outubro 14, 2013

ARTIGOS E ENTREVISTA - SETEMBRO

ENTREVISTA CIA MANIPULANDO
(Publicada originalmente em setembro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)


Karla Morelli e Danilo Furlan são educadores e contadores de histórias da Cia Manipulando. Em setembro, dia 16, estarão apresentando "Diversas Histórias de uma Diversidade Divertida" na Feira do Livro do SESC Maringá. 

MANIPULANDO LEITURINHAS

LEITURINHAS -  Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até a atualidade?
KARLA - Ganhei um livro da minha professora quando me formei no pré: "Feijão Fradinho", eu amava!

DANILO - Eu adorava a "Familia Prequeté", eu emprestei ele muitas vezes na biblioteca da escola, uma pena que nunca mais o encontrei...


LEITURINHAS - Dada a formação profissional de ambos, já é de se imaginar que vocês são apaixonados por leitura. Mas de onde e como surgiu o interesse em contar histórias? Por que  selecionaram o teatro de manipulação?

KARLA - Meu gosto pela leitura veio com influência da minha avó que depois de seus afazeres sentava em qualquer cantinho para fazer sua leitura, eu adorava isso nela e admirava, queria ser como ela.  Me apaixonei pelo  teatro de animação quando conheci o Danilo e não parei mais.

DANILO - Eu sempre gostei de livros e o universo infantil nunca saiu de mim, os livros me permitiam  viajar novos mundos. Desde criança eu inventava fantoches e fazia apresentações no muro para o vizinho que era pequeno, me divertia, e até hoje me divirto.

LEITURINHAS - Muitas pessoas não imaginam o trabalho que um contador de histórias tem para exercer seu ofício. Como integrantes da Cia Manipulando Teatro de Animação, comente um pouco sobre o trabalho que vocês.

CIA - Realmente o Oficio de Contador de história é novo e, como tudo que é novo, ainda é um pouco difícil, porém é uma área em desenvolvimento, o que nos permite muitas experimentações e experiências. Sempre que contamos uma história é porque já nos apaixonamos por ela, isso é fundamental. Ser livre para escolher a história que você irá contar é de suma importância para que ela se desenvolva de maneira a cativar o ouvinte. O preparo depende muito de cada história, lemos muitas vezes, adaptamos, gravamos, ouvimos e experimentamos. Os objetos a serem utilizados nascem com a necessidade de cada história, a gente só coloca o objeto quando temos quase certeza de que irá funcionar, aí é só repetir, repetir e repetir... (risos).

LEITURINHAS - Alguns estudiosos acreditam e vários professores também, que contar histórias estimula a leitura, independentemente da idade dos ouvintes, como você observa isso na prática?

CIA - Nosso trabalho está focado no ser humano, na arte, na vida, acreditamos que mais do que incentivar a leitura, quando contamos histórias, permitimos ao ouvinte a imaginar. Quando uma criança gosta da história, ela quer ver o livro, pegar, sentir, ler, aí é que nasce o incentivo à leitura.

LEITURINHAS - O velho ditado avisa: QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO... como vocês observam a liberdade de o contador em apresentar uma história que não é de sua autoria? Há liberdade para se acrescentar elementos, personagens às histórias ou a fidelidade ao texto original é priorizada?

CIA - Aqui o que vale para uma história pode não valer para outra, o que vale para a leitura pode não valer para a narrativa, assim a cada história que preparamos vamos adaptando as necessidades de manter ou não o texto original. O Contador de histórias, como artista, também inclui sua visão de arte  e de mundo no trabalho que realiza. Tomamos o cuidado de apresentar sempre o autor da obra, dando a ele o crédito da criação da história e a nós a maneira como ela é contada.
LEITURINHAS - Quais dicas vocês dariam a quem pretende seguir uma carreira de contadores de histórias, por meio da manipulação de objetos?

CIA - Experimentar é sempre muito importante, não temer é fundamental. Ler, assistir, acompanhar é sempre muito bom. Hoje o Brasil já têm diversos eventos de contadores de histórias, viajar e conhecer outros espaços e trabalhos ajuda bastante. Mas nosso principal conselho é amar o que faz, se identificar e se realizar com esta linda e divertida arte: Contar histórias.

