novembro 03, 2013

ARTIGOS E ENTREVISTA - OUTUBRO


ENTREVISTA: SILVIA LIBERATORE

(Publicada originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

SILVIA LIBERATORE: UMA LIVREIRA EM LONDRINA
Profissional de Relações Públicas e Publicitária pela Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado, mestra e doutora em Cultura e Comunicação pela PUC/SP (Programa de Semiótica da Cultura). Nascida e criada em São Paulo, Capital, dedicou-se à carreira como professora, coordenadora do Curso de Relações Públicas e vice-diretora da Faculdade de Comunicação da FAAP/Fundação Armando Alvares Penteado, além de ser empresária na área de comunicação com a SLiberat Produções e Promoções Culturais. Ao se aposentar veio para Londrina, em 2006, e começou um novo capítulo de sua história com novas ideias, que deram origem à LIVRARIA DA SILVIA.



Visite o site da LIVRARIA DA SILVIA, clicando no link a seguir: 

SILVIA ENTRE LEITURINHAS

LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até os dias de hoje?

SILVIA - Eu comecei a ler muito cedo, como filha única, minha mãe se dedicava bastante a mim e ambos, pai e mãe, sempre foram leitores vorazes. Mamãe era professora e papai foi jornalista, inclusive revisor, portanto livros e letras eram parte do nosso dia a dia. O livrinho mais lindo que tive – e tenho até hoje – era uma história das irmãs coelhinhas, com ilustrações típicas inglesas, lindo!!! Mas foi Monteiro Lobato que me prendeu aos livros, definitivamente. E a Emilia mais do que todos!

LEITURINHAS - O projeto de abrir a LIVRARIA DA SILVIA sempre existiu ou aconteceu ao longo de sua vida? Comente um pouco sobre sua trajetória nesse empreendimento.
SILVIA - Nada disso! Eu nunca imaginei que um dia viesse a ter algum – qualquer – comércio: sou péssima vendedora! Gosto é de comprar livros... ajuda a explicar? Pois é assim que, depois de me mudar para Londrina, já aposentada mas fazendo meu doutorado, não conseguia achar os livros que queria – nem encomendando –, primeiro achei o espaço (o ponto certo) e aí a Livraria “pulou” na minha frente, como uma coisa irresistível a ser feita... Minhas filhas riram quando as consultei, contando sobre minha ideia de abrir uma Livraria, e disseram que era um truque, um “golpe” de minha parte para poder ter tooooodos os livros que eu queira... É, pode ser, mas é um investimento bem maior, bem mais caro do que comprar na Livraria Cultura como fazia antes! Há quem diga que a Livraria fica escondida, mas “quem procura acha”, não é? Na verdade este local tem um charme especial, fica sob lindas árvores, num recanto de uma casa antiga agora transformada em um pequeno centro comercial.

LEITURINHAS - Qual o motivo especial de colocar seu próprio nome na livraria?
SILVIA - Quando inventei montar a Livraria, começou a função de achar um nome e as sugestões foram aparecendo de todos os lados, mas o engraçado é que eu dizia que precisava de um nome para a minha livraria. De quem mesmo? Ah! (Livraria) Da Silvia, então... Ficou como os amigos diriam: “Vou pra Livraria da Silvia”, não é? E o divertido é que muitos dos clientes acabam sendo meus novos amigos, alguns viram até mesmo “amigos de infância”!

LEITURINHAS - A LIVRARIA DA SILVIA é uma livraria de atendimento, o que a diferencia de loja de livro. Esclareça um pouco melhor essa diferença e em que ela afeta no público consumidor que a freqüenta?
SILVIA - Podemos fazer a comparação com uma casa e um lar. Uma casa é como uma loja de livros ou uma fast-book, onde você vai e compra o livro que quiser, pronto. Especificamente para comprar aquele livro com objetivo definido. Uma livraria – esta Livraria – é um como um lar para pessoas se sentirem à vontade. Bem que não dá para colocar chinelos, mas é para entrarem e olharem, escolherem livros que possam interessar, sem pressa ou pressão. Podem (e devem) se sentar para ler um pouco e sentirem se é aquele livro mesmo que querem. Conhecem outros clientes, conversamos sobre assuntos diversos nos Papos na Livraria, cada um tem sua personalidade e gosto respeitado num espaço que é para lazer e diversão com uso da imaginação individual essencialmente.
  
