ENTREVISTA - CRISTIANO REFOSCO
(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)
CRISTIANO REFOSCO nasceu em Santa Maria-RS, é fisioterapeuta e trabalha há 13 anos com crianças com deficiência. A coleção "Era uma vez um Conto de Fadas inclusivo" é sua primeira experiência literária de autor. Apesar de não ser ilustrador, ele optou por desenhar as suas histórias e mostrar o seu olhar sobre o universo das crianças com deficiência.INCLUSÃO NAS LEITURINHAS
INCLUSÃO NAS LEITURINHAS
“Escrever é um vício, não dá pra parar”
(Cristiano Refosco)
LEITURINHAS – Como a fisioterapia pode auxiliar a criança com deficiência, anteriormente chamada de “especial”, nas suas mais variadas limitações, como o cego ou o autista, por exemplo?
CRISTIANO – O termo “criança especial” está em desuso, visto que fomenta o preconceito. Todas as crianças são especiais, tendo elas deficiência ou não. O termo correto é “criança com deficiência”. Desde 2006 que se convencionou não usar mais termos como “crianças especiais” (e sim “crianças com deficiência”) e “portadores de necessidades especiais” (mas sim “pessoas com deficiência” ou “pessoas com necessidade especial”) isso porque ninguém “porta” uma deficiência, mas sim a possui.
A fisioterapia pode ajudar crianças com autismo ou cegas principalmente favorecendo a aquisição de etapas do desenvolvimento neuropsicomotor que estejam incompletas, ou ainda, estimulando aspectos sensoriais. Já tive pacientes cegos que possuíam um atraso no desenvolvimento motor em função de não enxergarem. Através do estímulo de outros sentidos (tato, audição) e da organização do esquema corporal pode-se conseguir ótimos resultados.
LEITURINHAS – Conte um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS da infância até o presente momento.
CRISTIANO – Na infância, li muito Monteiro Lobato. Pegava os livros na biblioteca da escola e me deliciava. Mais tarde, veio “meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcellos. Série Vaga-Lume e clássicos da literatura brasileira vieram logo após. Erico Verissimo, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez , José Saramago e Mario Vargas Llosa são autores que procuro ler todos os anos.
LEITURINHAS – A coleção ERA UMA VEZ UM CONTO DE FADAS INCLUSIVO é sua estreia na literatura infantil, como autor e ilustrador. O que muda e o que permanece para um fisioterapeuta depois de ingressar no meio literário com obras tão peculiares? Você pretende dar continuidade à carreira de escritor nessa linha temática?
CRISTIANO – Considero que crianças não são adultos pequenos, mas sim crianças. Fazer fisioterapia nem sempre é gostoso. Por isso, sempre tive a preocupação de levar para os meus atendimentos elementos lúdicos que pudessem estimular os meus pacientes. Contar histórias, por exemplo, sempre foi um recurso que utilizei (e que utilizo) quando preciso alongar uma criança. A diferença, é que a partir de agora, não serão unicamente meus pacientes que terão acesso a essas histórias. Isso mudou. Porém, a preocupação com a qualidade do trabalho e a necessidade de criar sempre recursos para tornar a terapia interessante para a criança permanecem.
Não sou ilustrador. Sou apenas um fisioterapeuta que optou por ilustrar os próprios livros. Sempre brinco dizendo que as ilustrações não possuem o “padrão Disney”, mas que esta foi a opção do projeto. Quando o designer Leandro Selister (que coloriu as ilustrações e organizou os livros) viu os meus desenhos, sugeriu que eles fossem usados. Foi um risco que corremos, mas felizmente as crianças foram e estão sendo muito receptivas as minhas ilustrações.
Atualmente estou trabalhando no que chamo de “próxima fase da coleção”. Novos contos de fadas e novas histórias com enfoque nas diferenças. Escrever é um vício, não dá para parar.
LEITURINHAS – A coleção ERA UMA VEZ... é composta por 11 volumes de releituras dos contos de fadas, em que os personagens principais apresentam algum tipo de deficiência. Relate um pouco sobre o processo de composição dessas histórias.
CRISTIANO – Minha primeira preocupação foi utilizar contos de fadas em que os protagonistas não fossem animais. Como queria falar sobre deficiências humanas, não vi motivos para transformar os três porquinhos em porquinhos com síndrome de Down, por exemplo, ou para fazer um Gato de Botas amputado. Num processo de pura inspiração, as deficiências foram se encaixando naturalmente nas histórias. Não houve dilema do tipo “quem vai ser cego” ou “quem vai ser paraplégico”. Outra preocupação era que elementos consistentes dos contos de fadas originais permanecessem nos contos inclusivos, o que não quer dizer que a deficiência não altere o curso da história. Em BRANCA CEGA DE NEVE, por exemplo, a princesa cega possui um olfato muito desenvolvido e por isso sente o cheiro da madrasta quando esta vem lhe oferecer a maçã envenenada. Branca então tem a opção de comer ou não a maçã...
