ENTREVISTA - MARCOS BAGNO
MARCOS BAGNO, doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é linguista, tradutor, contista e poeta. Atualmente, é professor da Universidade de Brasília. Sua produção bibliográfica soma até o momento mais de trinta títulos, entre obras destinadas ao público infanto-juvenil e livros sobre linguística e ensino de português. Seu último lançamento é a Gramática pedagógica do português brasileiro, com mais de mil páginas. Foi laureado com o Prêmio Nestlé de Literatura (contos, 1988); Estado do Paraná (contos, 1989); João de Barro (literatura infantil, 1988) e Carlos Drummond de Andrade (poesia, 1989), entre outros. Seu livro de maior repercussão é Preconceito linguístico: o que é, como se faz, lançado em 1999, e já em sua 55a. edição.
UM BANHO DE LEITURINHAS!
LEITURINHAS – Sua produção bibliográfica é vasta, há diversos itens de teoria da Língua portuguesa, Literatura Infantil e traduções. Quando criança você imaginava/desejava ser um autor de tantos livros? Relate um pouco a história de suas LEITURINHAS, da infância à sua formação profissional.
MARCOS – Minha relação com a palavra escrita começou muito cedo. Aprendi a ler sozinho, observando meu pai "tomar a lição" (como se dizia na época) de minha irmã mais velha à noite. Com isso, fui matriculado diretamente no segundo ano do primário, porque já sabia ler e escrever. Tendo aprendido a ler, e tendo muitos livros à disposição em casa, encontrei na leitura um refúgio para minha timidez e meu desajuste com relação ao que se esperava de um menino (e ainda se espera) numa sociedade machista como a nossa. Posso dizer que passei grande parte da infância e da juventude lendo. Uma das minhas principais influências foi, é claro, Monteiro Lobato. Li a coleção completa dos livros infantis dele mais de uma vez. Me lembro que, ainda pequeno, perguntei a meu pai: "Pai, o que o Monteiro Lobato é?" E ele respondeu: "Escritor". Pronto, eu tinha encontrado a palavra mágica, porque naquele mesmo momento eu disse a mim mesmo: "Escritor. É isso o que eu quero ser então". Assim, desde cedo, passei a me interessar por tudo o que tem a ver com leitura, escrita, linguagem, línguas, tradução etc. A linguagem é o meu universo. Fiz faculdade de Letras, mestrado e doutorado em Linguística, sou professor da área de Letras na Universidade de Brasília. Bem pequeno me interessei por línguas estrangeiras, aprendi meia dúzia delas (algumas sozinho) e me apaixonei pelo ofício de tradutor, que exerço com grande prazer há mais de trinta anos.
LEITURINHAS – Dentre as diversas funções que você desempenha, uma delas é a tradução. Como é ser tradutor numa cultura que ainda não tem a leitura como enfoque? Quais os desafios de um tradutor ao transpor o texto literário infantil de uma língua estrangeira para o nosso português?
MARCOS – Como sou pesquisador de linguística e de tradução, estou sempre com um pé na reflexão teórica e outro na prática tradutória. Ainda impera no Brasil, infelizmente, uma mitologia do "português correto", um modelo que não corresponde em quase nada ao que realmente falamos e escrevemos por aqui. Felizmente, a maioria das editoras que publicam livros infantis já percebeu que não faz sentido colocar na boca de personagens infantis uma língua artificial, empolada, que destrói a espontaneidade da fala brasileira. Assim, ao traduzir e mesmo ao escrever meus próprios livros, tento usar uma linguagem o mais próxima possível da realidade urbana brasileira dos dias de hoje.
LEITURINHAS – No livro O PAPEL ROXO DA MAÇÃ, você afirma que uma de suas maiores frustrações é não saber todas as línguas existentes no mundo. Você já superou essa frustração? Que outras “frustrações” semelhantes você cultiva em termos de linguagem? E quais as realizações que o seu trabalho com as LEITURINHAS lhe oferece?
