março 01, 2014

ARTIGOS E ENTREVISTA - FEVEREIRO

ENTREVISTA - LEO CUNHA
(Entrevista publicada originalmente em fevereiro de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

Leo Cunha nasceu em Bocaiúva, norte de Minas, mas desde os 2 anos de idade mora em BH (Belo Horizonte). Desde 1993, já publicou 5 livros de crônicas e mais de 50 livros para crianças e jovens. Também traduziu outros 30. Seus livros já receberam os principais prêmios da literatura infantil brasileira, como o Jabuti, Nestlé, João-de-Barro, FNLIJ e o Prêmio Biblioteca Nacional, este último em 2013. É Doutor em Artes, Mestre em Ciência da Informação, Especialista em Literatura e Graduado em Jornalismo. Atua como professor universitário desde 1997, em cursos de graduação e pós-graduação.  


MIL E UMA LEITURINHAS 

LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS de sua infância até os dias de hoje?
LEO - Sempre li muito. Aprendi a ler muito pequeno e tinha muitos livros em casa, então não parava nunca. Minha mãe tinha mais de 10 mil livros em casa (hoje ela tem mais de 20 mil), de tudo quanto é tipo. Muita literatura infantil, muitos quadrinhos, muitos livros de crônica, poesia. Além disso, quando eu tinha uns 9 pra 10 anos, minha mãe abriu em BH uma livraria especializada em literatura infanto-juvenil, a "Casa de Leitura e Livraria Miguilim". Eu ia quase todos os dias pra lá, pra ler, fazer oficinas, conhecer leitores e escritores, e pra chupar picolés também.

LEITURINHAS - Escritor, tradutor, professor universitário, jornalista, marido, pai: em meio a tantas atividades como e quando você escreve?
LEO - Felizmente tudo o que eu faço tem ligação direta ou indireta com a leitura e a escrita. Até a vida familiar é uma grande fonte de ideias. Vários poemas, contos e mesmo livros inteiros eu escrevi inspirados em meus filhos. Por exemplo, "Castelos, princesas e babás" é inspirado na minha filha Sofia. "Dedé e os tubarões" é inspirado no meu filho. As disciplinas que eu leciono na faculdade também têm ligação direta com a literatura, arte e cultura: "Jornalismo Cultural", "Fundamentos de Cinema", "Crítica Cultural", etc.

LEITURINHAS - Um livro teu ganhou o prêmio da Biblioteca Nacional, na categoria Literatura Infantil: HAICAIS PARA FILHOS E PAIS. De onde surgiu a ideia de escrever para públicos tão diferentes? Como foi e é lidar com esse desafio?
LEO - Este livro reúne haicais que fui escrevendo ao longo de vários anos, desde que minha filha nasceu, em 2000. Adoro haicais e de vez em quando escrevo um com temas ligados à família. Este livro é uma coletânea destes poemas, todos inéditos. O título é uma brincadeira rimada, mas na verdade o livro é para todo mundo, pois todo mundo é filho e/ou pai, não é?

LEITURINHAS - Sua peça de teatro O REINO ADORMECIDO foi selecionada pelo PNBE e tem sido representada em várias escolas em todo o país. Você já teve oportunidade de assistir a uma dessas representações? A que você atribui a aceitação dessa obra?
LEO - Já assisti uma montagem ao vivo, numa escola e outra num vídeo que recebi. Mas sei que muitas escolas estão montando esta peça, talvez porque fala de temas universais (a morte, a esperança, o tempo), talvez porque lida com estes temas de forma bem divertida e carnavalesca. Ainda não há nenhum grupo profissional que montou a peça, mas espero que isso ocorra em breve.

LEITURINHAS - Enquanto escritor você varia os gêneros textuais (poesia, teatro, narrativas em geral), como é "experimentar" essas diferentes possibilidades? Há algum com o qual você mais se identifique?
LEO - Como falei lá no início, eu gosto de ler de tudo: prosa, poesia, crônica, teatro. Isso acabou se refletindo na minha escrita, que é bastante eclética. Meus livros são muito diferentes um do outro, não só em termos do gênero, mas também na linguagem, no estilo, no tamanho etc. Tenho atualmente uns 15 livros de poesia, 5 de crônicas, 1 de teatro, alguns de contos e recontos, algumas novelinhas. E dentro da poesia, por exemplo, eu também já me aventurei pela poesia mais lírica, pela mais lúdica, pela poesia visual, pela écfrase, pelos poemas musicados. Confesso que não consigo escolher um gênero favorito.

