janeiro 10, 2012

ARTIGOS DEZEMBRO DE 2011

Pelas ruas de Neo Tokyo - Alexandre Kazuo
(Texto publicado originalmente em dezembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Prólogo: Neo Tokyo/Japão 2019 a.D. após uma nova hecatombe nuclear o Japão viu desatrelar seu trauma mais antigo, aquele que rememorava a explosão da bomba de Hiroshima e Nagazaki na Segunda Guerra Mundial. Em meio a uma Tokyo pós-apocalíptica, a “terra do sol nascente” há trinta anos sobreviveu à Terceira Guerra Mundial, que aconteceu em 1988. Agora rebatizada Neo Tokyo planeja-se sediar os jogos Olímpicos na capital japonesa. Talvez uma tentativa de atrair novos investidores, talvez uma tentativa de incutir alguma alegria no coração coagulado de um povo por demasiado sofrido. A juventude definitivamente cansada da rígida educação tradicional se entrega às ruas. Formando gangues arruaceiras, personificando o cyberpunk vislumbrado pelo escritor norte-americano William Gibson. Punks pós-modernos consumindo drogas sintéticas, cortando avenidas em motocicletas dotadas de design futurista.

Corta para a realidade: Hollywood, Califórnia/EUA 2011 a.D. a Guerra Fria acabou há muito tempo. A paranoia nuclear foi substituída pelo temor do covarde terrorismo perpetrado por fundamentalistas árabes. Os filmes que mostravam rusgas militares entre yankees e soviéticos foram substituídos por adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos. Não, desta vez não estamos falando de heróis pomposos, nem anti-heróis carismáticos. Grandes graphic novels (novelas gráficas em livre tradução, quadrinhos adultos em outras palavras) como Sin City de Frank Miller já ganharam versões na telona. Entretanto, Hollywood desta vez está interessada em propor uma versão em ‘carne e osso’ do hecatombico ‘Akira’, criado pelo mestre japonês Katsuhiro Otomo. Otomo angariou fãs no ocidente ao fazer explodir na América sua animação criada em 1988. O projeto estético de Akira era, por exemplo, compatível com o pano de fundo do romance ‘Neuromancer’ (1984) do já citado William Gibson. E também próximo ao que se observava em produções hollywoodianas de ficção científica da década de 1980, tais quais o primeiro Exterminador do Futuro ou a trilogia Mad Max.

Akira era originalmente um mangá cuja primeira história se dera na publicação japonesa Young Magazine em 1982, tendo sido publicado no Brasil no fim da década de 80 em empreendimento editorial realizado pela editora Globo. Akira teria sido uma das primeiras tentativas de lançar o formato mangá no mercado editorial de quadrinhos brasileiro, algo que não deu certo naquele período. Um título que também chegou a circular nas bancas brasileiras naquela época foi o pouco lembrado Mai, a garota sensitiva. Akira manteve a tradição oriental, todo mangá de sucesso ganha sua versão em desenho animado (lá chamado de anime). Akira – o filme (1988) versão cartoon em longa metragem também foi lançado no Brasil, chegou a ser exibido pela Rede Bandeirantes e, em 2008, fora relançado em DVD pela Focus Filmes em razão dos seus vinte anos completos. Isso muito antes da explosão mangá/anime impulsionada por Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z acontecer em nosso país. Não se tratava de uma série animada regular, nem de algo destinado ao público infantil. Ainda assim a trama evocava elementos comuns dos mangás orientais, tal qual o forte laço de amizade que pendia para uma pulsão de amor e ódio entre os adolescentes arruaceiros Shotaro Kaneda e Tetsuo Shima.

