maio 01, 2014

ENTREVISTA E ARTIGOS - Abril

ENTREVISTA CADU CINELLI
(por Carla Kühlewein)
(Publicada em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

CADU CINELLI é ator, artista visual e contador de histórias. Bacharel em Artes Cênicas-UNIRIO (2001), ARTES INTEGRADAS NA EDUCAÇÃO - pelo Instituto TEAR e Especialista em Psicologia Junguiana, Arte e Imaginário - PUC RIO. 
Desde 1998 integra e coordena o grupo Os Tapetes Contadores de Histórias, se apresentando com espetáculos, sessões de histórias e ministrando oficinas em importantes teatros, festivais e instituições no Brasil, Argentina, Benin, Bolívia, Espanha, Nicarágua, México, Peru, Paraguai e Portugal. 
Ilustrou com Warley Goulart o livro “O Congo vem aí” de Sérgio Caparelli.

Desenvolve projetos ligados às artes cênicas, oralidade e artes têxteis em espaços culturais, educacionais e coorporativos. Um dos seus projetos, DA PALAVRA AO FIO, foi contemplado pela Bolsa Funarte de Circulação Literária em 2011, pelo Programa de Difusão e Intercâmbio Cultural  do MINC em 2012 e pelo Programa de Fomento da Cultura Carioca em 2013.

Foi curador do CIRANDA DE HISTÓRIAS e DÊ UMA LEITURA DE PRESENTE (programações mensais de contadores de histórias nas Bibliotecas Populares do Município do Rio de Janeiro - entre 2009 e 2013); e também das ações artísticas do evento BABETTE do Coletivo Gourmet.

Também é colaborador artístico da COMPANY OF COMMON SENSE em Benin (África) e Londres (Reino Unido) desde 2012.


Foi oficineiro do programa SEGUNDO TURNO CULTURAL, quando realizou Ateliês de Histórias para alunos da rede municipal do Rio de Janeiro entre 2009 e 2013.

LEITURINHAS EM TAPETES
(por Carla Kühlewein)


LEITURINHAS - Conte um pouco a história de suas LEITURINHAS da sua infância até hoje.

CADU - Desde pequeno eu era muito inventivo, ficava brincando inventando as minhas histórias. Contava pra mim histórias infinitas que não terminavam e sim emendavam umas nas outras. Minhas brincadeiras tinham temas inusitados que se desenrolavam durante horas, dias, semanas, meses... mesmo quando eu ainda não sabia ler, eu adorava brincar com os livros também, lhes dava outras utilidades para construir o meu universo de brincadeira. Os livros eram castelos, muros, escadas, cabanas e o que mais dava na telha. Mesmo depois de ter aprendido a "ler", alguns livros continuaram a servir de cenários. Acho que isso me familiarizou afetivamente com este objeto. E quando comecei a ler, eu adorava as enciclopédias... depois vieram as ficções. Me lembro que duas me marcaram ainda bem novo: OS COLEGAS de Lygia Bonjunga Nunes, devia ter uns 7 para 8 anos e depois aos 9 li VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS... As imagens destes livros me povoam até hoje... Aliás essas imagens das brincadeiras e das "leiturinhas" da infância ainda habitam em mim, elas são, de alguma forma, em muitos momentos, disparadores de processos criativos.
Não sou um leitor voraz. Leio com calma, movido pelo entusiasmo e por algo que está acontecendo na minha vida. Leio desde romances, crônicas, ensaios, poesia (que gosto muito), contos, histórias ... reportagens, artigos, até textos dos curadores de exposições... catálogos, mapas, anotações dos outros... Gosto muito de escutar as pessoas contando suas histórias pessoais. Acho incrível! É uma leitura. 


LEITURINHAS -  TAPETES CONTADORES DE HISTÓRIAS é um grupo de atores e contadores de história que se preocupa em desenvolver a qualidade do contato entre as pessoas. De que maneira vocês procuram desenvolver essa qualidade a partir da contação?

CADU - Interessante pergunta. Há algo que se estabelece pela afinação da escuta, a partir do encontro promovido pela experiência estética. Este encontro que eu falo é de algo como o diretor de teatro, Peter Brook, comenta, que é quando um grupo de pessoas, que não sabe muito bem o que vai acontecer,  vai até um espaço. E um outro grupo de pessoas se preparou e sabe o que vai fazer e dizer neste encontro, mas não sabe quem são essas pessoas que estão para chegar. E aí quando se encontram algo se estabelece pela experiência estética que contamina ambos os grupos. Isso afeta o coletivo e também o individual. Há esta potencialidade transformadora que pode modificar e ampliar a qualidade do contato entre e com as pessoas. Estamos necessitados dessas possibilidades neste mundo do presente. Nossos encontros e contatos, em sua maioria, são muito rápidos, superficiais, sem tato e olhar.


