setembro 04, 2014

Agosto - Entrevista e artigos

ENTREVISTA - LUIGI
(Publicada originalmente em agosto de 2014 em www.leituruinhas.com.br)

LUIGI RICCIARDI, nome literário de Luís Cláudio Ferreira Silva, nascido em Londrina/PR em 1982 e radicado em Maringá/PR desde o final dos anos oitenta. É formado no curso de Letras e tem mestrado em Literatura na Universidade Estadual de Maringá. Atua no norte do Paraná como professor de língua francesa, literatura e gramática. É idealizador do projeto Mutirão Artístico e da revista literária Pluriversos. Em 2011, publicou seu primeiro livro de contos, intitulado Anacronismo Moderno pela Scortecci. Em 2014, teve o seu segundo livro de contos, Notícias do Submundo, publicado pela editora Multifoco. O seu romance Aquilo que não Cabe, ainda inédito, esteve entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura 2013/2014. Contato: luisliteratura@hotmail.com e (44) 99451590.

LEITURINHAS À FRANCESA
(por Carla Kühlewein)


LEITURINHAS - Comente um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância até hoje.
LUIGI - Desde muito cedo me interessei pelas palavras. Meus pais contam que, aos três anos de idade, eu conseguia identificar os logotipos inscritos nos outdoors. Meu processo de alfabetização é anterior à escolarização. Um pouco mais tarde, comecei e me interessar por histórias em quadrinhos por conta do meu pai, que vivia sempre lendo na sala seus livrinhos de bang-bang. Eu fabulava já nessa idade, tentando contar histórias oralmente. Eu vivia de ouvido colado nos adultos para ouvir todas as histórias que eles contavam de quando eram crianças e jovens. Eu não poderia ser outra coisa senão escritor.

LEITURINHAS - Como surgiu o interesse em estudar e dar aula de francês?
LUIGI - Foi por acaso. Eu já havia abandonado um curso superior, e queria qualquer diploma como um plano B para minha vida. Escolhi o curso de letras pela afinidade com a literatura, francês foi só um detalhe, eu mudaria no ano seguinte para o inglês. Eu me apaixonei na primeira aula e nunca mais larguei a língua francesa, e espero que isso nunca aconteça.

LEITURINHAS - Quais os maiores desafios para quem pretende ensinar um idioma estrangeiro para um falante nativo da língua portuguesa?
LUIGI - Primeiramente eu defendo a ideia de que para ser professor, você precisa sim passar por uma formação. Talento pode até vir de berço, mas entender toda a estrutura educacional é essencial para dar aulas. Por isso não concordo quando ouço alguém dizendo que viveu dois ou três anos no exterior e de repente decide “tirar uma grana extra” dando aulas de língua estrangeira. Esse é o primeiro desafio, enfrentar o preconceito, pois todos acham que é super simples dar aula de língua estrangeira. Outro problema é a vivência na língua. Ter fluência em uma língua estrangeira sem morar no país é complicado. Você precisa criar situações para ter contato com a língua o máximo possível. Mas temos uma vantagem: eu, brasileiro, sei dos possíveis percalços no caminho da aprendizagem de um brasileiro, pois também passei por esse processo. Posso prever essas pedras e ajudá-los a removê-las.

LEITURIHAS - Que dicas você daria a quem pretende começar a aprender este idioma?
LUIGI - Crie situações para mergulhar no idioma: ver filmes, ouvir músicas, ler jornais, ouvir e ver noticiários etc.

LEITUIRNHAS  -  Além de ser professor de francês e português, você também é escritor. Como você concilia estas funções no dia a dia?
LUIGI - É bem complicado, pois ainda sou pesquisador. Já “perdi” muitos finais de semana e noites em claro para conciliar tudo. Mas acredito que é possível sim, e ainda ter vida social, é só saber se programar, embora, às vezes, quando uma ideia vem com força, ela quase me obriga a parar o que estou fazendo para escrever.

LEITURINHAS  - Enquanto professor e escritor literário, como você avalia os rumos da leitura no Brasil?
LUIGI - Acredito que hoje em dia lemos muito mais do que antigamente, embora pense que hoje em dia se lê mal. A maioria das pessoas prefere uma obra “reconhecível”, de “fácil entendimento” para passar o tempo. Alguns já me disseram que leram mais de duzentos, trezentos livros nos últimos anos. Quando eles me dizem alguns títulos, eu já concluo: o que muda são os nomes dos personagens e o nome do escritor, a história é basicamente a mesma. A maioria não quer desafio, quer coisa fácil.

LEITURINHAS - Em sua opinião, pra quê serve a literatura?
LUIGI - Como fim prático? Para nada! A arte não deve ter um fim utilitário direto, senão não é arte. Mas traz em seu bojo coisas importantes como enriquecer o vocabulário, questionar a sociedade que nos cerca e também, porque não, entretenimento (em doses cuidadosas).

LEITURINHAS - Quais LEITURINHAS da literatura francesa você indicaria aos pequenos e grandes leitores?
LUIGI - A literatura francesa é riquíssima. Há grandes romancistas como Honoré de Balzac, Marcel Proust e Albert Camus. Há também grandes poetas como Verlaine, Rimbaud e Baudelaire. Para quem gosta de HQ’s indico o TinTin, Asterix e Obelix, Os Smurfs (sim, eles são escritos em francês), e o Petit Nicolas (que é uma espécie de menino maluquinho francês). 

UMA MENINA MUITO BONITA PARA ALÉM DO SEU LAÇO DE FITA I

(Por Leny Fernandes Zulim)
(Publicado originalmente em agosto de 2014 em www.leiturinhas.com.br)


Como já dissemos em nosso artigo anterior, vamos passar agora a analisar obras literárias da excelente produção infanto-juvenil publicada no Brasil a partir da década de 70, sugerindo também o encaminhamento que o professor poderá dar após a leitura feita pelos alunos.

Iniciamos com Menina Bonita do laço de fita, uma bela obra com a qual Ana Maria Machado, detentora, entre tantos outros prêmios, do Hans C. Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto, presenteou seu público leitor.

A literatura de Ana apresenta-se como testemunha de sua época, tomando partido pela igualdade e pela paz, postando-se contra a violência e contra todo tipo de preconceito e discriminação, com uma linguagem sempre de alta qualidade estética (Zulim: 2011). Assim, “seus textos são profundamente contra-ideológicos e, portanto, críticos, havendo sempre personagens fortes e astutas que marcam suas posições e defendem seus pontos de vista.” (Turchi, 2004:68). A mesma autora (id.ib.) afirma, ainda:

A vasta produção de Ana Maria Machado para crianças e jovens (...) apresenta temas variados e dirige-se às diferentes fases de desenvolvimento da infância e da juventude, podendo ser lida com prazer também pelos adultos, pelo que oferece de crítica social.” É bom lembrar, contudo, que por diferentes que sejam as tramas que encaminham a narrativa, elas possuem sempre a marca estilística inconfundível da autora: o seu modo democrático e reflexivo se comunica com seus leitores, com um narrador, muitas vezes onisciente, que se torna cúmplice do leitor, caso do livro em análise, (...) ou quando a narração fica sob a responsabilidade de um narrador-personagem, quase sempre uma criança ou jovem, que conta a história a partir de seu ponto de vista, caso de Amigos secretos .