LEITURINHAS – Como surgiu a ideia de inserir a descrição das ilustrações dos livros durante a leitura oral das histórias? Você já conhecia o trabalho de adaptação descritiva de imagens para pessoas com baixa visão e cegos?
CRISTIANO – A acessibilidade da coleção sempre foi uma preocupação minha e da equipe que montou o projeto. De início cogitamos fazer uma versão da coleção em Braille, para que crianças e adultos com deficiência visual tivessem acesso aos livros, porém, por uma questão de custos (fazer livros no Brasil em Braille ainda é muito caro), optamos pela áudio-descrição. Por isso, a coleção é formada por 11 livros mais um CD com o áudio livro (para as crianças com ou sem deficiência que ainda não foram alfabetizadas) e com a áudio-descrição das histórias. A áudio-descrição foi realizada pela Empresa MIL PALAVRAS. Eu nunca tinha tido acesso a materiais com áudio-descrição. Foi muito legal entrar nesse universo, que até então não fazia parte da minha rotina profissional.
LEITURINHAS – Qual a receptividade dessa coleção por parte das crianças com deficiência? E por parte de crianças, jovens e sem deficiência?
CRISTIANO – As crianças com deficiência que viram os livros adoraram. Elas se reconhecem e se identificam com os personagens. No lançamento da coleção em Porto Alegre foi emocionante ver crianças cadeirantes querendo tirar fotos com o painel da Chapeuzinho da Cadeirinha de rodas vermelha... Já as crianças sem deficiência demonstram grande curiosidade pelos temas. Não raro, elas perguntam “mas o que é inclusão?”. Outra menina sem deficiência que estava no lançamento da coleção observou: “que bom que agora os castelos já possuem rampas para as princesas que precisarem de cadeira de rodas”... A menina fez esta observação após ler “a bela amolecida”.
LEITURINHAS – O que falta para o Brasil se tornar o PAÍS DA INCLUSÃO?
CRISTIANO – Penso que inclusão é um conceito que deve ser trabalhado desde cedo, por isso pensei na coleção como ferramenta que estimulasse nas crianças a curiosidade sobre o tema. Não tem como falar em inclusão sem falar em diferenças. Não somos todos iguais. Cada um é de um jeito e todos devem ser respeitados. Uma criança que cresce com esse conceito, terá muito mais chance de ser um adulto desprovido de preconceitos. Além disso, a inclusão exige muitas vezes uma série de modificações estruturais e materiais, principalmente quando entendemos que inclusão e acessibilidade estão fortemente ligadas. Para incluir crianças com deficiência numa sala de aula comum, por exemplo, é preciso modificar o meio. Rampas, cadeiras adaptadas, banheiros adaptados, recursos de tecnologia assistiva, qualificação dos professores e monitores são produtos de investimento que um país deve fazer na educação para oportunizar que crianças com deficiência tenham oportunidade de se desenvolver.
LEITURINHAS – A partir da sua experiência como fisioterapeuta, escritor e cidadão brasileiro, dê algumas dicas aos pequenos e grandes leitores de atitudes que podem auxiliar na inclusão social de (pessoas com deficiência).
CRISTIANO – A primeira dica é não esquecermos que todas as pessoas são diferentes, com ou sem deficiência, e que todas as diferenças devem ser respeitadas.
Outra dica é que, Inclusão é para todas as pessoas, e não somente para quem tem algum tipo de limitação física ou sensorial. Uma rampa pode servir tanto para um cadeirante quanto para uma pessoa idosa que não consiga subir os degraus de uma escada.
E por fim, que pessoas com deficiência não devem ser subestimadas nas suas capacidades e nem tratadas como heróis simplesmente pelo fato de possuírem uma deficiência.
QUE TAL POESIA?
(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)
POESIA PARA CRIANÇA: RITMO E MELODIA
(Série: A ação formadora da poesia infantil)
Por Márcia Hávila Mocci
O quarto artigo da série “A ação formadora da poesia infantil” busca, além de ressaltar a importância da poesia na formação global da criança, destacar características e peculiaridades do gênero poesia infantil. Como forma de evidenciar os recursos estéticos que atraem a atenção da criança no texto poético, apresentamos exemplos de poemas de diversos poetas da literatura brasileira que se dedicam a escrever para crianças e jovens.
O ritmo e a melodia são componentes relevantes da poética infantil, pois além de facilitar a memorização dos poemas, evocam as cantigas de ninar, adivinhas e parlendas. A poesia, pela estrutura melódica e rítmica, associa-se à música e, por meio do ritmo, apresenta deslocamentos de acento revelando um caráter irreal e lúdico.
O ritmo, elemento fundamental para o desenvolvimento do psiquismo infantil tanto no plano linguístico como psicológico, desenvolve-se através da música, da poesia e das atividades corporais. Na poesia constitui-se pela alternância entre sílabas acentuadas (fortes) e não acentuadas (fracas), ou entre sílabas constituídas por vogais longas e breves. O ritmo provém, também, de outros efeitos sonoros, como a repetição de letras ou palavras.