LEITURINHAS -  Quais LEITURINHAS vocês indicariam aos pequenos e grandes leitores?

CIA - As que estamos lendo ORELHAS DE MARIPOS, de Luisa Aguilar, GALINDA - UMA MÃE MUITO ESPECIAL, de Vanessa Meriqui e A MENINA DOS OLHOS VERDES, de Rosane Castro, histórias que estarão no nosso próximo trabalho.
Agradecemos o convite e convidamos todos a acompanhar nosso trabalho pelo facebook!

Beijos de queijos!

Karla Morelli e Danilo Furlan


ANTES DE WATCHMEN
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em setembro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

Seguimos com mais um enfoque sobre um legado deixado pelo roterisita britânico Alan Moore, na coluna deste mês. Possivelmente, mencionamos em textos anteriores que a editora DC Comics tinha planos de trazer uma nova série com os personagens de Watchmen. A mesma intitulada “Antes de Watchmen” já se vê inclusive sendo editada no Brasil, pela Panini Comics. “Watchmen” teve a popularidade catapultada após a adaptação cinematográfica de 2009, dirigida por Zack Snyder, que obteve bom resultado de produção e de popularidade. Alan Moore, seu autor original, porém, previsivelmente renegou a “paternidade” da obra, creditada apenas ao ilustrador Dave Gibbons. Moore e Gibbons criaram a hq “Watchmen” na metade da década de 80 do século XX, primeiro numa espécie de tributo a chamada “era de ouro” e “era de prata” dos quadrinhos. Segundo, num tom de paródia de histórias de personagens famosos como Batman, X-Men, Hulk, etc que se pretendiam verossimeis.

Resumindo, os Watchmen eram os sucessores dos Minuteman e a trama da HQ (e consequentemente do filme) enfoca a transição de uma geração para outra. Dentro do grupo Watchmen, uma espécie de paródia dos super grupos habituais, observamos releituras de arquétipos pertencentes à Liga da Justiça, Vingadores ou X-Men. No roteiro, o Watchmen havia sido dissolvido pelo temor que os super-heróis acabavam incutindo nos humanos normais. Observamos seus integrantes tentando viver suas vidas digamos, normais. A proposta de “Antes de Watchmen” seria contar as histórias individuais de cada um dos personagens, oportunamente resumidas na série original.

A primeira edição de “Antes de Watchmen” lançada no Brasil traz a origem do Coruja, uma espécie de Batman da classe média. Talvez seja a que trouxe melhor desempenho em termos de roteiros a cargo do atualmente respeitado Jim Strazinscki, com destaque para as ilustrações dos irmãos Andy e Adam Kubert. Ambos são filhos do lendario ilustrador Joe Kubert, sendo que os irmãos ganharam grande projeção desenhando histórias solo do Wolverine para a Marvel Comics, durante os anos 90.

A segunda edição traz as origens de Espectral, filha da integrante Júpiter dos Minutemen. O roteiro é linear, inferior ao do número que a precede, mostrando uma superprotetora mãe solteira, treinando a filha para integrar uma equipe sucessora dos Minutemen. Laurie foge de casa no fim da adolescência indo parar na San Francisco (California/EUA) da década de 60 do século XX, em meio à ebulição cultural daquele lugar, naquele período. A roteirista Amanda Conner traz menções ao uso de ácido e LSD, além de citações ao autor Ken Kesey.


Comparar as tramas com aquilo que foi feito na série “Watchmen” original é desnecessário. Porém, percebe-se um respeito dos envolvidos para com a obra de Alan Moore. Enquanto detentora dos direitos autorais dos personagens, a DC Comics tem todo o direito de utiliza-los. As edições trazem nas capas um aconselhamento para “maiores de 18 anos”, algo que condizia com a série original que visava um público adulto.


