ENTREVISTA - OSCAR NAKASATO
(publicada originalmente em junho de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
OSCAR NAKASATO é paranaense, neto de imigrantes japoneses. Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual paulista, é professor de Literatura e Linguagem na Universidade Tcnológica Federal do Paraná, campus de Apucarana. Em 1999, foi premiado com os contos "Alô" e "Olhos de Peri" no Festival universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e pela Editora Cone Sul. Em 2003 venceu o Concurso literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, co o conto "Menino na árvore". Em 2012 seu livro "Nihonjin" ganhou o prêmio Jabuti de Literatura.
LEITURINHAS DO ORIENTE
“Alguns confessam que choram ao ler NIHONJIN.”
(Oscar Nakasato)
LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS, da infância até agora?
OSCAR – Eu comecei a frequentar a escola com seis anos. Era uma escola rural, às margens do rio Ivaí, no município de Floresta – Pr. Não havia biblioteca nessa escola, e o único livro a que tínhamos acesso era a cartilha, que se chamava “Caminho suave”, com poucos textos e muitas listas de palavras. Foi a minha primeira leitura. As narrativas de ficção começaram depois, em Maringá-Pr, quando fui matriculado numa escola maior, agora com livros que contavam histórias. Depois vieram os gibis, primeiro os de Walt Disney, depois os de Maurício de Souza. Eu me lembro de que minha mãe os comprava numa banca de feira, que vendia revistas usadas. O primeiro livro de literatura infantil que me marcou foi “A ilha perdida”, de Maria José Dupré, que me deixou encantado com as aventuras dos dois meninos na tal ilha. Hoje as Leiturinhas não são exatamente leituras, elas vêm das telas do cinema através das produções da Pixar, da Blue Sky ou da DreamWorks. Me rendi às animações americanas.
LEITURINHAS - Seu livro NIHONJIN ganhou o prêmio Benvirá de literatura e mais recentemente o Jabuti (2012). A que você atribui o sucesso dessa obra?
OSCAR - Para responder a essa pergunta, prefiro citar aqueles que julgaram a minha obra. Os jurados do Prêmio Benvirá disseram: “Este romance é, antes de tudo, uma competente reconstrução histórica da imigração japonesa. Sua força literária está não apenas na linguagem direta e sem firulas, nos personagens e nos conflitos marcantes, mas também no poder de comover o leitor”. E o crítico literário Rodrigo Gurgel, jurado do Prêmio Jabuti, comentou: “O livro encontra sua síntese na afirmação, próxima de uma sentença zen, de que ´as palavras não foram inventadas para serem desperdiçadas´. Lição que Nakasato mostrou conhecer.”
LEITURINHAS - NIHONJIN relata om detalhes os desafios dos imigrantes japoneses em terras brasileiras durante a II Guerra Mundial. Comente um pouco a respeito das pesquisas e seleção de dados históricos para compor essa obra de ficção.
OSCAR - Eu realizei muitas pesquisas para escrever o romance. O livro que me trouxe mais subsídios foi “O imigrante japonês: história de sua vida no Brasil”, de Tomoo Handa. Nesse livro não encontrei somente os fatos históricos, mas também o dia-a-dia dos imigrantes japoneses nas fazendas de café ou no bairro Liberdade,em São Paulo. Paracompor o episódio da divisão dos nipo-brasileiros após o término da Segunda Guerra Mundial, o livro “Corações sujos”, de Fernando Moraes, foi essencial. No livro de Moraes encontrei documentos, depoimentos e vocabulário para escrever sobre a Shindo Renmei.
LEITURINHAS - O que é ser Nihonjin no Japão e no Brasil?
OSCAR - Eu não sou exatamente nihonjin, embora, às vezes, me chamem de “japonês”. No Brasil, ser nihonjin ou nikey implica uma vivência em que duas culturas interagem, dando origem a um ser híbrido, às vezes com dificuldades para encontrar a sua identidade, outras com orgulho de ter em sua formação a influência de dois povos. No Japão da atualidade, creio que a sociedade também seja híbrida, pois é o fruto de uma civilização milenar, com características bastante peculiares, mas, ao mesmo tempo, ela sofre grande influência da sociedade ocidental, principalmente norte-americana.
LEITURINHAS - Um aspecto peculiar de NIHONJIN é a atribuição da onisciência ao narrador-personagem, por que e para quê você optou por essa forma de composição?