Depois deste curto e abrangente comentário, falemos do livro em pauta, Menina bonita do laço de fita, cuja primeira edição, pela Melhoramentos, veio  a público em 1986.  De forma rápida pode-se dizer que é a história de uma menina, bonita e pretinha, cujos cabelos negros estavam sempre adornados com laços de fita e de um coelho branquinho, de focinho rosa, encantado com a beleza dela. Esse encantamento do coelho fazia com que ele desejasse ter uma filha tão bonita e pretinha quanto ela.  Boa parte da trama se desenvolve com idas e vindas desse coelho até a casa da menina, na tentativa de descobrir qual era o segredo para ela ser assim tão bonita e pretinha. Depois de inúmeras respostas “criadas” pelo bom humor da menina, ele chega à conclusão de que, para ter uma filha pretinha precisaria é  “se casar” com uma coelha também preta. Ele realiza seu sonho. E a menina bonita do laço de fita é chamada para madrinha.

Acontece que a maneira como a autora apresenta os dois personagens já nos adianta algumas coisas: primeiro, a menina pretinha é descrita por metáforas que constroem uma imagem bastante positiva. Assim, os olhos lembram duas azeitonas pretas e brilhantes; os cabelos são enroladinhos como fiapos da noite e a pele escura e lustrosa é como a da pantera negra quando pula na chuva. O mundo da menina é cheio de colorido: os vestidos, os laços de fita, colares e meias, a rede onde ela se balança no colo da mãe. Esse cromatismo revela, por parte da personagem, um alto grau de auto-estima, alegria, bom humor ante a vida. Em síntese, a menina é bem resolvida e feliz.

Em contra partida, o coelho é apresentado em preto e branco e de forma mais direta, o que o faz já de saída sair perdendo em relação à protagonista. Vejamos: ele era branco, de orelha cor-de-rosa, olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando, ponto. Só isso. Para ele nada de metáforas, nada de cores vivas. Apenas o branco e o rosa da orelha. Nesse descompasso da apresentação, a menina já sai vencendo de goleada.
Muito interessante é a forma como o enredo se desenvolve a partir do momento que o coelho branco, completamente seduzido pela beleza da menina pretinha, querendo ter uma filha como ela (bonita e pretinha) decide descobrir-lhe o segredo dessa negritude. Para isso, inúmeras vezes ele vai até ela, sempre perguntando como num mantra:

                 Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo prá ser tão pretinha?

Essa é a estrutura chamada lengalenga, que cativa os pequenos leitores exatamente pela repetição, que logo assimilada os faz participar mais diretamente da história. Porém, essa lengalenga é pretexto para que se evidencie o bom humor e a criatividade da menina, uma vez que as respostas “inventadas” não revelam maldade por parte dela, mas bom humor, espírito brincalhão, criatividade. Senão vejamos: da primeira vez, a menina não sabendo a resposta inventou: caíra na lata de tinta preta quando era pequenina.

Depois de ouvir essa resposta, o coelho se pinta inteirinho de preto, mas a primeira chuva lava a tinta e ele volta a ficar branco. Não desiste, contudo, e retorna à menina com a mesma pergunta. A menina “inventa” mais uma vez: tomara muito café de pequenina. Nem precisa dizer que o coelho tomou muito, mas muito café, e não ficou nada preto. Arranjou foi uma imensa insônia que o fez passar a noite toda acordado, Ingênuo (para muitos alunos que me ouviram contar essa história o coelho era mesmo um grande bobo) o coelho retornou à menina mais uma vez com a mesma pergunta. Desta feita a menina inventou que comera muita jabuticaba. Foi o suficiente para o coelho bobalhão se empanturrar de jabuticaba, mas além de não conseguir ficar preto, ficou foi com uma constipação intestinal fazendo muito cocozinho preto e redondo. Finalmente, quando o coelho retorna com a mesma pergunta e a menina começa a inventar uma desculpa sobre uma tal de  feijoada, a mãe dela (uma bela mulata) toma a dianteira e resolve o problema: artes de uma avó preta que ela tinha.

Aí o coelho, que não era tão bobo assim, pensou que devia ser isso mesmo, porque as pessoas se parecem é com alguém da família. E então decide casar com uma coelha preta que era uma gracinha e assim realiza seu sonho. Encerramos a conversa por hoje (mas voltamos ao assunto no próximo artigo para aprofundar a análise desse livro e comentar como trabalhar com os alunos) afirmando com Figueiredo (2010): “Essa história cria uma situação em que os traços da raça negra são considerados bonitos o que a torna um libelo contra qualquer  tipo de discriminação” Até a próxima.

Leny Fernandes Zulim  lenyfz@ibest.com.br


BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

FIGUEIREDO, Luciana Araujo. A criança negra na literatura brasileira: uma leitura educativa. Dissertação de mestrado. – Dourados, MS: UFGD, 2010.

MACHADO, Ana Maria. Menina Bonita do Laço de Fita. 8. ed. São Paulo: Ática, 2010.
TURCHI, Maria Zaira. As pontes do outro mundo. In: PEREIRA & ANTUNES (orgs.). Trança de histórias: a criação literária de Ana Maria Machado. Assis: Ed. UNESP, Núcleo Editorial Proleitura, 2004.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.


agosto 19, 2014

ARTIGOS E ENTREVISTA - JULHO

KAZUO EM QUADRINHOS
X-MEN E AS ATRAÇÕES FATAIS
Por Alexandre Kazuo
(legenda da imagem: Capa do Volume 1 de X-Men - Atração Fatal)
(Publicado originalmente em julho de 2014 em www.leiturinhas.com.br)


A Panini disponibilizou mais um volume de encadernados dos X-Men, trazendo histórias vistas no começo dos anos 90, este novo intitulado “Atração Fatal”. Desde abril, tivemos dois volumes intitulados “Gênese Mutante” além de toda a saga “Programa de Extermínio”, esta disposta num único volume. São histórias publicadas originalmente nos EUA, entre 1991 e 1993, nos títulos “X-Men” e “The Uncanny X-Men”. Além dos outros titulos do universo “X”, como “X-Force”, “The New Mutants”, “Excalibur” e “X-Factor”.