Kaneda cruza as avenidas desertas da devastada Neo Tokyo cavalgando sua moto futurista de cor vermelha. Desafia a Gangue do Palhaço e mantém uma relação tensa de irmão mais velho para com o amigo Tetsuo, que às vezes o rejeita como se de fato fosse um irmão mais novo. A figura do ‘oni-chan’ é muito preponderante na cultura japonesa, ‘oni-chan’ é o irmão mais velho que deve dar exemplo aos mais novos. Kaneda, porém, é um ‘herói trágico’, pois as velhas ordens se dilaceraram com a nova hecatombe nuclear. Assim como a velha ordem oriental se perdera com a recolonização ocidental que tomou o Japão pós Segunda Guerra. Desde a antiga Grécia, a tragédia significa a imersão de uma nova ordem. E o crítico literário britânico Harold Bloom teria afirmado certa vez que o único homem que compreendeu plenamente Shakespeare foi o cineasta japonês Akira Kurosawa. Kaneda é o jovem nipônico rebelde, evocando arquétipos ocidentais tais quais os hell angels ou os personagens de Peter Fonda e Dennis Hopper no clássico filme Easy Rider (1969, no Brasil Sem Destino). Aliás, o filme Easy Rider é assumido como influência pelo próprio Katsuhiro Otomo, bem como a obra de mestres do mangá como Osamu Tezuka (Astroboy) e Shotaro Ishinomori (Cyborg 001 e Kamen Rider). Os elementos típicos de tramas de mangás não poderiam faltar em Akira. Tetsuo supostamente teria poderes paranormais, cujos efeitos se misturam aos efeitos de drogas sintéticas que ele também consome. O governo japonês tem consciência de uma geração de crianças paranormais, as quais poderiam ser oriundas das transformações genéticas causadas por explosões nucleares. Poderiam ser cobaias ou mesmo armas. Akira poderia ser um experimento, ou mesmo a mais poderosa destas anomalias...

Segundo constam as mais recentes informações, Akira já estaria em fase de pré-produção. A direção foi entregue ao espanhol Jaume Collet-Serra. O ator Leonardo Di Caprio seria um dos produtores já confirmados. Katsuhiro Otomo, em pessoa, assina a produção executiva a exemplo do que Frank Miller fizera com Sin City e 300, livres adaptações de obras suas. Katsuhiro Otomo é um nome querido e respeitado no Ocidente, o criador chegou inclusive a escrever algumas histórias do Batman para a DC Comics. Reside aí alguma garantia de respeito para com o conceito da trama. No entanto, já se confirma que plasticamente o desenrolar do roteiro se dará no ocidente. Neo Tokyo dará lugar a Neo Manhattan, algo que já causa algumas reações adversas por parte de fãs extremistas. Os personagens permanecem os mesmos. Os atores Garret Hedlund (de Tron: o legado) e Kristen Stewart (de Crepúsculo) já estão relacionados ao empreendimento cinematográfico enquanto Kaneda e sua namorada Kei respectivamente. Busca-se um candidato que personifique Tetsuo e o papel do Coronel, militar responsável pelo ‘projeto Akira’, já foi oferecido para alguns atores, dentre eles o japonês Ken Watanabe (O Último Samurai, Cartas a Iwo Jima). Eis algo diferenciado e que vale a pena aguardar. As filmagens começam em 2012, mas ainda não há previsão de estreia.

Em tempo:

- No último mês de outubro a cidade do Rio de Janeiro abrigou a segunda edição brasileira do evento Comicon. O nome (que junta as palavras ‘comic’ e ‘convention’) é o mesmo do mega evento anual que acontece nos EUA, em San Diego (Califórnia) geralmente no mês de julho. O Comicon brasileiro possui dimensões bem menores do que o Comicon yankee, uma verdadeira feira de entretenimento que abrange produtores de videogames, mercado editorial e mercado cinematográfico, além dos quadrinhos. Ainda assim estiveram no Brasil a arquiteta Caterina Crepax, filha do mítico Guido Crepax, italiano criador da Valentina, ícone dos quadrinhos eróticos europeus. Além dela, ninguém menos do que o escritor Chris Claremont, a mente por trás dos roteiros da melhor fase dos X-Men (entre a década de 80 e início dos anos 90). Segundo organizadores possivelmente um nicho de mercado que o Comicon Brasil do ano que vem explorará é o da Literatura Infantil.

- Um teaser oficial do filme The Avengers foi oficialmente postado no You Tube entre outubro e novembro. No Brasil o filme será provavelmente batizado como Os Vingadores e temos uma curta sequência de imagens mostrando Homem de Ferro (Robert Downley Jr.), Nick Fury (Samuel L. Jackson) Thor e Hulk, finalmente juntos no aguardado filme. A trilha sonora do teaser se dá com a levada tensa da canção ‘We’re In This Together’ do Nine Inch Nails. Para ver acesse o link abaixo:

FELIZ NATAL E FELIZ 2012 A TODOS QUE ACOMPANHAM ESTA COLUNA!