LEITURINHAS - Afinal, como se constrói um tapete “contador de história”? Esse tipo de objeto dispensa o contador, pois qualquer um pode sê-lo, ou ao contrário, aumenta sua responsabilidade?
CADU - Um tapete que serve de cenário para uma história tem como impulso criador uma história. É a partir dela que se cria um tapete... se estuda, se aprofunda... É um processo de criação que demora, tem seu tempo. Atualmente estamos num processo, escolhendo as histórias, imagens e esboços para os materiais, até porque não trabalhamos só com o tapete. Temos como principio a relação  entre a oralidade e as artes têxteis - daí que podem surgir outros materiais como caixas de pano, avental, painéis, etc. O fio é interminável de possibilidades. Nos perguntamos muitas vezes assim: "qual material esta história nos pede, nos mobiliza?"
O material, o tapete, a partir da relação com o contador é uma coisa, sem ele é outra. Todos nós podemos contar histórias, quando deixamos o no nosso acervo numa exposição interativa, vemos o quanto os materiais, principalmente depois das apresentações, se tornam extremamente atrativos para se contar as histórias. Vemos isso, vemos como todos desde crianças e adultos querem fazer isso. Só que é diferente de quando fazemos e nos preparamos para uma apresentação. A diferença é que se preparar, se estuda, se desenvolve artisticamente para mostrar ao público - aí mora outro tipo de responsabilidade que tem relação com a qualidade estética do que está sendo feito e para quem. 

LEITURINHAS - O grupo TAPETES CONTADORES DE HISTÓRIAS contempla uma equipe composta por: Andrea PinheiroCadu CinelliEdison MegoHelena ContenteIlana PogrebinschiRosana Reátegui e Warley Goulart, enquanto coordenador (ao lado de Warley), como é a experiência de ter que liderar tantos talentos ao mesmo tempo?
CADU - Um grupo é um organismo vivo. Por mais que se tenha uma coordenação, uma direção, somos muitos, alguns mais atuantes no dia a dia. Tem que afinar a escuta, negociar entre os desejos e sonhos artísticos e como torná-los projetos, como amadurecê-los, como fazer isso individual e coletivamente. Muitas vezes não estão todos envolvidos o tempo todo em todos os projetos. Existem as prioridades de cada um. Às vezes casa, concilia, às vezes não. Estamos juntos há 16 anos, convivendo com as diferenças e as afinidades.  

LEITURINHAS - Este grupo existe desde 1998, qual o segredo para permanecer durante tanto tempo contando e encantando pessoas?
CADU - Acho que tem a ver com o que foi dito antes. Descobrir e redescobrir sempre como grupo e como indivíduo inserido nesta coletividade, e que esta também possa ser o lugar de realização artística e que possa tornar viável a realização pessoal. Acho que é um jogo da vida isso. A cada passo vejo que a gente lida com isso de um jeito. E claro, sempre se aprimorar, se repensar, se oxigenar. A gente vai mudando.

LEITURINHAS - Como resultado de anos de trabalho, vocês possuem hoje um acervo de objetos que representam histórias literárias e populares. Comente sobre o processo de confecção desses objetos.
CADU - Cada projeto, que inclui a criação de uma certa série de objetos, num determinada momento, é diferente. A cada vez partimos de um ponto distinto, vemos referencias diferentes e nos inspiramos por motivos outros. Isso resulta em criações diferentes permeadas por motivações particulares aos momentos do grupo e dos seus integrantes: o que estamos lendo, ouvindo, se é um projeto que fomos convidados para fazer, ou não. Temos atualmente 54 materiais, e entre eles há os que foram feitos por nós (integrantes do grupo), outros feitos pelo Tarak Hammam, alguns por artesãs peruanas no projeto MANOS QUE CUENTAN, e mais recentemente alguns que são resultados de oficinas de criação.

LEITURINHAS - Seu grupo já se apresentou em diversas partes do Brasil e do mundo, como é expandir essa arte tão peculiarmente brasileira para outras culturas?
CADU - Não vejo como uma arte brasileira peculiar. Acho que a arte de contar histórias é do ser humano, da humanidade. E até porque nosso grupo tem uma origem que começa do contato com o Tarak Hammam, que é francês, com o projeto dele que nasce na França, e também somos 7 pessoas, dois de nós são peruanos (a Rosana Reátegui e o Edison Mego). O que eu acho muito interessante é que mesmo na diferença ou na diversidade cultural o encontro acontece. Também vimos que essas relações entre a oralidade e a arte têxtil é mais antiga do que podemos imaginar.

LEITURINHAS - O grupo TAPETES CONTADORES DE HISTÓRIAS abrange uma gama de atividades variadas, como espetáculos, oficinas, palestras, exposições interativas, além das contações propriamente ditas. Qual o procedimento mais indicado para solicitar algum desses serviços?
CADU - O mais indicado é mandar um email para tapetescontadores@hotmail.com. E também visitar nossa página no www.tapetescontadores.com.br e curtir a página do facebook www.facebook.com/tapetescontadores.

LEITURINHAS - Além deste projeto, você criou também o DA PALAVRA AO FIO, juntamente com Rodrigo Cotrim, que envolve atividades de mediação. Comente um pouco sobre o modo como essa mediação acontece.
CADU - Da palavra ao fio surgiu de uma necessidade minha de realizar projetos com grupos ou instituições, em que eu pudesse estabelecer, a partir de vínculos afetivos com os públicos receptores, processos de mediação para ampliação da experiência estética. Experiências estas ligadas à oralidade e às artes têxteis. 
Em 2011 foi a primeira edição do projeto em Lençóis e distritos do entorno (BA), São Francisco de Itabapoana (RJ), e Serra Azul de Minas e Milho Verde (MG). Nestas cidades trabalhamos com a reflexão e implementação de ações ligadas à oralidade dentro de instituições culturais e educacionais que pudessem ter como propósito valorizar a literatura oral para reaproximação ao gosto da leitura e de escutar histórias. Já na experiência da edição de 2012, em colaboração com a Company of Common Sense capitaneada por Inno Sorsy em Benin, foi diferente. Lá colaborei na implementação do projeto L'ART DE LA LIBERTÉ, em que menores detentos da Prisão Civil de Porto Novo pudessem costurar e bordar painéis-livro para contar histórias da região. E agora em 2014 o projeto segue no alinhavo entre duas bibliotecas populares do município do Rio de janeiro e escolas do seu entorno.