LEITURINHAS - Além de ser um espaço que permite a leitura de livros no próprio local, a LIVRARIA DA SILVIA é também um local de encontro de artistas de um modo geral, professores a leitores que se reúnem para bate-papos sobre determinados temas, como você lida com essa versatilidade da livraria e em quê ela contribui para esse empreendimento?
SILVIA - A ideia é que uma Livraria seja um espaço de cultura, e como espaço de cultura, a Livraria da Silvia procura incentivar a troca de ideias, de experiências. Ou seria uma loja que vende livros, não uma livraria.

LEITURINHAS - Quais os próximos passos da LIVRARIA DA SILVIA? Algum projeto relacionado à arte ou a instituições de ensino?
SILVIA - Aumento dos Papos na Livraria, que são realizados aos sábados – tivemos muitos feriados atrapalhando o cronograma – e exposições de arte. No presente momento tenho duas telas maravilhosas de Julio Gentil, um artista plástico de Londrina bastante conhecido, em exposição na Livraria. Quanto às instituições de ensino, tenho dado apoio às iniciativas de estudantes sempre que ligadas aos livros, aos estudos. Por exemplo: alunos da Business Consultoria - Empresa Júnior do Curso de Administração da UEL me procuraram para saber sobre patrocínio para o COLAD - Conferência Londrinense de Administração, realizado em agosto. Com dinheiro seria difícil, mas foi possível ajudá-los com os presentes (livros) para os palestrantes, o que lhes possibilitou redirecionar o que gastariam neste item. Também já forneci livros para a premiação de um Concurso de Fotografias, para um estudante que precisava de apoio para uma viagem de estudos (ele tinha um projeto para financiamento muito bem bolado), e assim foi e será sempre que houver incremento à cultura.

LEITURINHAS - Sendo dona de um estabelecimento que promove a leitura, como você observa o baixo índice de leitores no Brasil e o alto índice de publicações?
SILVIA - Não sei se há, realmente, um alto índice de publicações. Imagino que exista um número enoooooorme de autores não publicados, sei que há um grande número de autores que publicam seus próprios livros, mas não sei com qual número eu deveria estabelecer a relação de alto (ou baixo) número de publicações. Pelo número de leitores? Não seria justo... uma vez que não sei quantas pessoas leem um mesmo livro e não é possível fazer uma relação com número de bibliotecas (não apenas há públicas, mas em cada escola, em classes, etc). Pela venda de livros? Em qual número eu deveria confiar? Infelizmente os números que vejo não me parecem confiáveis. É bom reparar como crescem ou diminuem conforme os objetivos da divulgação, então... Mas concordo com o baixo índice de leitores, só que não concordo com o argumento corrente sobre desinteresse. A mim parece, pela experiência destes poucos anos de Livraria, que as pessoas não têm acesso aos livros por mil razões diferentes, incluindo a alegação de que sejam caros. São caros pelos encargos de toda a cadeia produtiva, não por lucro deste ou daquele ponto. Porem o pior é a falta de distribuição dos livros, é a falta de pontos de venda, a falta de livrarias mesmo. São muitas as pessoas que gostam de ter seus próprios livros e isso não é característica de nenhuma classe social, econômica ou cultural. Também tenho uma variedade imensa de perfis de clientes que compram e trocam livros com amigos, vizinhos, parentes e todos compartilham livros com muito carinho. Há os que guardam e os que passam seus livros adiante, acreditando que eles devem ter vida própria, seguindo seu destino de encantar.

LEITURINHAS - Há quantas andam os audiolivros na livraria? Comente um pouco sobre esse universo ainda não muito conhecido no Brasil.
SILVIA - Infelizmente ainda saem muito pouco, são ferramenta de entretenimento ainda praticamente desconhecida. Mas são imbatíveis como companhia para viagens de carro! Acredito que como todas as formas de mídia, existam seus usuários bem específicos e estão em andamento algumas tentativas para utilização por pessoas com outras formas de deficiência além da visual, como deficiência motora. O fato é que para algumas dessas tentativas clínicas (como instrumentos de aproximação, por exemplo) já parecem ter algum resultado. Mas no dia a dia, onde o consumo pode ser bem maior, os audiolivros ainda são pouco conhecidos, mesmo. Tenho deixado rodar histórias na Livraria para exemplificar, mas é , realmente, um “trabalho de formiguinha”...