Assim como os demais recursos da linguagem poética, o ritmo está ligado à significação do poema, podendo ser leve, rodopiante, bailável, ou forte e marcado, como no poema “Trem de ferro”, em que a pulsação rítmica mantém-se sempre firme, caminhando por cada verso, sugerindo o movimento cadenciado de um trem correndo pelos trilhos:
Trem de ferro
Manuel Bandeira
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria que foi isso maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora
Vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
O poema “Trem de ferro” faz uso de recursos que influenciam o espírito infantil, como as onomatopeias, a repetição, o ritmo e as rimas. Além de referir-se a uma realidade básica para a criança: a alimentação, retrata a experiência prazerosa de uma viagem. A sonoridade rítmica onomatopaica também resulta em um jogo e a exploração dos versos curtos em frases nominais provocam a aceleração do ritmo frasal e o diálogo afetivo com o leitor. A união desses fatores efetiva a comunicação entre o poema e a criança.
A melodia, segundo Coelho (1984), é um fator relevante na poesia infantil, na medida em que serve como elo de ligação entre palavra e som:
Tal como o faz a música, essa poesia (infantil) precisa apelar para o ouvido da criança. O som-das-palavras-em-si deve lhe dar prazer, independente do que estas signifiquem como pensamento. Este crescerá em importância, com o gradativo convívio da criança com o texto poético. (COELHO, 1984, p. 167.)
Ligada à tradição oral, a poesia popular foi uma das primeiras formas por meio da qual os povos primitivos tomaram contato com o fenômeno literário. Por apresentar uma estrutura simples, como a ordem natural das palavras e a presença de ritmo regular, as quadras populares são muito apreciadas pelos pequenos leitores. Os autores contemporâneos ao se apropriarem das formas folclóricas: quadrinhas, adivinhas, parlendas e trava-línguas acabam por inová-las e, de forma original, incorporam variações que, devido à presença das rimas e repetições, são facilmente aceitas e memorizadas pela criança.
Em poemas como História embrulhada, de Elias José, o jogo de palavras cria ambiguidades e novas rimas que encantam a criança pela originalidade e pelo estranhamento. O poema, além de evocar uma melodia conhecida, é exemplo de maestria na apropriação e recriação das formas populares na poesia infantil.
História embrulhada
Elias José
Atirei o pau
no gato -tô
mas acertei no pé
do pato -tô
Dona Chica-ca
Admirou-se-se
Do berrô, do berrô
Que o gato deu.
Ouvindo de dona Chica ca
a risada-da
O pato ficou pirado-dô
E atacou Dona Chica
De bicada-da.
Crianças de todas as idades conhecem a canção, de modo que, não só aceitam os versos, como os acompanham cantando. Em História embrulhada Elias José propõe variações que não alteram a tendência do texto original e mantêm as características melódicas do mesmo. O jogo de repetições da última sílaba confere comicidade ao texto, resultante da confusão despertada e antecipada pelo próprio título do poema.
Lembrando que a literatura nos fala de coisas da vida a poesia infantil, assim como a poesia destinada ao adulto, destaca emoções e sentimentos que a criança já viveu ou deseja viver. A emoção presente no texto poético desperta sensações e desejos adormecidos. No poema Historinha de horror de José Paulo Paes, além da presença implícita da personagem infantil, há o sentimento de medo que, colocado de forma lúdica e compreensiva, faz com que a criança perceba serem comuns e naturais muitos de seus temores e que os mesmos podem ser tratados sem tanta seriedade.
Historinha de horror
José Paulo Paes
Certa vez eu sonhei
Que embaixo da minha cama havia um monstro medonho.
Acordei assustado
E fui olhar: de fato,
Embaixo da minha cama havia um monstro medonho.
Ele me viu, sorriu
E me disse, gentil:
“Durma! Sou apenas o monstro dos seus sonhos”.
REFERÊNCIAS
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993
COELHO, N. N. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira 1882-1982. 2, ed. São Paulo: Quíron/Brasília, INL, 1984b.
JOSÉ, Elias. Lua no brejo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. p.11.
PAES, José Paulo. Poemas para brincar. São Paulo: Ática, 1990.
LÁ VEM CONTO!
