O ENSINO DAS LEITURINHAS
(Entrevista divulgada originalmente em janeiro de 2012 no site www.leiturinhas.com.br)
É mestre em Letras pela UEL, atuou nas redes públicas e privadas de ensino em Apucarana e Arapongas, integrou a Equipe de Ensino do NRE de Apucarana por cerca de uma década. No ensino superior foi professora de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na UNOPAR (campus de Arapongas) até 2007, quando o Curso de Letras foi extinto. De 1997 a 2011 integrou o Corpo Docente da FAFIJAN desempenhando as seguintes funções: professora de Literatura Brasileira; Literatura Infanto-Juvenil-não só no Curso de Letras, mas também, no Curso de Pedagogia; coordenadora do Departamento de Letras. Atualmente pertence ao Corpo Docente da Pós-Graduação da FAFIJAN e é secretária geral da Academia de Letras, Artes e Ciências Centro-norte do Paraná, da qual é integrante desde a sua fundação.
Além do livro Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala de aula, publicou também Leitura Literária: uma proposta concreta de trabalho e Via Poesia, além de inúmeros artigos em revistas científicas. Seu grande sonho é ver jovens e crianças curiosos, buscando o conhecimento, fazendo da leitura - sobretudo a literária - um instrumento para se tornarem melhores, mais reflexivos, analíticos, solidários e generosos. Afinal, é pela educação e pelo conhecimento que nos tornamos mais humanos, acredita ela.
Por seu último livro recebeu Moção de Aplauso pela Câmara municipal de Apucarana.
LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS?
LENY - Nossa, isso vai longe! Quanta recordação!!! E o interessante: todas ótimas! E haja espaço nessa entrevista para tanto. Passei quase toda minha infância no sítio. E posso garantir que o colorido desse tempo me veio sempre das leituras, cheias de todos os diminutivos que se possam pensar em termos de afeto com esses livros. Os Contos Vespertinos, veiculando valores e bons ensinamentos (lembro ainda em detalhes praticamente de todos, e, importante: permanece em minha biblioteca intacto, ainda que com a capa pedindo socorro!); O Sítio e As caçadas de Pedrinho (esse último ganhei da minha professora do terceiro ano porque tive a melhor nota). Ganhei também um livro de um tio chamado Leituras Seletas, que devorei. E aí, minha história de leitura se solidifica com a figura do meu pai lendo em voz alta para mim, meu irmão e minha mãe. Como afirmo em meu livro, terminada a leitura, quando íamos dormir, para mim a viagem continuava: ora passeando pelas ruas de Paris ou Londres, junto com o Pimpinela Escarlate... (história linda de amor e abnegação de um ser para salvar tantos outros...); pela Londres cheia de fog com O príncipe e o mendigo (como torcia para que aqueles dois pobres meninos parassem de sofrer); ora cavalgava audaz com um d'Os três mosqueteiros (quase sempre D'Artagnan); quanto sofri com Quasímodo, Esmeralda e Jean Valjean (Ah! O dia em que pude entrar e me ajoelhar na Catedral de Notre - Dame de Paris ... adulta que era, voltei a ser a menina que ouvia encantada as LEITURINHAS de meu pai e me flagrei tentando ouvir qualquer indício de Quasímodo vindo das torres...); O tronco do Ipê do Alencar (que encantamento com a figura de Mário, Alice, Pai Benedito...). Tantos outros personagens vivos em minha memória... Na cidade, no que hoje chamamos "Ensino Fundamental", marcou-me entre outras leituras O meu pé de laranja lima. Era pura emoção do começo ao fim, ora ria, ora chorava com o sofrimento de Zezé. E não pude acreditar, na época, que Deus tivesse permitido a morte do Portuga, deixando o menino órfão de quem lhe deu mais afeto... No hoje chamado "Ensino Médio", cursei o Normal, formando-me professora do então curso primário... Nele, com minha professora de Língua Portuguesa, descobri Camões e Os lusíadas, que tivemos que ler por completo e fazer estudo de um dos cantos para a turma. Em meu Curso de Letras travei conhecimento e me fiz íntima das obras de Jorge Amado (li de "um fôlego só" Capitães da Areia, Subterrâneos da Liberdade, Tenda dos Milagres) e Érico Veríssimo (com que arroubo li Incidente em Antares e O tempo e o Vento). Tem mais, muito mais, o que falta é espaço. Como não acreditar, então, que a literatura forma como a própria vida, como afirma Candido? Eu sou um exemplo disso.
