ENTREVISTA - FLÁVIO FARGAS
Nasci em BH, filho de Zélia e Walder. Trabalhei como design gráfico por muito tempo. Graduei-me na Escola de Belas Artes da UFMG em 2004 e passei a me dedicar à ilustração de livros infantis a partir de 2006. Hoje eu também acumulo o prazeroso papel de pai de Sofia e Mateus, e marido de Flávia.
Conheça alguns trabalhos de Flávio Fargas, expostos no site do SIB (Sindicato dos Ilustradores do Brasil), clicando no link a seguir:
A ARTE DE PINTAR E DESENHAR LEITURINHAS
LEITURINHAS – Conte um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância até agora.
FLÁVIO – Minhas leiturinhas, como a de quase todo mundo, começou com os quadrinhos. Mickey, Pato Donald, Monica, Cebolinha, Riquinho, Recruta Zero… Inclusive foi com estas revistinhas - principalmente com as do Ziraldo - que comecei o exercício de copiar os desenhos de revistinhas. Mais tarde um pouco me lembro da cena de um primo de minha mãe chegando lá em casa e deixando de presente pra gente uma sacola imensa, cheia de livros. Eram livros para adultos na maioria, mas aquilo despertou uma grande curiosidade em mim. Depois dos quadrinhos vieram os livros propriamente ditos, e nunca mais larguei deles. Na verdade não sei exatamente de onde veio este meu gosto pela leitura, mas esta cena do primo de minha mãe com sua sacola de livros foi marcante.
LEITURINHAS – O que levou você a se tornar um ilustrador de livros infantis? Comente um pouco sobre sua trajetória profissional.
FLÁVIO – Trabalhei como design gráfico a maior parte da vida. Quando criança, adorava desenhar. Mas à medida em que fui crescendo acho que minha mãe começou a ficar preocupada com a possibilidade de eu me envolver de verdade com desenho e sempre falava: "Flávio, faz um curso sério… Depois que você formar, você brinca de desenhar." Curso sério pra ela era direito, medicina, essas coisas reconhecidamente respeitáveis. Quando arrumei meu primeiro emprego acabei escorregando para o lado do design gráfico - que gosto muito, pra falar a verdade - e me afastei do desenho. Durante muito tempo. Isso durou até que uma namorada me incentivou a fazer o curso de Belas Artes. Entrei para a EBA - Escola de Belas Artes da UFMG - no início de 2000 e saí em 2007, depois de concluir duas graduações: uma em desenho e outra em pintura. Neste meio tempo nasceu minha primeira filha, Sofia. Foi quando senti que era hora de voltar às minhas origens. Nesta época, um grande amigo, também ilustrador, o Rubem Filho, me apresentou à Antonieta Cunha, editora da Editora Dimensão. Foi ela quem me deu a oportunidade de ilustrar meu primeiro livro: POEMARES. Desde então esta tem sido minha maior ocupação e grande fonte de prazer: ilustrar livros para crianças.
LEITURINHAS – Você considera que o ilustrador de livros infantis é também um coautor? Como se estabelece a relação entre o autor e o ilustrador da obra?
FLÁVIO – Pergunta complicada… Acredito que o ilustrador, de modo geral, é coautor sim, mas em níveis variados. Há livros onde o peso da imagem é enorme. Outros, nem tanto. No meu caso, infelizmente, tive pouco contato com os escritores que ilustrei. Mas quando houve, foi muito bom. Acho ótimo poder trocar ideias sobre as imagens com quem primeiro concebeu a história. Isso pode enriquecer muito o trabalho como um todo. Sei de ilustradores que não aceitam nenhum tipo de interferência no seu trabalho. Eu, sinceramente, não me incomodo. Desde que não haja exageros, é claro.
LEITURINHAS – Recentemente o Banco Itaú distribuiu gratuitamente uma coleção com três livros, dentre eles POESIA NA VARANDA, de Sonia Junqueira, ilustrado por você. Como é a experiência de ilustrar um livro de poesias?
FLÁVIO – Olha, ilustrar poesia pra mim é, ao mesmo tempo, desafiador, prazeroso e terrivelmente assustador. Se por um lado você tem uma liberdade maior na hora de criar, por outro lado eu percebi que liberdade demais também pode ser um elemento que nos paralisa. Parece contraditório, mas comigo foi assim. No caso específico do POESIA NA VARANDA, não foi assim tão assustador. Foi mais prazeroso do que tudo, porque eu me identifiquei demais com o texto, desde o início. Isso facilitou muito meu trabalho.
LEITURINHAS – Como se desenvolve seu processo de criação? Onde você busca inspiração para compor as ilustrações?
FLÁVIO – Meu processo é o básico: leitura, pesquisa, rafes, finalização. Atualmente é nos rafes onde eu gasto mais tempo, refinando o desenho até chegar à forma final. Acredito que quanto mais bem resolvida estiver a parte do lápis, mais fácil se torna a finalização. Apesar disso, durante a finalização as coisas sempre mudam um pouquinho. E a inspiração? Bem, essa é difícil de responder. Mas acho que a convivência com meus dois filhos, Sofia e Mateus, com 7 e 2 anos, ainda imersos num mundo cheio de fantasia e lirismo, ajuda demais.
