente se fortalecia. No final dos anos 90, comecei a registrar com mais vigor minhas criações literárias e no começo do ano 2000, publicava meu primeiro livro de ficção infantil (O pó do Crescimento, ed. Wmf). Com esse livro tive a consciência de que a literatura podia me levar muito mais longe do que podia imaginar, o contador de histórias podia sussurrar suas invencionices sem precisar estar com seu corpo presente. Continuei por anos contando histórias, mas aos poucos fui fazendo uma transição para a literatura. Eu era um contador de histórias que escrevia e hoje sou um escritor que conta histórias.
O feedback do contar histórias é imediato: olhares, silêncio, sustos e os comentários posteriores. Na literatura o retorno vem um pouco mais lento, e-mail(s) recebidos, prêmios, resenhas em jornais e revistas.

LEITURINHAS – Você tem quase 50 livros de Literatura Infantil publicados, alguns deles escritos em espanhol, outros fazem parte do catálogo da Feira Internacional do livro em Bolonha, outros ainda têm o selo do PNBE (Programa Nacional do Livro Didático) e outros prêmios. Com tantas conquistas, quais são os próximos passos de um escritor e contador de histórias?
ILAN – Estou agora ansioso com três publicações que sairão (no segundo semestre) na Coreia do Sul. Não tenho na cabeça os próximos passos em relação aos meus livros, fico sempre trabalhando com muita dedicação e paixão nos meus projetos e torço para que os leitores gostem das minhas maluquices literárias.

LEITURINHAS – A personagem Laura de seu livro ATÉ AS PRINCESAS SOLTAM PUM parece ter uma curiosidade sem limites. Em PAI, TODOS OS ANIMAIS SOLTAM PUM? a menina continua afiada nas perguntas. De onde partiu e parte a inspiração para compor uma personagem assim tão.. criança? Por que é o pai o “explicador oficial” das curiosidades de Laura?
ILAN – Grande parte da minha obra saiu de dentro da minha casa, tenho duas filhas (8 e 5 anos) e elas são pura poesia e traquinagem. Sou um observador atento da infância, e é dessa observação que nasce parte da minha criação. As princesas nasceram de um pum real, ele foi soltado por uma das minhas filhas e a frase que dá titulo ao livro foi falado pela minha esposa. O pai, claro, é uma autorreferência.

LEITURINHAS – Você é um autor muito criativo. De onde parte seu processo de criação? O que há de especial enquanto você escreve um livro?
ILAN – Como disse na pergunta anterior, observação do cotidiano é algo que me encanta, pequenas miudezas da alma, gestos, falas, expressões faciais etc. Da relação entre observação do mundo que me circunda e do mundo interior que possuo é que nasce a literatura.

LEITURINHAS – O seu livro ATÉ AS PRINCESAS SOLTAM PUM foi selecionado entre os 30 melhores livros infantis no ano de 2009 e permaneceu durante 60 semanas como o livro mais vendido da Livraria da Vila. A que se deve o sucesso dessa obra? O que isso significa em um país em que a leitura compete com as mais variadas formas alienantes de entretenimento?
ILAN – O segredo do sucesso de um livro é sempre um enigma, talvez por isso o chamemos de "segredo". Antes do livro das princesas, já tinha publicado mais de vinte livros, mas o que aconteceu com esse livro foi algo fenomenal, no começo até fiquei meio assustado com a repercussão. O que vejo é que o livro faz os leitores darem muita risada, ele encanta várias idades, meninas e meninos. Creio que descontruir a imagem das princesas (coisa que não fiz de caso pensado) pode ser uma das respostas do sucesso do livro, só sei que quando eu o escrevi, me diverti muito, não fiquei pensando em nada além da própria narrativa.