LEITURINHAS - Diante do vasto repertório que vocês possuem, quais LEITURINHAS você recomendaria aos pequenos e grandes leitores?
CADU - Tem tanta coisa neste mundo. Mas tem um autor que sempre recomendo,  que é o Ricardo Azevedo. É um homem incrível, criativo e sábio. 

LEITURINHAS - Que dicas você daria a quem pretende ingressar ou já está envolvido na arte da contação de histórias?
CADU - Escutar as pessoas, suas histórias, os contadores de histórias, ler, contar muitas vezes, estudar e gostar do que está fazendo. Mesmo quem ingressa ou já está envolvido está sempre em formação até o final da vida... até porque são as nossas experiências de vida e memórias que também servem de suporte para nossa arte.


MEMÓRIAS DE UM CARNAVAL - RELATO AO PSICÓLOGO
(por Deusiane de Andrade)
(Publicado em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

Lembro como se fosse ontem, eu tinha apenas 9 anos quando eu, minha mãe e meu pai fomos para a avenida pular carnaval, como fazíamos todos os anos. As crianças todas da cidade iam, era uma festa de muita alegria e diversão, tudo muito saudável. Elas se reuniam com crachás identificados com o nome próprio e dos pais e um telefone, caso se perdessem dos responsáveis.

Nessa festa já tínhamos ido todos os dias, e esse era o último. Minha mãe, fantasiada de colombina e papai, de arlequim, e eu, como todo o carnaval ocorria desde pequenino, me fantasiava de bobo-da-corte. As ruas todas enfeitadas de confete, serpentina e sorrisos. A banda tocava as marchinhas mais conhecidas e alegres de todos os tempos. Meus amigos da escola estavam todos lá, pois como morávamos numa vila de classe baixa, não tínhamos condições de viajar nessa época. As famílias se reuniam felizes, como se fossem todas próximas, parentes.

Algumas crianças mais novas brincavam num parquinho não tão longe dali, numa praça, junto com seus pais, porém, mesmo longe da multidão, podiam ouvir as marchinhas, havia caixas de som espalhadas por toda a cidade. No meio daquele mar de gente tinham as mais variadas fantasias, desde bruxas, monstros, vampiros, palhaços, reis e rainhas, princesas e príncipes, até padres e freiras, alguns até com os uniformes das respectivas profissões. Inclusive, teve um fato muito engraçado, que um dos rapazes que estava vestido de policial eu conhecia, era vizinho, que realmente era policial, mas estava à paisana. Ele olhou para mim, e disse para nós ficarmos perto dele que ele nos protegeria de qualquer coisa que pudesse acontecer. Papai riu dele, e disse que não havia perigo nenhum numa cidade tão pacata como a nossa, que ele curtisse o carnaval sossegado.

Mas não deu nem dez minutos que havíamos tido essa conversa, de repente ouvimos estrondos, rajadas de tiro bem próximas a nós. Ele correu segurando-nos pelo braço, e quando viu que estava um pouco mais longe da multidão, tirou seu colete e entregou para minha mãe colocar nela, me perguntou se eu sabia chegar até o parquinho, e ao que eu falei que sim, pediu para que eu corresse o mais rápido possível sem olhar para trás e que ficasse na casinha da praça, e não saísse de lá até que alguém me achasse. Olhei para meu pai, com lágrimas nos olhos, me virei e comecei a correr, trombando com algumas pessoas, e continuando a correr. Encontrei na beira da calçada uma criança chorosa, que devia ter uns dois anos de idade. Peguei-a no colo sem hesitar, e levei-a comigo até o local indicado.

Estava completamente desabitada a pracinha. A essa altura, todos já haviam ido embora para suas casas, assustados com o barulho. Tentei acalmar a criança, agora eu via que era uma menininha loira de olhos azuis. Eu prometia que íamos ficar bem e logo tudo se acalmaria e nos achariam para nos levar para casa. Eu ainda estava atordoado, com o barulho dos tiros latejando na minha cabeça. Por um momento me bateu uma vontade louca de chorar, quando olhei para aquela menina que parou de chorar, mas que ainda estava com os olhos esbugalhados de pavor, e então entendia que devia dar forças para ela e protegê-la. Tentei não pensar em papai. Vi que mamãe tinha ido com o colete para outro lado, mas meu pai simplesmente ficou ali com o policial, e eu temia que os dois se arriscassem em tentar conter os donos de tal ação criminosa. Meu pai serviu o exército por um tempo, mas até onde eu sabia, naquele momento estava desarmado e destreinado. Passou mais ou menos uma meia hora, que parecia interminável, até que vi um vulto se aproximando da casinha. Era o policial vindo sozinho.

Ele disse que não havia achado minha mãe ainda, mas que meu pai estava no hospital, se recuperando do ferimento de uma bala perdida. Havia sido apenas de raspão, e não atingiu nenhum ponto vital. Fomos para a delegacia, e chegando lá, os pais da menina estavam aguardando ela. Eles iam comprar pipocas para ela quando a perderam. Fiquei contente e aliviado por ela ter reencontrado seus pais. Eles me agradeceram muito. Passado um tempo, mamãe apareceu na porta da delegacia sem nenhum ferimento, abracei-a bem forte, chorei desesperadamente, tudo o que estava segurando até aquela hora.