LITERATURA E ENSINO
LITERATURA INFANTO BRASILEIRA: NAS TRILHAS DA RENOVAÇÃO III
Por Leny Fernandes Zulim
(Publicado originalmente em setembro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

  
3.1- DÉCADA DE 70: A POESIA QUEBRA AS AMARRAS PEDAGÓGICAS

No Brasil, a produção poética infanto-juvenil contemporânea está indiscutivelmente solidificada (como de resto também a narrativa) não só em termos de quantidade, mas, sobretudo em termos de qualidade. Nomes como Sidônio Muralha, Cecília Meireles, Sérgio Caparelli, Pedro Bandeira, José Paulo Paes, Roseana Murray, Carlos Queirós Telles, só para citar alguns, vêm garantindo belas publicações em que, por princípio, a estética se coloca em primeiro plano e o viés pedagógico, de longa tradição, é abandonado (Lajolo & Zilberman: 1985). Essa tradição pedagógica, utilitária, de que falamos fez a poesia destinada a crianças e adolescentes tornar-se veículo privilegiado de ensinamentos, fossem eles valores humanos ou conteúdos escolares. Essa “obrigação” de ensinar algo afastava da poesia o que mais cativa a criança: o lúdico, a brincadeira com a palavra. Vejamos o que afirma Coelho (2000: 223-224), sobre o assunto:

Entre a poesia infantil tradicional e a contemporânea, há uma diferença básica de intencionalidade: a primeira pretendia levar seu destinatário a aprender algo para ser imitado depois; a segunda pretende levá-lo a descobrir algo à sua volta e a experimentar novas vivências que, ludicamente, se incorporarão em seu desenvolvimento mental/existencial.


E a autora, depois de dizer que deixando de lado a poesia popular ou folclórica, ligada às cantigas de roda e às cirandas, o que existia de poesia infantil desde sempre, era uma produção poética de natureza culta e inspiração romântica que tinha lugar de honra nas festas cívicas que ocorriam nas escolas com os famosos recitativos em que tinha papel fundamental a memorização, afirma categoricamente que “a poesia infantil brasileira surge comprometida com tarefa educativa da escola, no sentido de contribuir para formar no aluno o futuro cidadão e o indivíduo de bons sentimentos (Coelho, op. cit. 224). O problema não está na memorização, tampouco no fato de recitar em si. O problema está em que (e hoje entende-se assim) memorizar e dizer uma poesia é algo de caráter subjetivo, muito pessoal, que não deve ser imposto. Ao contrário, só tem sentido se a criança decidir fazer isso de forma espontânea, por ter sido cativada pelo texto.
Voltando à caminhada histórica da poesia infanto brasileira, afirmam sobre ela Lajolo & Zilberman (1985: 146):

Até a década de 60, a poesia infantil brasileira guardava resquícios parnasianos, quer pelo conservadorismo formal, quer pelo seu compromisso com a pedagogia. A crença no poder comunicativo dos versos é tão forte que, ao longo da tradição da poesia infantil brasileira, valores ideológicos emergentes foram sempre confiados à força persuasória de poemas.

Por longo tempo então, a poesia cujo destinatário era a criança, viu- se comprometida com a pedagogia e com o conservadorismo formal, desde Bilac, quem primeiro dedica a à criança obras desse naipe. Bilac, um parnasiano que conferia a seus versos o rigor formal próprio do estilo, era também um cidadão comprometido com seu país. Foi ele um dos pioneiros, seguido por Francisca Júlia, a escrever poemas destinados à criança. Em Poesias Infantis, datada de 1904, é possível observar o universo ideológico do parnasiano: apresentar aos pequenos poemas de temas diversos para educá-los, torná-los cidadãos de bem, patriotas, nacionalistas. Essa idéia se fortalece pelo fato de que Bilac possui características de educador e isso se observa nos traços de cunho professoral e filosofantes de sua poesia seja ela infantil ou não (Lajolo: 1982).