OSCAR - O foco narrativo é elemento importantíssimo no romance. Ao escolhê-lo, o escritor define como o leitor terá acesso à história que contará. Eu gosto do narrador-personagem devido a sua subjetividade. No caso de “Nihonjin”, eu escolhi o neto de Hideo Inabata para contar a história porque queria um narrador contemporâneo, que tivesse uma relação afetiva com o protagonista, mas ao mesmo tempo tivesse autonomia. É essa autonomia que o leva à onisciência, ainda que ela possa parecer incoerente, mas é uma concessão da literatura. A onisciência permite ao narrador de “Nihonjin” revelar ao leitor elementos inacessíveis se ele não fosse onisciente.
LEITURINHAS - Enquanto professor universitário e escritor qual a recepção que você tem conseguido captar dos leitores de NINHONJIN?
OSCAR - A recepção tem sido muito boa, o que podemos constantar pelo número elevado de exemplares vendidos, pelos comentários da crítica mais especializada e pelos depoimentos pessoais. As manifestações são diversas, e elas chegam geralmente através de mensagens eletrônicas. Há os leitores nipo-brasileiros, que dizem reconhecer a própria história ou a de pais ou avós em “Nihonjin”. Há os leitores comuns, que buscam na literatura uma boa história, e dizem tê-la encontrado no meu livro. E há os leitores especializados, que comentam sobre a estrutura do romance, sobre o foco narrativo, sobre a linguagem. Alguns confessam que choraram ao ler “Nihonjin”.
LEITUIRNHAS - Além dos prêmios conferidos a NIHONJIN, você ainda teve dois livros premiados (ALÔ e OLHOS DE PERI). Quais são os projetos para o(s) próximo(s) livro(s)? Algo previsto para ainda esse ano (2013)?
OSCAR - Estou escrevendo um novo romance, que terá dois narradores-personagens. Escrevo sem pressa, obedecendo ao meu relógio particular. Pretendo publicá-lo este ano.
LEITURINHAS - Para finalizar essa entrevista deixe uma mensagem a quem tem como aspiração profissional ser escritor e ter seus livros reconhecidamente premiados, como você.
OSCAR - Se quiser escrever bem, é preciso ler. É o primeiro passo. Não há bons escritores que não sejam bons leitores. Depois, é necessário acreditar que o seu texto tem qualidade. Essa confiança o levará a persistir diante dos “nãos” que receber. Finalmente, não se restrinja a um só caminho, percorra todos aqueles que possam levá-lo à publicação e ao reconhecimento: envio de originais às editoras, concursos literários, recitais de poesias etc.
O ILOGISMO E O NONSENSE NA POESIA INFANTIL
(Série: A ação formadora da poesia infantil)
Por Márcia Hávila Mocci
(publicado originalmente em junho de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
O uso de situações fantásticas ou inverossímeis é frequente e necessário na poesia infantil, pois através de episódios inusitados presentificam-se a fantasia e o absurdo no texto poético. Os poemas A casa de Vinícius de Moraes e O fazedor de amanhecer de Manoel de Barros exemplificam situações que, embora absurdas, são apreciadas pela criança devido ao seu potencial transgressor e lúdico. Em O fazedor de amanhecer, o mundo e o entendimento que o leitor supõe ter dele são colocados de cabeça para baixo. A tônica do texto, a invenção, faz com que a criança caminhe entre descobertas de situações ilógicas manifestas pelo poeta “fazedor de amanhecer” e capazes de descrever, em palavras, a realidade escondida naquilo que não tem préstimos concretos:
O fazedor de amanhecer
Manoel de Barros
Sou leso em tratagens com máquinas.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei 3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar sono.
Um fazedor de amanhecer
Para usamento de poetas
E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão.
As situações fantásticas ou inverossímeis, o nonsense e o ilogismo ampliam a percepção infantil, uma vez que instigam a criança à reflexão através de situações inusitadas, possibilitando-lhe um maior entendimento do mundo. Maria da Glória Bordini, em Poesia infantil (1986), salienta que, por meio da poesia, a criança percebe que sua maneira não racional de pensar também se faz presente em outros contextos, pois,
rompendo ficcionalmente com os nexos em que a realidade é apreendida, o poema infantil permite aquele desafogo das tensões inconscientes de que fala Freud a propósito do riso; ao mesmo tempo, traz ao leitor mirim a segurança interior de que seu próprio mundo, através do que se chama pensamento mágico e egocêntrico, é possível. (BORDINI, 1986, p. 20)
Surge, porém, o questionamento por parte de Bordini (1986), se a presença do ilogismo e da comicidade na poesia infantil, não traz uma certa inferiorização à criança, sendo uma das estratégias utilizadas pelo adulto para mantê-la em seu estado mágico, fechando-lhe as portas para a racionalidade e reflexão. Esse é o caso da média produção poética de um texto inglês tradicional, em que se ridicularizam as limitações da criança, fragilizando-a perante o adulto.