Todos nós ficamos bem após aquele triste episódio. Muitas pessoas foram atingidas, e algumas morreram. As crianças foram todas encontradas e protegidas, elas eram a prioridade da segurança.


Essa será a vez que, depois de muitos anos, irei a carnaval. Depois daquilo, juramos nunca mais voltar, mas meu neto quer muito conhecer como é. Não sei como será, mas farei o possível para irmos num local bastante protegido para que nada ocorra. Depois daquele dia, a violência no bairro e no Brasil todo só tem aumentado.

O FUTURO IMPERFEITO DE HULK
Por Alexandre Kazuo
(legenda da imagem: capa da reedição de "Futuro Imperfeito",
protagonizada pelo personagem Hulk da Marvel Comics)
(Publicado em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

No mês de março, a Panini Comics relançou um encadernado contendo o especial “Hulk – Futuro Imperfeito” lançado originalmente na segunda metade da década de 90. Uma vez que Hulk integra os Vingadores, o personagem se vê em alta sendo, aparentemente obsoleto. O conceito é conhecido, o dr. Bruce Banner é um cientista que realiza experimentos com a bomba gama. Numa explosão acidental, Banner é contaminado pela radiação, a qual altera sua estrutura.

Quando tem acessos de fúria, seu corpo expande e ganha cores esverdeadas, tornando-se Hulk. A origem do personagem, criado na década de 60 remete à paranoia nuclear vivida pelos norte-americanos na época da Guerra Fria. Se por um lado, a ideia inicial pode ter se tornado datada e científicamente “furada” (Banner no mínimo deveria contrair algum tipo de câncer), por outro o velho arquétipo do médico e do monstro reside no personagem.

Mais especificamente, em “Futuro Imperfeito” escrito por Peter David e ilustrado por George Perez, temos um vislumbre futurista do Hulk. Após um conflito posterior à terceira guerra mundial, o mundo foi devastado por uma explosão nuclear. Hulk tornou-se um tirano que governa o mundo, uma vez que a explosão aplificou ainda mais os seus poderes. Nas HQ’s, tramas que exploram a psiquê do Hulk são muito utilizadas e é comum ter tramas em que Banner, transformado, não perde a razão. Tem-se um monstro fisicamente invencível, com um cérebro privilegiado.

O Hulk do futuro se auto-denomina Maestro, governando Dystopia, uma das poucas cidades que restaram no mundo. Um grupo de rebeldes resolve reaver a máquina do tempo do ali falecido Dr. Destino (inimigo do Quarteto Fantástico). A ideia é tentar trazer o Hulk do tempo presente, para que ele detenha as mãos de ferro do Maestro. Todos os outros heróis morreram, sendo ilustrados numa página dupla genial desenhada por George Perez. No esconderijo dos rebeldes, há uma sala onde uniformes, armas, fotos e cinzas dos heróis são mantidos como relíquia, por um Rick Jones ancião, sentado na cadeira flutuante do professor Xavier. Rick Jones é o assistente e amigo do Hulk do tempo presente. Em sua origem, Banner se expõe à radiação gama na tentativa de salvar Jones.

Em suas primeiras histórias, Hulk era concebido como o ancestral dos atuais anti-heróis. Sem controlar sua racionalidade, o golias verde gerava confusões, as quais se tornavam pretexto para a união de outros heróis. Na origem dos Vingadores nas HQ’s, nos anos 60, Hulk fora envolvido a contra-gosto dos outros heróis, na equipe que precisava deter Loki. Algo um pouco diferente do que vimos no filme do supergrupo em 2012, onde o industrial milionário Tony Stark acaba por desenvolver um laço de companheirismo com Banner, um cientista renomado.

LITERATURA E ENSINO

LITERATURA INFANTO BRASILEIRA: NAS TRILHAS DA RENOVAÇÃO VII

(Por Leny Fernandes Zulim)
(Texto publicado originalmente em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)


1- Em busca de novas linguagens V: A intertextualidade


 Continuamos nossa conversa a respeito da literatura infanto-juvenil contemporânea para falarmos, nesse encontro, sobre mais uma das múltiplas características que ela nos apresenta a partir da década de setenta do século passado: a intertextualidade. Comecemos por conceituar intertextualidade: grosso modo podemos dizer que a intertextualidade é um diálogo entre textos, ocorrendo de forma mais implícita ou mais explícita e em diversos gêneros textuais. Isso equivale a dizer que na origem temos um texto, denominado texto original ou texto mãe, que acaba por dar origem a um segundo texto. Não vamos tratar aqui da intertextualidade nos textos científicos, informativos ou publicitários. Interessa-nos a intertextualidade nos textos literários. Vamos a um exemplo. Tome-se a estrofe inicial do conhecido poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias:
  

Minha terra tem palmeiras 
Onde canta o sabiá. 
As aves que aqui gorjeiam 
Não gorjeiam como lá.

  
Vejamos, em seguida, o poema de Cacaso Jogos Florais I:

  
Minha terra tem palmeiras 
onde canta o tico-tico. 
Enquanto isso o sabiá
 vive comendo o meu fubá.