No Brasil, grande parte destas histórias saíram nos títulos dos mutantes que eram mantidos pela Abril, “X-Men” e “Fabulosos X-Men”. Algumas partes menos relevantes eram excluídas pelos editores da Abril, por falta de espaço em apenas dois títulos nacionais regulares. O novo encadernado “Atração Fatal” mostra o arco de histórias que percorreu os titulos “X” norte-americanos em 1993, ano em que os X-Men, completavam 30 anos de existência.

Todas as equipes “X” estavam envolvidas na trama, cada qual observada em seu título próprio. Na ocasião algumas edições que englobaram a saga “Fatal Atraction” (“atração fatal” literalmente) foram timbradas com hologramas especiais em sua capa. Os mesmos retratavam algum personagem ou vilão. Foi assim nos títulos “X-Men” 25, “The Uncanny X-Men” 304, “X-Factor” 88 e “X-Force” 25.

O primeiro volume de “Atração Fatal” trás histórias originalmente publicadas em “The Uncanny X-Men” e “X-Factor”. Após os eventos vistos no volume 2 do encadernado “Genese Mutante”, Magneto foi dado como morto em combate contra os X-Men no Asteroide M, base do vilão. O asteroide no entanto, chegou à Terra meses depois e aparentemente inabitado.

O professor Xavier é visto num debate midiático acerca da questão da discriminação entre humanos e mutantes. Xavier participa de um programa televisivo com o senador Robert Kelly, que mantem diplomática postura anti-mutante. Os X-Men contracenam com Fabian Cortez lider dos Alcólitos, um grupo de mutantes extremistas que diz seguir os ideais de Magneto. Depois de morto Magneto parece ser cultuado, tal qual um profeta seguido por religiosos fundamentalistas.

Campos de concentração e limpeza étnica

Paralelamente a isso o novo X-Factor, que atua em nome do governo americano é reformulado. A equipe passa a ter Mercúrio, Polaris, Fortão, Lupina e Homem Múltiplo sendo liderada por Destrutor, irmão de Ciclope. O X- Factor é desgnado para lidar com as consequências da trama “Programa de Extemínio”. Na mesma, a ilha fictícia de Genosha foi transformada numa espécie de campo de concentração para mutantes, configurando um tipo de guerra civil entre humanos e mutantes.

Os mutantes capturados eram subjulgados e transformados em “mutoides”, sofrendo lavagem cerebral. Tempestade e Lupina foram alguns dos x-man capturados na ocasião. Após a guerra civil cessada pela intervenção dos X-Men, o governo norte-americano mostra-se presente à reorganização política de Genosha.

O X-Factor vai ao local averiguar como estão sendo tratados os “mutóides” sobreviventes. Uma virose misteriosa e aparentemente sem cura tem acometido alguns deles. A mesma só infecta mutantes. As três primeiras histórias do  X-Factor presentes em neste volume foram escritas por Peter David, que nos anos 90 obtinha grande aceitação com seus roteiros para as histórias do Incrível Hulk.

No começo dos anos 90, as tramas de X-Men ainda se alimentavam de fatos políticos que aconteciam pelo mundo. Era um mundo pós Guerra do Golfo, onde se observava uma intensificação de conflitos de cunho fundamentalista/religioso. Além de guerras civis e limpezas étnicas no leste europeu, as quais eclodiam após o fim da União Soviética. 

O conceito do conflito entre humanos e mutantes podia ser transposto tranquilamente em ficções baseadas nestes eventos. A misteriosa virose que só atinge mutantes era uma metáfora para a expansão dos casos de aids, contabilizados no começo dos anos 90. “Atração Fatal” terá mais um volume a ser publicado pela Panini, onde a tal virose fará mais vítimas. E Wolverine será visto num de seus momentos mais dolorosos, em confronto com Magneto.

Curtas:
- Visando o lançamento do filme dos Guardiões da Galáxia a Panini segue publicando as histórias destes personagens no título “Universo Marvel” que em julho chegou a sua décima edição. A personagem Angela, criada por Neil Gaiman foi introduzida nas tramas dos Guardiões da Galáxia nesta edição. Angela foi criada por Gaiman para as histórias do Spawn, da editora Image.

Após disputa judicial que durou anos, nos EUA, Neil Gaiman que nunca recebeu nada de Todd McFarlane (criador do Spawn) pela criação de Angela, teve os direitos autorais da personagem revertidos para si. Findada a pendenga judicial, Gaiman vendeu a personagem para a Marvel Comics. O filme dos “Guardiões da Galáxia” estreia no Brasil em 31/07.


LÁ VEM CONTO!
DOAÇÃO DE BRINQUEDOS
(por Deusiane de Andrade)
(Publicado originalmente em julho de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