MARCOS – Como estudioso da linguagem humana, considero que nossa capacidade de simbolizar o mundo por meio das línguas é o que existe de mais fascinante. Cada língua humana é um pequeno universo particular, com suas estruturas, suas palavras, suas formas de representar o mundo etc. Mas são mais de 7.000 línguas humanas e aprender todas elas é simplesmente impossível. Daí a frustração... Por outro lado, me divirto muito estudando gramáticas e dicionários de línguas desconhecidas, nem que seja apenas para depreender uma pontinha do que elas são. Isso compensa em parte a frustração de não falar todas as línguas do mundo!
LEITURINHAS – Você já teve ou tem a oportunidade de obter e refletir sobre a receptividade de leitores de algumas de suas obras? De que forma isso efetivamente tem acontecido e/ou você gostaria que acontecesse? Quais as sensações e/ou resultados que você depreende disso?
MARCOS – Quando comecei a publicar para o público infanto-juvenil, visitei muitas escolas para conversar com crianças e jovens que tinham lido meus livros. Era sempre um encontro muito prazeroso, porque eu podia saber o que meus textos estavam fazendo com os leitores. Depois que passei a publicar livros dedicados às questões linguísticas e de ensino de língua, essas conversas com crianças e jovens rarearam, infelizmente. Hoje meu diálogo é mais intenso com estudantes e professores. Mas recentemente, em Curitiba, tive a chance de visitar várias escolas que tinham adotado meu livro O ESPELHO DOS NOMES (publicado em 2002) e conversei com mais de 500 crianças. Foi muito bom!
LEITURINHAS – Com o passar dos anos o número de obras literárias infantis publicadas no Brasil tem crescido consideravelmente. A qual ou a quais fatores você atribui esse fenômeno? Pode-se considerá-lo(s) típica e exclusivamente contemporâneo(s)?
MARCOS – Realmente, tem havido uma grande produção de literatura infanto-juvenil nos últimos tempos. Me lembro de um ano em que foram quase 400 títulos publicados, ou seja, mais de um título por dia! Tem havido uma maior conscientização de pais e professores de que somente a leitura é capaz de favorecer a leitura, o que parece uma redundância, mas não é. Muitas pesquisas já comprovaram, por exemplo, que as crianças para quem os pais leem histórias antes delas aprenderem a ler se tornam leitores interessados mais adiante. Além disso, somente a leitura leva a pessoa a dominar as regras da escrita de sua língua. Sem leitura não há escrita. Uma pessoa madura que, de repente, quer passar a escrever melhor terá muita dificuldade em atingir esse objetivo se não tiver sido, ao longo do tempo, um leitor regular. Existem também interesses econômicos: o governo brasileiro é o maior comprador de livros do mundo. Com seus programas de aquisição de livros didáticos e literários, o MEC é responsável por quaser 75% do que se produz, se vende e se compra no Brasil em termos de livros. Esse mercado governamental atrai as grandes editoras. Muitos grupos editoriais estrangeiros têm se estabelecido no Brasil nos últimos tempos para tentar abocanhar uma fatia desse grande bolo oficial.
LEITURINHAS – Você é escritor No desempenho de tantas funções que exigem leituras diversas, quais as LEITURINHAS (livros, revistas, jornais, etc.) que mais te influenciam quando está prestes a escrever uma nova obra, seja, livro, artigo ou tradução?
MARCOS – A escrita de cada gênero textual exige preparativos distintos. Para a produção de obra literária, poesia, livro para crianças etc., costumo ser influenciado por outras leituras: quando leio um livro que me agrada, ou se vejo um bom filme, em geral alguma coisa ali atrai minha atenção, às vezes uma simples palavra, e a partir daí escrevo. Para a produção de textos técnicos e científicos, a leitura prévia de muitas obras da área é fundamental. Quando se trata de tradução, o texto a ser traduzido é o que me guia e para cumprir a tarefa vou atrás de dicionários, enciclopédias e, principalmente, da internet, que hoje é o melhor auxiliar possível do bom tradutor.
LEITURINHAS – Quais são os principais motivos que o levam a ler e escrever livros de Literatura Infantil?