(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)
HAJA CORAÇÃO
(por Deusiane de Andrade)
Era uma terça-feira, eu voltava da faculdade, à noite, como sempre, correndo para não perder o ônibus. Quando o alcançava, sempre torcia para ele chegar a tempo no Terminal Central, senão eu perderia o outro ônibus que parava na rua de casa. Todos os dias era a mesma taquicardia, pois além de correr para alcançar o ônibus, tinha a ansiedade de o ônibus chegar a tempo no Terminal. Nesse dia foi diferente, eu alcancei o ônibus, porém, fiquei na mesma agonia de querer que o ônibus fosse mais depressa para não me atrasar. Esse medo todo não era à toa: o bairro onde eu morava era sossegado, porém o bairro ao lado, por ter mais residências nobres, sempre havia ocorrência de assaltos nas casas e aos transeuntes que passavam por ali. Por isso, a ansiedade ao voltar da faculdade era muito grande, o coração batia forte, acelerado, chegava a dar pontadas. Mas na realidade, quanto mais eu queria que o ônibus fosse rápido, mais ele demorava e a agonia só aumentava. Os olhos não saíam do relógio, talvez pensando que olhando para ele o tempo passaria mais devagar, porém isso também não resolvia, só piorava a situação. Ao chegar no Terminal, vi o ônibus parado, com os faróis acesos, mostrando que a qualquer momento partiria... a agonia foi aumentando, coração batendo forte...fui me aproximando da porta do ônibus para descer mais rápido, ele, por outro lado, foi encostando devagar... a porta se abriu e eu saí em disparada, tentando desviar das pessoas que desciam dos outros ônibus ou se aproximavam dos que estavam parados... foi um desespero tremendo... quando cheguei no ponto de partida do ônibus ele já havia saído... parei, olhei para o lado para ver se ainda havia chance de alcançá-lo... impossível, o sinal abriu para ele passar. Então lembrei que se eu pegasse o ônibus de outra linha que parava naquele mesmo ponto, eu pararia um pouco longe de casa, só teria que andar um pouco, mas o empecilho era ele parar nesse bairro nobre, perto da encruzilhada, em que, para eu chegar em casa, teria que subir uma ladeira de umas três quadras até entrar na rua reta que dava acesso a minha casa. Era um pouco longe e perigoso. Só que, às vezes, esse ônibus que ia depois do meu conseguia passá-lo, então eu só descia desse e pegava o meu até a rua de casa. Voltou a taquicardia... pensei comigo: “vou entrar nesse ônibus mesmo e torcer para ele chegar a tempo de eu pegar o meu e chegar sã e salva!”. Não foi nada fácil, o ônibus ficou parado de dez a quinze minutos. Quando ele deu sinal de partida, o coração acelerou mais... parou em um semáforo fechado, demorou... passou, parou em outro semáforo fechado, alguns segundos... passou, mais outro fechado... instantes de agonia... passou, e após esses, o motorista começou a acelerar em toda velocidade... então comecei a rezar: “Meu Deus, se for para eu ser assaltada ou acontecer algo ruim quando eu chegar no bairro por não ter alcançado meu ônibus, faça com que esse ônibus vá rápido, mas se for para colocar em risco a vida de todas as pessoas do ônibus por minha causa, então que ele vá devagar mesmo, e se não der tempo de eu pegar meu ônibus, me proteja até eu chegar em casa!”. Depois disso, só semáforos abertos, o motorista acelerando cada vez mais, e meu coração se acalmando aos poucos. Quando acabaram os semáforos, o motorista manteve a mesma velocidade, poucas pessoas entravam no ônibus e desciam. Ao chegar na última avenida antes de entrar no bairro, o ônibus da linha em que eu estava alcançou o que passava perto de casa. No que o ônibus que eu tanto queria tomar parou num ponto, o que eu estava passou direto... a alegria tomou conta de mim! Quando cheguei no último ponto da linha que eu estava, desci e peguei o que parava em minha rua. Porém, para meu espanto, quando cheguei perto de casa, minha irmã me esperava no portão, algo atípico. Perguntei a ela por que estava me esperando, e ela me disse que na rua debaixo de casa, no bairro nobre, rapazes que estavam num carro deram tiros em outros dois rapazes que passavam pela rua. Gelei na hora, pois aquela era a rua que eu pegaria se o ônibus da linha que eu estava não alcançasse o que parava perto de casa. Agradeci muito a Deus, e nunca mais peguei o ônibus daquela linha na volta para casa, a não ser que alguém fosse me buscar.
KAZUO EM QUADRINHOS
(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)
O SAGAZ JIM LEE
(Por Alexandre Kazuo)
A cultura pop coreana se vê em alta desde o ano passado quando o vídeo da canção ‘Gangnam Style’ do cantor e rapper coreano Psy tornou-se uma das mais visualizadas no You Tube. Nos quadrinhos norte-americanos porém mão de obra importada da Ásia tem feito a diferença desde o fim da década de 90 do século XX. Jim Lee ilustrador/roteirista filho de coreanos oriundos de Seul (Coreia do Sul) radicados nos EUA, causou grande alarde na Marvel Comics sobretudo quando assumiu os desenhos
do título ‘X-Men’ no fim da década de 80. Até então os mutantes eram vistos
apenas no titulo ‘The Uncanny X-Men’ e passariam a figurar em duas revistas, a
outra simplesmente intitulada ‘X-Men’. Lee redefiniu os X-Men iconograficamente
servindo inclusive de base para a animação ‘X-Men Adventures’ exibida no Brasil
pela tv Globo na metade da década de 90.