Vejamos, por exemplo,  essa característica no  poema  A boneca (Bilac, 1949: 31-32)

                        1
Deixando a bola e a peteca
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

                       3
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

                       4
Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

                     2
Dizia a primeira: “É minha!”
_ “É minha!” a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

                    5
E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca...

Verifique-se que em termos formais, como parnasiano convicto que era, Bilac é perfeito, seja na métrica, seja na rima e no ritmo. Quanto a esse aspecto nada a comentar além do que afirmamos logo acima. Mas é o conteúdo que precisa merecer uma atenção maior de nossa parte. É claramente perceptível a intenção de Bilac com essa poesia, e de resto outros textos de sua lavra destinados ao público infanto-juvenil: ensinar, sejam valores, conteúdos escolares, amor à Pátria, nacionalismo... (Lajolo & Zilberman: 1986) No caso específico desse poema,  mostra-se à criança que o egoísmo das duas meninas (nenhuma quis compartilhar o brinquedo: estrofes 1 a 4) fez com que eliminassem qualquer possibilidade de brincar com a boneca (estrofe 5). Se tivessem partilhado fraternalmente o brinquedo – esse é o recado maior -  poderiam ter usufruído dele por todo o tempo. Esse foi sempre o tom recorrente dos textos bilaquianos para as crianças e adolescentes: acima de tudo, veicular ensinamentos.

3.2- A POESIA RENOVADA NO PÓS-70

A produção poética para a infância e adolescência torna-se sólida a partir da década de 70 do Século XX. Essa solidez, como já afirmado, refere-se tanto à quantidade de títulos lançados quanto à qualidade, pois ela acaba se desvencilhando do recorte pedagógico que desde o início, no Brasil, a marcara. Rompendo com essa tradição didática, a poesia infanto pós-70 se dá o direito, pensando no destinatário e na arte, de tornar a poesia mais leve, mais brincalhona, com uma linguagem menos formal, mais cotidiana, priorizando o universo infantil. Para isso ela valoriza o jogo de palavras, o humor, os recursos gráficos, a sonoridade, o cromatismo. Todas essas características tornam a poesia infanto um convite ao pequeno leitor: vamos ler, porque ler é tão gostoso quanto brincar. É isso que observamos no poema de Paes (1986), denominado Convite, logo abaixo:

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como cada dia
que é sempre um novo dia

Como a água do rio
que é água sempre nova

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

           Vamos brincar de poesia?
                                                                                           
Todo o livro de Paes é um convite a ler poesias, apresentando aos pequenos textos agradáveis e brincalhões que vestem o poema de beleza, leveza, humor... A exemplo do título do poema acima, que abre o livro, Paes parece dizer aos seus leitores: venham, vejam que gostoso é esse meu convite. Ler poesia também é brincar...

Hoje, poetas e crianças se encontram mediados ou pela tematização do cotidiano infantil ou pela adoção, por parte do autor, de um ponto de vista que compartilha com seus    pequenos    leitores    a anticonvencionalidade,  quer  da  linguagem, quer de  recortes  da realidade (Lajolo & Zilberman; 1985). O abandono da tradição didática seja na rigidez da forma, seja no coloquialismo da linguagem, na despreocupação com a temática, no humor ou na utilização de recursos gráficos, parece lembrar que, afinal, poesia não é veículo para ensinar ou dar conselhos, mas é instrumento para sensibilizar e encantar o leitor. Vejamos alguns exemplos que ilustram bem a renovação dessa poesia pós-70:

                                                           Imitação  

                                                        Vendo o Pato
                                                         falar pra Pata:
                                                        - Não empata!                                                                                 
                                                         O Sapo falou                                                                                                                pra Sapa:                                                                                                                   Não ensapa!     
                                                         (Elias José)


O poema traz o que envolve a criança: sonoridade, ritmo, e, sobretudo, o humor que se estabelece nos três últimos versos. Além disso, a coloquialidade da linguagem e as aliterações tornam o poema atrativo ao pequeno leitor. Na verdade, o livro todo de onde esse poema foi pinçado é um convite à leitura, com belas páginas em que os textos poéticos se mesclam a uma ilustração e diagramação de alta qualidade e beleza, complementando-lhes o sentido.

Vamos a outro exemplo, desta feita com um poema de Henriqueta Lisboa, cujo livro onde está inserido recebeu o Prêmio Machado de Assis em 1984, ano de sua publicação:
                                               

                                                       Consciência

                                           Hoje completei sete anos.
                               Mamãe disse que eu já tenho consciência.
                                         Disse que se eu pregar mentira,
                                   não for domingo à missa por preguiça,
                                     ou bater no irmãozinho pequenino,
                                                  eu faço pecado.
                                               
                                                 Fazer pecado é feio.
                                         Não quero fazer pecado, juro.
                                            Mas se eu quiser, eu faço.    (Henriqueta Lisboa.)