LEITURINHAS - Que dicas você daria para quem gostaria de adquirir o hábito mais constante da leitura ou mesmo aperfeiçoá-la?
SILVIA - Acredito que o gosto pela leitura se faz lendo. Lendo o que se gosta, lendo o que dá informação interessante, que vire conhecimento. Ninguém gosta de ser ignorante, todo mundo gosta de saber mais, seja no assunto que for, então eu acredito em muita informação sobre os inúmeros assuntos para leitura e muita oferta de leitura, sem preconceito. Há autores de que eu gosto e os de que eu não gosto, mas outras pessoas gostam. E daí? Que bom! Tem para todo mundo! O conteúdo é que tem que ser produtivo, construtivo, para a formação de um bom repertório de informações, de conhecimentos, e aí a pessoa poder escolher como usá-los. Com o aumento gradativo de leitura as pessoas vão selecionando naturalmente o que ler em seguida, mas tem que ter variedade, tem que haver oferta de diferentes textos, de preferência com qualidade. Mas pode ser ruim do ponto de vista de uns ou outros, só não pode ser chato, que aí vai afugentar mesmo! Não é só publicar, mas há que se saber fazer plural na cultura, no conhecimento, na educação do dia-a-dia que começa na família e não se limita ao tempo na escola. Há muita publicação e os livros estão cada vez mais atraentes, com capas instigantes, chamativas. Deixe livros disponíveis, livros interessantes – nada de chatice, de “temas obrigatórios” – que eles (os livros) vão chamar seu próprios leitores, não tenho nenhuma dúvida!


VIDEOTECA

RIO: NO RITMO DA COPA
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)




Para quem acha que a copa no Brasil movimenta somente os ânimos da FIFA e do turismo brasileiro... MAS QUE NADA! O cinema também entrará nessa! Em 2014 está prevista a estreia da segunda edição da animação "Rio".

Em 2011 o brasileiro Carlos Saldanha dirigiu a animação RIO, toda ambientada na "cidade maravilhosa", daí o título, e deu às telas de cinema o colorido das espécies tipicamente brasileiras, como a ararinha azul, BLUE, e sua coadjuvante e também amante: JADE. A trama que envolveu em especial esses dois espécimes, traz como pano de fundo o tráfico ilegal de animais tidos como "exóticos" e por isso, muitas vezes, em risco de extinção. Como não poderia deixar de ser, BLUE tem uma dona dedicada e JADE um dono, que num tempero hollywoodyano se apaixonam, tal como as aves azuladas.

A trajetória de Saldanha chama a atenção pelas gradativas conquistas: segundo o site ADORO CINEMA ele começou como supervisor de efeitos especiais de "Um passe de mágica", em 1977, foi co-diretor de "Robôs" e "Era do gelo", em 2002 e recentemente como diretor de "Rio".
A repercussão do filme parece ter sido positiva, já que no ano seguinte, em 2012, foi indicado ao Oscar de melhor canção, com REAL IN RIO, interpretada por Sérgio Mendes, posteriormente mixada pelo grupo Black I Peace. A música concorreu ao Oscar... MAS QUE NADA! Não levou o Oscar, apesar disso figurou entre outras animações polpudas do setor cinematográfico.

"Rio 2" trará os mesmos personagens da primeira edição vivenciando aventuras durante a copa do mundo no Brasil. Uma temática bem providencial para um filme que parece tender para a elevação de uma imagem positiva do país. Resta saber qual será a mácula nessa sequência do filme, já que em Rio 1 a tônica era o tráfico ilegal de animais.

Boas LEITURINHAS!

Em tempo:
Segundo a revista online da VEJA, Carlos Saldanha está negociando a direção de um possível primeiro filme com atores "de carne e osso", um longa adaptado de um seriado, que terá o nome de Rust. Há que se conferir como o diretor brasileiro se sairá nessa nova empreitada!


LITERATURA E ENSINO

LITERATURA INFANTO BRASILEIRA: NAS TRILHAS DA RENOVAÇÃO IV
Por Leny Fernandes Zulim
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)


4.1- Em busca de novas linguagens I

Esse percurso histórico, que fazemos para conhecer mais a literatura infanto brasileira, nos deixa agora nas últimas décadas do Século XX e na primeira década do Século XXI. E como já se afirmou aqui em encontros anteriores, é a partir da década de 70 do século passado que a produção literária para crianças e adolescentes rompe com a tradição pedagógica que sempre a caracterizou, comprometendo-se com a estética e com o mundo de seu destinatário (Torquato & Zulim, 2010). Além disso, consolida-se em termos de qualidade e quantidade, com autores que ganham notoriedade em âmbito nacional e internacional.

