ENTREVISTA - LUIGI
(Publicada originalmente em agosto de 2014 em www.leituruinhas.com.br)
LUIGI RICCIARDI, nome literário de Luís Cláudio Ferreira Silva, nascido em Londrina/PR em 1982 e radicado em Maringá/PR desde o final dos anos oitenta. É formado no curso de Letras e tem mestrado em Literatura na Universidade Estadual de Maringá. Atua no norte do Paraná como professor de língua francesa, literatura e gramática. É idealizador do projeto Mutirão Artístico e da revista literária Pluriversos. Em 2011, publicou seu primeiro livro de contos, intitulado Anacronismo Moderno pela Scortecci. Em 2014, teve o seu segundo livro de contos, Notícias do Submundo, publicado pela editora Multifoco. O seu romance Aquilo que não Cabe, ainda inédito, esteve entre os finalistas do Prêmio SESC de Literatura 2013/2014. Contato: luisliteratura@hotmail.com e (44) 99451590.
LEITURINHAS À FRANCESA
(por Carla Kühlewein)
LEITURINHAS - Comente um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância até hoje.
LUIGI - Desde muito cedo me interessei pelas palavras. Meus pais contam que, aos três anos de idade, eu conseguia identificar os logotipos inscritos nos outdoors. Meu processo de alfabetização é anterior à escolarização. Um pouco mais tarde, comecei e me interessar por histórias em quadrinhos por conta do meu pai, que vivia sempre lendo na sala seus livrinhos de bang-bang. Eu fabulava já nessa idade, tentando contar histórias oralmente. Eu vivia de ouvido colado nos adultos para ouvir todas as histórias que eles contavam de quando eram crianças e jovens. Eu não poderia ser outra coisa senão escritor.
LEITURINHAS - Como surgiu o interesse em estudar e dar aula de francês?
LUIGI - Foi por acaso. Eu já havia abandonado um curso superior, e queria qualquer diploma como um plano B para minha vida. Escolhi o curso de letras pela afinidade com a literatura, francês foi só um detalhe, eu mudaria no ano seguinte para o inglês. Eu me apaixonei na primeira aula e nunca mais larguei a língua francesa, e espero que isso nunca aconteça.
LEITURINHAS - Quais os maiores desafios para quem pretende ensinar um idioma estrangeiro para um falante nativo da língua portuguesa?
LUIGI - Primeiramente eu defendo a ideia de que para ser professor, você precisa sim passar por uma formação. Talento pode até vir de berço, mas entender toda a estrutura educacional é essencial para dar aulas. Por isso não concordo quando ouço alguém dizendo que viveu dois ou três anos no exterior e de repente decide “tirar uma grana extra” dando aulas de língua estrangeira. Esse é o primeiro desafio, enfrentar o preconceito, pois todos acham que é super simples dar aula de língua estrangeira. Outro problema é a vivência na língua. Ter fluência em uma língua estrangeira sem morar no país é complicado. Você precisa criar situações para ter contato com a língua o máximo possível. Mas temos uma vantagem: eu, brasileiro, sei dos possíveis percalços no caminho da aprendizagem de um brasileiro, pois também passei por esse processo. Posso prever essas pedras e ajudá-los a removê-las.
LEITURIHAS - Que dicas você daria a quem pretende começar a aprender este idioma?
LUIGI - Crie situações para mergulhar no idioma: ver filmes, ouvir músicas, ler jornais, ouvir e ver noticiários etc.
LEITUIRNHAS - Além de ser professor de francês e português, você também é escritor. Como você concilia estas funções no dia a dia?
LUIGI - É bem complicado, pois ainda sou pesquisador. Já “perdi” muitos finais de semana e noites em claro para conciliar tudo. Mas acredito que é possível sim, e ainda ter vida social, é só saber se programar, embora, às vezes, quando uma ideia vem com força, ela quase me obriga a parar o que estou fazendo para escrever.
LEITURINHAS - Enquanto professor e escritor literário, como você avalia os rumos da leitura no Brasil?