LEITURINHAS – Em seu ponto de vista, quais são os ingredientes necessários para se fazer LEITURINHAS com qualidade e prazer?
ILAN – A palavra principal é TEMPO. Precisamos de tempo para buscar boas obras, para ler boas obras e para compartilhar boas obras. Quanto mais adentramos nesse gigantesco mundo da literatura infantil, mais vemos a diversidade de textos, projetos gráficos, ilustradores etc. Uma boa obra para crianças tem que respeitar sua inteligência, não acreditar que elas são entendem palavras e narrativas simples, sempre busquem ir além daquilo que acreditamos ser sua compreensão. Uma obra para crianças não pode ter medo de falar sobre o que realmente interessa à alma infantil: aventura, terror, poesia, amor, tristeza, morte, vida, amizades, medos... Uma boa obra para crianças tem que contemplar a beleza do objeto LIVRO. É claro, o mais importante: parar a correria da vida para contar e ler histórias para a criançada.

LEITURINHAS – Em seu projeto DEGUSTAÇÃO DE HISTÓRIAS, há uma união de leitura e culinária. Qual a receptividade desse tipo de proposta? Você considera esta uma maneira alternativa de formar novos leitores? Há outros projetos, como este, previstos para 2012?
ILAN – Este projeto nasceu da vontade que tive de unir dois dos alimentos mais importantes das nossas vidas: comida e narrativas. A Degustação de Histórias tem sete anos de existência, ela acontece todos os meses do ano na livraria da vila em São Paulo. É um projeto pioneiro que junta adultos para ouvirem histórias, comerem alimentos preparados por um Chesf e beberem um bom vinho. A ideia não é criar novos leitores, mas isso acaba acontecendo naturalmente quando os convidados querem ir atrás das histórias que contei.

LITERATURA E ENSINO

A ESCOLA E O DESAFIO DE FORMAR LEITORES III
Por Leny Fernandes Zulim
(Publicado originalmente em maio de 2012 em www.leiturinhas.com.br)
         Continuemos nossa reflexão sobre a difícil e desafiadora tarefa do professor e da escola para formar leitores. Difícil e desafiadora tarefa porque a maioria de nossos alunos não vive em um ambiente rico culturalmente falando, com o contato estreito e cotidiano com livros, revistas e jornais. Nesse sentido, oportuno se faz lembrar aqui o livro Amigos secretos, de Ana Maria Machado. Nele, a personagem Lu apresenta-se como exemplo de alguém com uma bela história de leitura. Fica patente no livro que essa história está ancorada no quadro de referências que ela sempre encontrou em seu lar. Lu tornou-se leitora porque aprendeu pelo exemplo dos que estavam à sua volta. Vejamos o trecho em que Pereba, o narrador, comenta o ambiente da casa de Lu, pois ele explicita o que acabamos de afirmar:

Ainda outro dia o Tiago estava dizendo que, cada vez que vai lá [na casa da Lu], alguém fala de alguma leitura diferente e ele fica morrendo de vontade de ler. Quer dizer, na casa da Lu tem sempre alguém lendo, tem sempre um livro aberto emborcado em cima de uma mesa, um outro do lado da poltrona com um marcador dentro, outro esquecido no meio das fitas de vídeo, uma pilha na mesinha de cabeceira. Até no banheiro tem sempre uns dois livros diferentes. É legal a gente ir ao banheiro na casa da Lu porque acaba lendo uma crônica ou umas piadas enquanto está lá sentado fazendo outras coisas. (p. 17)