LEITIURINHAS – Em seu site há disponíveis imagens de alguns projetos pessoais seus feitos com restos de materiais diversos. Como e por que você os desenvolve? Teria a ver com suas atividades de alquimista nas horas vagas?
FLÁVIO – Isso começou ainda na época da Escola de Belas Artes. Meu trabalho final na graduação foi feito todo com "lixo". Usei todo tipo de resto de coisas: pedaços de madeira velha, arames, pregos enferrujados e por aí a fora. Não tinha nada a ver com Arte Povera, como alguns colegas pensaram na época. A verdade era mais simples: eu era fascinado com as cores e texturas deste tipo de material. Mesmo depois de formar, eu continuei fazendo este tipo de trabalho. Gosto muito. Lembra mesmo o ofício de um alquimista, no sentido de que eu faço muitas experimentações e combinações de materiais no processo de construir cada novo objeto. Espero um dia poder ilustrar um livro com esta técnica.
LEITURINHAS – Em biografia para o livro PALAVRA DE FILHO, de Jonas Ribeiro (também ilustrado por você) consta que você começou a fazer livros pra criança por causa de sua filha Sofia. Como é ter uma assistente tão especial na composição das ilustrações?
FLÁVIO – Não gosto de falar muito sobre isso, até porque já falei demais. E fica parecendo meio exagerado. Mas verdade é que tenho uma grande admiração pela arte feita por crianças. Quanto mais novas melhor. Sofia, mais do que uma companheira no ateliê, é quase uma professora. Aprendo muito vendo-a "brincar" de fazer arte. A falta de amarras e da autocensura permite que ela consiga resultados surpreendentes. Claro que a sua produção se dá num outro nível, sem o compromisso de seguir um texto ou um briefing, o que facilita muito. Mas observar sua liberdade criativa - e não só a dela, mas de muitas outras crianças - é realmente estimulante.
LEITURINHAS – “De tanto ler livros ilustrados por Fargas já reconheço seu traço de longe!” Como você considera essa percepção do leitor/observador? É exatamente isso o que o ilustrador espera quando conclui um trabalho? Que outras intenções conduzem o ilustrador a executar o nobre papel de materializador da palavra?
FLÁVIO – Acho que não gostaria de escutar isso não, porque seria sinal de que eu estaria caindo na mesmice. Quer dizer, um estilo, em certo sentido, é muito prático e cômodo. A gente produz mais rápido quando não tem que se preocupar mais com a "forma" do desenho. Mas por outro lado acredito que isso seja perigosamente um caminho para a rotina. E a rotina, você sabe, a médio prazo, tira o prazer de qualquer coisa. Hoje, quando eu faço um livro espero, antes de mais nada, que a criança se divirta com meus desenhos.
LEITURINHAS – Como integrante da SIB (Sociedade dos Ilustradores do Brasil) comente um pouco sobre as atividades desse grupo e como a vinculação à Sociedade pode contribuir para a divulgação do trabalho de ilustradores brasileiros.
FLÁVIO – Para mim o grande achado da SIB foi facilitar o acesso à informação. De várias maneiras - site, eventos, exposições, lista de discussão - a gente tem hoje como se informar, orientar, tirar dúvidas sobre a profissão. A gente aprende muito com a experiência dos colegas. Claro que há outras maneiras de conseguir este tipo de informação, mas na SIB você tem acesso à informação de qualidade e confiável. Além disso, a SIB organiza, anualmente, um evento com exposição de trabalhos dos associados. Esta exposição, inclusive, já está sendo levada para o exterior.
LEITURINHAS – Quais as perspectivas do trabalho de ilustração no Brasil, atualmente? Que dicas você daria a quem está começando nessa profissão e pretende seguir carreira?
FLÁVIO – Só posso falar da ilustração infantil, que é onde realizo a maior parte dos meus trabalhos. No caso dos livros, as novas mídias (principalmente os ebooks) vêm dando uma sacudida no mercado. A gente vai ter que aprender a se adaptar, senão a dor de cabeça será grande. Dicas? Nossa, que difícil… Mas eu resumiria em cinco pontos:
1) Desenhe muito - com esforço e disciplina a jornada fica mais fácil;
2) Leia muito - nada pior do que um ilustrador sem ideias;
3) Procure seus pares - a experiência alheia (boas e ruins) nos ensina muito;
4) Não se acomode - tem muita gente boa entrando no mercado o tempo todo;
5) Mostre-se para o mundo - não adianta ter um trabalho de primeira linha se as pessoas não te conhecerem.
QUE TAL POESIA?
A POESIA DESPERTA A IMAGINAÇÃO INFANTIL?