Um dia, minha tia me deu uma linda boneca. Estávamos numa situação complicada, mamãe não trabalhava mais há um tempo porque estava doente, papai estava sem emprego. Foi no dia do meu aniversário. Ninguém tinha dinheiro em casa para fazer uma festa para mim. Antes eu tive algumas festinhas de aniversário em que reunia a família toda, primos, tios, vizinhos. Nesses tempos difíceis em casa, todos se afastaram, ninguém veio nem ao menos me dar parabéns. A não ser essa tia. Ela foi a única que não se afastou de nós, que não nos abandonou. Então, no dia do meu aniversário, voltando da escola, lá estava ela em casa, com um bolinho simples feito por ela mesma, mas que tinha um sabor tão diferente, especial, não sei explicar, parece que tinha uma doçura que vinha de dentro do coração. Papai e mamãe por um momento estavam felizes, há tempos eu não os via tão bem. E assim, depois das velinhas e do bolo que já havia me deixado satisfeita, titia me entregou o presente num embrulho bem bonito, cor de rosa, com uma fita vermelha, cheia de desenhos de ursinhos. E ali estava a boneca, parecida comigo, moreninha, do cabelo encaracolado, com um vestidinho amarelo. Foi o melhor dia da minha vida e o melhor presente que ganhei, porque além de a pessoa que me presenteou ser muito especial para mim, eu estava rodeada de pessoas que me amavam de verdade. Eu não fiquei entristecida com meus pais por não terem podido dar a festa e o presente, porque eu sabia que a gente estava sem dinheiro. Mas eu não tinha a noção do quanto a gente estava com dificuldade financeira. No momento em que fui dormir, ouvi meus pais conversando na sala com minha tia, e eles disseram que estavam sem nada na dispensa, que amanhã não teríamos nada para comer. Titia trouxe depressa do carro uma cesta de alimentos e disse que tinha um emprego para oferecer para minha mãe, na casa da patroa dela. Eu só sei que depois daquele dia tudo mudou: mamãe começou a trabalhar na casa da minha tia, e trabalha até hoje lá; papai ficou um mês desempregado, mas depois conseguiu um emprego numa firma grande e continua trabalhando, agora com seu próprio negócio: marcenaria. E eu me apeguei bastante à boneca, porque um ano depois minha titia faleceu, ela adoeceu muito rápido e não resistiu. Desde que eu ganhei a boneca, eu andava para cima e para baixo com ela, mas depois desse acontecimento, eu nunca mais quis largar dela. Minhas colegas tiravam sarro de mim, queriam estragar minha boneca, mas eu sempre defendia, não deixava ninguém fazer mal a minha boneca. Até que chegou um dia em que mamãe estava ajudando a patroa a organizar uma feira de doação de brinquedos, e ela pediu que eu entregasse, além dos meus brinquedos que eu já não brincava mais com eles, a boneca para doação. Eu fiquei muito brava, não admitia que ela fizesse isso com a boneca que eu ganhei da titia. Vendo minha reação de menina birrenta, mamãe me chamou no canto e explicou: “lembra aquele dia que você ganhou a boneca? Sua tia havia acabado de descobrir que estava com câncer, e que os médicos diziam que ela não tinha muito tempo de vida, e que ela queria poder fazer as últimas boas ações aqui na terra. Dentre as tantas coisas boas que ela fez naqueles dias, uma delas foi devolver o sorriso do seu rosto, coisa que fazia tempo que não acontecia. E aquilo para ela foi a coisa mais importante que ela fez nos seus últimos tempos com a gente. E você lembra quanta dificuldade financeira nós passávamos naquela época né? Agora, imagine quantas crianças passam por dificuldades até piores do que a nossa, e muitas vezes não têm alguém que as possa ajudar, como nós tivemos sua tia? As crianças precisam ao menos de algo que possa lhes devolver o sorriso, a alegria da infância, porém elas não têm dinheiro muitas vezes nem para comer, muito menos para comprar um brinquedo. Você já pensou o quanto sua tia vai ficar feliz no céu quando ela souber que você aprendeu a lição que ela te ensinou? Ela vai ficar muito orgulhosa de você! Ela não vai se chatear de você entregar a boneca que ela te deu para doação, ela saberá que você fez o certo!” Eu não pensei duas vezes: encontrei a criança mais cabisbaixa daquela feira, contei a história da boneca, como eu ganhei e porque eu estava dando a ela, e pedi para que ela cuidasse bem da boneca, porque a boneca trazia sorte, trazia a alegria de volta à família!

VIDEOTECA

OS DIAS DO FUTURO ESQUECIDO DOS X-MEN
(por Alexandre Kazuo)
(Legenda da imagem: Poster de divulgação do filme X-Men Dias de um Futuro Esquecido.)
(Publicado originalmente em julho de 2014 em www.leiturinhas.com.br)



Agora no fim do mês de maio, estreou nos cinemas do Brasil o filme “X-Men – Dias de um Futuro Esquecido”. Trata-se do quinto filme dos X-Men, sétimo envolvendo o personagem Wolverine, o qual teve dois filmes solo. Grande parte dos fãs de quadrinhos se via um tanto quanto pouco esperançosa em 2011, quando a Fox retomou os personagens no bom “X-Men Primeira Classe”. Ali a tentativa foi contar a origem dos X-Men, que não havia sido vista nos três primeiros filmes vistos entre 2000 e 2006.

Era algo de acordo com as HQ’s norte-americanas de 1963, quando os personagens surgiram numa formação que tinha Ciclope, Jean Grey, Homem de Gelo, Fera e Anjo. Ainda que a formação do filme de 2011 excluísse o casal Ciclope e Jean, a trama fora bem colocada. Sugeriu-se um triângulo entre Mística (Jennifer Lawrence), o jovem professor Xavier (James McAvoy) e o jovem Magneto (Michael Fassbender).

Devido ao fato da Marvel estar produzindo diretamente os filmes dos personagens dos Vingadores, através de seu Marvel Studios, os fãs mais radicais ainda tinham ressalvas em relação a fidelidade para com as HQ’s dos filmes dos X-Men. É a produtora Fox quem detém os direitos dos X-Men no cinema, ainda que os mesmos pertençam a editora Marvel Comics.
A expectativa em relação a “X-Men Dias de um Futuro Esquecido” era grande, porque Bryan Singer, diretor dos dois primeiros filmes dos personagens, retornou. E pautou-se por um roteiro da HQ homônima escrita por Chris Claremont e John Byrne em 1981. Até então, uma adaptação quase que direta de uma trama fechada da HQ, não havia sido tentada em filmes anteriores. O novo filme trás algumas mudanças em relação ao papel impresso, sobretudo com Wolverine (Hugh Jackman) recolocado como “personagem-fio condutor” da trama.

A trama do filme

No ano 2023 os robôs Sentinelas tomaram o controle do planeta, subjulgando humanos e mutantes. Os veteranos Xavier e Magneto, interpretados mais uma vez por Patrick Stewert e Sir Ian McKellen, juntos lideram uma resistência. A consciência de Wolverine é mandada para o passado, através de um processo telepático conduzido por Kitty Pride.

Logan desperta em seu corpo em 1973, época em que se passou o filme “X-Men Primeira Classe”. Ele precisa encontrar os jovens Xavier e Magneto (McAvoy e Fassbender, respectivamente) além de convencê-los a impedir o assassinato do doutor Bolivar Trask (Peter Dinklage). Trask já desenvolvia o programa dos robôs Sentinelas, criados para caçar e capturar mutantes, nos anos 70. Se houver êxito o futuro pode ser mudado. Sua morte tornou mais intensa a reação do governo norte-americano em relação a histeria anti-mutante.

O que acabou inesperadamente aprimorado foi o caráter realista de um jovem e desacreditado professor Xavier, que perdia alunos obrigados a servir na Guerra do Vietnã. Jovem, desacreditado, obsessivo e inseguro, sobretudo em relação a Mística (Lawrence) que na hq era uma vilã sem vínculos pessoais com o mestre dos X-Men. Michael Fassbender personificou um Magneto amoral e impetuoso, muito próximo dos melhores momentos do personagem nas HQ’s. Num todo, foi o primeiro filme dos X-Men que encheu os olhos do colunista que vos escreve, que colecionou ininterruptamente as HQ’s brasileiras dos personagens entre 1994 e 1997.