No começo dos anos 90, Lee, como já afirmamos nesta coluna anteriormente, se envolveu na criação da editora Image Comics junto a outros artistas que haviam trabalhado para a Marvel como Todd McFarlane, Rob Liefeld e Marc Silvestri. Na Image Lee apresentava as criações de seu selo Wildstorm entre elas o ‘Gen 13’ formado por três garotas e um cara dotados de poderes mutantes. E o supergrupo Wild C.A.T.S. um misto de X-Men com Vingadores. Entre 1996 e 1997 a Marvel tentava propor uma reformulação editorial e de forma polêmica contratou novamente Jim Lee e Rob Liefeld para o projeto ‘Heroes Reborn’ (no Brasil, ‘Heróis Renascem’). A dupla tinha carta branca para recontar as origens de todos os personagens clássicos da Marvel durante um ano. Novos títulos de ‘Capitão América’, ‘Os Vingadores’, ‘Homem de Ferro’ e ‘Quarteto Fantástico’ foram lançados, inclusive no Brasil quando o formato americano começava a ser explorado pela ed. Abril.
O visual outrora visto nos X-Men de heróis aparentemente anabolizados e heroínas pin ups ‘gostosonas’ em páginas duplas agora se aplicava aos heróis classicos da Marvel. Na ocasião, Lee assumiu o ‘Quarteto Fantastico’ e ‘Homem de Ferro’. As mudanças que não foram bruscas desagradaram fãs e crítica na época, mas observando ‘Heroes Reborn’ 15 anos depois, a dupla respeitou muito os conceitos de Stan Lee e Jack Kirby. O curioso é que a mesma adequação à contemporaneidade proporcionada a personagens que naquele período batiam 25, 30 anos de criação é vista hoje em dia nos filmes da Marvel Studios.
Retornar a Marvel e chegar a DC Comics.
O retorno a Marvel mostrou o lado político de Jim Lee que na parte editorial e administrativa se mostrava mais astuto do que Todd McFarlane, que por sua vez iria se perder em diversas disputas judiciais. Nos anos 2000 Jim Lee chegaria a DC Comics, editora pela qual o mesmo nunca escondeu sua admiração. O ilustrador e roteirista deixou a Image em 1998. Lee foi visto em títulos como ‘Batman’ e ‘Superman’ numa trilha que culminaria na renovação que a editora reverbera nos dias atuais chamada os ‘Novos 52’. A DC havia perdido espaço e a Marvel encontrava novos rumos com o sucesso de suas adaptações cinematograficas.
Atualmente como co-publisher (co-editor ou vice-editor) da DC, Jim Lee parece estar no topo. Já se vê a introdução de personagens de Lee no universo DC, aguarda-se a inclusão plena dos Wild C.A.T.S. O titulo chegou a ter roteiros escritos pelo respeitado Alan Moore num determinado período. O time de heróis, que lembra escandalosamente os X-Men, combate as ameaças proporcionadas pelos alienígenas Demonitas e Querubins. O Wild C.A.T.S. é liderado por Espartano, um androide cuja postura se assemelha muito àquela de Ciclope. Vodu é uma dançarina com poderes psíquicos que pode ser descrita enquanto um clone com cabelos negros da ruiva Jean Grey. Devota é uma guerreira que usa espadas samurais visualmente parecendo um amalgama de Tempestade com Psylocke. Bandoleiro, personagem favorito do próprio criador Jim Lee segundo muitos revela o conceito original do carismatico e mulherengo Gambit criado por Lee para os X-Men. A sigla C.A.T.S. quer dizer ‘covert – action – teams’ algo como ‘equipe secreta de ação’. O Wild C.A.T.S. se apresenta enquanto um grupo marginal quando no inicio do universo Image, contracenava com o outro supergrupo, ‘Youngblood’ de Rob Liefeld, que trabalhava para o governo americano.
A linha editorial ‘Os Novos 52’ já em desenvolvimento no Brasil pela Panini há quase um ano, já mostra Helspont inimigo dos Wild C.A.T.S. em histórias do Superman e Bandoleiro figurando no título ‘Edge’. Atualmente a arte de Jim Lee pode ser vista no atual título ‘Liga da Justiça’ em que Lee se vê acompanhado do roteirista Geoff Johns.
LITERATURA E ENSINO
(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)
HISTÓRIA DA LITERATURA INFANTO FASE II: PARA ALÉM DE LOBATO
(Por Leny Fernandes Zulim)
1-A VIDA RURAL COMO CENÁRIO
Enfatiza-se, nesta fase da história da literatura infanto brasileira, 1920-1945, o universo rural. Não que seja privilégio de autores brasileiros descobrirem esse filão. Desde o seu início, na Europa, houve a preferência pelo mundo agrícola. E só nos lembrarmos de tantos contos maravilhosos com o enredo tendo a vida no campo como cenário. E Lobato, com o Sítio, no Brasil não é o único. Como afirma Kupstas (1988: 43) “Narizinho e Pedrinho habitam um lugar ideal, onde é possível imaginar aventuras e ter liberdade de concretizá-las. Liberdade. A palavra-chave para definir o Sítio do Picapau Amarelo.” O sítio é um lugar onde as crianças podem brincar e aprender sem adultos para reprimi-los. E como lembram Lajolo & Zilberman (1985: 56):
A presença de um universo rural na narrativa brasileira não era, em princípio, novidade (...). O romance romântico fortalecera uma visão grandiosa da natureza brasileira e foi nesse cenário espetacular que heróis ou indivíduos mais comuns viveram grandes momentos de sua existência, o que se pode constatar nas obras sertanistas de José de Alencar ou do Visconde de Taunay.