(Márcia Hávila Mocci)
O texto poético oferece ao leitor a oportunidade de manejar as palavras, analisá-las por vários ângulos e jogar com elas. Sendo que, muitas vezes, os vocábulos servem apenas como suporte ou motivação para criar uma oportunidade de a criança desenvolver o jogo; uma vez que, para ela, o lúdico e o nonsense precedem o sentido e predominam sobre a significação.
A poesia oferece à criança material linguístico para que ela possa sonhar e jogar. No texto poético, a linguagem deixa de ser referencial graças às múltiplas possibilidades de interpretação passando a atuar, juntamente com a fantasia, como agente modificador de significados e possibilitando ao leitor rebelar-se contra as representações estereotipadas das palavras. A criança necessita desse contato com a linguagem conotativa e da exploração da ambiguidade dos vocábulos para que cresça disposta a descobrir algo novo nas palavras e por meio delas.
Ao ouvir um poema, a criança pode não entender sua significação, mas as aliterações e assonâncias a divertem e ela tira suas próprias conclusões a respeito do sentido das palavras, dando-lhes uma interpretação pessoal e, muitas vezes, fantasiosa. O texto poético, portanto, apresenta um caráter libertador, na medida em que dá livre trânsito à fantasia e enriquece a vida interior do leitor. Averbuck (1982, p. 68) ressalta que “Pela alta carga de conotação do texto, toda leitura de poesia é um ato de recriação. Ler o poema é, necessariamente, buscar um (dos) sentido (s)”.
Sendo assim, a poesia trabalha com um elemento extremamente importante à formação global do psiquismo infantil: a imaginação. Além de auxiliar no desenvolvimento da personalidade, a familiarização com o texto poético ajuda a criança a desenvolver a sensibilidade estética e a criatividade.
O jogo de palavras ou com as palavras, presente na poesia infantil, ajuda a criança a tomar consciência da linguagem e a ampliá-la. Expandindo o domínio linguístico, consequentemente, ela amplia seu conhecimento de mundo e, nesse sentido, podemos dizer que a poesia desempenha uma ação formadora. A sensibilidade e a criatividade da criança se dão através do contato, não só com as palavras conhecidas, mas com aquelas que ela, apesar de não conhecer, é capaz de inferir pelo contexto, por possibilitar-lhe a criação de imagens e associação de vocábulos, ritmos e sons.
O uso das rimas é extremamente importante na poesia infantil, pois as mesmas agradam à criança devido à sonoridade que provocam e sua relação com a música. Como na poética contemporânea há liberdade de criação, não existe um padrão fixo ou rígido para o uso das rimas, cada poeta escolhe um critério para usá-las, dependendo do tipo de versificação que adota, da mensagem do texto e das emoções que deseja comunicar. O emprego das rimas não significa, porém, que sua presença seja necessariamente obrigatória, pois há versos de elevada qualidade artística sem o emprego desse recurso, como em A casa de meu avô de Ricardo Azevedo,
A casa do meu avô
Ricardo Azevedo
Ah como é boa essa vida
Na casa do meu avô
Bem melhor do que sorvete
Mais gostosa que bombom
Que refresco, chocolate
Bolo, bala, caramelo.
Ah como é doce essa vida
Na casa do meu avô!
As sensações evocadas por meio da poesia são importantes para o despertar da sensibilidade da criança, pois mobilizam todos os seus sentidos. O poema A casa de meu avô, evoca sensações gustativas ao citar os sabores diversos, especialmente o doce. Retrata também uma vivência infantil e uma situação cotidiana, fatores que despertam o interesse e favorecem a identificação imediata com a criança. Com apurada sensibilidade, Ricardo Azevedo explora, em um só poema, as sensações, a vivência infantil e o jogo de faz-de-conta, características inerentes aos textos literários e que despertam a imaginação e a sensibilidade do leitor e, especialmente, da criança.
REFERÊNCIA DO POEMA CITADO
AZEVEDO, Ricardo. A casa do meu avô. São Paulo: Ática, 1998.
LÁ VEM CONTO
FIM DO MUNDO?