Um olhar atento sobre essa produção literária permite observar algumas tendências. Dentre elas destacam-se, segundo Lajolo & Zilberman (1985), e já abordadas por nós em encontros anteriores, A narrativa infantil em tom de protesto, A literatura infantil em ritmo de suspense A ruptura com a poética tradicional. Hoje iniciamos nossa conversa sobre a última tendência apontada pelas autoras: Em busca de novas linguagens. Esta parece ser a tendência mais rica do período, apresentando, entre outras características, a fala coloquial, a abordagem do universo infantil tanto pela linguagem (informal, brincalhona...) quanto pela temática (que retrata o cotidiano infantil); a presença do cenário urbano com suas mazelas e conflitos; a preocupação com a autonomia do pequeno leitor, que passa a ter espaço e voz; o registro de um universo que envolve a criança num mundo de cores, sensações e sinestesias. Além disso, encontra-se nela o esmerado cuidado gráfico em que a imagem e a diagramação acabam por complementar o texto verbal; por vezes incorpora também o aspecto fabulístico com animais domesticados, personificando-lhes virtudes e vícios humanos que simbolizam a criança, incorporando sua personalidade e modo de ser (Torquato & Zulim, 2010). E, acima de tudo, chamam a nossa atenção as experiências com a linguagem, elevando-a ao máximo valor estético.

Passemos então a comentar algumas dessas características dessa tendência, valendo-nos para isso, de algumas pequenas obras primas publicadas nesse período:

a-      A oralização do discurso: Um olhar atento permite verificar nessa literatura infanto pós-70, o afastamento daquela linguagem erudita anterior a Lobato, que tornava os livros, por vezes, um tanto incompreensíveis aos pequenos leitores. Há, entre boa parte dos autores da fase que ora comentamos, o cuidado em ser acessível ao seu público sem, contudo, abrir mão da estética. Essa preocupação acaba por imprimir um registro mais coloquial a determinadas obras. E a opção por esse registro mais flexível está atrelada ao fato de que o cenário urbano é o espaço de conflitos sociais e individuais, crises e desajustes. É também o lugar privilegiado da produção e divulgação da cultura de massa que eclode na época, com a qual não só a literatura infantil guarda pontos de contato. Vejamos o que afirmam sobre isso Zilberman & Lajolo (1986:178)

A adesão da literatura infantil contemporânea ao urbano ainda tem outras conseqüências: legitimou definitivamente o tom de oralidade e coloquialismo, isto é, legitimou literariamente um registro lingüístico bastante mais flexível do que o padrão de linguagem em vigor nos primeiros livros brasileiros destinados à infância.
         
Para exemplificar rapidamente essa característica, tomemos dois livros: Ritinha Danadinha e Raul da ferrugem azul, cujos autores são Pedro Bandeira e Ana Maria Machado, respectivamente. No caso da primeira obra citada, lê-se já na contracapa: “Para Ritinha, o mundo é do jeito que ela acha que é. Então, por que a língua não pode ser do mesmo jeito? O texto, que provoca o pequeno leitor, já de certa forma antecipa o que vem na trama: Ritinha não está disposta a aceitar uma linguagem adulta, culta, erudita, mas decidida a fazer seus próprios experimentos com ela. Logo à página 13 lemos:

Ritinha estava de “burro amarrado.”
Só que a menina não sabia direito por que a mãe tinha dito que ela estava de burro amarrado. Primeiro porque ela não tinha nenhum burro. Segundo porque, já que ela era menina, deveria era ter uma burrinha, de laço entre as orelhas, e não um burro, como um menino qualquer. E terceiro porque, se ela tivesse um burrinho amarrado, ela desamarrava, montava e ia (...)

Claro que a primeira coisa que chama a atenção ao ler o trecho em destaque é o fato de que a menina não consegue entender os gêneros. Para ela se é feminino, é preciso que a palavra termine em a. Essa idéia da garota fica expressa já no início da história quando ela atende a um vendedor que pergunta pela mãe ela responde que: Está. Mas está tomanda banha (p. 07). Mas, nesse pequeno trecho há outros registros que expressam o coloquialismo e a oralidade, num compromisso do autor com seu leitor mirim. Senão, vejamos: a própria expressão burro amarrado é popular significando estar de mau humor, sem querer conversa; As expressões só que e deveria era ter são expressões típicas da linguagem oral. Por sua vez, lemos à página 17: Puxa, Felicidade! Eu não quero que você fique com dor de barriga por minha causa... Ora, as expressões Puxa e dor de barriga ratificam o registro oral de que falamos, fugindo do erudito. E assim o livro segue, com uma linguagem gostosa, coloquial, que flui e seduz o leitor.