LUIGI - Acredito que hoje em dia lemos muito mais do que antigamente, embora pense que hoje em dia se lê mal. A maioria das pessoas prefere uma obra “reconhecível”, de “fácil entendimento” para passar o tempo. Alguns já me disseram que leram mais de duzentos, trezentos livros nos últimos anos. Quando eles me dizem alguns títulos, eu já concluo: o que muda são os nomes dos personagens e o nome do escritor, a história é basicamente a mesma. A maioria não quer desafio, quer coisa fácil.
LEITURINHAS - Em sua opinião, pra quê serve a literatura?
LUIGI - Como fim prático? Para nada! A arte não deve ter um fim utilitário direto, senão não é arte. Mas traz em seu bojo coisas importantes como enriquecer o vocabulário, questionar a sociedade que nos cerca e também, porque não, entretenimento (em doses cuidadosas).
LEITURINHAS - Quais LEITURINHAS da literatura francesa você indicaria aos pequenos e grandes leitores?
LUIGI - A literatura francesa é riquíssima. Há grandes romancistas como Honoré de Balzac, Marcel Proust e Albert Camus. Há também grandes poetas como Verlaine, Rimbaud e Baudelaire. Para quem gosta de HQ’s indico o TinTin, Asterix e Obelix, Os Smurfs (sim, eles são escritos em francês), e o Petit Nicolas (que é uma espécie de menino maluquinho francês).
UMA MENINA MUITO BONITA PARA ALÉM DO SEU LAÇO DE FITA I
(Por Leny Fernandes Zulim)
(Publicado originalmente em agosto de 2014 em www.leiturinhas.com.br)
Como já dissemos em nosso artigo anterior, vamos passar agora a analisar obras literárias da excelente produção infanto-juvenil publicada no Brasil a partir da década de 70, sugerindo também o encaminhamento que o professor poderá dar após a leitura feita pelos alunos.
Iniciamos com Menina Bonita do laço de fita, uma bela obra com a qual Ana Maria Machado, detentora, entre tantos outros prêmios, do Hans C. Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto, presenteou seu público leitor.
A literatura de Ana apresenta-se como testemunha de sua época, tomando partido pela igualdade e pela paz, postando-se contra a violência e contra todo tipo de preconceito e discriminação, com uma linguagem sempre de alta qualidade estética (Zulim: 2011). Assim, “seus textos são profundamente contra-ideológicos e, portanto, críticos, havendo sempre personagens fortes e astutas que marcam suas posições e defendem seus pontos de vista.” (Turchi, 2004:68). A mesma autora (id.ib.) afirma, ainda:
“A vasta produção de Ana Maria Machado para crianças e jovens (...) apresenta temas variados e dirige-se às diferentes fases de desenvolvimento da infância e da juventude, podendo ser lida com prazer também pelos adultos, pelo que oferece de crítica social.” É bom lembrar, contudo, que por diferentes que sejam as tramas que encaminham a narrativa, elas possuem sempre a marca estilística inconfundível da autora: o seu modo democrático e reflexivo se comunica com seus leitores, com um narrador, muitas vezes onisciente, que se torna cúmplice do leitor, caso do livro em análise, (...) ou quando a narração fica sob a responsabilidade de um narrador-personagem, quase sempre uma criança ou jovem, que conta a história a partir de seu ponto de vista, caso de Amigos secretos .
Depois deste curto e abrangente comentário, falemos do livro em pauta, Menina bonita do laço de fita, cuja primeira edição, pela Melhoramentos, veio a público em 1986. De forma rápida pode-se dizer que é a história de uma menina, bonita e pretinha, cujos cabelos negros estavam sempre adornados com laços de fita e de um coelho branquinho, de focinho rosa, encantado com a beleza dela. Esse encantamento do coelho fazia com que ele desejasse ter uma filha tão bonita e pretinha quanto ela. Boa parte da trama se desenvolve com idas e vindas desse coelho até a casa da menina, na tentativa de descobrir qual era o segredo para ela ser assim tão bonita e pretinha. Depois de inúmeras respostas “criadas” pelo bom humor da menina, ele chega à conclusão de que, para ter uma filha pretinha precisaria é “se casar” com uma coelha também preta. Ele realiza seu sonho. E a menina bonita do laço de fita é chamada para madrinha.