(Deusiane de Andrade)
21 de dezembro de 2012, sexta-feira. É incrível como todas as tragédias e paranormalidades são previstas de ocorrerem sempre às sextas, e sendo assim, o fim da existência não seria diferente. Era um dia quente em Varginha, às 10 da noite. As pessoas olhavam para o céu e percebiam que algumas nuvens escuras se aproximavam da cidade. O alarde começou naquele instante, alguns dizendo que era só a chuva que vinha, outros que logo as trombetas começariam a tocar anunciando o fim. Sem que percebessem, os raios iniciaram sua descida à terra com bastante intensidade, e os trovões tinham som semelhante a bombas nucleares. O vilarejo todo se apavorou, fazendo orações das mais diversas denominações religiosas... outros procuravam algum boteco aberto para tomar sua última dose de pinga... havia ainda os que saíram de fininho, planejando roubar os bancos e os estabelecimentos da cidade. Depois de uma hora de pavor, a coisa foi ficando pior: a terra começou a tremer. Os que estavam dentro de casa, saíram, e os que estavam fora, entravam, todos na tentativa instintiva de se proteger de alguma forma. Só uma pessoa não se preocupava com nada: Dona Carminha. Ela estava deitada em sua cama, com as luzes todas apagadas, olhos bem abertos, pois fazia anos que só dormia a base de remédios, desde que seu esposo faleceu. Ela dizia aos vizinhos que no dia em que o mundo acabasse seu marido viria lhe buscar, e ela estaria o esperando no mesmo lugar em que ele se fora. Os tremores se intensificavam, e de repente, alguns vizinhos viram o vulto de um senhor se aproximando da casa de Carminha. O susto foi generalizado, todos pálidos, estapafúrdios, atônitos, e a gritaria começou. Os homens do bairro disseram que iam ajudar a pobre senhora, afinal, quem estaria invadindo sua casa? Mas para o espanto de todos o senhor atravessou a porta sem abri-la... os homens se detiveram paralisados de horror. Foi o tempo aproximado de dez minutos para que os tremores, raios e trovões diminuíssem sua intensidade. O relógio já dava as badaladas da meia-noite. Nesse instante, uma chuva calma, serena e fria caía na cidade, e não mais se ouviam os alardes da vizinhança, nem dos trovões, somente uma sirena ao longe, se aproximando do vilarejo. Os paramédicos encontraram o corpo de dona Carminha todo esticado em cima da cama, ao que parecia, tinha falecido de enfarto fulminante. Eu ainda conseguia vê-la antes do corpo ser removido: tinha os olhos esbugalhados, uma aparência fantasmagórica, olhos fundos com uma sombra arroxeada em torno deles, o corpo todo enrijecido, mas nos lábios um sorriso, como se tivesse recebido uma visita esperada há tanto tempo. Os policiais brincavam com a situação, dizendo que para nós o mundo não tinha acabado, mas para a pobre velha sim. E riam aliviados, pois já passava da meia-noite e tudo estava normalizado. Alguns minutos depois tudo estava calmo, como qualquer outro dia normal, a cidade toda dormia como se nada tivesse acontecido.
KAZUO EM QUADRINHOS
CONTOS DE GAIMAN (PARTE II)
(Alexandre Kazuo)
No último mês de dezembro, mencionamos “Odd e os gigantes do gelo” (Ed. Rocco jovens leitores) título literário voltado ao público infantil pelo aclamado Neil Gaiman. Oriundo das HQ’s adultas do selo Vertigo, cujo grande feito foi “Sandman”, o britânico Neil Gaiman tem uma prolífica carreira no mercado literário mundial. Seu novo romance, “The Ocean at The end of the Lane” ainda não tem título em português mas será lançado agora em 2013. Cogita-se até a vinda de Gaiman para o Brasil, segundo o site OMELETE, para a ocasião de lançamento; ele que já esteve em nosso país por volta de 2001 em São Paulo e na Flip realizada em 2008.
Dentre as publicações mais recentes de Gaiman, temos “Coisas Frágeis” e “Coisas Frágeis II” disponibilizados no Brasil pela Ed. Conrad respectivamente em 2008 e 2010. Tratam-se de duas coletâneas de contos variados, tanto no que diz respeito a público alvo, quanto estilo e ineditismo. O primeiro, “Coisas Frágeis”, abre com “Um Estudo em Esmeralda”, meticuloso conto que cruza os cenários de Conan Doyle e do cultuado escritor H.P. Lovecraft. O primeiro é o criador de Sherlock Holmes e o título obviamente é um trocadilho com o nome do clássico “Um Estudo em Vermelho”. Lovecraft é conhecido do público aficcionado por histórias de mistério e horror em tramas que geralmente se entrelaçam com detalhes obscuros da cultura egipcia.
“O problema de Susan” é, segundo o prefácio da coletânea escrita pelo próprio Gaiman, uma menção a “Crônicas de Narnia” de C.S. Lewis. Gaiman escreve sobre o citado conto: “Durante minha infância, li as Crônicas de Nárnia centenas de vezes, sozinho, e depois em voz alta, já adulto, duas vezes, para os meus filhos. Há tantas coisas nesses livros que eu adoro, mas sempre achei o fim de Susan intensamente problemático e profundamente irritante. Acho que, além de falar do poder notável da literatura infantil, eu quis escrever uma história tão problemática e irritante quanto aquela, ainda que seguindo outra direção”. Em “Golias”, Gaiman invade o terreno da ficção científica travestida de uma estética cyberpunk na linha William Gibson. Este conto foi encomendado ao autor pela produção do primeiro filme “Matrix” de 1999 para figurar no site oficial do (hoje distante) filme estrelado por Keanu Reeves. “O Monarca do Vale” evoca o folclore escocês onde Gaiman conduz novamente Shadow, personagem do seu aclamado romance “Deuses Americanos”.