Em relação ao segundo livro citado, Raul da ferrugem azul, destinado a pré-adolescentes e adolescentes, a autora consegue apresentar um discurso bem de acordo com os leitores a que se destina e com o mundo dos pobres moradores de periferia, com os quais o protagonista Raul faz contato. Como exemplos, os trechos a seguir: “_Agarra ele aí, Raul (...). _ Pô, seu idiota, que é que você está esperando? Enche ele de porrada... (...) _ Corta essa, cara. (...) Aí o Guilherme já vinha chegando e enchendo o Márcio de bolacha (p. 10); Aí foi a surpresa de ouvir Zeca dizer: _, gente, o abraço não é para mim, não. A festa é com o Raul. Se não fosse o passe dela, o gol não saía. (p.16).Deus me livre, Raul. Na cabeça é fogo (...). quando enferruja, né?  É difícil de usar. É capaz até de ranger (p. 39). Observem-se todas as palavras e expressões em itálico: são o registro não da norma padrão, mas da fala cotidiana. Fechando o tópico, vejamos o que afirmam Lajolo e Zilberman (1985: 153): “Essa oralização do discurso nos textos para crianças torna-se bastante coerente com o projeto de trazer para as histórias infantis o heterogêneo universo de crianças marginalizadas, de pobres, e índios.” E, dizemos nós, para registrar também o criativo universo infantil, caso da obra de Pedro Bandeira citada acima.

b-      LengalengasRegistra o Dicionário Aurélio (1999:1200) sobre o verbete lengalenga: conversa, narração ou discurso monótono, fastidioso, enfadonho; arenga, ladainha, lenda. Interessam-nos, sobretudo, as palavras conversa, narração e lenda, pois nos levam, de imediato, à literatura, ao ato de narrar, que acrescido da palavra conversa, faz pensar na linguagem oral cotidiana. Associadas a brincadeiras e jogos, as lengalengas são textos com frases curtas que, normalmente, rimam e com muitas repetições, fazendo com que os ouvintes, ou leitores possam decorá-lo com muita facilidade. São textos, livros, mais direcionados às crianças da primeira infância, que conquistam os pequenos pela técnica da repetição. A cada página virada, repete-se uma mesma estrutura que logo os pequenos leitores passam a repetir com o narrador. Citemos dois casos emblemáticos: Maneco Caneco Chapéu de funil Menina bonita do laço de fita, de Luís Camargo e Ana Maria Machado, respectivamente. No primeiro caso, Maneco é um boneco montado a partir de objetos de uso doméstico, cansados de não fazer nada, como vassoura, concha, caneco, pá ...  Andando a esmo o boneco encontra um armário (não sabemos o como nem o porquê- que neste caso são completamente desnecessários) em forma de castelo onde encontra roupas para vestir-se e... espanto geral!- um leitão LEITOR que o leva para aventuras do mundo da leitura. Camargo constrói aqui uma obra prima: o leitor vai passando as páginas e vendo surgir diante de seus olhos o boneco protagonista. Na primeira parte do livro a lengalenga surge a partir das expressões morava numa cozinha onde nunca... Nem um nadinha de nada. Após a construção do boneco, quando ele encontra o armário em forma de castelo, as repetições são outras: Na gaveta... tinha... Maneco Caneco pegou... e vestiu. Mas quando ele encontra uma gravata, a ruptura se faz de forma sutil: ao invés de pegou a gravata e vestiu – estrutura que os pequenos já mentalizaram e repetem em alto e bom som, ele pegou a gravata e colocou:  risadas gerais dos ouvintes. Permeado por quadrinhas populares o texto é um belo exemplo do encanto que pode trazer a literatura. E o fato de apresentar-se como uma lengalenga só ajuda nisso.

Outro belo exemplo de como a lengalenga encanta os pequenos leitores é menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado. Sem entrar no mérito do conteúdo, um libelo contra estereótipos cristalizados sobre o modelo deixado pelo colonizador (o ideal de beleza é o branco de olhos claros), vamos manter a atenção sobre a forma. A menina bonita que encanta o coelho branco de focinho rosa, é negra, esperta, brincalhona e criativa. E acaba “enrolando” o coelho que pensa ser ela a menina mais bonita do mundo. Assim, cada vez que tenta tornar-se preto como a garota e não consegue, ele volta sempre com a mesma pergunta: Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo prá ser tão pretinha? E aí, como sempre, segue-se: “A menina não sabia, mas inventou.” É tal o envolvimento das crianças que todos acabam repetindo em alta voz, com o narrador, a pergunta que dá o mote para seguir o enredo.

O professor da educação infantil e do início do Ensino Fundamental tem nas lengalengas um ótimo material de apoio para suas aulas e precisa saber aproveitá-lás.
Em nosso próximo encontro vamos falar de mais duas características encontradas na sólida e bela produção literária para a infância e adolescência, que surge no pós-70: a quebra de tabus e o livro sem texto. Até lá ou, se você quiser, entre em contato pelos e-mails: lenyfz@ibest.com.br ou lefezu@gmail.com.




BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

BANDEIRA, Pedro. Ritinha Danadinha. São Paulo: Moderna, 1991
CAMARGO, Luís. Maneco Caneco Chapéu de Funil 11 edSão Paulo: Ática, Série Lagarta Pintada, 1996

HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Aurélio, Século XXI: o dicionário da Língua Portuguesa 3 ed.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias 2 ed. São Paulo: Ática, 1985.
MACHADO, Ana Maria. Raul da ferrugem azul, 11 ed.Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
---. Menina bonita do laço de fita. 7. ed. São Paulo: Ática, 1997.
TORQUATO, C. & ZULIM, L. Literatura infantil contemporânea: o gato como símbolo de liberdade. .In: Máthesis: revista de educação. Jandaia do Sul: FAFIJAN, 2010;
ZILBERMAN & LAJOLO. Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira – histórias, autores e textos, 4 ed.São Paulo: Global, 1986
  

KAZUO EM QUADRINHOS


AS TARTARUGAS NINJA
Por Alexandre Kazuo
LEGENDA DA IMAGEM: As quatro tartarugas Ninja - por Keavin Eastman e Peter Laird. 
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

Praticamente passa despercebido um desenho animado veiculado na programação da Band, chamado TARTARUGAS NINJA. Há um novo filme com os personagens sendo produzido nos sets de Hollywood com estreia prevista para 2014. No entanto, os personagens Leonardo, Donatelo, Michelangelo e Raphael tiveram um ápice de popularidade no fim da década de 80, do século XX. Originalmente chamados de Teenage Mutant Ninja Turtles, algo como “tartarugas adolescentes mutantes ninja”, se tornaram um fenômeno comercial. Os personagens eram vistos num antigo desenho animado (exibido pela tv Globo), jogos de videogame e uma trilogia cinematográfica no começo dos anos 90.

A gênese dos personagens porém, se deu nas HQ’s em 1984 pela editora norte-americana Mirage Comics. As Tartarugas Ninja foram originalmente criadas por Kevin Eastman e Peter Laird, num tom mais sujo e agressivo, do que aquele que víamos nos desenhos. A trama é no mínimo bizarra e o nascimento das Tartarugas Ninja acabou transcrito quase que sem alterações para os desenhos e filmes. Ao entrar em contato com uma estranha substância química chamada ooze (pronuncia-se “uze”), quatro tartarugas tomaram forma humanoide, bem como um velho que tomou contato com a substância, transformando-se num rato humanoide. O homem, outrora mestre em artes marciais, agora rato renomeou-se Splinter, criou as tartarugas batizando-as com nomes de gênios da Renascença. Splinter treinou Leonardo, Michelangelo, Donatelo e Raphael, que residem nos subterrâneos da ilha de Manhattan (New York/EUA) e sobem à superfície para combater o crime enquanto vigilantes mascarados.

Os dois primeiros filmes dos personagens “As Tartarugas Ninja” (1990) e “As Tartarugas Ninja 2 – O segredo do Ooze” (1991) tiveram grande produção, repercussão e bilheteria. A produção dos filmes obrigou os atores a vestirem pesadas fantasias de tartarugas gigantes e teve auxílio da empresa de Jim Henson (1936-1990), criador da Vila Césamo e dos Muppets. Houve um terceiro filme “As Tartarugas Ninja 3” (1993) dotado de produção um pouco mais modesta, mas que ainda sim, contava com um roteiro engraçado. Nele os personagens viajavam no tempo, chegando ao Japão medieval.

No decorrer dos anos 90 os personagens foram perdendo a força. Os direitos autorais dos mesmos chegaram a ser utilizados por Erik Larsen, roteirista e desenhista, criador do Savage Dragon que se tornou popular na editora Image. As Tartarugas Ninja chegaram a contracenar com Dragon, que também era verde, gigante e bizarro, em edições vistas inclusive no Brasil. O título das Tartarugas Ninja chegou a ser editado pela Image nos EUA, na metade dos anos 90. Por volta de 1997 uma série live action produzida pela Saban (de Power Rangers), trouxe as Tartarugas Ninja de volta às telas incluindo-se uma tartaruga fêmea chamada Vênus. Houve até um encontro entre os Power Rangers e as Tartarugas Ninja. A repercussão nunca foi comparável àquela do fim dos anos 80 e a série não passou da primeira temporada. Entre 2003 e 2009 foi produzida uma nova série animada co-criada pela editora Mirage, junto a 4 Kids/Fox que detinha os direitos dos personagens.