Acontece que a maneira como a autora apresenta os dois personagens já nos adianta algumas coisas: primeiro, a menina pretinha é descrita por metáforas que constroem uma imagem bastante positiva. Assim, os olhos lembram duas azeitonas pretas e brilhantes; os cabelos são enroladinhos como fiapos da noite e a pele escura e lustrosa é como a da pantera negra quando pula na chuva. O mundo da menina é cheio de colorido: os vestidos, os laços de fita, colares e meias, a rede onde ela se balança no colo da mãe. Esse cromatismo revela, por parte da personagem, um alto grau de auto-estima, alegria, bom humor ante a vida. Em síntese, a menina é bem resolvida e feliz.
Em contra partida, o coelho é apresentado em preto e branco e de forma mais direta, o que o faz já de saída sair perdendo em relação à protagonista. Vejamos: ele era branco, de orelha cor-de-rosa, olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando, ponto. Só isso. Para ele nada de metáforas, nada de cores vivas. Apenas o branco e o rosa da orelha. Nesse descompasso da apresentação, a menina já sai vencendo de goleada.
Muito interessante é a forma como o enredo se desenvolve a partir do momento que o coelho branco, completamente seduzido pela beleza da menina pretinha, querendo ter uma filha como ela (bonita e pretinha) decide descobrir-lhe o segredo dessa negritude. Para isso, inúmeras vezes ele vai até ela, sempre perguntando como num mantra:
Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo prá ser tão pretinha?
Essa é a estrutura chamada lengalenga, que cativa os pequenos leitores exatamente pela repetição, que logo assimilada os faz participar mais diretamente da história. Porém, essa lengalenga é pretexto para que se evidencie o bom humor e a criatividade da menina, uma vez que as respostas “inventadas” não revelam maldade por parte dela, mas bom humor, espírito brincalhão, criatividade. Senão vejamos: da primeira vez, a menina não sabendo a resposta inventou: caíra na lata de tinta preta quando era pequenina.
Depois de ouvir essa resposta, o coelho se pinta inteirinho de preto, mas a primeira chuva lava a tinta e ele volta a ficar branco. Não desiste, contudo, e retorna à menina com a mesma pergunta. A menina “inventa” mais uma vez: tomara muito café de pequenina. Nem precisa dizer que o coelho tomou muito, mas muito café, e não ficou nada preto. Arranjou foi uma imensa insônia que o fez passar a noite toda acordado, Ingênuo (para muitos alunos que me ouviram contar essa história o coelho era mesmo um grande bobo) o coelho retornou à menina mais uma vez com a mesma pergunta. Desta feita a menina inventou que comera muita jabuticaba. Foi o suficiente para o coelho bobalhão se empanturrar de jabuticaba, mas além de não conseguir ficar preto, ficou foi com uma constipação intestinal fazendo muito cocozinho preto e redondo. Finalmente, quando o coelho retorna com a mesma pergunta e a menina começa a inventar uma desculpa sobre uma tal de feijoada, a mãe dela (uma bela mulata) toma a dianteira e resolve o problema: artes de uma avó preta que ela tinha.
Aí o coelho, que não era tão bobo assim, pensou que devia ser isso mesmo, porque as pessoas se parecem é com alguém da família. E então decide casar com uma coelha preta que era uma gracinha e assim realiza seu sonho. Encerramos a conversa por hoje (mas voltamos ao assunto no próximo artigo para aprofundar a análise desse livro e comentar como trabalhar com os alunos) afirmando com Figueiredo (2010): “Essa história cria uma situação em que os traços da raça negra são considerados bonitos o que a torna um libelo contra qualquer tipo de discriminação” Até a próxima.
Leny Fernandes Zulim lenyfz@ibest.com.br
BIBLIOGRAFIA UTILIZADA
FIGUEIREDO, Luciana Araujo. A criança negra na literatura brasileira: uma leitura educativa. Dissertação de mestrado. – Dourados, MS: UFGD, 2010.
MACHADO, Ana Maria. Menina Bonita do Laço de Fita. 8. ed. São Paulo: Ática, 2010.
TURCHI, Maria Zaira. As pontes do outro mundo. In: PEREIRA & ANTUNES (orgs.). Trança de histórias: a criação literária de Ana Maria Machado. Assis: Ed. UNESP, Núcleo Editorial Proleitura, 2004.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.




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