Há quem acredite como este que vos escreve que o melhor de Gaiman se via nas HQ’s de “Sandman”. Mas seu grande acerto foi ter dado um final à história daquele título. Como todo grande gênio, Gaiman sabe que as boas ideias acabam e é um desrespeito ao público tornar um título aclamado paródia de si próprio. Por outro lado a versatilidade e o senso acurado para perceber e capturar diversos tipos de leitores fazem de Gaiman, além do bem e do mal. Trata-se de um gênio artístico desprovido de babaquices pseudo baudelaireanas, supostamente fazendo o que faz “por amor a arte”. Gaiman é grande porque sabe se moldar como produto também, o que faz dele infinitamente bem sucedido em aspectos comerciais. “The Ocean at The end of the Lane” (algo como “um oceano ao fim da travessa” em português) tem lançamento confirmado no Brasil pela editora Íntrinseca.
(‘Coisas Frágeis’ de Neil Gaiman. Editora Conrad, 2008)
Em tempo:
- Em nota de setembro do ano passado, o site OMELETE anunciou que a Marvel Comics agora detém os direitos sobre o personagem Miracleman, pelos quais Neil Gaiman brigava na justiça norte-americana com Todd McFarlane. Mencionamos tal disputa por diversas vezes aqui nesta coluna. McFarlane era dono dos direitos do catálogo da extinta editora Eclipse que editava o personagem. Após mais de 10 anos de disputa judicial, McFarlane desistiu do processo. Miracleman, que originalmente era chamado de Marvelman na Inglaterra, também teve histórias escritas por Alan Moore. O título foi modificado na América para evitar confusões com a editora Marvel, que deverá manter o nome “Marvelman” nas vindouras re-edições.
VIDEOTECA
EM BREVE, MAIS "UM TRABALHO PARA O SUPER-HOMEM!"
(Alexandre Kazuo)
Super Homem, Superman. Descrito por alguns enquanto parte da mitologia do século XX. Sinônimo de super-herói. Possivelmente o maior personagem da editora DC Comics. Porém, na humilde opinião deste que vos escreve, um ícone datado e quase caduco. Superman foi criado por Jerry Siegel e Joe Schuster em 1938. Protagonizou séries televisivas na década de 50. Tornou-se marca registrada e principal herói do universo DC. Foi o protótipo dos blockbusters hollywoodeanos que vemos por aí adaptando super-heróis de HQ’s. Lá atrás no fim da década de 70 do século XX quando Superman (1978) e Superman II (1980) imortalizaram o ator Christopher Reeve (1952/2004) como Clark Kent definitivo do cinema. O título deste texto evoca o bordão que o personagem proclamava ao entrar em ação, ‘isto é um trabalho para o Super-Homem’ numa das várias séries em desenho animado concebidas a ele.
Funcionou no passado e o texto deste que vos escreve pode ser vítima das mais compreensíveis ‘retaliações’ e protestos dos fãs que o personagem teve, ainda tem e terá por MUITO tempo. Superman é uma das primeiras grandes vítimas do continuísmo proporcionado pela editora que lança seus títulos em quadrinhos. O perfil do personagem era cabível para uma época em que havia uma corrida espacial entre yankees e russos, em que a América tentava demonstrar supremacia em meio a Guerra Fria. Karl El vinha do avançado planeta Kripton, foi o único sobrevivente do lugar chegando ainda bebê a Terra. É acolhido pelos simpáticos fazendeiros Jonathan e Martha Kent. Cresce e vai para Metrópolis, onde se torna jornalista do Planeta Diário sob a identidade de Clark Kent. Combate as mais diversas ameaças a cidade fictícia deixando a pacata identidade para vestir um collant azul com capa vermelha e sunga rubra sob a calça; ostentando um ‘S’ colado sobre o peito. Se a produção de X-Men vetou o tradicional uniforme amarelo com sunga azul sobre a calça para o Wolverine, por que a roupa do Superman não pode se contemporanizar?
Talvez esgotado por tanto trabalho ao longo dos tempos...
Nos quadrinhos a editora DC chegou até a promover a ‘Morte do Super Homem’ (ed. Abril) no começo dos anos 90, devido à escassez de alternativas argumentativas. Pouco depois ressuscitou-o em ‘O Retorno do Super Homem’, no Brasil originalmente publicado em 3 edições pela Abril por volta de 1994. E até uma revanche contra seu ‘assassino’ o alienígena Apocalypse ocorreu também em luxuosa minissérie. Fôlego para o personagem, a DC procura também em outras mídias desde os anos 90. A série ‘Lois and Clark The Adventures of Superman’ chegou a ser exibida no Brasil e procurava alternativas no dia a dia do casal Lois Lane e Clark Kent, bem caracterizados por Teri Hatcher e Dean Cain. Desnecessário dizer que a editora casou os personagens na HQ quase que simultaneamente. Outra exploração televisiva vimos na recente série ‘Smallville’ que abordava o jovem Superman em Pequenópolis, numa tonalidade contemporânea e mais agressiva.