Simplício e o padeiro
Simple Simon and Pieman
Viu Simplício o bom padeiro
Lá no caminho da feira.
Disse o Simplício ao padeiro,
Dessa torta quero a beira.
Disse o padeiro ao Simplício,
Mostre primeiro os dinheiros.
Disse o Simplício ao padeiro,
É que eu não tenho os meios.
Meu Simplício foi á pesca
À caça de uma baleia.
Toda a água que encontrou
foi a do balde de areia.
........................................
Buscou água na peneira
Mas logo escorreu tudinho.
E agora o pobre Simplício
Dá a vocês adeusinho.
Para que exemplos como esse não se perpetuem na poética infantil é necessário sensibilidade e comprometimento com a criação literária, por parte dos autores que se propõem a escrever para o público infantil. Um exemplo de compromisso com a literatura infantil de qualidade artística e valor estético encontra-se no poema O Nada e o Coisa nenhuma, de Sérgio Capparelli:
O Nada e o Coisa nenhuma
Sérgio Capparelli
O Nada e o Coisa Nenhuma
Saíram à parte alguma.
Dentro de um embornal
O Nada pôs coisa nenhuma
E num embrulho de jornal
Coisa nenhuma levou nada.
Quando chegaram à estrada
Que leva a parte alguma
O Nada disse a Coisa Nenhuma:
_ Este passeio vai dar em nada!
E ao tomarem a trilha
Encontraram com Ninguém
Que vinha de mãos vazias
Sem dívidas e sem vintém.
__ Por favor, como é seu nome?
Pergunta-lhe Coisa Nenhuma.
__ Sou o de nome nenhum
Ninguém ou qualquer um.
__Entendi nada, Ninguém,
Adeus e passar bem!
De volta a lugar nenhum
O Coisa Nenhuma e o Nada
Repartiram um menos um
E correram, às gargalhadas,
Virando sombra de sombra,
Virando poeira de estrada.
Ao apresentar uma produção que rompe com a postura autoritária e o menosprezo em relação à criança, o autor a trata em nível de igualdade. A criança passa, então, a refletir sobre sua condição de maneira lúdica e, ao mesmo tempo, crítica. A poesia, dessa forma, evidencia seu caráter libertário e emancipador.
REFERÊNCIAS
BARROS, Manoel de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001. s.p.
BORDINI, Maria da Glória. Poesia infantil. São Paulo: Ática: 1986.
CAPPARELLI, Sérgio. 111 poemas para crianças; ilustrações de Ana Gruszynski. Porto Alegre: L&PM, 2003, p. 92.
LIÇÃO DE MÃE
(por Deusiane de Andrade)
(publicado originalmente em junho de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Hoje será seu primeiro dia na escolinha. Parece que foi ontem que você estava a chorar, desesperado por ter saído do seu mundinho aconchegado, quente, tranquilo e entrar num mundo totalmente diferente. Hoje particularmente, retornei a tempos antigos, me vi como mãe, mas ao mesmo tempo, me vi como filha.
Lembrei de todas as dificuldades que minha mãe sentiu para conseguir me criar, me educar. Não foi fácil. Ela me criou sozinha, meu pai partiu e só restamos eu, ela e meu irmão. Quando foi o meu primeiro dia na escola eu não conseguia me controlar... chorava, esperneava, não podia entender porque eu tinha que ir para a escola, sair de casa, do meu aconchego, minha mãe já me ensinara bastante coisa, eu não queria ficar sozinha.
E nesse mesmo momento, eu conhecia mais uma mulher, que não era mãe ainda, mas já tinha a bênção da maternidade sem saber. Minha professora teve paciência nos momentos que chorei, que eu queria ir para casa, que eu não conseguia me concentrar, fazer os exercícios... Eu não compreendia na adolescência o porquê de tanta preocupação, tanta “pegação no pé” e “encheção de saco”, como eu costumava a dizer para as professoras. Hoje vejo que, na verdade, o que elas tentavam mostrar aos filhos delas e ensiná-los e muitas vezes não conseguiam, buscavam em mim e em outros alunos, procuravam nos fazer melhores, acreditar nos nossos sonhos, que nós não víamos ainda, mas que elas acreditavam, com carinho de mãe, que iríamos alcançar.