       
        Esse trecho parece ensinar a nós, professores, o que cansamos de ler e ouvir, teoricamente. Primeiro quem lê estimula aqueles que estão ao seu redor a ler, estabelecendo o chamado circuito do livro; segundo, um ambiente físico e humano propiciador de leitura é fundamental para formar leitores. Se a maioria de nossos alunos não tem uma vivência com um ambiente assim em casa, é preciso que escola e professores tentem suprir essa falha da melhor maneira possível. Que fique então registrado aqui: um professor leitor, lendo sempre para os seus alunos (contos, crônicas líricas, divertidas, informativas, poesias) e com os seus alunos (hora de ler é hora de ler para todos, inclusive para ele), cotidianamente com um livro na mão, comentando a gostosura que está vivendo com o enredo, é o estopim para estimular o ato de ler; uma sala de aula com cartazes falando de livros, com caixas de livros e revistas para que os alunos possam ler nos intervalos e nos momentos de folga, quando terminam em tempos diferentes suas atividades, são dois grandes estimuladores de leitura. Só para ficarmos nesses poucos exemplos por agora, é bom levar isso em conta ao planejarmos nossas próximas aulas. Continuemos, então, falando de atitudes estimuladoras do ato de ler.
  • Preparar a leitura a ser feita. Ao ler um texto para a turma, a modulação de voz, o gestual do professor, tudo contribui para o envolvimento do aluno com a leitura. Portanto, escolher bem o texto é apenas o primeiro passo. É preciso, depois, preparar a leitura desse texto para que ele seja transmitido com vida e encante o aluno. Afinal, se o professor vivencia o enredo que lê com interesse e entusiasmo, ele estabelece sintonia com o seu público, recriando-o com originalidade, mas garantindo-lhe a essência (Coelho (1986);
  • Conversar sempre com os alunos: Fazer da sala de aula um lugar em que idéias e informações circulem instiga os alunos a falar. É preciso, então, ouvi-los e incentivá-los a ouvir quem fala. Nesse caso, é salutar que o professor enfatize:  quando alguém fala é uma questão de respeito ouvir. É assim que se constrói um ambiente rico e saudável no qual circulam informação, conhecimento, respeito e inclusive, afetividade. Essa atitude auxiliará os alunos não só no desenvolvimento da linguagem oral como no desenvolvimento da leitura e da escrita, tornando-os capazes de expor com clareza o que pensam.
  • Presentear com livros: Livro também pode funcionar como brinquedo. Por isso, é interessante falar com os pais dos alunos incentivando-os a darem livros de presente em datas especiais. O livro precisa ser presente e brinquedo em Dia da Criança, Natal, aniversário... E o professor pode bem ser o exemplo quando for dar um prêmio a um aluno. A literatura infanto-juvenil contemporânea se utiliza com esmero dos recursos gráficos e ilustração de forma que existem livros encantadores, capazes de, num primeiro momento, serem vistos como brinquedos pelo seu colorido e diagramação. E isso conspira para que os pequenos queiram ler.
  • Sugerir é sempre melhor que impor determinada leitura. O texto literário, exatamente por estreitar o diálogo texto-autor-leitor, deve ser, o mais possível, escolhido livremente. Assim, o professor pode e deve sugerir leituras, já que se supõe, é um leitor experiente, mas deve, igualmente, evitar a imposição.  O bom mesmo é ver o aluno percorrendo com os olhos um determinado livro e, cheio de curiosidade, escolher o que mais lhe agrada. Quando isso não é possível  convém fazer valer a estratégia da sugestão de vários títulos para que a turma escolha.  É pior que a livre escolha, mas muito melhor, ainda, que impor;
  • Propor atividades diversificadas sobre o lido: É interessante que o professor ofereça sempre atividades diversificadas e lúdicas a respeito do que os alunos leram. Pode ser um painel em que escrevem sobre o livro; uma encenação; um desenho; uma maquete do cenário; um debate sobre determinada notícia lida no jornal que possa estar relacionada ao enredo, ao tema... E depois da leitura o que fazer? Aproveitar para aprender com ela. Lido o livro, o bom é conversar sobre ele. Após o término de uma leitura literária o professor não pode esquecer-se de proporcionar à turma um espaço para socializar as impressões de leitura. Essa roda de leitura é imprescindível, pois permite a partilha das idéias. Discutindo e confrontando idéias podem-se construir significados para a leitura e preencher os espaços vazados deixados pelo autor.  Esse espaço de discussão permite, portanto, que se verbalizem inúmeras interpretações fazendo emergir o desejo de ir além, levando esses pequenos leitores a fazer da leitura um hábito cotidiano enriquecedor. E aí? Tudo termina com a roda da leitura? Parece que não. Normalmente, há muito mais a ser explorado e aprofundado, seja individual ou coletivamente. Toda obra traz um universo de temas e subtemas espalhados por suas páginas, que permitem ao professor explorar e propor inúmeras atividades com vistas a ampliar os conhecimentos da turma. Quanto se pode conhecer sobre história, ética, arte, ao ler, por exemplo, O canto da praça, de Ana Maria Machado; quanto se pode conhecer de Geografia e história ao ler  A menina que fez a América, de Ilka Brunhilde Laurito. Por isso é que enfatizamos a necessidade de que o professor de língua e literatura tenha um conhecimento razoável de História, Geografia, enfim das outras áreas do conhecimento. E quando ele não tem esse conhecimento é preciso ter a curiosidade de pesquisar, falar com colegas, buscar respostas enfim... É oportuno lembrar aqui o que afirma Roland Barthes no conhecido texto Aula:

A literatura assume muitos saberes. Num romance como Robinson Crusoé, há um saber histórico, geográfico, social (colonial), técnico, botânico, antropológico (Robinson passa da natureza à cultura). Se, por não sei que excesso de socialismo ou de barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão presentes no monumento literário.
                   Fechamos nossa conversa por aqui, hoje. Em nossos próximos encontros vamos falar da literatura infanto-juvenil e fazer um passeio por sua história no Brasil. Até lá ou a qualquer momento se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.

                      BIBLIOGRAFIA QUE SUSTENTA ESSE ARTIGO:
BARTHES, Roland. Aula. (Trad. Leyla Perrone-Moisés). São Paulo: Cultrix, 1988;
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 7. ed. São Paulo: Moderna, 2002.
MACHADO, Ana Maria. Amigos secretos. São Paulo: Ática, 2004;
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Amplexo, 2011.
_______. Leitura literária: uma proposta concreta de trabalho. Apucarana: Col. Objetivo Mater Dei, 1996.

VIDEOTECA

A LENDA DOS CAVALEIROS DE ATENA: RENASCIMENTO!
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em maio de 2012 em ww.leiturinhas.com.br)
Na última coluna ‘Kazuo em quadrinhos’ este que vos escreve mencionou três mangás de grande popularidade no Japão e que foram publicados em versão brasileira. Entre eles ‘Saint Seiya’ que se tornou extremamente popular no Brasil com o título ‘Cavaleiros do Zodíaco’. Como explicamos naquela coluna, o que aconteceu no Brasil foi um tanto quanto diferente daquilo que houve no Japão. Lá um mangá primeiro atinge grande popularidade e depois ganha sua versão anime. No Brasil o desenho animado foi exibido na metade dos anos 90 pela extinta TV Manchete sem nunca ter sido editado o mangá em nosso país. Não é exagero afirmar que a mobilização criada por algumas editoras no inicio deste milênio no intuito de importar e traduzir títulos de mangás para o mercado nacional tenha ocorrido devida a ‘explosão Cavaleiros do Zodíaco’.

As aventuras de Seiya surgiram no Japão na metade dos anos 80. Com a popularidade do mangá nas páginas do Shonen Jump a Toei Company rapidamente produziu a versão anime dos personagens de Masami Kuramada. Exibido entre 1986 e 1989, porém o anime que teve a inserção de eventos e personagens a mais na trama, não teve o desfecho realizado. A Toei interrompeu a produção de Saint Seiya e o desfecho que se via no mangá só ganhou versão desenho animado por volta de 2004, o chamado ‘capítulo Hades’. Isso quase que paralelamente ao ‘Lost Canvas’ outra série que apresentava a batalha acontecida 200 anos antes do momento em que Seiya e seus amigos enfrentavam as ameaças contra a deusa Atena. Nesta redescoberta de Saint Seiya no século XXI a Toei percebeu a demanda de público que os personagens ainda tinham. Na primeira semana de abril estreiou o primeiro episódio de ‘Saint Seiya Omega’ uma versão contemporânea que dará enfoque aos sucessores de Seiya, Shiryu, Hiyoga, Shun e Ike.