O retorno do homem de aço aos cinemas se deu em 2006 com o filme ‘Superman Returns’ bem produzido e dirigido por Bryan Singer (de ‘X-Men’/2000), mas que não rendeu o alarde esperado. Os citados filmes contando com Christopher Reeve renderam mais dois além dos produzidos em 1978 e 1980, mas Superman III (1983) e Supeman IV (1987) eram bastante inferiores aos dois primeiros. Uma ressurreição do Batman em ‘Batman Begins’ (2003) parecia uma perspectiva mais sagaz por parte da Warner. E o homem morcego irradiava a sua atemporalidade superior a do Superman, desde o filme de Tim Burton em 1989. Batman inclusive sobreviveu a atentados cinematográficos cometidos por Joel Schumacher no fim dos anos 90...
Enfim chegamos a ‘Man of Steel’ cujo título parece ainda não ter sido vertido para o português. O mais novo filme do Superman tem estreia marcada para junho de 2013 com o ator Henry Cavill no papel de Clark Kent/Superman.Resta a torcida deste que vos escreve para que a produção, ao menos agrade os fieis fãs que o personagem sempre teve.
LITERATURA E ENSINO
LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA: PANORÂMICA HISTÓRICA I
(Leny Fernandes Zulim)
Hoje, damos início a um conjunto de artigos tendo como foco a história da literatura infantil brasileira desde o seu início, para chegarmos aos dias atuais buscando, a partir daí, estudar regularmente obras de destaque do pós-70, quando ocorre o chamado boom do seguimento no Brasil. Dois livros são as maiores e melhores referências quando se quer estudar a história da literatura infanto brasileira: Literatura infantil brasileira: história e histórias, de Marisa Lajolo & Regina Zilberman e Literatura infantil: teoria, análise, didática de Nelly Novaes Coelho, este voltado mais para a produção literária contemporânea. Eles serão, portanto, o maior apoio de que iremos nos valer ao longo desses artigos, juntamente com outros que reforcem o assunto. Para início de conversa vale lembrar que as primeiras obras destinadas à infância surgiram na Europa do Século XVIII. Lajolo & Zilberman (1985: 15) assim comentam o fato:
Antes disso, apenas durante o classicismo francês, no século XVII, foram escritas histórias que vieram a ser englobadas com literatura também apropriada à infância: as Fábulas, de La Fontaine, editadas entre 1668 e 1694, As aventuras de Telêmaco, de Fénelon, lançadas postumamente, em 1717, e os Contos da Mamãe Gansa, cujo título original era Histórias ou narrativas do tempo passado com moralidades, que Charles Perrault publicou em 1697.
No Brasil, contudo, essa literatura aparece apenas nos arredores da proclamação da República. Embora uma ou outra obra direcionada à criança viesse a público a partir da implantação da Imprensa Régia, oficializada em 1808 (Caso de Leitura para meninos, contendo uma coleção de histórias morais relativas aos defeitos ordinários às idades tenras, e um diálogo sobre geografia, cronologia, história de Portugal e história natural, de José Saturnino da Costa Pereira), como sistema regular e autônomo de textos e autores postos em circulação, só mesmo a partir da última década do século XIX. Com o advento da Lei Áurea e da República gestam-se as massas urbanas que valorizam a instrução e a escola, lamentando a falta de material de leitura para essa infância que tomava de assalto as salas de aula. Como resultado, nas duas últimas décadas do século XIX multiplicam-se traduções e adaptações de clássicos europeus (Lajolo & Zilberman: 1985). Carlos Jansen e Figueiredo Pimentel, nomes de destaque nessa época, entregam ao público um trabalho em que se destacam: Contos seletos das mil e uma noites, As aventuras do Barão de Munchhausen, Contos para filhos e netos, Contos da Carochinha, Histórias da avozinha e História da baratinha. Sobretudo nas três últimas obras citadas, o público infantil tomava contato com os mais conhecidos contos de encantamento conhecidos na Europa.
Merecem destaque, também, alguns outros autores e obras, entre eles: Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes Vieira (Contos Infantis: 1886);Olavo Bilac e Coelho Neto (Contos Pátrios:1904); Júlia Lopes de Almeida (Histórias da nossa terra:1907); Olavo Bilac e Manuel Bonfim (Através do Brasil:1910). Na poesia, destacam-se, mais uma vez Olavo Bilac, desta feita com Poesias infantis e Francisca Júlia e Júlio da Silva com Alma Infantil.
Via de regra, esses autores estavam sempre mais preocupados em, através dos textos postos em circulação, ensinar valores, boas maneiras e conteúdos escolares e menos ocupados com o que realmente interessa quando se fala em literatura: inscrever nos textos o estatuto de arte, o que significa dizer valer-se de uma linguagem artística, usando a palavra de uma maneira não usual. Essa preocupação pedagógica (e não estética), bastante pragmática, tem o objetivo de fazer o livro atuar de forma educativa sobre o pequeno leitor. Palo & Oliveira (1986: 13), assim se pronunciam a respeito:
Dentro do contexto da literatura infantil, a função pedagógica implica a ação educativa do livro sobre a criança. De um lado, relação comunicativa leitor-obra, tendo por intermediário o pedagógico, que dirige e orienta o uso da informação; de outro, a cadeia de mediadores que interceptam a relação livro-criança: família, escola, biblioteca e o próprio mercado editorial, agentes controladores de usos que dificultam à criança a decisão e a escolha do que e como ler.