Tantas outras mulheres surgiram, no trabalho, na faculdade, nas ruas, nos ônibus, em tantos lugares, e todas trouxeram muitas lições. Hoje posso dizer que aprendi a ser mãe e a ser mulher de verdade através desses exemplos de vida.
Agora, ao olhar meu filho com sete anos de idade, retorno a mesma sensação daquele dia em que minha mãe me abraçou e disse que eu teria muito que aprender daquele momento em diante, e que muitas pessoas iriam me ensinar coisas que ela não podia... só hoje entendo tudo isso, quando a gente volta a ser criança por um breve instante... olho para você, meu filho, e já te vejo crescido, talvez pela responsabilidade de ser homem, de não ter medo, de não chorar, de ser forte. Você está tranquilo, sabe que será bom e que aprenderá muitas coisas... não sei bem, mas acho que de uma forma estranha, sem perceber, eu te preparei para isso, eu te ensinei sem me dar conta que foi um pouco do muito que aprendi. Talvez um dia você se lembre disso, ou outro momento seja mais importante e por isso tomado como lição. Mas, de uma coisa tenho certeza: você foi a maior benção que eu recebi, a maior graça, a maior lição de vida e oportunidade que ganhei de Deus! Eu nunca saberia como é sentir esse turbilhão de dúvidas, alegrias, emoções, ansiedades, e junto de tudo isso, o alívio dos momentos em que quando você estava para cair, eu conseguia te segurar; estava doente, e com o esforço e empenho meu e de seu pai, conseguia tratá-lo; e sei que sentirei mais alívios: quando você conseguir sair de recuperação no colégio, quando voltar da balada com os amigos são e salvo, quando passar no vestibular, quando disser que vai se casar, quando me der a bênção de ser avó também... não são expectativas que estou criando sobre você, mas a certeza de que terei mais motivos para acompanhar seu crescimento e desenvolvimento de perto, sempre torcendo para que seus sonhos, que você ainda não conhece, se realizem, e que eu possa participar de boa parte deles, na torcida para que tudo dê certo e de braços abertos para acolher sua dor quando as coisas não acontecerem como você esperava.
Nesse retorno à infância, agradeço à minha mãe por tudo de bom que ela fez por mim: pelo apoio, pelo carinho, pelas broncas, pelas lições, pelos choros, pelos sorrisos, por toda a constituição minha como mulher e mãe, pois uma grande parte do que sou como pessoa eu devo a ela, e muito do que às vezes eu reclamava dela como mãe em minha adolescência, eu me tornei e passei a compreender e defender...
Enfim, hoje agradeço a meu filho e minha mãe, principalmente, pelas lições que me deram, por valores e instintos que adquiri e que fazem de mim a pessoa que sou hoje, com defeitos e acertos, porém mais humana do que nunca!
THANOS E OUTROS MEGALOMANÍACOS DAS HQ´S
(Por Alexandre Kazuo)
(publicado originalmente em junho de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Thanos deriva-se de thanatos que no grego pode significar ‘morte’. Na teoria
psicanalítica de Sigmund Freud, thanatos e eros (amor numa tradução aproximada do aspecto carnal) são pulsões inerentes ao ser humano, numa interpretação mais destrutiva do conceito de homem. Thanos é um vilão da linhagem ‘cosmica” de bandidos da editora Marvel. Ele é o amante da morte que antagonizou as chamadas sagas cósmicas como A Saga de Thanos ou a trilogia do Infinito, em que os heróis da Marvel se uniam contra ele. Nos EUA a editora Marvel está disponibilizando desde abril “Thanos Rising”, uma nova série que pretende jogar luzes sobre o personagem. Os mais atentos (e aficcionados por personagens obscuros) como este que vos escreve perceberam Thanos olhando para Terra e dizendo que provocar os humanos é como cortejar a morte. Isso no desfecho inserido nos créditos do primeiro filme “Os Vingadores” (2012). Tudo indica que ele será o vilão principal na sequência do citado filme.
Os tiranos megalomaníacos se apresentam em diversas subespécies. Thanos é um imortal sem noção que habita o espaço do universo Marvel procurando meios de se enamorar com a morte, por mais absurdo que isso pareça. No mesmo universo, temos Dr. Destino, arqui-inimigo do Quarteto Fantástico. Destino é o alter ego de Victor Von Doom, déspota esclarecido que comanda a Lativéria com mãos de ferro. É claro que seu desejo maior é dominar o mundo. No mesmo universo e habitando o mesmo espaço sideral que Thanos temos o ‘simpático’ Galactus, tido enquanto o “devorador de mundos”. O gigantesco Galactus é um ser cósmico que se alimenta da energia dos planetas que encontra pela frente. Quando ameaçou consumir o planeta Zenn La, um habitante chamado Norrin Rad propôs tornar-se servo de Galactus ao passo que o devorador não consumisse seu mundo. Norrin tornou-se o Surfista Prateado, arauto de Galactus que busca mundos inanimados para seu mestre consumir.