“Dias de um Futuro Esquecido” a  HQ, foi originalmente publicada nos EUA em 1981, nas edições 141 e 142 do título “The Uncanny X-Men”. No Brasil saiu ainda nos anos 80 em títulos da editora Abril e posteriormente também foi relançada pela Panini.

julho 20, 2014

JUNHO - ARTIGOS E ENTREVISTA

ENTREVISTA - ROSA AMANDA STRAUSZ
(Publicada originalmente em junho de 2014 em leiturinhas.com.br)

ROSA AMANDA STRAUSZ já era uma escritora premiada, em 1995, quando começou a escrever para crianças. Seu primeiro livro foi "Mamãe trouxe um lobo pra casa", o segundo foi "A coleção de bruxas de meu pai", ambos editados posteriormente num mesmo volume pela FTD, com os quais ganhou o prêmio de Revelação FNLIJ. Desde então ela já publicou mais de 18 livros para crianças.



DOCE DE LEITURINHAS 
(por Carla Kühlewein)

LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até agora?
ROSA - Desde que me entendo por gente leitora, sou uma devoradora de livros. Quando eu era criança, não me bastava ter um livro, tinha que ser uma coleção inteira: Monteiro Lobato, Laura Ingalls Wilder, Tesouros da Juventude, Delta Junior, Naturama... Sempre misturei textos de ficção com informativos. E trago isso comigo até a vida adulta. Leio de tudo. Tudo mesmo, até porcaria.

LEITURINHAS - O que te levou a ingressar como escritora de Literatura Infantil? Como foi esse processo de “adaptação” da linguagem do universo adulto para o infantil?
ROSA - Não precisei me adaptar porque comecei a escrever para o meu filho. Então, foi muito natural. Não foi exatamente a maternidade, mas as dificuldades que eu tive na criação da minha prole que me conduziram à literatura infantil.
  
LEITURINHAS - Comente um pouco sobre a criação e publicação de seu livro dois em um MAMÃE TROUXE UM LOBO PARA CASA e A COLEÇÃO DE BRUXAS DO MEU PAI.
ROSA - Originalmente, eram dois livros separados. Foram os meus dois primeiros infantis, lançados em 1995. Com eles, ganhei o Prêmio Revelação da FNLIJ daquele ano. Recentemente, troquei o livro de editora e a FTD (atual casa) deu a ideia de fazer um dois-em-um. 
Eu tinha começado a escrever o "Mamãe trouxe um lobo para casa" para meu filho mais velho. Eu pretendia apresentar a ele um namorado - com o qual, aliás, eu vim a me casar - e queria preparar o terreno. Só que eu demorei tanto a escrever o texto que a situação se resolveu por si mesma: meu filho acabou pedindo meu namorado em casamento.

LEITURINHAS - A leitura desses dois livros suscita uma série de reflexões como toda obra literária. Em sua visão, qual o maior LOBO e a maior BRUXA na vida de um adulto?
Não tenho nenhuma dúvida: os piores lobos e as piores bruxas são as que estão dentro de nós.

LEITURINHAS - Comente sobre o sucesso de UM NÓ NA CABEÇA, livro infantil lançado recentemente pela FTD.
ROSA - Este livro também era originalmente da Editora Salamandra e foi reeditado recentemente pela FTD. Tenho um carinho especial por ele. Foi escrito para um primo meu que sofre de esquizofrenia.

LEITURINHAS - Sendo jornalista de formação, em que medida isso a influencia na criação de um texto, quer seja ele adulto ou infantil?
ROSA - Acho que são linguagens muito diferentes. Não sinto que uma influencie a outra. No entanto, acho que a prática do jornalismo me deu mais segurança para escrever.

LEITURINHAS - Você teve um de seus livros UÓLACE E VICTOR (1999) adaptado para a TV, na série CIDADE DOS HOMENS. Como você recebeu a notícia? Chegou a participar ou opinar na criação do roteiro da série?
ROSA - Na verdade, entre o primeiro contato feito pela Regina Casé e a realização da minissérie passaram-se mais de dois anos. Então... fui recebendo a notícia aos poucos. Não participei do roteiro da primeira temporada, mas fiz um roteiro em parceria com o Jorge Furtado e com a Regina Casé para a segunda temporada.
  
LEITURINHAS - Você foi uma das editoras do site infantil DOCE DE LETRA, que está inativo no momento. Há alguma previsão de retomada desse projeto? Há interesse em se dar continuidade ao trabalho que os autores infantis e juvenis efetuavam no site?
ROSA - O Doce de Letra deve ter sido o site de literatura mais longevo da internet. Ele começou em 1997 e terminou dez anos mais tarde. Era um projeto conjunto meu e do meu marido - que era professor de linguagem audiovisual na UFF. Com a morte dele, o site foi encerrado. Mas sempre penso em fazer uma coisa parecida.
  
LEITURINHAS - Quais seus projetos futuros no ramo da literatura infantil? Há mais livros “no forno”? Algum projeto em especial? O que podemos esperar de Rosa Amanda Strausz para 2014?
ROSA - Estou adorando escrever terror. Publiquei "Sete Ossos e uma Maldição" alguns anos atrás e a meninada pediu tanto outro livro que já embarquei na nova aventura.


LITERATURA E ENSINO

(Por Leny Fernandes Zulim)
(Publicado originalmente em junho de 2014 em leiturinhas.com.br)



1-      E depois da história?

 Depois da história é nosso assunto de hoje, mas é preciso explicitar que essa história, na verdade, tem dois sentidos. Em primeiro lugar, vamos falar dos encaminhamentos que daremos à nossa conversa mensal, aqui no Leiturinhas, depois desse tempo de reflexão sobre a história da literatura infantil brasileira. E, em segundo lugar, convém pensar sobre como encaminhar a aula após a leitura de determinada obra literária.

Comecemos, então, a falar sobre nosso assunto para os próximos encontros. Este espaço no site, será ocupado de agora por alguns encontros mais, por análises e discussões de  obras da sólida literatura infantil brasileira, com vistas a contribuir para com o trabalho do professor  do Ensino Fundamental. Afinal, é sabido e afirmado por inúmeros autores (entre eles Turchi, Colasanti, Castro, Ioschpe) que embora tenhamos uma boa bibliografia em termos teóricos, que reflete e explica a literatura infanto, esses estudos ainda ficam restritos ao intramuros das universidades, passando ao largo de quem atua na formação do leitor e que deles necessitam: os professores, a escola de Ensino Fundamental. E pior, material bibliográfico que auxilie o professor em termos de práticas com o livro literário é bem mais raro ainda. Sobre isso é oportuno lembrar o que afirma Turchi (2006:32): “A crítica da literatura infantil e juvenil (...) não pode ficar fechada nos espaços acadêmicos, precisa ocupar espaços mais amplos de comunicação, deve chegar às escolas e a todos os espaços onde a formação do leitor acontece.” É ainda Turchi (id. ib.) que encerra o assunto afirmando: “A crítica de literatura infantil e juvenil precisa responder com eficiência às questões teóricas da ciência e, ao mesmo tempo, alcançar uma prática capaz de contribuir efetivamente na formação de leitores.”