O confronto de vozes que se estabelece entre a primeira e a segunda estrofe acaba por determinar o tom do poema: autonomia da criança para dizer o que pensa e, em conseqüência, nesse caso específico, o humor que  se instaura, sobretudo com o último verso. A voz da mãe, que toma toda a primeira estrofe vem repleta de clichês que necessitam de seis versos para se explicitarem. A criança, de forma sucinta, liquida o assunto com a metade dos versos que a mãe utilizou, deixando claro o que pensa.

Os poemas utilizados como ilustração demonstram o quanto a poética infantil se modificou, rompendo amarras que ao longo do tempo a tornaram utilitária. Esse rompimento, ocorrido a partir dos anos setenta, tornou a poesia destinada à criança e ao adolescente mais leve, mais brincalhona e comprometida com a estética. Além disso, em obras como A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes e Toquinho e Casa de Brinquedo, em que Toquinho faz parcerias com inúmeros letristas, a união da poesia com a música lega às crianças criações poéticas magníficas. Ficamos por aqui. Nos próximos encontros teremos oportunidade de comentar inúmeros exemplos da poesia infantil renovada. Contatos pelo e-mail: lenyfz@ibest.com.br


REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

BILAC, Olavo. Poesias infantis. Ri de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1949.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
JOSÉ, Elias. Bicho que te quero livre. São Paulo: Moderna, 2002
LAJOLO, Marisa. Usos e abusos da literatura na escola: Bilac e a literatura escolar na República Velha. Porto Alegre: Ed. Globo, 1982.

LAJOLO & ZILBERMAN. Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira: histórias, autores e textos. São Paulo: Global 4. Ed. 1986
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1985.
LISBOA, Henriqueta. O menino poeta. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984.

PAES, José Paulo. Poemas para brincar. São Paulo: Ática, 10 ed. 1996.


LÁ VEM CONTO!
INSEGURANÇA
por Deusiane de Andrade
(Publicado originalmente em setembro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)



Certa vez fui ministrar uma palestra em São Paulo numa Faculdade, e ao terminar, pedi indicação de um ponto de ônibus para ir ao aeroporto e voltar para casa. Fui a pé até o ponto, e vi na beira da calçada alguns mendigos, todos enfileirados, com seus cobertores, tentando dormir com todo aquele barulho de carros pelas ruas. Mas uma moça entre eles me chamou atenção... ela estava sentada num banco, com o olhar sério fixo em mim... sua aparência demonstrava que era jovem e bonita, apesar de seu cabelo estar todo desgrenhado, a pele suja e com algumas marcas de ferimento, as roupas aos farrapos. Naquele momento em que a vi, a impressão que eu tinha era que a qualquer momento ela me atacaria, roubaria minha bolsa cheia de papéis e com a passagem de avião. Eu não andava com dinheiro, sabia que ali era perigoso, então só vim com a passagem de volta. Andei o mais rápido que pude em direção à esquina, a fim de ficar mais próximo da movimentação de pessoas e carros. Mas quando percebi, ela continuava com aquele olhar medonho, fixo, não se movimentou. Dobrei a esquina e logo o ônibus chegou. Só consegui ficar aliviado quando entrei no aeroporto e subi no avião. Tomei meu remédio para dormir, pois ainda tinha medo de andar de avião, e só acordei quando cheguei no aeroporto perto de meu apartamento. Quando cheguei em casa, conferi todas as fechaduras, observei se todas as janelas estavam fechadas e só assim pude finalmente relaxar. Mas nesse momento em que estava deitado em minha cama, comecei a pensar: será que realmente ela queria me roubar? Por que eu não desconfiei dos outros mendigos? Eram muitos, inclusive tinham muitos homens e poucas mulheres, e só fiquei com medo dela... O que seriam aqueles ferimentos em seu corpo? E então fiquei envergonhado por meus pensamentos. Desconfiar daquela pobre moça, eu nem sabia sua história de vida, o porquê de ela estar ali, com um cobertor fino, com as roupas esfarrapadas... talvez ela só quisesse dizer naquele olhar que ela sabia se defender, caso eu quisesse atacá-la. Sabe-se lá se aquelas marcas em sua pele não seriam de estranhos que a encontravam no meio da rua e a maltratavam, sem ter motivo. Então me vi perto dessa data tão importante, o dia da pátria, e percebi que eu estou longe de ser patriota. Ela é filha dessa terra também, é brasileira, e não tem condições básicas para viver. Eu, que sou doutor, diplomado, que dou aulas em faculdades tive medo de uma pobre mulher que também estava com medo de mim. Em que mundo estamos? Não podemos sair de casa sem pensar nos perigos que nos espreitam lá fora, até os vizinhos são estranhos para nós. Eu moro num apartamento, um dia para atender uma cliente fui até sua casa ofertar nossos serviços. Quando olhei o endereço, vi que ficava na sala ao lado da minha, e nunca a tinha visto. Na verdade, nem paro em casa, trabalho o dia inteiro, e o pouco que saio na rua, já ando desconfiado. Até planejei uns anos atrás comprar uma arma para me defender, tirar toda a documentação, mas não tive tempo. E hoje, penso que não vale a pena. Tudo isso é fruto de uma sociedade doente, de governantes que só se preocupam com seus gordos salários, de cidadãos que votam por votar, ou por troca de favores, de pessoas estudadas, como eu, que só pensam em comprar seu carrão do ano, gastar com viagens e imóveis e não pensam em ajudar os outros. Vejo que a situação anda de mal a pior, mas nessas vésperas do dia 7 de setembro, fiz o propósito de fazer diferente: ajudar alguma instituição de acolhimento a moradores de rua e protestar por eles, já que muitas vezes nem conseguem ter esse direito por serem excluídos de todos os lugares.