O arquétipo literário de “Fausto”, o mortal que vende sua alma em troca de conhecimento para Mefistófeles da obra de Goethe é bastante comum nas HQ’s. Na divisão mutante do universo Marvel talvez tenhamos os mais significativos personagens no que diz respeito a este aspecto. Magneto é tido enquanto o principal e mais popular inimigo dos X-Men, busca a supremacia da raça mutante como vimos não apenas nas HQ’s mas nos filmes e desenhos animados. Merece estar nesta lista mas o vilão Apocalipse tem uma constituição bem mais engenhosa e absurda. Por algum tempo os roteiros de X-Men exploraram os “x-eternos” uma espécie rara de mutantes que além de seus poderes incomuns, possuem o dom da imortalidade. Missil, integrante da X-Force/Novos Mutantes e aspirante a X-Men era tido enquanto um “x-eterno”.
O primeiro x-eterno da história da humanidade no universo Marvel foi En Sabbah Nur escravo de um faraó no Egito antigo. Discriminado por sua constituição física incomum e pele acinzentada, En Sabbah Nur descobriu-se imortal vagando ao longo dos tempos e tornando-se o vilão Apocalipse. Na fantástica série em duas edições “A Ascensão de Apocalipse” (ed. Abril) essa origem egípcia de Apocalipse é mostrada. Chegando até a Inglaterra entre os séculos XVIII e XIX Apocalipse é a prova de que a teoria evolutiva que Darwin desenvolvia era coerente. Nathaniel Essex um cientista da época contracena com o próprio Darwin em algumas páginas mas vivia desolado por não ter conseguido salvar sua esposa de uma grave doença. Misto de Victor Frankenstein e doutor Hyde, Nathaniel Essex aceita um pacto com Apocalipse: quer viver o suficiente para ver toda a evolução da espécie humana e torna-se o Sr. Sinistro. Tanto Apocalipse quanto Sinistro são hoje vilões menos fustigados pelas mudanças editoriais da Marvel, que por exemplo já fizeram Magneto aliar-se aos X-Men, ser julgado, ser revertido a infancia, ser clonado, etc. Em termos vilanescos, Magneto já foi um tanto quanto ‘desmoralizado’.
Uma galeria de vilões megalomaníacos será com certeza extensa e não apenas se limitando ao universo Marvel. Darkseid, “o arauto do caos” é apenas um exemplo dos tiranos do universo DC Comics. Ainda é cedo para escrevermos sobre o filme “Os Vingadores 2”, mas este que vos escreve realmente torce para que esses vilões impossíveis e exóticos surjam de forma convincente nas próximas adaptações cinematográficas.
Em tempo:
- Mencionamos na coluna passada a personagem Angela de Neil Gaiman e resolvidas as questões dos direitos autorais entre Gaiman e Todd McFarlane, ficou acertado entre o criador e a editora Marvel Comics a introdução da personagem no mesmo universo de Homem Aranha e X-Men. O fato foi repercutido pelo site brasileiro Omelete. O visual de Angela já foi redefinido pelo ilustrador Joe Quesada, mostrando-se ainda bastante próximo ao que se via nas HQ’s de “Spawn” e possivelmente ela estará alinhada aos personagens cósmicos da Marvel. As primeiras histórias de Angela pela Marvel terão roteiros dividos entre Brian Bendis e o próprio Neil Gaiman trazendo o que podemos chamar de uma teogonia da personagem. A situação parece similar ao surgimento dos personagens de Jim Lee outrora editados pela Image Comics, no universo DC Comics.