Atualmente quem detém os direitos autorais das Tartarugas Ninja é a produtora Nickelodeon (do desenho Os Anjinhos). A série animada, atualmente exibida pela Band, é esta da Nickelodeon. Nas bancas a Panini disponibilizou no Brasil uma nova série em quadrinhos das Tartarugas Ninja, sendo publicada desde o segundo semestre de 2012. Nas HQ’s os direitos dos personagens estão sob domínio da editora norte-americana IDW press e a Panini edita aqui a tradução destas edições. Apesar de não ter nenhum roteirista ou desenhista de grande repercussão, a nova HQ tem bons momentos.


LÁ VEM CONTO!

MENINA DIFERENTE
por Deusiane de Andrade
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

Certa vez uma menina de oito anos começou a entrar num dilema, pois as outras amiguinhas da escola já estavam se maquiando e abandonando as brincadeiras de boneca, coisas que as meninas gostam de brincar. As amigas ainda disseram que se ela não abandonasse essas brincadeiras iriam parar de falar com ela e bateriam nela. Eram bem umas cinco meninas maiores que ela porém da mesma idade, a família toda dela tinha estatura mais baixa, por isso ela era menor que as outras. Ela se sentia ameaçada e tinha medo de contar à sua família ou à diretora da escola, achava que não iam resolver nada, pois ela teria que continuar frequentando a escola e não estariam lá para protegê-la o tempo todo. Então ela começou a ficar diferente em casa. Agitada, não parava quieta, destruía tudo que via pela frente, fazia birra como uma criança de três anos, se jogava no chão, e começou a falar de forma rude com os pais. Na escola, a menina antes era aplicada nos estudos, participativa nas aulas, e agora estava distraída, quieta, fazia outras coisas que não a atividade escolar, e deixava de trazer as tarefas de casa. Ninguém entendia o porquê de ter mudado tanto seu comportamento. Um dia, a professora perguntou o que estava acontecendo com ela, e ela disse brava que não era nada, para deixá-la em paz. A professora preocupada chamou os pais para uma reunião, para saber o que estava acontecendo. Eles não sabiam dizer, mas ela tinha mudado com eles também, estava mais irritada, parecia um furacão em casa, quebrava tudo, não falava mais de forma calma, só com o humor alterado. Por encaminhamento e orientação da professora, elas foram procurar um neurologista para ver se não era alguma alteração no sistema nervoso. A menina fez os exames, mas estava tudo normal, e o neurologista a encaminhou para um psiquiatra. Este encontrou o diagnóstico de TDAH em sua lista de doenças mentais, e indicou um remédio potente para a menina. Inicialmente ela continuou com os comportamentos que estava apresentando, mas depois foi se acalmando, aos poucos. Continuou sendo uma menina bastante quieta nas aulas, não falava muito, mas prestava atenção às aulas e fazia todas as tarefas que lhes pediam. Em casa, parou de destruir as coisas e ficava só com suas bonecas brincando, quando não tinha alguma atividade para fazer, além de obedecer a tudo o que lhe pediam. Muitas vezes os pais até esqueciam que ela estava em casa, e só lembravam quando era hora de tomar o medicamento novamente. As colegas que ela brincava já não andavam mais com ela, pois começaram a achar ela sem graça demais, pois as brincadeiras que elas faziam com ela não eram retribuídas nem comentadas, simplesmente a menina passava do lado delas em silêncio. Ela arranjou outra amiguinha que usava o mesmo remédio que o seu. Mas por outro lado, parecia estar depressiva, segundo o que os pais falavam, pois ela ficava com olhar baixo, triste, e só conversava o necessário com os outros. Passados seis meses, o pai da garota arranjou um emprego em outra cidade e eles resolveram se mudar, mais ou menos na época em que o psiquiatra foi diminuindo a quantidade de doses do medicamento da menina, até cessar por completo. Com a mudança, a menina voltou a ser a mesma criança do início, com novas colegas, estudiosa, alegre, normal, nunca descobriram realmente o que aconteceu com ela... 


QUE TAL POESIA?

Poesia Juvenil
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

Muito se tem pesquisado e escrito sobre poesia infantil nos últimos tempos. Em relação à poesia para adolescentes e jovens os estudos ainda são escassos.

O jovem apresenta características distintas da criança pois,  como ressalta Lopes (2008, p. 2) em artigo intitulado E a poesia para jovens[1]?, sua compreensão é mais elaborada, o pensamento abstrato desenvolvido e ele não se atém ao concretismo e ao pensamento mágico-egocêntrico presente nas representações infantis: o leitor adolescente já passou pelos primeiros contatos com poemas folclóricos, já superou as dificuldades de alfabetização e vive  novas experiências que o levam ao desenvolvimento de uma maturidade afetiva e intelectual”.