     Fácil perceber o diálogo que se estabelece entre o texto original de G. Dias e o de Cacaso, não? Mas é preciso ver também que o texto de Cacaso se afasta da idéia observada no texto de G. Dias: é o tico-tico que canta na palmeira e mais ainda, vive comendo o fubá. Isso nos lembra outro texto, o famoso chorinho Tico-tico no fubá, de Zequinha de Abreu. O texto de Cacaso, portanto, dialoga com dois outros textos.

    O fenômeno da intertextualidade não acontece, necessariamente, apenas entre textos escritos. Pode ocorrer entre linguagens diferentes também, literatura e pintura, publicidade, cinema... Ela sempre existiu, mas ganhou relevância com os estudos de Bakhtin (1997), que afirma a dialogicidade da linguagem, defendendo a máxima de que toda enunciação pressupõe um diálogo posto ser ela gestada no social (Zulim: 2011).

    Vale lembrar que toda obra sofre influências contidas nas leituras anteriores de quem a escreveu que, por sua vez, se confrontam com os conhecimentos de quem lê. O resultado é que as mesmas idéias, ou os mesmos temas, circulam por aí na literatura do mundo com roupagens diferentes, já que temos um universo cultural englobando todos os textos.  Por vezes, um elemento desse conjunto estabelece uma relação de sentido com o outro e aí temos a intertextualidade ou diálogo inter-textos.

    Claro está que a percepção da intertextualidade liga-se ao "conhecimento de mundo", que deve ser partilhado entre autor e receptor dos textos. Relacionando um texto ao outro, como resultado de seu conhecimento de mundo, o leitor não só entenderá que a intertextualidade é uma das estratégias utilizadas para a construção dos mesmos como também, partilhando do mesmo conhecimento do autor, poderá fazer uma leitura mais profunda e rica. Num texto literário, normalmente, a citação de outros textos é implícita, não se indica o autor e a obra de onde se retira as passagens citadas, pois se pressupõe que o leitor compartilhe um mesmo conjunto de informações a respeito das obras que compõem determinado universo cultural (Platão & Fiorin: 1990).

    Diversas são as denominações conferidas às muitas formas da intertextualidade, de acordo com o encaminhamento dado pelo autor ao texto derivado, seja de aproximação ou afastamento do tema original. Aqui interessa-nos tratar de duas delas, sem aprofundar ou esgotar o assunto. As mais comuns encontradas na produção literária infanto-juvenil contemporânea são a paráfrase e a paródia. Vamos a elas:

    Quando falamos de paráfrase – do termo grego para-phrasis = continuidade ou repetição - estamos afirmando uma recriação, por parte do autor, que com recursos próprios reconta o texto original, ampliando-o. Como se lê em Sant’Anna (1985:17): “Uma paráfrase pode ser uma afirmação geral da idéia de uma obra como esclarecimento de uma passagem difícil.” E ele continua (id. ib:21-22): “Em verdade, tanto a ciência quanto a arte e a religião usam da paráfrase como instrumento de divulgação. Mais do que um efeito retórico e estilístico, ela é um efeito ideológico de continuidade  de um pensamento, fé ou procedimento estético.” Canção do Exílio, de Gonçalves Dias – possivelmente o texto da literatura brasileira que mais originou outros textos – pode mais uma vez servir de exemplo: tomemos a estrofe inicial já citada no início deste artigo. Vejamos como dois poetas e compositores- Tom Jobim e Chico Buarque- dialogam com o texto de G. Dias:

Vou voltar, sei que ainda 
Vou voltar para o meu lugar 
Foi lá e é ainda lá 
Que eu hei de ouvir cantar 
Uma sabiá, cantar uma sabiá
 Vou voltar, sei que ainda
 Vou voltar...

  
   Fácil perceber que os autores seguem a mesma idéia de G. Dias. Um “eu” longe da terra natal quer voltar para ela, o seu lugar. Mas, no século posterior ao do poeta maranhense, o drama é outro: o exílio não é voluntário. É ocasionado pela ditadura que se instalou no país trazendo a falta de liberdade. 

   Por sua vez, podemos dizer que a paródia é o extremo oposto da paráfrase. Ao invés de seguir a idéia do texto original, rompe com ela muitas vezes pela ironia e pela crítica,   negando o significado, polemizando, brincando. Sobre ela assim se exprime ainda Sant’Anna (1985:32): A paródia “é o texto ou filho rebelde, que quer negar sua paternidade e quer autonomia e maioridade, um ato de insubordinação contra o simbólico (...) Ela mata o texto pai em busca da diferença.” Sirva de exemplo, mais uma vez, o texto de Gonçalves Dias já aqui utilizado, desta feita dialogando com a Canção do Exílio de Murilo Mendes, da qual citamos a seguir a primeira estrofe:

 Minha terra tem macieiras da Califórnia 
Onde cantam gaturamos de Veneza 
Os poetas da minha terra 
São pretos que vivem em torres de ametista, 
Os sargentos do exército são monistas, cubistas, 
Os filósofos são polacos vendendo a prestações.


Observe-se o afastamento em relação ao texto de G. Dias. Mendes causa estranhamento com as adições de elementos estrangeiros. Em lugar do sabiá os gaturamos de Veneza; em lugar da palmeira macieiras da Califórnia. Esses elementos denunciam a invasão cultural estrangeira no país. Ela é tão nefasta, ao menos para o poeta, que chega a sufocá-lo e ele se sente exilado em sua própria terra (Nicola & Infante: 1988).