LEITURINHAS - Quais os principais desafios de um professor de Literatura?
LENY - Que pergunta complicada!!! São tantos e tão diversos os desafios que o professor precisa enfrentar para formar o leitor... Falemos rapidamente de alguns. O primeiro talvez seja um dos mais importantes, pois se ele estiver presente na prática docente conseguirá minimizar a influência dos novos tempos com a informática, a internet e a TV, apontados, normalmente, como os vilões que emperram o trabalho do professor: antes de qualquer coisa, o professor precisa ser um leitor, viciado em leitura, apaixonado, capaz de se encantar com o enredo de um livro. Dessa forma ele não ficará indiferente a esse desafio e acabará contagiando seus alunos. Mas temos outros. É verdade não mais questionada que um ambiente rico em leitura contribui para a formação do leitor. Mas é verdade também que a absoluta maioria dos nossos alunos não tem um ambiente assim em suas vidas. Essa situação acaba transferindo para a escola (professor no meio do furacão) toda a responsabilidade de formar o leitor, pois ela é, para muitos, a única oportunidade de travar contato com esse mundo. Comento um terceiro desafio. Os demais podemos discutir em outra oportunidade, porque o tema é instigante. Lembro aqui, com tristeza, o espaço mínimo que tem a literatura nos currículos: no Ensino Fundamental o professor precisa se desdobrar para trabalhar todas as frentes (leitura, produção textual e língua portuguesa). E não há definição de tempo para cada uma delas. Assim, fica quase sempre a critério do professor essa divisão, o que significa dizer que enquanto algumas turmas têm garantido o espaço para essa leitura, outras nem tanto. No Ensino Médio a coisa não está melhor. O quase esquecimento da literatura fica provado se tomarmos os últimos exames do ENEM. Ela praticamente inexiste. E no curso de Letras, que forma o professor dessa disciplina, a carga horária minúscula para trabalhá-la acaba por colaborar, diretamente, para com o panorama observado em nosso cotidiano no que diz respeito ao assunto.
LEITURINHAS - No lançamento de seu livro (10.10.2011) LITERATURA NO ENSINO FUNDAMENTAL - DA TEORIA ÀS PRÁTICAS EM SALA DE AULA você afirmou que "O ato de ler e de escrever é um ato solitário que ao término se faz solidário" e em seguida mencionou "A gente nunca escreve para deixar guardado na gaveta. É preciso socializar o que se fez". Comente a relação entre essas duas afirmações.
LENY - Sim, eu afirmei isso e veja que não há contradição. Ler e escrever são atos que, normalmente, ocorrem no silêncio e na solidão, pois exigem concentração absoluta, reflexão. Isso, contudo, não significa que o autor esteja desligado do mundo, isolado em sua Torre de Cristal (crítica que os parnasianos e simbolistas sofreram e sofrem). Não. Apenas são atos que necessitam de certo isolamento. Quando se termina de escrever algo, quando se mira o resultado, sente-se, então, a necessidade de compartilhá-lo, sobretudo porque escrevemos para marcar posição, para expor nossa visão de mundo, nossos valores. Nesse momento ele se faz solidário, pois socializar o que se escreve é, em síntese, assumir um compromisso com a sociedade na qual nos inserimos, marcando nossa postura ante os acontecimentos.
LEITURINHAS - No mesmo dia de lançamento do livro, você afirmou ainda que "A literatura é um instrumento para a melhoria do texto". Comente um pouco sobre isso.