Esse “utilitarismo” que se observa ainda em algumas obras atuais cujo público é a criança e/ou o adolescente, e que imperava nesses tempos de início da literatura infanto, é prejudicial porque passa ao largo da sua principal função que é preencher a necessidade de ficção e fantasia que todos temos e, ao propiciar esse momento de fruição e prazer, possibilitar ao leitor uma melhor compreensão do mundo e de seu real imediato, pois como diz Lajolo (1994: Introdução), “do mundo da leitura para a leitura do mundo o trajeto se cumpre sempre (...) transformando a leitura em prática circular e infinita”. Os textos para as crianças, desta fase, visando formar o adulto como a sociedade quer, vêm permeados, portanto, de pedagogia, ensinando boas maneiras e conteúdos escolares, esquecendo o que primeiro deveria caracterizar essa literatura: a arte, o estético, o literário, o prazer. Isso traz um prejuízo fatal para o leitor em formação: a aversão ao livro (Zulim: 1993). Entre tantos outros estudiosos que contestam essa utilização da literatura está Perrotti (1986), ao lembrar que só quando a literatura abandona esse utilitarismo faz nascer uma tendência comprometida prioritariamente com a arte e não com a pedagogia.
Pois bem, se a literatura para a infância, nascente em finais do século XIX nesse país colonizado chamado Brasil, vinha recheada de pedagogismo, esquecendo a real função dessa arte que se faz com a palavra, trazia linhas temáticas que, mais uma vez, Lajolo & Zilberman (1985), nos apresentam, de acordo com o que segue:
1) O nacionalismo na literatura infantil: a paisagem brasileira e o amor à pátria se fazem presentes tendo como nítido objetivo fortalecer o sentimento de amor à terra natal, com a difusão do civismo e do patriotismo. Essa tendência subdivide-se em três, a saber:
2) As imagens do Brasil: Vê-se o projeto já citado, por exemplo, em Bilac e Manuel Bonfim com a conhecida e popular obra na época Através do Brasil. Nela os autores dão destaque à paisagem, à cultura e história do país,, tomando por base os livros europeus: Cuore, do italiano De Amicis e Le tour de La France par deux garçons, de G. Bruno. Essas obras divulgam a história e a geografia italiana e francesa, respectivamente, com personagens crianças que vão desenvolvendo, ao longo da narrativa, sentimentos de família, amor à pátria, noções de obediência e práticas das virtudes civis (Lajolo & Zilberman, 1985). Através do Brasil segue a mesma trilha. Narrada em terceira pessoa, a viagem dos protagonistas, dois irmãos com quinze e dez anos, saem em busca do pai, dado como morto, cruzam o Brasil e passam a conhecer sua história, sua geografia e sua cultura, com lições de amor e generosidade. O livro não mascara essa intenção, pois traz esse objetivo pedagógico expresso nas palavras dos autores ao apresentá-lo ao público: “O nosso livro de leitura oferece motivos, ensejos (...) para que o professor possa dar todas as lições, sugerir todas as noções e desenvolver todos os exercícios escolares para boa instrução intelectual de seus alunos.” (Bilac & Bonfim, 1931: 7)
Por sua vez, Júlia Lopes de Almeida lança, em 1907, as Histórias de nossa terra, livro que engloba 31 textos entre cartas e contos tendo por cenário as mais diferentes cidades brasileiras. Os textos exortam ao trabalho, à obediência, ao estudo, à disciplina,à caridade e honestidade. O amor à pátria é também virtude tematizada no livro. No conto O tesouro, (1925:41-42), por exemplo, vemos um velho soldado que, inválido, luta com ladrões que lhe tentam roubar os saquinhos em que o herói trazia punhados de terra dos lugares por onde passara. É sua neta que o consola com uma canção que nos explica o que pretendia ele com essa terra:
De cada terra em que estive,
Das que este Brasil encerra
E que defendi com sangue
Trouxe um punhado de terra.
Guardei-a como lembrança
De mais valor e mais pura,
E há de minha neta um dia
Pô-la em minha sepultura.
3) A paisagem brasileira: Nos livros dessa tendência, o apelo ao heroísmo, ao patriotismo e outros sentimentos nobres, acontece em meio à evocação da natureza brasileira. Principalmente na poesia de Bilac. Nela, a palavra terra se transmuta em natureza, pátria, nação. Sirva como um dos muitos exemplos, um trecho do poema A Pátria (1949: 123):
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás país nenhum como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
a Natureza perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
A extrema valorização da natureza é radicalizada na obra que, praticamente, encerra esse primeiro período da literatura para jovens: o livro Saudade, de Tales de Andrade. Nele, o autor propaga a ideia de um Brasil agrícola que nessa atividade encontra sua identidade cultural, ideológica e econômica.