Todavia, esse universo agora rompe com a imagem do lócus amoenus idealizado no Romantismo. Lobato não deixa de descrever a terra com seus males e fragilidades, enterrando qualquer ilusão, dissidente total em relação ao nacionalismo ufanista.
Embora seja o nome de fato proeminente, nem só de Lobato se faz essa fase da literatura infanto brasileira. Para início, Viriato Correia é outro nome da época. Com a Arca de Noé e Cazuza ele dá seqüência à visão de um país rural. Ocorre, porém, que seus textos perdem em qualidade: a vida no sítio não tem uma dimensão utópica, mas é vista como um enclausuramento e falta de perspectivas no caso do primeiro livro. No caso do segundo, Cazuza, Viriato faz da escola o alvo da crítica, enfatizando sua face mais cruel e autoritária, possível graças á forma de apresentação: o livro é memorialístico, de modo que o narrador, agora adulto, toma distância no tempo e assim o objeto narrado é apresentado com maturidade própria de quem olha de fora essa fatia da vida. O narrador, adulto e morador do Rio de Janeiro, narra as recordações de sua infância no distante Maranhão. O livro não idealiza personagens, nem lugares, nem as instituições. A despeito de seu tom ufanista, pedagógico e moralista, Cazuza não tem ilusões campestres e denuncia o trajeto irreversível da história. Vale lembrar aqui o que sobre o livro dizem Lajolo & Zilberman (1985:64):
Cazuza, a despeito de sua orientação ufanista, pedagógica e moralista, atinge um resultado original e único em nossa produção literária para crianças, rechaçando as ilusões campestres e denunciando o trajeto irreversível da história. Não chegou a ser um livro com seguidores, mas nem por isso o marco que representa, nos seus defeitos e virtudes, é negligenciável, valendo a pena contrapô-lo às obras de seu tempo, que levaram avante caminhos conhecidos r veredas já domesticadas da vida rural brasileira.
O cenário rural, no qual convivem natureza, homens e animais, de certa forma permanece também em outros escritores da época. Marques Rebello e Arnaldo Tabaiá, por exemplo, lançam a fábula A casa das três rolinhas, em que através das aves criticam as idéias mais arrojadas e rebeldes dos jovens. Mas, o cenário, ainda que rural, diferencia-se, sendo agora a grande floresta.
2- FANTASIAS E VIAGENS
Em outra vertente da época, o que organiza o enredo é a fuga do mundo tedioso e chato através de viagens, normalmente imaginárias. O que importa agora é que, insatisfeitas com seu cotidiano, as personagens, boa parte delas crianças, têm uma opção escapista. Tentam resolver a insatisfação através de uma viagem imaginária. Viagem esta que, ou transcorre durante a noite, ou não tem testemunha, ou ainda, após ela acordam (Lajolo & Zilberman: 1985). É assim que Menotti del Picchia lança, em 1931, Viagens de João Peralta e Pé-de-moleque. No livro, os heróis são fascinados por aviões e aventuras aéreas. Dessa forma, pela fantasia, eles realizam o sonho de liberdade. Já em No país das formigas, do mesmo Menotti, o camundongo de ouro, espécie de Grilo Falante de Pinóquio, é o equilíbrio entre a fantasia e o real.
Érico Veríssimo, por sua vez, é outro nome conhecido que escreve para crianças valendo-se de viagens como metáfora para a obtenção da liberdade via ficção. É assim com As aventuras do avião vermelho, em que os protagonistas fogem de casa devido ao tédio doméstico e abandonam o lar para visitarem regiões mágicas bem mais interessantes que a vida prosaica da qual fogem. O mesmo acontece em Os três porquinhos pobres, também de Érico. Os heróis Salsicha, Sabugo e Linguicinha igualmente querem deixar o chiqueiro, símbolo de ambiente fechado, em busca de outros ares e da tão sonhada liberdade.
Pelo sonho, a mesma proporção entre opressão e desejo de fuga se manifesta em livros de Graciliano Ramos e Lúcia Miguel Pereira: a viagem é o abandono do ambiente que provoca desagrado. Em A terra dos meninos pelados, de Graciliano, Raimundo, o protagonista, encontra na viagem uma forma de fugir da discriminação que sofre por ser diferente: tem um olho de cada cor e a cabeça pelada. Carvalho (1997:15-16) afirma:
A terra dos meninos pelados destoa das demais [obras infanto] por não encerrar a personagem infantil no meio familiar, deixando a criança movimentar-se no mundo fantástico por ela criado. Enfrentando sozinha seus próprios problemas, a personagem principal da história, Raimundo – menino que tem um olho de cada cor e a cabeça sem cabelos – salta para o imaginário como forma de enfrentar sua diferença em relação às demais crianças, criando um lugar onde possa ver a si próprio como igual aos outros meninos
E assim, em Tatipirum, locus de sua viagem imaginária, ele encontra seus iguais, mas amadurece e sabe que precisa voltar. A viagem, portanto, acaba por modificá-lo e fazê-lo aceitar-se. Fada menina, de Lúcia Miguel Pereira, traz temática semelhante. Dora, a protagonista, a exemplo de Raimundo, sofre discriminação por ser pequena mas, durante a noite, torna-se uma poderosa fada. Tanto Dora quanto Raimundo superam a inicial necessidade escapista através do enfrentamento do problema de cada um.