O site Omelete foi praticamente o único veículo da mídia que noticiou a estréia deste primeiro episódio com exibição simultânea no Japão, França, Taiwan e Brasil, mais exatamente em São Paulo. O editor Marcelo Forlani acompanhou a exibição que foi muito bem recebida pelos fãs e ainda trouxe uma palavra de Eduardo Vilarinho responsável pelo site oficial dos Cavaleiros do Zodíaco no Brasil (www.cavzodiaco.com.br). Vilarinho explicou que a expansão da internet com certeza fez a produtora Toei perceber as demandas pela série fora do Japão. No Brasil os personagens se tornaram populares, na França onde há um publico consumidor de quadrinhos absurdo, o mangá e consequentemente seus personagens também tem grande aceitação. Em território japonês, segundo Vilarinho, a idéia da Toei além de lançar uma nova série o objetivo seria buscar a antiga audiência que com certeza acompanhará o novo anime junto a seus filhos. Exibidos semanalmente os episódios estarão indo ao ar no Japão possivelmente pelos próximos sete ou oito meses. Vilarinho afirma que já há negociações para a exibição da série na televisão brasileira.

Após a exibição o primeiro episódio foi disponibilizado no You Tube por fãs e diversos links podiam ser acessados já contendo inclusive legendas em português. Este que vos escreve obviamente viu o primeiro episódio através do You Tube, a exibição em São Paulo acontecida no último dia 04 de abril foi restrita a membros do fã clube. Muitos detalhes foram respeitados, como a velha música de abertura em novos arranjos, porém interpretada por Make Up, seu artista original. Toru Furuya que fazia a voz de Seiya na versão japonesa também assume o personagem que dá o ar da graça na primeira seqüência. Entretanto, trata-se aqui da ‘passagem de bastão’. Shina a amazona da cobra está treinando um novo jovem chamado Kouga, pretendente a armadura de Pegasus que um dia pertenceu a Seiya. A ação é dinâmica e denuncia o quanto a série original se vê datada em muitos aspectos. Por outro lado o roteiro de Masami Kuramada era interessante e abria perspectivas diversas para continuar sendo explorado.

Aqueles que acompanham os fansubs especializados em animes com certeza acompanharão a série muito antes de seu lançamento oficial no Brasil, caso realmente aconteça. Resta aguardar novas informações.

KAZUO EM QUADRINHOS

O IMPERDOÁVEL FRANK MILLER
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em maio de 2012 em www.leiturinhas.com.br)

Na virada de 2011 para 2012 Frank Miller fora ‘cutucado’ por outro gênio das histórias em quadrinhos, Alan Moore. Ambos mais Neil Gaiman são tomados por muitos como os três grandes das HQ’s e não sem razão. Alan Moore andou reclamando do intento da DC Comics que está prestes a lançar uma nova série envolvendo os personagens de seu consagrado ‘Watchmen’ e intitulada ‘Before Watchmen’. Para Moore, autor e também detentor dos direitos sobre os personagens, Watchmen era algo que originalmente se postava na contramão de quadrinhos de entretenimento como Homem Aranha, Superman ou X-Men. A critica surgia tanto no enredo da série original quanto na sua formatação mercadológica, ou seja uma série com começo meio e final definitivo. Moore, britânico e assumidamente ‘de esquerda’ ‘cutucou’ o norte-americano Frank Miller, descrevendo-o enquanto alguém ‘de direita’.

Se Moore repudia tanto intentos capitalistas, talvez devesse devolver todo o dinheiro que Watchmen lhe rendeu no meio da década de 80 e que com certeza a DC Comics lhe pagou. Frank Miller por sua vez nunca teve receio de conduzir personagens muito visualizados tais quais Wolverine, Demolidor e principalmente Batman. E possivelmente, dentre os três criadores citados até aqui, Miller atualmente é o mais bem sucedido no que diz respeito a adaptações cinematográficas que rendem milhões. A exemplo de Moore, Frank Miller surgiu nas HQ’s discretamente entre o fim dos anos 70 e inicio dos anos 80 do século XX. Na Marvel Comics transformou Wolverine no ‘cara durão’ em histórias hoje lendárias as quais levavam Logan a um cenário nipônico. Na mítica minissérie em quatro edições (originalmente pela ed. Abril) ‘Eu Sou Wolverine’, Logan se envolve com Mariko Yoshida herdeira do clã Yoshida tendo quase se casado com a mesma. Em seus mais de 200 anos, Logan supostamente poderia ter tido treinamento samurai no Japão feudal. Em ‘Wolverine & Kitty Pride’ em duas edições (originalmente também ed. Abril) Logan ressurgia no Japão agora como tutor da então jovem Lince Negra. Miller encontrou uma forma inteligente de transformar a ‘maquina de matar’ num guerreiro honrado quase próximo a um samurai. Embora não detenha os direitos sobre o personagem, há indícios de que as histórias de Frank Miller servirão de base para o roteiro de ‘The Wolverine’ novo filme trazendo o velho Logan.