                    QUE TAL POESIA?
POESIA, ESCOLA E ENSINO: parte III
Por Márcia Hávila Mocci
(Publicado originalmente em setembro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)



Por que motivo as crianças de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?
Carlos Drummond de Andrade


A criança estabelece poucos e raros contatos com a poesia na escola, pois a sala de aula não tem se revelado um espaço adequado ao lúdico, à leitura gratuita e à criatividade. Um dos motivos para esse descaso, segundo Averbuck (1982, p.  66), é que “A poesia e a arte em geral participam dessa área “não lucrativa” onde se inserem as atividades prazerosas e lúdicas, excluídas do programa de vida de uma sociedade voltada para o ganho”, como é o caso da sociedade capitalista em que vivemos.

Sendo a escola um dos segmentos da sociedade, ela é, como tal, reprodutora de sua ideologia e acaba, muitas vezes, tolhendo ao invés de incentivar a criatividade dos alunos. Essa postura, liga-se, de certa forma, ao preconceito que sempre houve em relação à arte, dita “subversiva” à manutenção da ordem vigente. De acordo com Cervera (1992, p. 89), a poesia tem sido o gênero mais esquecido da literatura infantil e a escola, apesar de apresentá-la em livros, pouco a tem explorado. Como se pode observar pela epígrafe que inicia esse tópico, o poeta Carlos Drummond (1974, p. 16), percebendo a lacuna na educação escolar em relação à poesia e a falta que esta faz à formação global da criança, salienta a responsabilidade da escola e a inadequação de sua prática em relação ao texto poético:

Por que motivo as crianças de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância que vai fenecendo à proporção que o estudo sistemático se desenvolve?

Ao expor os textos literários à criança, a escola racionaliza-os, roubando a espontaneidade da linguagem e domesticando a imaginação infantil. A rigidez da linguagem acadêmica favorece a perda da criatividade, mas a poesia, ao contrário, potencializa a palavra ambígua, possibilitando o recurso à fantasia.