LEITURINHAS - O livro VENDO POESIA foi criado inteiramente por você (texto e imagem), comente sobre a diferença de apenas escrever ou ilustrar.
LEO - Eu definitivamente não sou ilustrador, não chego nem aos pés de nenhum ilustrador que já trabalhou comigo. Este livro é uma exceção porque se trata de poesia visual, na qual texto e imagem nascem juntos, inseparáveis. O texto faz parte da imagem e vice-versa.

LEITURINHAS - Além de todas as atividades que desempenha, você ainda dá oficinas de Poesia e Imagem, comente um pouco sobre esse trabalho.
LEO - Tenho algumas oficinas que costumo ministrar em escolas, eventos literários, encontros etc. Geralmente têm a ver com a criação de textos poéticos, ou com a criação de narrativas para crianças, ou ainda trabalho a relação entre poesia e imagem. É um momento em que consigo aliar meu lado escritor e meu lado professor.

LEITURINHAS - Você fez doutorado em cinema, há algum projeto que envolva a adaptação de alguma de suas obras para filme ou seriado? De que forma a perspectiva cinematográfica auxilia em seu trabalho enquanto escritor e ilustrador?
LEO - Não tenho nenhum projeto em andamento, não. Mas acredito que várias das minhas histórias dariam boas adaptações para um curta metragem (como A MENINA DA VARANDA, por exemplo), ou mesmo para um longa (como SORTE GRANDE, por exemplo). Um dia, quem sabe?

LEITURINHAS - Seu livro ERA UMA VEZ UM REINO SONOLENTO, escrito em parceria com Ricardo Benevides e ilustrado por André Neves, é o segundo livro da TRILOGIA DOS REINOS. Há previsão para o terceiro volume? Por que a ideia de escrever uma trilogia?
LEO - Estamos com este projeto meio pausado. Mas eu gosto demais de escrever em parceria. Acabei de lançar um livro escrito em parceria com a Alessandra Roscoe, de Brasília, e agora estou escrevendo uma narrativa em versos bem divertida, em parceria com a Marta Lagarta.

LEITURINHAS - Quais são seus projetos, não segredáveis, para 2014?
LEO - Um deles eu acabei de contar: a parceria com a Marta Lagarta. Além disso, tenho 3 livros prestes a serem lançados: "Língua de Sobra e outras brincadeiras poéticas", pela Cortez, "ABCenário", pela Autêntica, e "Arca-de Noé, uma história de amor', pela Nova Fronteira.

LEITURINHAS - Que dicas você daria ao pequeno ou grande leitor que tem interesse em ingressar na carreira de escritor? 
LEO - A primeira dica é meio óbvia: leia muito. Leia de tudo: autores diferentes, gêneros diferentes, épocas diferentes. Conheça várias maneiras de se construir um personagem, de seduzir o leitor, de trabalhar com a linguagem. Outra dica é: não tenha vergonha de mostrar seus textos para os outros: amigos, professores, colegas, escritores. O olhar do outro é quase sempre rico e inspirador, e pode levar seu texto para caminhos novos e inesperados.


AS VÁRIAS FACES DE ROBOCOP

Por Alexandre Kazuo
(legenda da imagem: Visual do novo Robocop - foto divulgação)
(Artigo publicado originalmente em fevereiro de 2014 em www.leiturinhas.com.br)

O personagem Robocop acabou se tornando um ícone da ficção científica do fim da década de 80. Robocop figurou em algumas poucas histórias em quadrinhos mas tornou-se icônico por causa de três filmes lançados no cinema: Robocop de 1987, Robocop 2, de 1990, e Robocop 3, de 1994, este último tido como não tão bom. O personagem que não era exatamente um personagem infantil, acabou se tornando popular entre as crianças. Um desenho animado do Robocop chegou a ser exibido na tv Globo, no começo dos anos 90 e uma série televisiva também foi criada, num tom bem menos violento e exibida na metade dos anos 90.