 Logo, concordando que professores e escolas do Ensino Fundamental não encontram facilmente trabalhos que discutam a prática com a leitura literária, buscaremos oferecer, neste espaço, que discute a literatura e o ensino, práticas voltadas para determinadas obras da literatura infanto, na perspectiva da metodologia da integração dos saberes (Zulim: 2011), além de outras. Cremos que assim poderemos auxiliar mediadores de leitura de forma mais concreta. Porque é de extrema importância que a escola repense suas ações de leitura uma vez que crianças e  jovens estão entrando na vida adulta sem saber ler e sem gostar de ler. As exceções vêm confirmar a regra. E como a população de nosso país é formada por uma maioria de indivíduos carentes, que não trazem de casa uma cultura da leitura, a tarefa de formar crianças e jovens leitores é conferida à escola, cuja responsabilidade histórica aumenta (CURIA: 2014).

É sempre oportuno lembrar aqui que o ato de ler não é exclusividade da aula e do professor de Língua Portuguesa e Literatura. Este é um compromisso de todo mediador de leitura, vale dizer professores, bibliotecários, pais, mas a verdade é que cabe ao professor de língua e literatura maior responsabilidade no abrir caminhos para o literário. Claro que todos os educadores precisam entender a leitura como primordial na formação de cada pessoa, mas o professor que tem como objeto de estudo e ensino a língua - o professor de Português - este precisa ser um leitor apaixonado (CURIA: id. ib).   Isso porque já é ponto vencido que a leitura literária, a ficção, a linguagem poética e a linguagem cênica tornam a pessoa mais humana (o que significa dizer mais capaz de reflexão, mais generosa e com mais capacidade de expressão) como afirma Candido (1972) em ensaio já clássico, possibilitando também ao indivíduo maiores condições de conhecer a si mesmo, ao outro e ao mundo.

Para embaralhar ainda mais esse meio de campo, é preciso dizer aqui que conquanto seja importantíssimo adentrar os caminhos da leitura com os alunos; conquanto seja indispensável que os professores (e demais medidores de leitura) sejam bons leitores e os professores de língua e literatura sejam apaixonados por ela em geral e pela literária em particular, a verdade é que o modus operandi  com o qual se tem trabalhado o texto literário ao longo de anos de escolarização, não tem contribuído, em sua grande totalidade,  para que crianças e adolescentes se tornem bons leitores.

 2-      E aí, o que fazer?
  
Parece que não se discute mais a necessidade de mudança, e a verdade é que existem projetos (lamentável que estes não estejam disseminados por todo o país) que vêm colhendo bons resultados no objetivo de formar leitores.

Um olhar rápido sobre a situação da leitura entre crianças e jovens nos permite observar:

  • Crianças e adolescentes oriundos de famílias pobres e /ou com baixa escolaridade normalmente não crescem tendo um ambiente propício à leitura ao seu redor. Por isso o que afirmamos anteriormente: eles têm na escola a única oportunidade para adentrar a esse mundo;
  • Nem sempre a escola e seus mediadores de leitura desenvolvem um trabalho consistente, disseminando o hábito de ler, utilizando-se de metodologia capaz de atrair o alunado;
  • Por vezes o próprio professor não gosta de ler e isso afeta a conquista desse contingente de crianças e jovens para a leitura. Um professor que instigue seus alunos, comentando livros lidos, lendo para seus alunos, com práticas abertas ao novo, tem muito mais chance que outro que passe ao largo de bons livros (Zulim: 2011);
  • Contra essa realidade de não leitura de crianças e jovens, existe uma sólida e premiada literatura infanto-juvenil brasileira (assunto de artigos anteriores nesse espaço), que na maioria das vezes não chega ao conhecimento da escola e dos alunos pelos mais diversos motivos;
  • Em contrapartida, como explicar o fenômeno Harry Potter, a saga de Crepúsculo? E mais recentemente todos os livros de John Green, com destaque para A culpa é das estrelas, primeiro lugar na lista da categoria jovem adulto, do New York Times? No Brasil, o título está em primeiro lugar na lista de Veja, que apresenta ainda, do mesmo autor Quem é você Alasca, em quinto lugar, Cidades de papel, em oitavo lugar, e O teorema Katherine em nono lugar.
  • Tamanho sucesso levou a revista Veja, em sua edição 2373, de 14 de maio do ano corrente, a trazer uma reportagem de capa sobre o autor, colhendo depoimento de seus leitores brasileiros, tentando explicar esse fenômeno que já arrebanhou quase dois milhões de livros vendidos;
  • Quanto à saga Harry Potter, parece-me fácil explicar as razões do estrondoso sucesso: primeiro sua autora é craque, sabe contar uma história que envolve o leitor, lembrando a faixa etária a que se destina ainda gosta muito do mágico, que ela usa sem medo; segundo, ela e seus editores são craques na arte da propaganda e da divulgação. É só lembrar que em épocas de lançamento de um novo livro da série a autora não dava um passo sem que a imprensa noticiasse. Isso explica, ainda que não de forma completa, a razão do sucesso;
  • Quanto aos livros de Green, valho-me dos motivos elencados pela revista Veja, citada na bibliografia: o autor é o representante literário da geração que se comunica por celular e por redes sociais; a capacidade do autor em utilizar, e bem, todos os meios digitais (diga-se: produz vídeos para o YouTube, com os quais se comunica com os jovens; o blog em que dialoga com o irmão e com seus leitores)  sua sensibilidade literária o leva a criar heróis que guardam semelhança com o adolescente comum tais como as rejeições, os sofrimentos pela decepção amorosa etc.., o que encanta seus leitores.Vejamos o que diz a jovem Carolina Azevedo (11 anos), do Rio de Janeiro, em depoimento à revista Veja, já citada: “Ele escreve o que passa pela nossa cabeça e coloca de um jeito bonito.Seus personagens são uma inspiração para fazermos as coisas”. Por sua vez, Mateus Lima (17 anos) de Fortaleza, também da reportagem de Veja citada, resume: “Eu gostava da forma como Green e o irmão falavam um com o outro no blog, como se conversassem comigo (...) Ele  lida com assuntos comuns sem cair no óbvio”

A garotada está lendo. Isso é o mais importante. Dessas leituras certamente os leitores irão para outras, o que faz instalar o chamado circuito do livro. Ou seja, uma leitura leva a outra e a outros. Explica-se: crianças e adolescentes recebem influência de amigos do grupo a que pertencem. Se um colega fala sobre um livro, se mostra envolvido, certamente despertará a curiosidade nos demais que acabam lendo-o e querendo mais. Pronto: o caminho da leitura passa por aí, com certeza.