HISTÓRIA DA LITERATURA INFANTO FASE III: PARTE 2
(Por Leny Fernandes Zulim)
(publicado originalmente em junho de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Continuemos falando sobre a literatura infanto-juvenil brasileira do período de 1945 a1970, comentando as diversas tendências apontadas por Lajolo e Zilberman (1985) em obra fundamental para se conhecer e entender a história da literatura infanto brasileira. Tendo já abordado duas dessas tendências (O império do café e Saudades do Sertão), vamos seguir, tratando agora das demais:
Sítio e aventura:
O cenário rural permanece, mas o sítio ou a fazenda deixam de ser lugar de viver e trabalhar. Ele agora é lugar onde visitantes acostumados ao mundo urbano, deslocam-se para o meio rural e protagonizam as mais diferentes e inusitadas aventuras. Exemplo disso são os conhecidos livros de Maria José Dupré, em que a natureza apresenta-se misteriosa e cheia de perigos, levando adrenalina aos personagens e leitores de que são exemplos os livros A ilha perdida, A mina de Ouro e A montanha encantada. São obras em série, repetindo-se o cenário (a fazenda do padrinho no Vale do Paraíba, próxima a Taubaté) e as personagens (Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Cecília, para citar alguns). Imprudentes, as crianças desobedecem às orientações dos adultos e acabam se “metendo” em confusões. Com o enredo mais conhecido, A ilha perdida (de grande sucesso, integra a conhecida série Vaga-Lume) acaba por criar um Robinson Crusoé nacional quando, intrigados pelo mistério que ronda a ilha vista à distância, desobedecendo às ordens dos adultos, Henrique e Eduardo resolvem excursionar em segredo e explorar a ilha (Dupré, 1983). A mina de Ouro (integrante da série Cachorrinho Samba) traz no enredo o mesmo mote: Quico, Oscar, Henrique e Eduardo decidem fazer um piquenique no Morro do Jaraguá e convidam as primas Vera e Cecília para integrarem a comitiva. A aventura se transforma em perigo quando se perdem e, por acaso, descobrem a mina de ouro abandonada e precisam aprender a sobreviver em meio à natureza selvagem (Dupré, 1981). Em A montanha encantada (Dupré, 1985) os excursionistas convencem o padrinho a acompanhá-los (aí com toda a segurança) para descobrir a origem da luz azulada que vêem no alto da montanha e descobrem uma civilização esquecida de anões que vivem em meio a uma cidade feita a ouro e outras pedras preciosas.
No final do penúltimo capítulo (id. Ib. p.110), fica explícita a função do cenário rural nessa tendência: fornecer aventuras para os habitantes da cidade que, em férias, aproveitam o campo:
No dia seguinte acordaram bem cedo e foram olhar o alto da montanha; nada viram. Todos os dias a vigiavam como se a montanha lhes pertencesse. Pediram licença ao padrinho para voltar algum dia, queriam fazer uma segunda visita aos príncipes e levar os presentes que haviam prometido
Padrinho consentiu e disse que talvez nas férias seguintes organizasse nova excursão à montanha encantada. (...) As crianças ansiavam para chegar novamente as férias do próximo ano.
Outros livros integram essa tendência, os de Maria José Dupré, porém, são os mais representativos.
A epopeia bandeirante e A Amazônia misteriosa
A temática histórica também está presente na produção literária infanto do período, de forma especial a época da colonização, centrada nos bandeirantes. Alguns títulos que fizeram sucesso e passaram a integrar a prestigiada série Vaga-lume, da Editora Ática são: O gigante de botas e Cem noites Tapuias, de Ofélia e Narbal Fontes, A bandeira das esmeraldas, de Viriato Correia; Rio turbulento e Aventuras nos garimpos de Cuiabá, de Baltazar Godói Moreira. São livros que tomam os bandeirantes como modelos de heróis nacionais e ao mesmo tempo abordam a vida nos garimpos, locais de riqueza que o Brasil precisa conhecer e valorizar, segundo os autores.
Por sua vez, a região amazônica, que até então fora tema exclusivo de autores do norte, como Inglês de Souza, passa a interessar, a partir já de 1940, aos autores voltados para o público infanto-juvenil. São obras influenciadas pela cultura de massa, veiculada pelo cinema e livros de aventuras e detetives (Lajolo & Zilberman, 1985).
Nessa produção, destaca-se Jerônimo Monteiro cujo primeiro livro O Ouro de Manoa, narra as aventuras de uma expedição à Amazônia em busca de um tesouro, a que se segue A cidade perdida, que em 1948 é publicado na coleção Terramarear juntamente com Kalum, de Menotti del Picchia, abordando, ambos, uma visão mítica da Amazônia como a matriz da humanidade, visão que fora encampada pelos primeiros modernistas (Lajolo & Zilberman, 1985). O tom de Monteiro nesses livros é épico e solidifica o gênero da aventura.
Em 1957 Lúcia Machado de Almeida lança As aventuras de Xisto, que pelo sucesso obtido tem retorno com Xisto no espaço e Xisto e o pássaro cósmico. São livros que ou voltam ao passado remoto, ou seguem rumo a um futuro distante, numa tendência escapista.