3- A PRESENÇA DO FOLCLORE BRASILEIRO
Nessas narrativas, a tradição popular se faz presente com a influência das amas-de-leite, escravas ou ex-escravas, que detém a sabedoria popular e as veiculam de acordo com a tradição oral. Apresentadas por um narrador preto têm uma ingenuidade na estrutura narrativa, atribuída à procedência popular ou às qualidades do narrador (Lajolo & Zilberman: 1985). Lembrem-se aqui alguns exemplos: Lobato, com as Histórias de tia Nastácia, critica esses aspectos pela voz das crianças que ouvem a história e de Emília, a boneca “sem papas na língua” que chega a ser agressiva para com Tia Nastácia. Além disso, em personagens como o Saci e a Cuca, só para ficarmos com dois exemplos, o autor reforça a presença do folclore em sua obra; Lins do Rego com Histórias da velha Totônia segue pela mesma trilha: a velha que encantava as crianças do Engenho com suas narrativas, detinha um conhecimento popular, ingênuo e simples; Osvaldo Orico com os Contos da mãe preta e Histórias do pai João e Luís Jardim, ao escrever os contos de O boi Aruá, também se valem da tradição nordestina. Graciliano Ramos, que se vale desse mesmo folclore para escrever o seu Alexandre e outros heróis já explícita, na abertura do livro, que as histórias de Alexandre não são originais, mas pertencem ao folclore do nordeste. Coelho (2003:44) comenta a presença do popular e do folclórico nas narrativas juvenis, lançando luzes sobre sua origem, bem remota, nas histórias primordiais. Diz ela:
Atentando para a natureza dessa literatura, vemos que sua matéria pertence à área do maravilhoso, da fábula, dos mitos ou das lendas, cuja linguagem metafórica se comunica facilmente com o pensamento mágico, natural nos seres intelectualmente imaturos. Em última análise, esse maravilhoso, concretizado em imagens, metáforas e símbolos... é o mediador, por excelência, dos valores a serem eventualmente assimilados...
4- OS TEMAS ESCOLARES
De há muito, escola e literatura possuem laços originários da natureza formativa de ambas. Ocorre que enquanto a escola dá a conhecer a realidade viva através de disciplinas ou áreas do conhecimento, a literatura apresenta, pelos recursos da ficção, uma realidade que tem íntimo contato com a vida cotidiana do leitor. Sem compromisso com vencidos ou vencedores, ela trilha veredas mais fascinantes e capazes de seduzir, formando e informando a partir de momentos de puro e genuíno prazer (Zulim: 1995). Por isso, claro, a temática pedagógica está mais uma vez presente nas décadas de 20 a45 e já tratamos dela no artigo anterior. Lobato não se exime disso, ao contrário, em obras como História do mundo para crianças, Emília no país da gramática, Aritmética da Emília, Geografia de Dona Benta e O poço do Visconde, deixa clara sua intenção já no título. Mas, também como já dissemos, sua escola é outra: apoiando-se no diálogo, como metodologia de ensino, e no amor ao conhecimento, areja a visão de escola que se tinha (Lajolo & Zilberman: 1985).
Mas, há outros. Em As aventuras de Tibicuera, Veríssimo apresenta o índio do título percorrendo os séculos de história do Brasil e como outros autores (leia-se, por exemplo, Viriato Correia com História do Brasil para crianças), não aborda o presente. Volta-se para o Brasil colonial ou imperial. Já Graciliano Ramos, com Pequena história da república, faz um mapeamento da relativamente jovem república, para os seus também jovens leitores, pintando a atualidade com desembaraço e por isso, em época de Estado Novo, teve a publicação sustada.
Luís Jardim volta agora com temas religiosos como A vida de São Francisco de Assis, A vida extraordinária de Santo Antonio e Proezas do Menino Jesus. A orientação formadora e educativa aqui chega a ser tendenciosa, aproximando-se da literatura para crianças produzida no início do século.