LENY - Sim, afirmei e, mais uma vez digo que essa afirmativa não contradiz a ideia de leitura literária como gratuidade e prazer, que prego, tomando as ideias de Candido e tantos outros teóricos. Veja, a literatura, como ensina Candido, forma como a própria vida, trazendo todas as nuanças que ela nos apresenta. Assim, a formação que propicia não se alinha com a da escola, repleta de métodos e disciplina. Contudo, quem lê por mero prazer, acaba assimilando um conhecimento maior sobre o idioma, ampliando o repertório do léxico, o domínio da sintaxe, escrevendo melhor por consequência. Concluo: a leitura gratuita e prazerosa traz, por tabela, maior conhecimento do idioma em todos os seus aspectos, porém de forma livre e prazerosa.
LEITURINHAS - Quais as dicas básicas que você daria para o professor de Literatura que tenta superar a difícil missão de incentivar a leitura?
LENY - No primeiro capítulo do meu livro apresento várias "dicas" que podem auxiliar o professor nessa tarefa. Em função do espaço comento algumas:
Ler com os alunos e para os alunos. Essa postura solicita do professor duas atitudes diferentes, mas que relacionam estreitamente. No primeiro caso, o professor deve, ao oferecer um tempo para leitura aos seus alunos (e falo de forma específica sobre a leitura do texto literário), ler também para dar exemplo. Dessa forma, além de ser exemplo, pode motivar o aluno a querer saber algo sobre o que o professor está lendo... No segundo caso, reservar um tempinho, seja no horário de liberar os alunos para o intervalo ou ao término da aula, para surpreendê-los com a leitura de um belo poema, de um rápido conto ou crônica, mesmo uma obra mais extensa, que pode ser lida em etapas, com os alunos aguardando o final.
Ter sempre uma caixa com livros, revistas, jornais e gibis na sala, fazendo dessas leituras um prêmio para o aluno. Essa caixa precisa ser apresentada à turma como um prêmio. Ao aluno que cumpre o solicitado pelo professor de forma satisfatória e antes de outros colegas, é dado o prêmio de ir até a caixa e escolher o que ler. Óbvio que nessa caixa o professor precisa selecionar materiais interessantes e que chamem a atenção da garotada.
Um professor leitor. Tudo isso, porém não ajudará em nada se o professor não for um leitor apaixonado. Não sendo ele um leitor, não conseguirá motivar os seus alunos, pois faltará o elemento chave que ajudará a formar o leitor: ele não saberá motivar e instigar seus alunos à leitura, falando das mais diversas LEITURINHAS com paixão e encantamento.
LEITURINHAS - Quais as LEITURINHAS que você indicaria para os pequenos e grandes leitores?
LENY - Gostaria de indicar muiiiiitas! Mas vamos a algumas. Aos pequenos não posso deixar de indicar clássicos como os encantadores contos de fadas e outros textos que vieram como consequência, entre eles Pinóquio, Alice no país das maravilhas, Peter Pan. Também livros como As aventuras de Tom Sawyer, A ilha do Tesouro, a coleção Abracadabra inteira, com destaque para A casa sonolenta, A bruxa Salomé e Os meus porquinhos; os livros de nosso Lobato e, contemporaneamente, alguns belos exemplares da sólida literatura infanto-juvenil brasileira: A fada que tinha ideias, Amigos secretos, O canto da praça, O fantástico mistério de Feiurinha, as aventuras com os karas (A droga da obediência, Pântano de Sangue, O anjo da morte, A droga do amor e Droga de Americana). Tem mais: Além da floresta mágica, As batalhas do castelo, Chapeuzinho Amarelo, Pintinho Pelado, A bolsa amarela, Corda Bamba, O menino mais bonito do mundo, o Menino da Lua...
Para os "grandes leitores" sugeriria Trapo (Cristóvão Tezza); O ciclo das águas (M. Sclyar); os novos contos de fadas de Marina Colasanti (Uma ideia toda azul, Entre a espada e a rosa, Doze reis e a moça no labirinto do vento, Longe como o meu querer e De seu coração partido). E faço questão de indicar dois estrangeiros que me encantaram, li num rompante e me apaixonei: O tempo entre costuras da espanhola Maria Dueñas e a trilogia Milennium, do sueco Stieg Lars.
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