Robocop está voltando aos cinemas agora em fevereiro de 2014 no novo filme “Robocop: a origem” dirigido pelo brasileiro José Padilha, que ganhou projeção com os filmes “Tropa de Elite”. O conceito original do personagem, evoca algo do clássico “Frankenstein” de Mary Shelley, aplicado a uma trama policial violenta. Alex Murphy é um policial novato que acaba executado por traficantes. O que resta do corpo de Murphy é um utilizado num experimento, que idealiza um andróide apto a ser utilizado no combate contra o crime da cidade de Detroit (EUA). As memórias de Murphy ainda residem naquilo que se torna o disco rígido do Robocop, que passa a atuar na força policial de Detroit junto com a parceira de Murphy, a policial Lewis.

Os trailers do Robocop de José Padilha mostram que o roteiro explorará o vínculo que restará, entre Murphy transformado na máquina Robocop, e o seu filho; algo não tão enfatizado nos filmes dos anos 80 e 90. Nos filmes originais, o Robocop rodava a arma com sua mão antes de guardá-la no coldre, num estilo atirador de filme de faroeste, devido a lembrança de uma série televisiva que seu filho assistia. Uma ênfase na crítica política possivelmente será vista em tons fortes, uma vez que a trama original mostrava a velha Detroit sendo visada pela corporação OCP, que queria transformá-la em Delta City.

A corporação intencionava terceirizar os serviços públicos corrompidos pela burocracia, o que inclui o departamento de polícia. Por ser uma máquina, o Robocop se tornava algo incômodo e incorruptível. O alto índice de criminalidade também é um empecilho para a transformação da decadente Detroit, numa metrópole perfeita. O Robocop nunca seria corrompido por dinheiro, nem por entorpecentes. Aliás, o personagem passa boa parte dos roteiros caçando traficantes de drogas e estourando pontos e refinarias de tráfico.

Diversas histórias em quadrinhos do Robocop chegaram a ser publicadas no Brasil, ainda que não se tenha visto uma série regular com o personagem. O aclamado roteirisita Frank Miller, trabalhou no roteiro do segundo filme do Robocop de 1990, em sua primeira incursão pelo cinema. Miller chegou a escrever os encontros de Robocop com o Exterminador do Futuro, que aconteceram nas HQ’s em minisséries que saíram no Brasil pela ed. Abril.
O próprio "Exterminador do Futuro", vivido por Arnold Schwarzenegger, pode ser tomado enquanto ícone similar ao Robocop, sobretudo devido à relação entre o androide T-800 e o garoto John Connor em “Exterminador do Futuro 2” (1992). São ícones da era dos anti-heróis dos anos 90, dos garotos da chamada “geração x”, filhos de famílias desestruturadas e sem referências de figuras masculinas elevadas.

Em tempo:

- O autor desta coluna se recorda de uma linha de brinquedos do Robocop comercializada no Brasil pela extinta Glasslite, assim como dum álbum de figurinhas, isso na virada dos anos 80 para os anos 90. Mais além, ele se lembra de um conjunto de enfeites de aniversário do Robocop, mandado de presente por uma tia que reside em São Paulo/SP. O conjunto era tão legal que o autor desta coluna não quis que o enfeite fosse utilizado e guardou tudo para si, para não precisar dar as lembranças para os convidados. Ele assistiu ao (violento) primeiro filme do Robocop com 7 ou 8 anos de idade. Ele nunca arrumou uma arma, e também nunca entrou na escola atirando em todos que estivessem no pátio...