  
2- A intertextualidade na literatura infanto-juvenil brasileira

     Tendo já definido o que é intertextualidade, é preciso dizer que esta é mais uma das características da produção literária infanto-juvenil contemporânea, que acaba por imprimir-lhe um caráter renovador e de excelência estética. Ponto para quem, preocupado em formar leitores, tem a possibilidade de, a partir desses textos que dialogam com outros, ampliar a leitura dessa clientela em formação. 

     Para ficarmos em uns poucos exemplos, citemos alguns títulos que abordam a intertextualidade:

*O fantástico mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira, dialogando, de forma divertida e lírica com os principais personagens dos contos de fadas nossos velhos conhecidos, defendendo a idéia de que história não escrita é história perdida pelo tempo. Livro que vale a pena ser lido, sobretudo pela galerinha do quinto e sexto ano;

 * A história do lobo, de Marco Antonio Carvalho, reconta o clássico Chapeuzinho Vermelho pela ótica do lobo. Através dele fica-se sabendo que, na verdade, os responsáveis pelo enredo, longe de ser o lobo – que leva a alcunha de mau de forma injusta – foram os caçadores, que tinham na avó de Chapeuzinho uma defensora dos animais e os denunciara como depredadores da fauna e da flora. Desde o terceiro ano pode-se sugerir esta leitura;

 * Pintinho Pelado, de Cristina Luna, é uma bela releitura do Patinho Feio. Triste e choroso porque tinha o pescoço pelado, o pobre filhote vagava pelo terreiro, sob as risadas de todos os seus iguais. Encontrando um fio de lã, mostrou que sabia inventar usando-o como cachecol, escondendo o pescoço. Tempos depois, um dia ao acordar teve a maravilha das surpresas: o pescoço estava lindo e cheio de penas. Saindo para o terreiro com o intuito de mostrar que não era mais “diferente”, levou um susto: todo o galinheiro havia mudado. A onda agora era andar com o pescoço enrolado feito o Pintinho Pelado. Numa bela edição ricamente ilustrada por Ricardo leite, é leitura para alunos em processo de alfabetização;

* Amigos secretos, de Ana Maria Machado – que na década de 80 fizera furor com o seu História meio ao contrário, começando pelo avesso dos tradicionais clássicos infantis – essa obra leva o fantástico ao máximo grau, quando um grupo de amigos, a maioria adolescentes e pré-adolescentes, a fazer contato com os personagens do Sítio, de Lobato, D. Quixote, Tom Sawyer e tantos outros personagens nossos velhos conhecidos. Assunto de nosso artigo anterior, é leitura para leitores totalmente alfabetizados, vale dizer a partir do quinto ano;

Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, reconta, mais uma vez a velha e conhecida história da Chapeuzinho Vermelho. Desta feita não é  mais vermelho,  mas amarelo de medo do lobo. A forma como a personagem se livra do medo é bela e explicada pela lingüística. Obra destinada a qualquer idade, mas apropriada para os recém-alfabetizados;

Sete faces do conto de fadas, vários autores: apresenta releituras das mais conhecidas narrativas primordiais. Um grupo de literatos foi convidado pela editora para reescreverem esses contos, no volume que integra a série Sete faces, da Editora Moderna. Destaque para dois deles: Um par de tênis novinho em folha, por Pedro Bandeira, recontando o Cinderela Luz Verde, de Carlos Queirós Teles, recontando A bela e a fera. Leitura destinada a qualquer leitor totalmente alfabetizado.

O menino mais bonito do mundo, de Ziraldo, livro que encanta todo e qualquer leitor pelo primoroso projeto gráfico, com uma ilustração belíssima e o mesmo cuidado com a linguagem, o que faz dele uma pequena grande obra-prima. Dialogando com o Livro do Gênesis, Ziraldo conta a história da criação pela ótica de “um Menino” e vai, ao longo das páginas deixando pistas sobre o tema para fechar de forma magnífica a narrativa. Obra para fazer o leitor se deter e se deliciar a cada página, destina-se a quem tem boa competência de leitura para compreendê-lo em plenitude.  

    Para concluir, é preciso lembrar que, como qualquer leitura que se leve para a sala-de-aula, um livro que aborde a intertextualidade exige do professor o cuidado de prepará-la muito bem a fim de que seja, ao máximo, aproveitada. Por hoje é isso. Até o próximo encontro, ou, se você  quiser, faça contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.                                

                              

                              REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 BANDEIRA, Pedro. O fantástico mistério de Feiurinha. São Paulo, 4 ed. FTD, 1986. 
BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
BUARQUE, Chico. Chapeuzinho Amarelo. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

CAMPEDELLI, Samira Y.  Poesia marginal dos anos 70. São Paulo: Scipione, 1995. 
CARVALHO, Marco A. A história do lobo. São Paulo: Ática, 1984. 
DIAS, Gonçalves. Poemas. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, S/D.
KUPSTAS, Márcia (org.). Sete faces do conto de fadas. São Paulo, Moderna, 1993. 
LUNA, Cristina. Pintinho Pelado. Rio de Janeiro: Ao livro Técnico, 1986.
MACHADO, Ana Maria.. Amigos secretos. São Paulo; Ática, 2004. 
NICOLA & INFANTE. Como ler poesia. São Paulo; Scipione, 1988. 
PLATÃO & FIORIN.  Para entender o texto. São Paulo: Ática, 1990. 
SANT’ANNA,   Afonso R. de.  Paródia, paráfrase e Cia. São Paulo; Ática, 1985. 
ZIRALDO.  O menino mais bonito do mundo. Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1983. 
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.