5- CONCLUSÃO
Ao contrário da fase anterior, fortemente utilitária, nesta criaram-se inúmeras obras originais, fortalecendo alguns projetos com as seguintes características: a- predomínio do campo, ou do espaço rural, como cenário para as ações, com uma visão crítica desse mesmo cenário; b-fixação de um elenco de personagens em que se destacam crianças que transitam de um livro a outro; c- firma-se uma preocupação estética em produzir obras para a infância, em que a fantasia, o simbólico, a metáfora, a linguagem alegórica e o estranhamento fazem surgir obras essencialmente literárias;
Não há como negar, porém, que em todas as tendências, a figura de Lobato tem absoluta supremacia. Por isso, quando de sua morte solitária na madrugada de 4 de julho de 1948, comenta Lajolo (2002 : 82) “Seu enterro é uma apoteose gigantesca, conduzida pela multidão que o vela na Biblioteca Municipal e que depois carrega seu ataúde nos braços, até o Cemitério da Consolação”. Lobato era amado pelas crianças, para as quais destinara o Sítio, com elas se correspondia. Lobato é amado hoje por leitores anônimos e célebres. Ana Maria Machado (2003: 104), por exemplo, informa com todas as letras sempre ter sido fã dos livros dele, dos quais Reinações de Narizinho é sua grande paixão. Clarice Lispector (1998:10), para ficarmos com outro exemplo, declara todo seu amor por ele através da protagonista do lindo conto Felicidade Clandestina, quando a menina exclama que “As reinações de Narizinho era um deslumbramento, um livro grosso, para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”
REFERÊNCIAS
CARVALHO, Neuza Ceciliato. Realidade e fantasia: um diálogo constante n’A terra dos meninos pelados, de Graciliano Ramos, em Narrativas juvenis: modos de ler. Assis: Ed. Arte & Ciência, 1997
COELHO, Nelly Novas. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Ed. Moderna, 2000.
KUPSTAS, Márcia. Monteiro Lobato. São Paulo: Ática, Série Ponto por Ponto, 1988
LAJOLO, Marisa. Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida. São Paulo: Moderna, 2002
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo, Ática, 1985
LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998
MACHADO, Ana Maria. O canto da praça. São Paulo: Ática, 2003.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura infanto-juvenil: o livro literário - desvelando o mundo e contribuindo para o sucesso escolar. In: Revista Científica e cultural UNOPAR. Londrina: Dezembro 95.
RELEITURINHAS
(Divulgada originalmente em www.leiturinhas.com.br em abril de 2013)
ONCE UPON A TIME: Heróis e heroínas
(Por Carla Kühlewein)
Para encerrar a série de artigos a respeito de ONCE UPON A TIME, longe de idealizar o famoso happy and, mencione-se ainda as figuras heroicas presentes no seriado americano. O De certo modo o Era uma vez a la “Insanos” mantém a tensão de um capítulo a outro a medida que as personagens encantadas, presas no tempo e no espaço em Storybrook(a cidade encantada criada pela madrasta má) ficam mais próximas de descobrir sua verdadeira origem.
A condenação das personagens de viverem longe de seu mundo de conto de fadas e presas ao tempo moderno, seria eterna não fosse pela ameaça da vinda de Ema, a filha de Branca de neve, para Storybrook. O que de fato acontece já no primeiro episódio da série, quando Ema se desloca para a cidade a fim de “devolver” o menino Henri a sua mãe adotiva.
O primeiro episódio traz o menino em busca de sua mãe biológica, a prefeita da cidade e obscuramente a rainha má. Henry fora abandonado por Ema num orfanato ainda bebê; anos depois cismou em encontra-la justamente por saber que ela seria a única que poderia quebrar o feitiço que a madrasta da Branca de neve havia lançado.
Assim que a “salvadora” pisa em solo encantado vários acontecimentos sucedem a começar pelo relógio da cidade que enfim se põem a funcionar a partir do momento que ela resolve ficar mais tempo em Storybrook. A decisão da forasteira deixa os vilões da mundo encantado um tanto incomodados, e aos poucos vai-se travando uma verdadeira disputa entre o bem e o mal, até culminar numa guerra de forças, nem sempre desiguais.
O heroísmo de Ema, no entanto, é recusado por ela, que reluta em acreditar nas histórias contadas pelo seu filho, Henry, e concentra-se na brigada pela guarda do filho legítimo. A disputa entre mãe biológica e adotiva é uma saga levada paralelamente ás histórias das personagens encantadas que vai se desvelando durante a trama.
A cada episódio novos conflitos se formam, todos em torno da queda de braços entre a benevolência de Ema, seu filho e demais aspirantes, e a madrasta malvada, o negociante Humpesltistin e seus aliados, normalmente chantageados seus pelos acordos mórbidos.
A heroína de fato é Ema, mas não é a única: Henry mostra-se uma espécie de desdobramento dela, não só por ser seu filho mas pela conduta que mostra a cada episódio. Ele a induz ao heroísmo, o que o torna, na mesma medida, o herói por essência, aquele que acredita cegamente em uma causa, sem perder o foco.
De mais a mais, entre vilões e heróis em altíssimo grau, ONCE UPON A TIME sugere uma releitura dos contos de fadas num viés moderno, numa roupagem hollywoodiana, no entanto, em escala mais profunda, tende mais para a paródia e o reforço do aspecto essencial desses mesmos contos: a dicotomia ilusionista entre o bem e o mal, em que o bem sempre vende, ainda que o mal provoque um estrago às vezes irrecuperável.
Na próxima edição: Chapeuzinho Vermelho e suas versões cinematográficas!
Boas RELEITURINHAS!