LÁ VEM CONTO!
PASSADO, PRESENTE, FUTURO
por Deusiane de Andrade
(Publicado originalmente em fevereiro de 2014 em www.leiturinhas.com.br)


Menina, saia da frente desse computador! Você ficou o dia todo aí, faz mal pra vista! Vovó, estou conversando com minhas amiguinhas. Vem aqui então que quero te contar uma história verdadeira. A menina desligou o computador e foi ouvir o que sua avó tinha a dizer. Eu acho estranho o jeito dos jovens de hoje, sua mãe eu já achava muito diferente de mim, mas você, nossa, nem se compara com minha infância e juventude! Sabe como brincávamos no meu tempo? Primeiro que nós tínhamos que trabalhar na roça, eu e meus irmãos. As mulheres tinham uma manhã ou duas por semana que iam lavar roupas na beira do rio, e as meninas iam junto. Nesses dias, nós ficávamos a tarde toda cuidando de casa, lavando tudo e preparando o café da tarde para os homens que voltavam da roça, e no outro dia íamos para a roça com eles, ficávamos trabalhando o dia todo. Brincávamos apenas aos sábados e domingos, mal víamos a hora de chegar o fim de semana, era sagrado. Juntavam todos os primos e vizinhos e era tudo brincadeira: sabugos de milhos, talos de abóbora, pedaços de retalho da mamãe, tudo virava festa. Não tínhamos boneca nem nada. Ah, e a juventude! Íamos à missa na cidade, e depois ficávamos na pracinha, olhando os rapazes de longe e suspirando, e foi numa dessas ocasiões que conheci seu avô, mas tive muita sorte de gostar dele e nossas famílias arranjarem nosso casamento. Naquela época a família que escolhia e não a gente. Nos demos muito bem sempre, mas no começo foi bem complicado, eu era muito nova, tinha uns 16 anos, mas fui me acostumando com a vida de dona de casa, casada, e logo veio sua mãe também. A infância dela foi bem diferente. Seu avô sempre teve boas condições financeiras, a família dele tinha muitos sítios, muitas posses, e ele ajudou muito minha família que era humilde. E então pudemos dar uma boa condição de vida para sua mãe. Nós não pudemos fazer faculdade, tudo que aprendemos foi com os familiares do seu avô, e com sua própria mãe, que nos ensinava o que aprendia na escola, e como eu gosto muito de ler, sempre acompanhava os estudos dela e lia os livros que ela trazia. Ela brincava toda tarde, morávamos numa cidade pequena, e aquelas horas reunia a criançada toda da rua, jogar bets, futebol, queimada, amarelinha... Você nem deve saber o que é isso né? Depois te explico, para mim na época também foi difícil entender como funcionava. Mas ela também brincava com as meninas dentro de casa, de boneca, historinhas, casinha, tantas coisas. Ela teve uma infância de verdade, mas também me ajudava bastante em casa, aprendeu logo cedo os afazeres para poder se virar quando ficasse moça. E depois se dedicou bastante aos estudos, ela e seu tio tiveram condições de entrar na faculdade, eu e seu avô preparamos tudo, mas eles também começaram a trabalhar logo cedo, mesmo quando nós insistíamos para que eles não trabalhassem ainda. Casaram-se tarde os dois.Seu tio com uma moça da faculdade que ele vivia discutindo, feito cão e gato, e no último ano de graduação resolveram se entender. Sua mãe trabalhou bastante, se especializou, e aí então conheceu seu pai na mesma empresa que trabalhava, se deram bem desde o início. E aí veio você, com toda essa tecnologia do mundo de hoje, os pais dando tudo do bom e do melhor, vocês comem o que querem, dormem na hora que querem, e na verdade não sabem aproveitar as melhores coisas da vida. Você disse que estava conversando com suas amigas não é? Na minha época, e mais ainda na época da sua mãe, sempre estávamos juntos, as crianças com as crianças e os adultos com os adultos, e quando se reuniam todos, aí virava festa. Era tradição reunir na sala os familiares e contar histórias. Papai contava histórias do bisavô, do tataravô, era muito bom, e com sua mãe não foi diferente, passávamos a tradição adiante. Vejo que só agora você está sabendo de tudo isso que estou te contando, pela sua carinha de espantada. Mas queria te pedir um favor: nunca se esqueça dessa lição que estou te dando, e de tudo isso que te contei. Talvez com sua filha você não sinta tanta diferença, mas com sua neta com certeza você vai sentir. Mesmo assim, não deixe de passar para frente a história de nossa família, e nunca deixe se perder esse contato humano, essa conversa pessoal, por favor, é o que peço! A menina ouvia encantada as palavras faladas por sua avó com tanta sabedoria, e ficou muito feliz de saber um pouco mais de sua história de vida.