Um dos grandes obstáculos em relação ao tratamento da poesia em sala de aula é o despreparo do professor, que, muitas vezes, trabalha o texto literário através da experiência empírica, apresentando à criança poemas que ele mesmo ainda não leu. O educador desconhece a importância do seu papel, qual seja, o de apontar caminhos para a sensibilização ao texto poético e que permitam à criança, no futuro, buscar seus próprios caminhos para chegar até ela. Cervera (1992, p. 91) destaca que o educador não precisa ser poeta,

(...) mas há de deixar transparecer seu gosto pela poesia e conhecimentos significativos sobre ela. Tampouco há que aspirar que as crianças sejam poetas. Bastará que a influência da poesia alcance a sua sensibilidade mais que o seu pretendido trabalho criativo; bastará que descubram o poder do som das palavras na organização do discurso; bastará, inclusive, que intuam que existem diferenças entre a linguagem da prosa e da poesia.

Segundo Cervera (1992), algumas atividades podem privilegiar os aspectos lúdicos e sonoros da poesia, como a leitura, a declamação, o canto e a composição de poemas. A leitura individual e silenciosa pela criança não é interessante; por ser uma linguagem condensada, a poesia oferece dificuldades de compreensão e, consequentemente, de fruição; por outro lado, a leitura oral feita pelo professor com expressividade e entusiasmo, é apreciada por ela. A declamação como prática escolar está em decadência, porém o autor a vê como uma alternativa interessante e que pode ser incorporada aos sistemas educativos que se dizem ativos, principalmente se for associada à pintura e à música. Uma das formas iniciais de contato da criança com a poesia pode  ser através das expressões folclóricas como os trava-línguas, parlendas e canções, pois, através dessas manifestações populares, a criança torna-se dona de uma realidade polivalente.

A canção, além de ser composta por poemas, pela sua própria estrutura melódica e rítmica, associa-se à poesia. Muitas vezes, por causa do ritmo, a canção popular apresenta deslocamentos de acento revelando um caráter irreal e lúdico. Quanto à composição, existem muitas atividades criativas, como os exercícios de versificação que, pelo fato de jogarem com as palavras nos versos, ajudam a criança a penetrar na poesia permitindo-lhe descobrir aspectos ainda não observados, relacionados à estrutura das estrofes e aos jogos fônicos. Algumas atividades podem ser propostas como completar versos e estrofes inacabados seguindo o jogo marcado pelo metro e pela rima, trocar palavras em posições estratégicas, criar poemas parecidos ao apresentado, compor adivinhas, redigir acrósticos a partir de uma palavra dada, substituir o texto de uma música por outro, entre outras.

Existem muitas formas de trabalhar a poesia em sala de aula, para efetivá-las é preciso que haja um trabalho de pesquisa por parte do professor, a fim de apresentar atividades que resgatem os aspectos lúdicos e os recursos da linguagem poética presentes na poesia infantil. Abramovich (1989, p. 94) destaca a leitura em voz alta com emoção, o encontro com poemas que trabalham as sensações e mexem com os sentidos (olfato, paladar, visão), a procura de poemas que abordem assuntos parecidos, mas de forma diversa, a troca de experiências pessoais a partir de um poema lido em um momento específico da vida, um caderno próprio para anotar poemas preferidos, musicar poemas diversos, descobrir ritmos novos e lê-los em voz alta, escrever poemas a partir de um jogo de rimas, as brincadeiras com o sentido das palavras, o destaque das palavras através da cor, da textura, do movimento, entre outros.

Um aspecto importante a ser observado em relação à poesia infantil é o da escolha dos poemas apresentados à criança; estes não podem ser de poetas iniciantes, que ainda estejam experimentando as formas, mas de autores que tenham um bom conhecimento sobre o gênero, sobre o verso, o ritmo e que sejam capazes de condensar as imagens provocando encantamento e fazendo com que o leitor sinta vontade de ler mais, de repetir e até memorizar alguns versos. Entretanto, o pensamento de que para aproximar a criança da poesia, basta apresentar-lhe poemas de qualidade está ultrapassado; segundo Averbuck (1982), é necessário que haja um trabalho de sensibilização em relação ao texto poético, trabalho que se inicia pelo entusiasmo do professor. A criança, por ser extremamente sensível, percebe quando o educador aprecia ou não determinado texto.  Ao ser lido em voz alta pelo mestre, o texto poético passa primeiramente pela emoção e sensibilização deste, que, se não apresentar entusiasmo e apreço, tornará a criança insensível e fechada a ele.