MARCOS – Outros livros. Costumo dizer que sou "movido pela inveja". Por exemplo, meu primeiro livro para crianças, O PAPEL ROXO DA MAÇÃ, me veio de uma fala do saudoso e talentoso Bartolomeu Campos de Queiroz. Ele disse: "o primeiro livro que li foi o papel roxo da maçã que meu pai me trazia de longas viagens". Achei lindo o título "o papel roxo da maçã" e foi ele que disparou a escrita do meu livro.
LEITURINHAS – Você é um grande combatente do preconceito linguístico, tendência evidenciada principalmente pelas suas obras voltadas à Língua Portuguesa. Tal preocupação se manifesta em sua produção literária infantil de que forma? Você já obteve pareceres de leitores que observaram essa preocupação em alguma de suas obras infantis?
MARCOS – Na minha produção literária, tento escrever de acordo com o que me parece ser o português brasileiro culto contemporâneo, que nada tem a ver com a concepção anacrônica de "língua certa" que tantas pessoas ainda cultivam. Já tive de brigar feio com algumas pessoas em editoras que queriam "corrigir" meus textos. E venci a briga. Mas a luta contra o preconceito linguístico é só uma das muitas que temos de empreender diariamente: as lutas contra o racismo, o sexismo, a homofobia, a luta contra os fanatismos religiosos etc.
CONTOS DE ENCANTAMENTO: O QUE FAZER COM ELES EM SALA DE AULA?
(Leny Fernandes Zulim)
Em nosso encontro de setembro o tema da conversa foi a significação e o símbolo de que se revestem os contos de encantamento. Com uma linguagem alegórica, cheia de símbolos, essas narrativas dizem bem mais do que aparentemente possamos pensar. E, de certo modo, os pequenos leitores processam essa linguagem, através da qual aprendem a lidar com os conflitos e problemas que a vida reserva em seu cotidiano.
Interessa, aqui, pensar um pouco sobre práticas de que os professores, e outros mediadores de leituras como pais e bibliotecários, podem se utilizar para explorar esse tipo de narrativas tão ricas em sua significação. Essas práticas tomam formas diferentes dependendo do grau de escolaridade dos leitores. Passando do leitor da primeira infância e chegando aos acadêmicos dos cursos de formação de professores: Letras e Pedagogia, especificamente, hoje abordamos práticas sugeridas para o leitor da primeira infância ao leitor iniciante Vamos a algumas sugestões:
Comecemos por lembrar que a inclusão do leitor em determinada faixa etária depende, como bem afirma Coelho (2000), da inter-relação entre sua idade cronológica e seu nível de amadurecimento psíquico, intelectual, afetivo e história de leitura. Nessa primeira fase, falamos de crianças de um aos três anos (primeira infância) e dos três aos quatro anos (segunda infância), utilizando os estágios apresentados por Coelho (2000).
Para os pais e para quem atende crianças de um a dois anos, em berçários, é preciso lembrar que é a fase em que os pequenos iniciam o reconhecimento da realidade que os rodeia. É a fase caracterizada pelos contatos afetivos e pelo tato, em que a criança tem o impulso de pegar tudo o que está ao alcance da mão. Cabe ao adulto, nessa fase, estimular o impulso por gravuras, desenhos e ilustrações incluídos como brinquedos. Também os versos infantis, que chamam a atenção pela variação da voz de quem conversa com ela ou declama versos simples. Assim como o bebê é capaz de dormir impulsionado por um acalanto, sem entender ainda a letra, ele pode também escutar uma história que ainda não entende muito bem. Quando pais ou professores mostram uma figura de determinada personagem de um conto de encantamento, podem e devem introduzir frases concisas a respeito. Ao mostrar a figura da Bela Adormecida, por exemplo, dizer: Essa é a princesa Bela Adormecida. Priolli (2008), afirma que a criança, nessa idade, já percebe que a fala do dia-a-dia é diferente daquela usada numa leitura, devido à cadência, ao ritmo, à entonação e modulação de voz e à emoção. Nesse estágio, além de figuras coloridas, livros de pano e de plástico são os melhores. Na banheira, antes, durante e/ou após o banho a criança pode ser acompanhada por um deles e ser estimulada com frases curtas a respeito do que ela vê ao virar as páginas. Nessa fase, figuras e rápidas histórias com o lobo mau e as bruxas é sempre sucesso. Por isso leituras como Os três porquinhos, Chapeuzinho Vermelho e Pedro e o lobo, para citar algumas, é sucesso na certa. Se a história cai no gosto da criança ela vai querer ouvi-la várias vezes. E a forma que encontra para experimentar de novo o que aprovou.