Os vultos da história
Até 1950 o passado nacional alimenta a literatura para a infância e a adolescência, tornando-se, posteriormente, cada vez menos freqüente. Segundo Lajolo e Zilberman (1985) a finalidade dessa vertente é reforçar o sentimento patriótico organizando um elenco de nomes ilustres que sirvam de exemplo aos leitores, como o livro de Clemente Luz, A infância humilde dos grandes homens, valorizando o gênero biografias. Por sua vez, A aldeia sagrada, de Francisco Marins, narra os fatos relacionados à história de Canudos, voltando à recente República e abandonando o período colonial.
De seu lado, alguns escritores encontraram na história universal a temática para sua produção literária. Citem-se nesse caso, de Virgínia Lefévre, O príncipe invencível, que fala sobre Alexandre Magno; Uma aventura na Idade Média, a respeito dos cavaleiros medievais e A conquista do mar Oceano, a respeito de Colombo, o herói da América. Por sua vez, Francisco Marins conta as aventuras de Fernão de Magalhães em Viagem ao mundo desconhecido, enquanto Godói Moreira, em O castelo dos três pendões, aborda as façanhas de Vasco da Gama na África e Ásia. Lajolo e Zilberman (1985: pag. 119) concluem sobre essa tendência: “Deixando de ser uma vertente relevante da literatura infanto do período, o relato histórico reproduz e reforça a inclinação mais geral que o gênero adota, mostrando sua unidade e identidade na utilização de processos literários e valores.”
A infantilização da criança
Outro nicho explorado nessa fase foi, sem dúvida a tematização da infância, seja focalizando literalmente crianças, seja simbolizando-as através de bichos e bonecos animados. Nessas narrativas as preferências recaem em animais domésticos e pequenos que simbolizam a infância como faixa etária frágil e desprotegida, e que, portanto, necessita do amparo permanente do adulto, além de cuidados complementares. Postula, assim, a incompetência da criança para cuidar de si mesma e justifica a intervenção do adulto em sua vida, pregando a obediência e a sua não autonomia (Lajolo e Zilberman: 1985).
É assim com a série do cachorrinho Samba, de Maria José Dupré. O cãozinho, que desobedece às ordens e orientações dos adultos acaba passando por maus momentos e quando finalmente reencontra os seus, reconhece que obedecer é o melhor caminho. Essa temática prossegue com O caso da borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida; com A abelhinha feliz e O peixinho voador, de Ivan Engler de Almeida; No país da bicharada e No reino dos bichos, ambos de Virgínia Lefévre; Bumba, o boneco que quis virar gente, de Jerônimo Monteiro e João Bolinha virou gente, de Vicente Guimarães.
Uma obra merece aqui ser destaque pelo sucesso editorial enorme que fez. Lançada em 1968, em 1990 já estava em sua 65 ed. e foi traduzida em mais de uma dezena de países. Falamos de Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos. Classificado pela crítica como um romance lacrimejante, não se insere em nenhuma das tendências até agora comentadas. Narra o cotidiano de Zezé, menino pobre que, aos seis anos, vive suas fantasias e é vítima da ignorância e brutalidade adultas. Autobiográfico, o livro comoveu, comove e faz chorar. Vejamos o que afirma a respeito do assunto Maria Alice Faria (1997): “Sem dúvida, O meu pé de laranja lima enternece os leitores e faz chorar os mais desavisados. (...) A troca de lágrimas amplia-se e generaliza-se, novos relacionamentos instauram-se em função do enternecimento. José Mauro recorre pois à linguagem universal das lágrimas.” Concordamos plenamente com a comoção e ternura que desperta o livro. Li-o no que hoje chamamos Ensino Fundamental e marcou-me entre outras leituras. Era pura emoção do começo ao fim, ora ria ora chorava com o sofrimento de Zezé. E não pude acreditar, na época, que Deus tivesse permitido a morte do Portuga, deixando o menino órfão de quem lhe deu mais afeto ( Zulim:2011).
Paramos por aqui. Nosso próximo artigo abordará a fase mais criativa da literatura infanto brasileira, período que segue de 1980 aos dias atuais. Até lá ou a qualquer momento se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
REFERÊNCIAS
DUPRÉ, Maria José. A mina de Ouro. São Paulo: Ática, 9 ed. 1981.
---. A ilha perdida. São Paulo: Ática, 19 ed. 1983.
---. A montanha encantada. São Paulo; Ática, 13 ed. 1985.
FARIA, Maria Alice. O meu pé de laranja lima ou “a ternura da vida.” In: FARIA, Maria Alice (org.). Narrativas juvenis; modos de ler. Assis: Ed. Arte & Ciência –Núcleo Editorial Proleitura, 1997.