 REFERÊNCIAS

ABRAMOVICH, F. Literatura Infantil: Gostosuras e bobices. 4 ed. São Paulo: Scipione, 1989.

AVERBUCK, Lígia Morrone. A poesia e a escola. In: ZILBERMAN, Regina. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.

CADEMARTORI, Ligia Magalhães. Jogo e iniciação literária. In: ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil: Autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982.


RELEITURINHAS
E VIVERAM A REALIDADE PARA SEMPRE
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em setembro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)




Muitos séculos se passaram desde que os irmãos Grimm, nascidos na Alemanha, decidiram registrar as histórias de encantamento contadas pelos camponeses de sua época, era então o século XIX. Assim surgem os Contos de Fadas, narrativas com linguagem simplificada, carregadas de simbologia e uma perspectiva romântica do mundo. Tais recursos se preservaram em certa medida até hoje na literatura infantil, já que atualmente textos dessa natureza usam e abusam da simbologia e da linguagem simples, no entanto, a visão romântica há muito tem sido repensada, muitas vezes até reescrita.

Os irmãos alemães, formados em Direito, tinham lá seus motivos para se empenharem no resgate da tradição oral de contar histórias, eles sabiam que isso era feito há muitos anos e passaram a se dedicar a reescrevê-las, compilando o que ouviam dos camponeses de sua época. Não é preciso grande esforço para imaginar a inovação que isso representou naquele tempo, afinal, ainda hoje ficaríamos surpresos se algum historiador ou estudioso se dedicasse a registrar o que os funcionários de chão de fábrica das empresas modernas contam e recontam aos seus parentes. Incluir a visão proletária à história oficial, ainda que seja numa linguagem literária, é de certo modo, uma tentativa de questionar a perspectiva dominante de quem sempre acaba relatando a história de fato.

Seja como for, no século XIX a Europa estava tomada pelo pensamento romântico que propunha, dentre outras coisas, o apelo dramático do que quer que fosse escrito. Justamente por isso, os irmãos Grimm adaptaram as histórias que ouviam ao universo infantil, na tentativa de garantir ao texto um início harmônico, um desenvolvimento entristecedor e um final feliz, que ficou mundialmente conhecido como “E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE”. Isso em se tratando de textos que eram voltados para crianças, pois era preciso que elas imaginassem que, apesar de todas as mazelas da vida, ainda havia esperança.

Ao que parece, essa crença no futuro brilhante, no par perfeito, no homem ideal, na eterna felicidade, na juventude à prova do tempo, tomou consistência com esses contos (não somente COM eles, mas TAMBÉM) e perdurou por séculos a fio. Aliás, resquícios dessa visão romântica do mundo permanecem ainda hoje, num momento em que são postos à prova, à medida que o modo contemporâneo de vida se fortalece pela lucidez e visão realística de tudo e de todos.

Esse talvez seja o principal motivo pelo qual as RELEITURAS dos contos de fadas estejam tão em voga atualmente, e consequentemente justifiquem a existência de diversas manifestações nesse sentido, incluindo a dessa coluna, RELEITURINHAS. De alguma forma, a necessidade de romper com essa visão romântica e de observar a realidade se fortalece, dando espaço a manifestações no cinema, na música ou mesmo na arte fotográfica.

Recentemente a artista canadense Dina Goldstein promoveu uma exposição de fotos, denominada “Fallen Princesses” (princesas decadentes), que traz à tona exatamente esse questionamento, fotografando as princesas dos contos de fadas em situações do dia a dia. O resultado é algo que se manifestara até então na linguagem cinematográfica ou literária, iconograficamente, a dimensão alcança proporções interessantes. As imagens retratam situações realistas por demais para donzelas tão delicadas e gentis, desse modo, tem-se a Cinderela afogando as mágoas num copo de cerveja no bar, a branca de neve rodeada de filhos, com a presença, ausente, é claro, do príncipe, sentado confortavelmente numa poltrona, enquanto a princesa se divide no trato com as crianças. Assim segue a exposição... numa seção de rupturas da visão idealista do século XIX, substituída drasticamente pela realidade nua e crua no século XXI. Vale a pena conferir as imagens disponíveis no link a seguir.

Boas RELEITURINHAS!