Na segunda infância, para Coelho, é preciso brincar com o livro, quando se aprofunda a descoberta do mundo concreto e do mundo da linguagem. E o período de muita ilustração e pouco texto, ou nenhum texto, para que criança, a partir das figuras, crie seu próprio texto. Pode-se ler a história ou criá-la em cartolinas, e à medida que se for contando ir prendendo a imagem em um cavalete ou em um quadro mural. Nessa fase normalmente é do agrado da criança os livros de estilo lengalenga, com trechos que se repetem a cada página, o que permite sua participação mais direta. Exemplos desse tipo de narrativa encontram-se em livros como A casa sonolenta (Ática- Coleção abracadabra) e Maneco, Caneco Chapéu de Funil (Ática- Luís Camargo). Lembro de uma ex-aluna que criou o avental mágico com um grande bolso de onde ia tirando figuras componentes da história. À medida que ia contando, pregava as figuras com os pedacinhos de velcro estrategicamente presos no avental. Sucesso garantido. Nessa faixa etária, a criança, mais do que nunca, determina as leituras de que mais gosta pedindo que o adulto conte de novo. Aprofunda-se a descoberta do mundo concreto e do mundo da linguagem, o que torna tudo mais importante e significativo, como afirma Coelho (2000). A magia dos contos de encantamento envolve e seduz a criança, por isso quanto mais livros rodearem os pequenos, mais chance de formar o leitor.
Vamos, então, a mais algumas (afinal, em meio às considerações até aqui feitas, existem já algumas práticas) sugestões para desenvolver a leitura com essa galerinha de um a quatro anos:
a- Disponibilizar livros e gravuras (as princesas e os animais são os preferidos, sobretudo o lobo mau) ao redor da criança, de forma que ela possa manusear a gosto; dificultar o acesso a livros porque podem ser destruídos é uma idéia errônea; assim como os brinquedos, livros também podem ser destruídos nesse processo; aos poucos a criança vai entendendo como cuidar do livro;
b- Ler constantemente, modulando a voz e, se for o caso, sobretudo na primeira infância, sintetizar a história em frases simples;
c- Apresentar as clássicas histórias com o auxílio de fantoches prende o pequeno leitor;
d- Oportunizar aos pequenos a descoberta de que livro também pode ser visto como brinquedo, com suas páginas coloridas; aproveitar datas comemorativas como aniversário, dia da criança e Natal para presentear com livros (Zulim: 2011);
e- Misturar livros a brinquedos, fantoches, figuras. Entre uma diversão e outra os livros acabam se tornando tão atraentes quanto os próprios brinquedos;
f- Na hora do banho do bebê permitir que o bebê manuseie livros de plástico;
g- Reunir a família (atenção papais e mamães) e fazer a leitura para os pequenos, além de criar uma rede de afeto, sedimenta na criança o valor da leitura desde muito pequena;
h- Aproveitar os momentos anteriores ao dormir (seja em casa ou na escola, berçário...) para ler belas e coloridas histórias; ouvindo a voz modulada, suave ou mais forte, de acordo com o que pede o enredo, a criança vai serenando e o sono vem de forma tranqüila...
i- Todas essas sugestões práticas ajudam, mas é imprescindível uma atitude positiva do mediador (pais, avós, professor, bibliotecário, atendente...) em relação ao livro, do contrário o sucesso fica bem mais difícil.
j- Pedir, durante a leitura, a participação da criança: vamos soprar a casa desse porquinho preguiçoso; vamos imitar o Joãozinho mostrando o ossinho do frango prá bruxa... a leitura fica mais dinâmica e gostosa para esses pequenos leitores.