A FÚRIA DAS PRINCESAS - Carla Kühlewein
(Texto publicado em dezembro de 2011 em www.leiturinhas.com.br)

Quem não se lembra da cena da primeira animação de Shrek, quando Fiona, a princesa liberta do alto da torre pelo ogro verde bonachão, decide buscar comida na floresta? A cena meiga, a princípio, desvela-se repentinamente surpreendente e grotesca: a princesa canta diante de um passarinho, que a acompanha do galho de uma árvore, a “cantoria” remete aos clássicos filmes da Walt Disney, tudo parece harmonioso e mágico até que... Fiona entoa uma nota aguda por tanto tempo que o passarinho explode. A carne do pequenino bicho sacia a fome de Shrek, Fiona e do burro falante.
Como se não bastasse a performance quase tosca de Fiona, há outra cena no mesmo filme em que a fúria da princesa se faz presente, em contraste com a meiguice e quase apatia desse tipo de personagem descrita nos contos de fada. Diante da ameaça de perseguidores na floresta rumo ao reino Tão tão Distante, Fiona revela-se uma verdadeira ninja acrobática; em ritmo de Matrix, a princesa liquida em poucos segundos todas as ameaças, salvando o companheiro verde horrendo de mais um apuro.
De fato as RELEITURINHAS dos contos de fadas não são privilégios da atualidade, já há um bom tempo se cultiva essa prática literária de misturar e reinventar histórias clássicas. Porém, não há como negar que a criatividade de escritores aguça com o tempo, e como aguça... Mirna Pinsky, escritora de uma vasta obra literária infantil, publicou em 1986 (e olha que lá se vão anos a fio...) uma narrativa bem sugestiva: A ZANGA DA PRINCESA.
Nesse livro, Mirna desenvolve uma estratégia de leitura bastante peculiar: a princesa da história conversa com a narradora da história, Lu. Tudo começa quando Lu resolve contar a história de uma princesa muito rica e vaidosa, um menino chamado Renato e a Maria, empregada do castelo. A Maria era tudo de bom: boazinha, gentil, trabalhadeira, atenciosa, já a princesa... uma lástima! A fúria da princesa veio à tona quando Lu resolveu deixar o Renato apaixonado pela pobretona da Maria, aí a tal princesa foi à loucura! E não é que a tal princesa ficou tão revoltada com o namorico dos dois que começou a roubar as letras da história? Um dia era a letra “o” que faltava, no outro dia era o “e”, no outro era o “i” e assim foi indo, até a princesa estourar de vez e deixar um bilhete ameaçador pra Lu:

Se você não der um jeito do Renato ficar meu namorado vou quebrar a máquina e sumir com sua história.

Bom, o bilhete da princesa zangada dá início a uma série de bilhetes ameaçadores, tanto por parte da narradora como por parte da personagem. Conversa vai, conversa vem, as duas não entram em um acordo e o fantástico toma conta da história de Mirna Pinsky, pois, quem poderia imaginar que uma princesa pudesse opinar sobre seu próprio destino? Afinal... princesas não existem, certo? Muito menos se zangam! Será?
Atribuir características comuns a personagens clássicas dos contos de fada tem sido um recurso usado com frequência nas RELEITURINHAS dessas histórias, pensar que uma princesa pode se irritar com algo de que não goste e literalmente “sair do salto” é, além de hilário, desconstrutor, pois rompe com a imagem da princesa imaculada, de atitudes impecáveis, sempre bondosas e fieis. A princesa de Pinsky parece tão humana quanto a narradora da história. Mais uma vez o glamour do universo dos contos de fada é invadido por aspectos humanos, nada invejáveis, apenas pra lembrar que no fundo, no fundo, as personagens dessas histórias representam, de certo modo, os tipos humanos mais diversos e controversos, literariamente falando.
Se as princesas se zangam, será que também soltam pum?
É o que pretendemos descobrir na próxima edição, não perca!