O que me proponho, por minha vez é trabalhar com a literatura infanto brasileira e com mediadores de leitura, com a esperança de que os professores sejam também leitores e possam seguir construindo o caminho para que seus alunos o percorram e tornem-se viciados nesse ato. Por hoje encerramos. Até nosso próximo encontro.

  
BIBLIOGRAFIA:

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In: Ciência e Cultura, São Paulo, 24 (9), 1972.



CURIA, Denise Fonseca dos Santos. A Literatura Infanto-juvenil na Contemporaneidade: um outro olhar para o literário em sala de aula. In: Revista Thema, <www.dialogarts.uerj.br/arquivos/a_literatura_infantil_e_juvenil_hoje>. Acesso em: 20 maio 2014.

TEIXEIRA, Jerônimo. A voz da geração conectada. In: Revista Veja, edição 2373,  São Paulo: Abril, 2014..

TURCHI, Maria Zaíra. Espaços da crítica da literatura infantil e juvenil. In: TURCHI & SILVA (orgs.).  Leitor formado, leitor em formação: leitura literária em questão. Assis: Cultura acadêmica, 2006.



ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala-de-aula. Londrina: Amplexo, 2011.
  

KAZUO EM QUADRINHOS

A VELHA NOVA GÊNESE DOS X-MEN (parte II)
Por Alexandre Kazuo
(legenda da imagem: Capa de X-Men - Gênese Mutante, volume, 2, da Editora Panini)
(Publicado originalmente em junho de 2014 em leiturinhas.com.br)



No mês de maio a Panini disponibilizou o volume 1 do encadernado “Gênese Mutante”, o qual compila histórias dos X-Men ilustradas por Jim Lee e roteirizadas por Chris Claremont. Agora em junho a editora disponibilizou o volume 2 de “Gênese Mutante”. A principal história do segundo volume do relançamento proposto pela Panini foi trazido pela primeira vez no Brasil, pela editora Abril, na metade dos anos 90, em lançamento luxuoso em 3 edições.

Tratam-se das três primeiras edições do título regular “X-Men” norte-americano, que sairia a partir de 1991, paralelamente ao antigo título “The Uncanny X-Men” editado pela Marvel Comics desde 1963. Nos EUA o número 1 de “X-Men” vendeu cerca de 3 milhões de cópias e entrou para o Guiness Book como hq mais vendida de todos os tempos. O título passou por mudanças na primeira década dos anos 2000 e foi rebatizado como “X-Men: Legacy”, tendo ultrapassado duzentas edições.

De encontro a Magneto

A trama vista em “Gênese Mutante” volume 2, culminará numa nova divisão na equipe dos mutantes liderados pelo Professor Xavier. Primeiro observamos a conclusão da aventura no espaço, vista no volume 1 de “Gênese Mutante”, onde os X-Men reencontram o Professor Xavier junto a Lilandra, a imperatriz Shiar. Após isso a equipe X-Factor, que era integrada pelos X-Men originais (Ciclope, Jean Grey, Fera, Homem de Gelo e Arcanjo) foi reunificada a uma equipe de X-Men que já era volumosa. 

Xavier então cria as equipes azul e dourada. A azul, mais agressiva, era liderada por Ciclope contando com Wolverine, Vampira, Fera, Jubileu, Gambit e Psylocke. A equipe dourada, utilizada em missões mais estratégicas, era liderada por Tempestade e tinha Colossus, Jean Grey, Arcanjo, Forge, Banshee e Homem de Gelo. A divisão se dá antes dos X-Men se dirigirem em busca do vilão Magneto em sua base, no misterioso asteróide M que gravita próximo a Terra. O roteiro à época, foi apresentado enquanto o último escrito pelo aclamado Chris Claremont para os títulos X-Men, após um periodo a frente das histórias dos mutantes que durou de 1976 a 1991.

O passado de Wolverine

O volume também traz uma boa história originalmente vista no Brasil no título “X-Men Anual” número 2 (Ed. Abril/1995). A mesma, dividida entre três roteiristas (o lendário John Byrne, Scott Lobdell e o próprio Lee), mostra o despertar do vilão Omega Vermelho. De origem russa, o Omega Vermelho era um projeto soviético da época da guerra fria, o qual intencionava rivalizar com o Capitão América norte-americano.

A constituição do Omega ficou incompleta e o mesmo lutou com Wolverine, quando o personagem trabalhava como agente secreto do governo do Canadá, em missões na extinta União Soviética. Isso antes de Xavier recrutá-lo para os X-Men. O intento do Omega Vermelho é capturar Wolverine para obter dados acerca de uma operação em que Logan atuou na Alemanha, no período em que o país se dividia em Ocidental e Oriental (comunista). Logan pode ter se deparado com a cientísta que desenvolveu um projeto, o qual pode finalizar a constituição do vilão russo.

O problema é ter a certeza de que Logan se recorda dos eventos, uma vez que o governo canadense realizava lavagens cerebrais em seus agentes, para que segredos não fossem revelados. Omega Vermelho tem poderes absurdos (e pouco verossímeis) como os tentáculos de carbonádio, material mais resistênte que o adamantium dos ossos de Wolverine. Além do “fator de morte” onde os feromônios exalados pelo seu metabolismo afeta os seres vivos ao redor.

A história em que se vê o confronto com Magneto e a aparição do Omega Vermelho, compreendem as sete primeiras edições do título “X-Men” norte-americano. O material presente em “Gênese Mutante” passou por um processo de re-coloração feito especialmente para o encadernado.

Este volume 2 de “Gênese Mutante” ainda trás uma história da Tempestade publicada no título americano “X-Men Classic” número 59, a primeira ilustrada por um ainda jovem Jim Lee. Ao fim há uma ótima galeria de ilustrações incluindo vistosos pin ups das heroínas que integram os X-Men. Era a época em que as heroínas passaram ter trajes e visual sexy. Definitivamente, deixando de ser donzelas inocentes que deveriam ser salvas pelos super-heróis.

Curtas:

- Ainda sobre X-Men, a Panini já disponibilizou o volume encadernado que compreende a saga “Programa de Extemínio”, originalmente publicada no Brasil no título regular “X-Men” brasileiro, ainda em formatinho pela Abril, nos anos 90. No Brasil a Abril mantinha o título “X-Men” desde o fim dos anos 80 e o título “Fabulosos X-Men”, que passou a ser editado na metade dos anos 90, em formato americano. A trama vista no encadernado “Programa de Extermínio” se vê integrada ao arco de histórias visto em “Gênese Mutante” volume 1.