Fechamos com a afirmativa de Bordini & Aguiar (1988:19):
Para que se assegure a continuidade do comportamento positivo em relação ao livro, é preciso que o hábito não seja apenas como um padrão rotineiro de resposta, automaticamente provocado e realizado. A busca freqüente da literatura precisa surgir de uma atitude consciente, da disposição de enfrentar o desafio que o texto oferece como nova alternativa existencial.
Em nosso encontro de novembro vamos dar continuidade e práticas de leitura, agora voltada para as faixas etárias posteriores. Até lá ou a qualquer momento se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
Bibliografia utilizada nesse artigo:
BORDINI &AGUIAR: Literatura: a formação do leitor – alternativas metodológicas. Porto alegre: Mercado Aberto, 1988;
COELHO, Nelly Novas. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000;
PRIOLLI, Julia. Fraldas e livros. In: Nova escola, Edição especial: Leitura- descobrir o prazer de ler é o primeiro passo para formar leitores (de qualquer idade). São Paulo: Fundação Victor Civita. Ed. Abril, 2008.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.
IMAGE COMICS
(Por Alexandre Kazuo)
A editora Image Comics já foi mencionada diversas vezes neste espaço, geralmente relacionada ao ilustrador e criador Todd McFarlane que já esteveem alta. AImagecriou grande burburinho no início da década de 90, mais precisamente por volta de 1992. Ou seja, há vinte anos. O personagem Spawn de McFarlane completou há pouco nos EUA duas décadas chegando ao número200. AImage surgiu da insatisfação de profissionais até então trabalhando na Marvel Comics onde se viam muito valorizados. Os mesmos, porém se queixavam das limitações criativas ao lidar com Homem Aranha, Justiceiro ou os personagens de X-Men. Eles não poderiam manipular os personagens como bem entendessem porque tratava-se de marcas registradas da editora assim como lidavam também com a resposta de público e vendas.
Além de McFarlane a Image surgiu escoltada por outros grandes nomes na época tais quais Rob Liefeld, Jim Lee e Marc Silvestri aclamados por seus estilos dinâmicos e ilustrações de alto impacto. McFarlane fizera fama desenhando Homem Aranha. Liefeld, Lee e Silvestri eram os nomes por trás das ilustrações do melhor período dos X-Men, na segunda metade dos anos 80. Liefeld desenhou histórias dos Novos Mutantes, que era um time de aspirantes a X-Men. Cable, uma espécie de ‘exterminador do futuro’ do universo de X-Men também teve grandes momentos caracterizado por Rob Liefeld criticado por alguns por seu pouco entendimento em anatomia humana. Liefeld dava vazão a heróis grandalhões, dotados de músculos disformes e armados até os dentes. Cable ficou muito bem no traço do criticado ilustrador. Marc Silvestri e Jim Lee tornaram Wolverine, Ciclope, Colossus e Gambit em x-men atléticos e musculosos. Foi o períodoem que Tempestadeganhou um visual elegante com cabelos longos brancos contrastando com sua pele afro-descendente. Vampira passou a utilizar um collant verde e amarelo justíssimo e Psylocke foi redefinida visualmente com traços orientais e trajando um maiô com centímetros mínimos de tecido. Enfim o projeto visual que caracterizou definitivamente os X-Men e que serviu de base para o desenho X-Men Adventures que tornou os personagens populares como são hoje.
Na Image McFarlane inicialmente foi o mais bem sucedido com o soldado do inferno Spawn. Marc Silvestri foi um dos primeiros a deixar a Image levando adiante seu selo Topcow Comics. Silvestri tinha enquanto personagens mais importantes a Cyberforce e a Stryke Force, na prática ambas um semi-plágio de X-Men. Pouco depois Witchblade e The Darkness foram os títulos de Silvestri que tiveram maior amplitude de publico arriscando-se por um terreno mais voltado ao público adulto. Jim Lee deu luz a Gen 13 que rivalizava com a X-Force ou Generation X (a divisão teen de X-Men) sugerindo uma equipe de heróis adolescentes protagonizada por três garotas com poderes mutantes. O lado bem humorado se sobressaia. Num aspecto mais sisudo, Lee deu origem ao Wild C.a.t.s. um misto de X-Men com Vingadores. Rob Liefeld trouxe um sem numero de grupos e heróis, mas foi o artista que obteve menor índice de resposta de público. Havia o bom Youngblood um grupo de heróis na linha dos Vingadores, a sensual Glory (a versão de Liefeld para Mulher Maravilha da DC Comics) e outros menos valorizados como Brigada. Na pratica a Image era a marca fantasia do conglomerado de estúdios/selos, cada qual encabeçado por um artista. Sem restrição a critica séria da época e alguns artistas conservadores como o respeitado John Byrne, malhava todos os títulos citados por inconsistência nos roteiros, algo que realmente acontecia.
