Você se lembra do Piteco?
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em outubro de 2011 em http://www.leiturinhas.com.br/)
Eu tenho um primo, mais novo dotado de praticamente metade da minha faixa etária (tenho 29 anos). Quando ele ainda era bem pequeno, ainda com dois ou três anos, mas já prestando atenção em personagens de desenhos animados e videogames; eu perguntava a ele se ele "conhecia o Piteco?". A ideia era justamente deixá-lo curioso a respeito de personagens infantis de uma época muito anterior a dele. Citado brevemente a muitas colunas atrás neste espaço do Leiturinhas, o criador Maurício de Souza revelou ter iniciado a sua carreira como autor de HQ's não com personagens infantis, mas sim, com histórias de terror. Era um gênero em alta durante a década de 60 do século XX. Porém ao apresentar um simpático cachorrinho azul ao seu editor, Maurício de Souza se voltou ao público infantil com o Bidu. Essa revelação se deu numa coluna assinada pelo próprio Maurício na revista Wizard magazine, quando a mesma era publicada no Brasil pela editora Globo durante os anos 90. A Wizard é uma publicação norte-americana voltada aos bastidores, autores e mercado das histórias em quadrinhos.
Não apenas as crianças da Turma da Mônica povoavam as histórias, tiras e o universo criado por Maurício de Souza. Piteco era o homem das cavernas em tramas que obviamente se davam na pré-história. Vestido com uma roupa rudimentar, descabelado e barbudo, Piteco geralmente fugia da Thuga, sua pretendente a acasalamento. Tiradas a respeito dos tempos pré-históricos e do início da história da humanidade geralmente eram observadas nas tramas que Maurício dedicava ao Piteco. Ainda nestes tempos primitivos havia o pacato Horácio, um pequeno dinossauro verde. Pacífico, sereno e às vezes existencialista, Horácio contracenava com Lucinda, uma dinossauro fêmea cor de rosa. O conceito das histórias de terror não foi extinto no imaginário de Maurício de Souza que redefiniu personagens mórbidos para o público infantil. Tratava-se da turma do Penadinho o equivalente tupiniquim para o Gasparzinho, "fantasminha camarada" norte-americano. Junto ao Penadinho, tínhamos a Dona Morte, Lobisomem, Frankenstein e a simpática caveira Cranicola.
O pé nas tramas de ficção científica se dava nas histórias do Astronauta, que utilizava um traje azul arredondado e viajava pelos confins do universo numa nave redonda alaranjada. Do espaço também vinha a mais terrível ameaça ao universo da Turma da Mônica, o vilão Capitão Feio, emissário do império Fedegoso. No início dos anos 90, o Capitão Feio chegou a protagonizar inclusive um jogo para o antigo videogame Master System, intitulado Turma da Mônica contra Capitão Feio. A população indígena do Brasil se via caracterizada pelo indiozinho Papa Capim. O sertão e o interior do nosso país se viam reverenciados pelo carismático Chico Bento e a turma da zona rural com Zé Lelé, Zé da Roça e a namorada do Chico, Rosinha. Nos anos 70, quando Pelé se tornou uma marca dotada de extremo potencial de marketing, Maurício de Souza criou o Pelezinho a representar o futebol. Mais recentemente Maurício desenvolveu sua versão para Ronaldinho Gaúcho, que protagoniza algumas revistas recentes.
Hoje em dia há versões adolescentes para as eternas crianças da Turma da Mônica, Magali, Cascão, Cebolinha e da própria Mônica tentando tornar os personagens contemporâneos em relação às crianças e os pré-adolescentes atuais. Mas no passado, Maurício de Souza mantinha um núcleo voltado ao público teen com a bela Tina, que contracenava com o, gente fina, Rolo, Zecão e sua namorada, Pipa. As tramas eram voltadas ao público juvenil com histórias sobre encontros, que davam errado, e o lado bem humorado dos relacionamentos.
A marca Turma da Mônica é licenciada por Maurício de Souza em diversas frentes, como parques temáticos, desenhos animados, brinquedos e, no passado, até jogos de videogame. No fim dos anos 80, especiais para cinema de desenhos animados protagonizados pela Turma da Mônica obtiveram grande repercussão. Maurício é agora relacionado ao âmbito da Literatura Infantil com o lançamento de O Maior Anão do Mundo (ed. Melhoramentos) na última bienal de literatura do Rio de Janeiro, que aconteceu no início de setembro. Maurício ilustra a obra que conta com roteiro de Ziraldo. Maurício de Souza e suas criações merecem figurar nesse espaço pelo pioneirismo nos quadrinhos brasileiros. Um criador persistente, tão "durão"' quanto sua criatura, ou seja, o Piteco!