ENTRELINHAS
(Texto publicado originalmente em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

Os 300 de Frank Miller
(por Alexandre Kazuo)
(Legenda da imagem: poster de divulgação do filme "300 A Ascensão de um Império",
retratando o ator Rodrigo Santoro)
No mês de março estreiou nos cinemas o filme “300 – A Ascensão de um Império” contando com o ator brasileiro Rodrigo Santoro no elenco. O filme não é exatamente uma sequência de “300 de Esparta” lançado em 2007, mas se dá como parte da mesma franquia. O “300” original não era uma recriação cinematográfica literal da batalha de Termópilas, ocorrida na antiga Grécia no ano 480 a.C. O filme de 2007 se baseava num roteiro de Frank Miller, o qual, por sua vez, vislumbrava o referido fato histórico numa HQ, originalmente publicada no Brasil, em cinco edições pela Abril.

Por se basear numa narrativa histórica, é claro que o conceito e a trama da HQ se davam de forma muito próxima a original, em que os 300 homens de Termópilas venceram os 100 mil soldados persas, nos primóridos da história do ocidente. O filme “300 de Esparta” teve o próprio Frank Miller encabeçando o staff além de Zack Snyder como, então, ascendente diretor. Após o bom resultado, Snyder dirigiu a adaptação de “Watchmen” e está a frente do personagem Superman, que ressurgiu no cinema em 2013.

Frank Miller iniciou um trabalho de quadrinização do roteiro que deveria ser visto em “300 – A Ascensão de um Império”, numa minissérie intitulada “Xerxes”. A mesma flutuou em prazos não cumpridos por Miller e deveria ter sido lançada nos EUA em 2011 pela Dark Horse, que editou o “300” original em território yankee. Este talvez tenha sido o problema do roteiro de “300 A Ascensão de um Império”, que até se aproveita do episódio da batalha de Salamina também ocorrida a 480 a.C.

Em linhas gerais, a trama do novo filme ocorre paralelamente à batalha de Maratona do primeiro filme, onde o rei Leônidas e seus 300 soldados espartanos vencem 100 mil persas. Xerxes (Rodrigo Santoro) é o sucessor do rei Dario e tem a personagem Artemisa como general de suas frotas marítimas. As embarcações persas protagonizarão uma batalha naval contra as embarcações gregas do general Temístocles. Fontes históricas realmente confirmam a presença da raínha Artemisa da Cária, na batalha naval de Salamina. Porém a caracterização da personagem da atriz Eva Green, ficou bem artificial, assemelhando-se a uma mulher contemporânea atirada a uma trama do século V. a.C. Os registros sobre a personagem histórica Artemisa são muito escassos. A batalha de Salamina ocorreu durante as Guerras Médicas e um registro da vitória dos gregos sobre os persas se dá com o enredo da tragédia “Os Persas” de Esquilo, escrita a 472 a.C.

“Xerxes” a HQ permanece inédita e seu autor se vê envolvido na produção do filme “Sin City - A Dama Fatal”. A produção, sequência do “Sin City” de 2005, continua levando à telona personagens da trama homônima das hq’s de Miller. O novo “Sin City” estreia nos cinemas em setembro. Por fim, advertimos que “300 A Ascensão de um Império” distorce alguns aspectos históricos e contem cenas de violencia e nudez.

VIDEOTECA

AS VIAGENS DE HAYAO MIYAZAKI
Por Alexandre Kazuo
(legenda da imagem: A personagem Chihiro de Hayao Miyazaki - Foto: divulgação.)

(Texto publicado originalmente em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

O criador japonês Hayao Miyazaki anunciou sua segunda aposentadoria após lançar o anime “Vidas ao Vento”, desenho animado que concorre ao Oscar de melhor animação, na premiação que acontece em 2 de março nos EUA. Miyazaki é um nome respeitado do gênero. No Brasil, no entanto, suas criações não são tão alardeadas quanto outros personagens voltados ao grande público, e cujas marcas faturam em licenciamentos. A produção mais conhecida de Miyazaki é “Meu Amigo Totoro”, voltado ao público infantil, produzido em 1988. Apresentando tramas que, não raro, envolvem ícones do folclore japonês. Totoro era um espírito protetor da floresta, que se torna amigo de duas meninas.
Não é a primeira vez que Miyazaki concorre ao Oscar. Na premiação de 2003, seu anime “A Viagem de Chihiro” (2001) levou a estatueta de melhor animação. Um feito considerável se levado em conta às produções de grandes estúdios norte-americanos, que sempre concorrem. Apesar das boas credenciais, “A Viagem de Chihiro” acabou restrito aos círculos de grandes aficcionados por animes japoneses, gênero que possui muitos adeptos no Brasil. Foi lançado em home vídeo (DVD) em nosso país pela Europa filmes.

Niponic gods

Tipo de animação cabível para crianças de 8 a 80 anos, “A Viagem de Chihiro” carrega um invólucro difícil de ser assimilado. Visualmente chamativo como todo bom anime, a trama fantasiosa evoca elementos absurdamente incabíveis à cultura ocidental. A menina Chihiro, de 10 anos, sai para passear com sua família, numa nova cidade para a qual se mudaram no interior, naquilo que parece ser um fim de semana qualquer. Acreditando terem se deparado com um parque temático desativado, uma família normal e contemporânea adentra um templo mítico desavisadamente. O pai e a mãe de Chihiro servem-se de um banquete que estava a disposição numa barraca. Subitamente eles se transformam em porcos.