Depois da Image
Sentindo que suas criações não tinham o apelo de marketing dos personagens/marcas da Marvel e DC alguns profissionais da Image foram reabsorvidos pelas editoras maiores. No fim dos anos90 aMarvel trouxe o projeto ‘Heróis Renascem’ tentando tornar contemporâneo e reatualizar as origens de Homem de Ferro, Capitão América, Quarteto Fantástico e Os Vingadores. Na época a iniciativa foi criticada mas atualmente aquelas histórias de ‘Heróis Renascem’ sugeriam alterações que os roteiros dos filmes dos citados personagens vem propondo. Por exemplo o Homem de Ferro original criou a armadura na Guerra do Vietnã. Em ‘Heróis Renascem’ na Guerra do Golfo, no filme em meio a ameaças terroristas. À frente de Heróis Renascem estavam Jim Lee e Rob Liefeld. Posteriormente Lee foi trabalhar na DC Comics tendo conduzido Batman e Superman. Atualmente surge como co-publisher (algo como vice-editor) da editora que vem pondo em prática uma reformulação intitulada ‘Os Novos52’. Já se introduz inclusive no universo DC alguns personagens da Wildstorm, selo que Jim Lee trás consigo desde os tempos da Image.
Todd McFarlane viu o apelo de Spawn diminuir sensivelmente. Envolveu-se em batalhas judiciais em nome dos direitos autorais de Miracleman, estes creditados a Neil Gaiman e Alan Moore, não sendo bem sucedido. Gaiman pouco depois processou McFarlane reivindicando pagamento pela criação da personagem Ângela, a caçadora de spawns. Tentando rebater as criticas de roteiros inexistentes nos anos 90, McFarlane chegou a contratar Neil Gaiman, Alan Moore e Frank Miller para escrever roteiros de Spawn. Estas histórias foram vistas no Brasil nas edições 8, 9 e 10 de Spawn publicadas pela Abril.
Os títulos da Image inicialmente saíram em nosso país via Abril e via editora Globo. Os que viveram as HQ’s nos anos 90 talvez se recordem.
Em tempo:
- Este texto estava pronto para figurar no mês de julho mas foi adiado em virtude dos fatos que rodearam a estréia de ‘Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge’.
- Na edição de junho a revista Mundo dos Super Heróis (capa do Espetacular Homem Aranha) o staff da publicação apresentou um detalhadíssimo guia dos citados ‘Os Novos 52’. O título da reformulação menciona os 52 títulos da DC Comics que foram zerados nos EUA e cujas traduções já estão sendo editadas no Brasil via Panini Comics, também desde junho. Este que vos escreve se surpreendeu ao ver nas bancas o número 4 de alguns títulos, imaginando que a distribuição seria setorial. Lembrando que o staff deste Leiturinhas reside no Paraná. Eu tive acesso à quarta edição de ‘Liga da Justiça’ com uma história principal ilustrada pela dupla Jim Lee (desenho) e Scott Williams (arte-final) que passou uma excelente impressão. Batman, Superman, Flash, Mulher Maravilha e Lanterna Verde parecem estar se encontrando para fundar uma Liga da Justiça. A arte de Lee se mostra ainda fiel àquelas da época de X-Men, com cenas que ocupam uma página inteira ou a intensidade de detalhes compondo as sequencias. Mas seu traço hoje é infinitamente superior, pois Lee é um artista maduro. Mais detalhes sobre ‘Os Novos52’ neste espaço em breve.