- Pouco conhecidos do grande público, os Guardiões da Galáxia são antigos personagens da Marvel, que serão vistos num filme homônimo em agosto. Histórias dos guardiões estão saindo no Brasil agora, no título “Universo Marvel” da Panini, que já está na nona edição. O super grupo é um time de anti-heróis e desajustados intergaláticos, onde o lado bem humorado deve sobressair. A raposa Rocket Racoon, que no Brasil foi rebatizada Rocky Racoon, deve se tornar popular entre as crianças.

LÁ VEM CONTO!

COPA DO MUNDO NO BRASIL
(por Deusiane de Andrade)
(Publicado originalmente em junho de 2014 em leiturinhas.com.br)


Pai, eu ouvi falar que tem algumas pessoas que vão atrapalhar a abertura da copa do mundo no nosso país, e fiquei muito chateado com isso. É a primeira copa no Brasil que vou ver, então não queria que nada desse errado. Aí, fui falar com minha professora, e ela me disse assim: “Lembra que não tivemos aulas esses dias que passaram por causa da greve dos professores?”. “Sim, eu me lembro, mas não entendi direito por que era que vocês pararam de dar aula pra gente.” “Então vou lhe explicar: infelizmente, algumas vezes temos que bater de frente com nossos patrões quando alguma condição de trabalho não está adequada para os trabalhadores, e a isso dá-se o nome de greve, que em outras palavras seria causar algum impacto nos chefes para que melhorem a questão reivindicada pelos operários. No nosso caso, lutamos por reajuste salarial, pois há muitos anos nosso salário é o mínimo do mínimo, sendo que nossa profissão deveria ser mais bem reconhecida por todo nosso esforço para fortalecer a educação dos cidadãos brasileiros”. E a professora fez uma série de contas explicando como ela fazia para sustentar a família com tão pouco dinheiro. Fiquei impressionado, é muito complicado se manter, ela faz milagre mesmo. E ela continuou contando várias situações que indignam os brasileiros com o Governo, e que por isso, da mesma forma que os trabalhadores param de trabalhar para causar impacto nos patrões, a forma que encontraram diante de tantos problemas que nosso país apresenta é mostrar a revolta do povo brasileiro aos povos de outros países. “Podem chamar isso de vergonha nacional, eu chamo de cidadania, pessoas reivindicando seus direitos e exercendo seus deveres.” Mas sabe, pai, não entendo o que a copa tem a ver com isso, eu concordo com ela, mas ainda estou confuso.
“Escuta filho, vou te explicar uma coisa: primeiramente, as pessoas têm direito de expressar suas opiniões, somos um país com liberdade de expressão, justamente porque muitas pessoas lutaram por isso, muitas morreram inclusive. Então, reivindicar e lutar por uma causa não é errado, pelo contrário, é dever de todos cobrar do Estado a parte que lhe cabe do que foi prometido a nós e deve ser cumprida. Só que existe uma outra parte que é responsabilidade nossa. Lembra que a cada dois anos eu te levo junto comigo num dia domingo na sua escola e você não entendia por quê? Nós vamos lá para eleger nossos governantes da nossa cidade, estado e país, e muitos vão sem entender nem ao menos por que votaram em tal fulano, ou por que receberam favores pessoais em troca do voto. É claro que, muitas vezes, nem todos aqueles em quem votamos são os que realmente ganham as eleições, porém ao menos é preciso ter a consciência tranquila quanto a quem escolhemos como candidato. E depois de eleito, acompanhar o que esse candidato tem feito de bom e de ruim enquanto governante, entende? Para que haja fiscalização e cobrança, e assim ocorrem as melhorias. Quanto à Copa, é bem como sua professora disse, as pessoas escolhem os meios que mais causam impacto para um governante ou chefe, e imagine a vergonha do Governo diante de tantas pessoas de outros países? É uma ideia inteligente, admito, e concordo. Mas, como eu sei que você gosta de futebol, não acho errado você torcer pela seleção, desde que você nunca se esqueça das coisas que eu e sua professora falamos, de que não basta apenas festejar a copa enquanto o país todo sofre injustiça e desigualdade social. Espero que você tenha entendido bem esse recado!


OS MALEFÍCIOS DE MALÉVOLA
Por Carla Kühlewein
(Legenda da imagem: cartaz de divulgação)
(Publicado originalmente em junho de 2014 em leiturinhas.com.br)



A estreia do novo filme da Disney tem levado curiosos e fãs de contos de fadas (ou de Angelina Jolie) ao cinema. A produção baseada no conto A BELA ADORMECIDA, segue uma vertente parecida com a do seriado ONCE UPONA TIME, já mencionado nessa coluna anteriormente, pois busca apresentar uma origem para o caráter de personagens clássicas, gerando uma RELEITURINHA, nesse caso, maléfica.
                O filme tem roteiro escrito por Linda Woolverton, que é funcionária antiga da equipe da Disney Pictures, pois assinou produções como O REI LEÃO e a remake de ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (sob a direção excêntrica de Tim Burton). O "parentesco" com a produção nebulosa de Burton talvez ajude a explicar as vestes extravagantes que Malévola passa a usar assim que passa de fada a bruxa da história.
                Afora os efeitos especiais em grande escala e os lábios rubros polpudos de Malévola, o que também chama a atenção na estética do filme é a composição desta personagem: com asas e chifres, uma metáfora da velha dicotomia bem/mal conjugadas num mesmo ser. Aliás, esse é o mote do filme, que eleva à décima potência a eterna luta entre o bem e o mal, numa tentativa de inserir, timidamente, a ideia de que a natureza humana traz conjugadas essas duas essências, reforçando o clichê 'ninguém é tão bom que não possa ser ruim e vice-versa'.
                No mais, o roteiro segue basicamente o enredo dos clássicos contos de fada: parte de uma situação inicial conflituosa, caminha para sua complicação, atinge o ápice dos problemas e ao final tem o conflito central resolvido, como num passe de mágica. Porém, a RELEITURINHA de Woolverton traz algumas rupturas que valem ser destacadas, ainda que fiquem ofuscadas pelo brilho dos efeitos visuais.
                Há dois momentos significativos no filme de ruptura com padrões estéticos da literatura clássica de encantamento: 1) no filme há oscilação da protagonista entre vilã e heroína, já no conto clássico a personagem se mantém boa ou má do início ao fim; 2) no filme a oportunidade de a coadjuvante, Aurora, tomar parte na resolução dos problemas, já no conto clássico essa tarefa é exclusiva do personagem central, ou seja, cabe somente a ele o ato heroico.
                Essa versão maximizada de A BELA ADORMECIDA apresenta uma Malévola que sofre dos malefícios da humanidade com a mesma força que os promove. Para o bem ou para o mal, a RELEITURINHA da Disney colabora com o reavivamento de um conto de fadas que parecia estar perdido para sempre no sono eterno...
                E que venha a Cinderela e seu sapatinho encantado!

Boa RELEITURINHAS!