Ainda na Marvel, Frank Miller redefiniu o Demolidor na célebre ‘A Queda de Murdock’ ilustrada por David Mazzucheli. A história era forte e polêmica onde Karen Page então namorada de Matt Murdock (alter ego do Demolidor), era uma viciada. No ápice da dependência quimica, Page vende a identidade do Demolidor a representantes de Wilson Fisk, o Rei do Crime. Isto citando apenas uma de muitas grandes histórias escritas por Miller tendo o Demolidor como personagem. Rivalizando com ‘Watchmen’ de Alan Moore, Frank Miller trouxe ‘O Cavaleiro das Trevas’ (1986) tendo Batman como protagonista. Se Watchmen apresentava um vislumbre verossímil acerca de um grupo de super-heróis; ‘O Cavaleiro das Trevas’ apresentava um vislumbre verossímil de Bruce Wayne. Um cinquentenário Wayne se via aposentado e uma Gotham City absurdamente decadente via seu índice de criminalidade expandir. Wayne resolve voltar a vestir o manto do morcego. Sente o peso da idade e a decrepitude. Selina Kyle é retratada de forma idosa. O Coringa ressurge tão logo as aparições de Batman passam a ser noticiadas, será um confronto derradeiro em que Batman se mostrará arrependido por não ter evitado tantas mortes antes. Pela primeira vez a máscara de Robin é vestida por uma garota. Enquanto poder amoral e paralelo a legislação vigente, Batman passa a incomodar o estabilishment norte-americano. O embate final será contra o Superman por sua vez estando a serviço do governo yankee. Vale ressaltar que o filme ‘Batman O Cavaleiro das Trevas’ (2007) não adaptou totalmente a série homônima de Frank Miller. Entretanto tanto o ‘Cavaleiro das Trevas’ de Miller quanto seu ‘Batman Ano Um’, o qual vislumbrava as primeiras aventuras de Bruce Wayne serviram de base para os roteiros de ‘Batman Begins’ (2003) e ‘Batman O Cavaleiro das Trevas’.

Já nos anos 90 Frank Miller teve muitos trabalhos editados pela Dark Horse que se tornou um selo adulto bastante requisitado. Ali desenvolveu as histórias de ‘Sin City, a cidade do pecado’. Em tramas absurdamente adultas descritas enquanto noir, em preto e branco em sua quase totalidade, ‘Sin City’ apresenta crônicas ou contos na linguagem HQ onde os protagonistas são errantes, desajustados, prostitutas, matadores ou policiais perseguidos por serem honestos numa cidade decadente onde a lei dos homens praticamente não funciona. A primeira incursão cinematográfica de Sin City se deu em 2005 com muito sucesso e uma nova já tem permissão para ser iniciada. Além de Sin City, ‘300’ também fora publicada pela Dark Horse e sua adaptação hollywoodeana obteve grande resposta de público. Em ‘300’ Frank Miller recontava utilizando-se da linguagem das HQ’s, a lenda helênica dos 300 de Esparta na Guerra do Peloponeso relatada pelo historiador grego Tucidides (séc V a.C).

A obra de Frank Miller nas HQ’s é vasta e seus trabalhos como produtor executivo de adaptações de obras suas em Hollywood também são bastante enaltecidas. Frank Miller está para as HQ’s assim como Clint Eastwood está para o cinema!