4) O modelo de língua nacional: o modelo exemplar no plano temático vai manifestar-se também ao nível da linguagem. A preocupação com o escrever certo, sempre presente na produção infantil desse período segue uma tendência do fim do século XIX e começo do século XX de que é exemplo o Parnasianismo. Francisca Júlia e Júlio da Silva demonstram tal preocupação no livro Alma Infantil (1912) quando dizem: “As nossas escolas do Estado estão invadidas de livros medíocres. A maior parte deles são escritos em linguagem incorreta onde, por vezes, ressalta o calão popular”.
Conhecer o percurso histórico da literatura infantil brasileira torna-se importante para o professor, pois lhe fornece um conhecimento que o faz capaz de, dono de um saber mais profundo, poder escolher e selecionar o melhor como material de leitura para seus alunos. Por isso estamos iniciando hoje essa série de artigos a esse respeito. Nosso próximo encontro tratará de uma segunda fase dessa história, quando de fato surge uma literatura infantil no país com Monteiro Lobato. Até lá, ou se preferir, faça contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Julia Lopes de. Histórias de nossa terra. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1925.
ALMEIDA, Júlia & SILVA, Julio. Alma Infantil. Rio de Janeiro, 1912.
BILAC, Olavo. Poesias Infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1940.
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1994
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1985.
PALO, Maria José & OLIVEIRA, Maria Rosa. Literatura Infantil; voz de criança. São Paulo: Ática, 1986.
PERROTTI, Edmir. O texto sedutor na literatura infantil. São Paulo: ícone, 1986.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura infanto-juvenil: o livro literário - desvelando o mundo e contribuindo para o sucesso escolar. In: Revista Científica e cultural UNOPAR. Londrina: Dezembro 95.
RELEITURINHAS
ONCE UPON A TIME – PRÉVIAS
(Carla Kühlewein)
Ao sabor dos novos tempos, o seriado americano ONCE UPON A TIME (Era uma vez) é um exemplo contemporâneo do quanto a dramaturgia tem se dedicado à releitura dos clássicos contos de fadas. Como sempre a esse tipo de criação reserva-se certa dose de ousadia. No caso da série, a surpresa já começa pelo fato de cinderela, príncipe encantado e cia viverem cotidianamente como seres mortais bem próximos da normalidade; usando roupas comuns, com profissões distintas, trabalhando, se divertindo, amando, enfim, vivendo como se nunca tivessem sido outra coisa senão humanos, tão reais quanto nossa breve existência.
No entanto, eles estão na verdade sob o feitiço maléfico da madrasta de Branca de Neve (a bruxa da maçã envenenada) que lança uma maldição sobre as personagens dos contos de fadas, congelando-as no tempo e no espaço, de modo que nenhuma delas se lembre de suas origens. Para elas não há passado nem futuro, apenas o presente, numa cidade pacata chamada Sotrybrook, em que o relógio não anda e a madrasta, é, na verdade, a prefeita da cidade e Branca de Neve uma professora primária.
Os recursos estratégicos de que o seriado se vale estão ligados diretamente ao resgate das histórias clássicas dos irmãos Grimm, Perrault e Andersen, basicamente ente outros autores de histórias clássicas, como Lewis Carol (Alice no país das Maravilhas), no entanto elas são apresentadas com ingredientes a mais que garantem o suspense e a conexão de um capítulo ao outro. O “up grade” fica por conta das revelações que se faz em relação aos acontecimentos que antecederam cada uma dessas histórias, afinal, quem não gostaria de saber o real motivo pelo qual a madrasta/bruxa odeia tanto Branca de Neve, como o Grilo se tornou Falante ou mesmo por que o Chapeleiro do país das Maravilhas enlouqueceu?
As revelações prévias de cada história revelam um lado um tanto humano das personagens, aproximando-as sobremaneira da constituição de seres humanos e consequentemente, de qualquer pessoa que se aventure a assistir ao seriado. Este nada mais é o do que o recurso básico de toda e qualquer releitura, romper com valores e injetar novas perspectivas à visão de mundo propagada pelos contos clássicos.
Com a primeira temporada encerada, somando um total de 22 capítulos, veiculados muitas vezes em tripartições, ONCE UPON A TIME está agora com a segunda temporada e parece estar longe de se esgotar. É uma verdadeira colcha de histórias encantadas, costuradas pelo conflito central entre a sede de vingança da madrasta malvada e a pureza imaculada de Branca de Neve, representantes máximas da eterna disputa entre o mal e o bem.
Como o seriado apresenta um verdadeiro caldeirão de personagens clássicos, misturados ao molho encantado, os próximos artigos dessa coluna serão dedicados à análise de alguns dos personagens centrais dessa saga interminável. Até a próxima!
Boas RELEITURINHAS!