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1985.
ZULIM, Leny Fernandes. Entrevista ao site www.leiturinhas.com.br, em 30/12/2011.
JOÃO E MARIA: IRMÃOS E SUAS HISTÓRIAS
(Por Carla Kühlewein)
(publicado originalmente em junho de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Não, definitivamente este artigo não trata do filme brasileiro que estreou recentemente em todo país, FAROESTE CABOCLO, baseado na letra de música da inesquecível Legião Urbana, cujos personagens principais são João (de Santo Cristo) e Maria (Lúcia). Um viva ao cinema nacional, mas o assunto aqui transita em terras mais longínquas e num tempo bem mais remoto.
A dupla em questão é aquela antiga, já bem lida e relida, da era romântica da Europa: o João e a Maria dos clássicos infantis, os irmãos inseparáveis que enfrentaram juntos a bruxa malvada devoradora de crianças (do original em alemão: Hänsel und Gretel). Detalhe: a tal bruxa morava em uma casa pra lá de apetitosa, coberta por biscoitos, chocolate, balas e todo o tipo de guloseima de deixar qualquer criança com água na boca.
Em verdade a preservação viva na memória coletiva da história desses irmãos corajosos de nome tão comum, João e Maria, deve-se ao esforço de outros dois irmãos: Jackob e Wilhelm Grimm. Três séculos depois da morte dos irmãos Grimm, pioneiros dos registros escritos dos contos clássicos que conhecemos atualmente, a história da dupla de irmãos mais perdida da floresta continua preservada. No Brasil e no mundo há ambientes que resgatam não só a história de João e Maria como uma boa parte dos contos de fadas mais populares do Ocidente.
Na Alemanha, terra natal dos irmãos Grimm (responsáveis pelo registro desse e de outros tantos contos de fada) na cidade de Altenberg, está disponível para visitação a Floresta dos Contos de Fadas (Märchenwald), dentre eles: a famosa casinha da bruxa.
Ao sul do país há também outro parque, o Jardim dos Contos de Fadas (Märchen Garten), que deixa à disposição do visitante além da casinha da bruxa, as figuras dos personagens em tamanho natural e a possibilidade de interação com elas (no caso da Chapeuzinho vermelho é só bater palmas em frente à casa da vovó que lobo e chapeuzinho começam a desenvolver o famoso diálogo do “que olhos grandes você tem...”).
No Brasil a preservação dessa história fica por conta do Bosque do Alemão, em Curitiba, PR. Localizado em um dos bairros grandes da capital, o bosque tem a “trilha de João e Maria” que conta com alguns atrativos no trajeto, um deles a casa da bruxa, que não está recheada de doces mas de livros (no seu interior há uma biblioteca infantil à disposição dos visitantes).
Tamanho esforço para preservar uma história tão antiga não se reduz aos espaços físicos, esse ano a indústria cinematográfica resgatou o clássico, porém em roupagem hollywoodiana, sob o título de JOÃO E MARIA: CAÇADORES DE BRUXAS.
A alcunha de “caçadores de bruxas” deve-se ao portentoso feito realizado em dupla, é claro, por João e Maria ao enfrentarem a horrenda bruxa da casa de doces, devoradora de crianças. O diretor e roteirista Tommy Virkola tomou como inspiração esse grandioso feito e transformou os irmãos e uma dupla de exterminadores de bruxas, com direito a artefatos de fogo e uma roupagem digna de cavaleiros medievais.
Afora o fato de os heróis do filme terem o mesmo nome que os personagens do conto clássico e seu passado ter definido quem eles são na fase adulta, caçadores de bruxas, o filme pouco tem a ver com a versão original da história. Os efeitos especiais, os artefatos tecnologicamente incoerentes com o século XVIII (período no qual supostamente a história se passa) e um enredo baseado na ação bombástica, bem ao estilo das produções de Hollywood, ofuscam qualquer semelhança ao texto dos irmãos Grimm.
Como releitura que se propõe ser, os efeitos e criações do filme respondem a uma tendência cinematográfica que parece ter chegado pra ficar, ao menos pelo século XXI adentro: roupagem nova a ideias antigas. Recurso que nem sempre contribui para a consagração da sétima arte (a que chamamos de “cinema”), mas tem sido altamente consumido e talvez por isso, senão APENAS por isso, veiculado com mais frequência.
Por falar em roupagem nova... para a próxima coluna o assunto fica por conta Dele, o mais poderoso dos poderosos: O mágico de Oz!
Boas RELEITURINHAS!