Chihiro é encontrada e guiada pelo garoto Haku, o qual parece ser detentor de poderes incomuns, explicando a ela que seus pais se serviram de um banquete que deveria ser servido aos deuses. Ela se depara com uma casa de banho a qual está ao dispôr de espíritos e deuses oriundos da cultura nipônica. Escapar deste mundo onde mortais são rejeitados e trazer seus pais de volta à forma humana é o desafio da menina. Para isso, Chihiro, mimada e “reclamona”, precisa se submeter ao trabalho duro na casa de banho gerenciada pela bruxa Yubaba.

A narrativa de Miyazaki sugere um tipo de clamor pela verdadeira cultura do Japão. A terra do sol nascente passou por uma drástica expansão de valores ocidentais, dentro de si. Isso posteriormente à Segunda Guerra Mundial, na primeira metade do século XX, algo que sufocou muito da genuína cultura japonesa. Há sutis críticas ao consumismo capitalista ocidental que se instalou no Japão pós-guerra. Os elementos culturais orientais que aparecem em “A Viagem de Chihiro” praticamente não possuem referências no Ocidente. São ícones do folclore japonês, que com certeza nunca foram evocados em idiomas não nipônicos. Muitos talvez já se encontrem praticamente perdidos. E trama indevidamente se passa enquanto um anime qualquer voltado ao público infantil. Além do Oscar, “A Viagem de Chihiro” recebeu Urso de Ouro no festival de Berlim (Alemanha) em 2002.

Desde a segunda metade dos anos 90, as produções de Miyazaki passaram a ter maior visualização no Ocidente, uma vez que seu estúdio Ghibli assinou contrato de distribuição com a Disney. O anime “A Princesa Mononoke” foi um grande sucesso de Miyazaki no Ocidente, já contando com distribuição da Disney. A trama também evocava um Japão mítico povoado com deuses zoomórficos. Com um roteiro pertinente à Primeira Guerra Mundial, “Vidas ao Vento”, o mais novo filme de Hayao Miyazaki, entra em cartaz no Brasil possivelmente após a cerimônia do Oscar.

FELIZES PARA SEMPRE?
Por Carla Kühlewein
(crédito da imagem: UOL notícia)
(Texto publicado originalmente em abril de 2014 em www.leiturinhas.com.br)



Em setembro de 2013 foram apresentadas nesta coluna fotografias da artista canadense Dina Goldstein, que retratavam as donzelas dos contos de fadas em situações reais da vida, numa tentativa de oferecer uma continuidade que rompesse com o perpétuo "felizes para sempre".

De fato não é a primeira vez (e certamente não será a última) que fotógrafos se deixam seduzir pelos desencantos da fantasia, volta e meia uma manifestação semelhante aparece veiculada pela mídia internacional ou mesmo pelas redes sociais. É o caso da exposição do fotógrafo francês Thomas Czarnecki, que apresenta fins trágicos para as heroínas intocáveis dos contos de fadas.

A sequência de imagens surpreende por causa do apelo realista, afinal, Branca de Neve só poderia ter morrido daquela maneira... estirada no chão após comer a maçã envenenada pela bruxa. A Bela Adormecida jamais acordaria de seu profundo sono,  esquecida num quarto escuro e por aí afora.

Nada de príncipes salvadores, as fotos de Czarnecki retratam o fim das personagens tal como seria se de fato não tivessem sido socorridas pelos seus heróis perfeitos, impecáveis, verdadeiros artífices da bravura.

Segundo o site de notícias da UOL, que divulga as imagens, o objetivo do artista é "criar um choque de culturas" a partir do contraste entre a ingenuidade proposta pelos contos de fadas e o que a vida de fato lhes reservaria, caso elas fossem reais.

É curioso notar a tendência para esse tipo de desencanto  que a arte contemporânea tem buscado representar, já que fantasiar em tempos modernos tem sido uma tarefa cada vez mais árdua, para não dizer piegas, fora de moda...

A literatura, já há tempos se interessa por desencantos dessa natureza, tão reveladores quanto as imagens do francês Czarnecki.  Se lá ou cá, o fato é que revisitar os contos de fadas tem sido uma prática constante, normalmente no intuito de promover RELEITURAS voltadas para a modernidade. Travestidas de nova roupagem, essas histórias acabam por ganhar significados igualmente novos.

No entanto, para quem desconhece a versão original dos contos de fadas, pouco sentido deve haver em ver moças pálidas estiradas ao chão, com roupas antigas, que não a da simulação de um possível serial killer.

Mal sabem os desavisados leitores que o mais astuto dos serial killers não poderia jamais exterminar as princesas encantadas, porque elas, pelo sim pelo não, sobrevivem há séculos no imaginário coletivo e, por isso, já conquistaram lugar perpétuo na mente e no coração de quem as leu e as lê ainda hoje.

Na próxima coluna, mais fotos... Aguardem!

Boas RELEITURINHAS!  


Para ver todas as fotografias de Czarnecki clique no link a seguir:
http://noticias.uol.com.br/ultnot/album/bbc/120217_contos_de_fadas_album.htm