Esse leitor busca na literatura textos que desafiem sua racionalidade e que apresentem questionamentos diversos: sobre a sociedade com seus valores e dogmas, sobre os poderes estabelecidos e, principalmente, sobre sua própria condição de jovem num estágio em que não é mais criança e nem ainda um adulto emancipado. E é nessa etapa, justamente, que encontramos uma carência de estudos a respeito do texto poético.

Alguns componentes da poesia infantil, como os elementos sonoros, o ritmo, a disposição em estrofes e versos também tornam o texto poético sedutor ao jovem (e ao adulto), sendo, portanto,  adequados à poesia juvenil.
O trabalho conjunto entre sonoridade e significação torna-se interessante à poesia juvenil, pois remete à racionalidade recém descoberta do adolescente. Sendo assim, a música, é um forte componente motivador para o público jovem, que busca, por meio da audição das mesmas, o equilíbrio entre emoção e razão. Sobre esse aspecto, Bordini (1986, p. 25-26) salienta:

O conflito corpo e mente, que desde então invadirá adolescência adentro, terá de buscar sucedâneos, como a música pop de ritmos alucinantes, enquanto as exigências de leitura seguirão pelo caminho das fortes emoções e da descoberta intelectual.

Dessa forma, razão e percepção caminham juntas e suprem a necessidade que o jovem tem de, segundo Bordini, (1986, p. 25) adentrar ao mundo adulto por meio do raciocínio abstrato.

Como são poucas as obras de poesia juvenil brasileira, fica aqui a sugestão de uma excelente obra de elevado valor estético e literário e que, temos certeza, agradará aos jovens de diversas idades: Duelo do Batman contra a MTV, de Sérgio Capparelli, que recebeu, em 2005 o Prêmio Jabuti de melhor obra no gênero poesia juvenil.  



[1] LOPES, Gabriela Hoffmann. E a poesia para jovens?  In: Revista eletrônica Tigre Albino. Volume 1 Número 3 – 15.07.2008.  Disponível em: http://www.tigrealbino.com.br. Acesso em 18/10/2009.

RELEITURINHAS

Terra de gigantes
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)




Os gigantes são personagens do universo fantasioso infantil e fascinam especialmente pela sua estatura, afinal, “ser grande” é o desejo de toda criança (ao menos daquelas que não pretendem habitar a Terra do Nunca para sempre). O simples fato de imaginar que figuras maiores do que edifícios e montanhas possam existir já é um sonho, mas o fato de imaginar que se possa ir até o lugar onde essas figuras gigantescas moram é no mínimo, extraordinário!
De certo modo, estes e outros desejos são despertados pela história de João e o pé de Feijão, a antiga história do menino que trocou a vaca (único bem valioso que ele e sua mãe tinham) por três feijões mágicos. Irritada com a estúpida troca, a mãe joga os feijões pela janela, que, para surpresa de João, fazem brotar da terra uma árvore enorme que alcança os céus. Quem é que nunca sonhou em ter um feijãozinho “abençoado” desses?

Na iminência de realizar o sonho dourado de qualquer ser vivente de menos de um metro de altura e com pouca idade, ele sobe rapidamente pela árvore e lá em cima encontra o gigante, sua harpa e sua galinha. Precavido, João esconde-se do gigante e observa-o dormir ao som da harpa e da galinha botando um ovo de ouro. A ousadia de João trouxe-lhe a solução para seus problemas financeiros, sem pensar duas vezes surrupia os objetos valiosos do gigante, que acorda e persegue-o. Em terra firme, João corta a árvore grande e o gigante, numa queda mortal, estatela-se no chão.

Ufa! É curioso notar o quanto de aventura há nesse conto de fada, o que não é dado comumente a esse tipo de texto, já que raramente há perseguições, roubos ou cenas tais (na terra do “felizes para sempre” tudo parece caminhar assim tão... calmamente). No entanto, essa sugestiva história movimentada e atípica no reino da fantasia parece ter chamado a atenção de um certo diretor de cinema...

Em início de março desse ano estrelou no Brasil JACK: O CAÇADOR DE GIGANTES, animação dirigida por Bryan Singer, um sofisticado remake de “João e o pé de feijão”. Os efeitos especiais da animação e o roteiro inusitado parecem ter surpreendido os críticos brasileiros, que andam desconfiados com as releituras que pululam aos montes pelos cinemas afora. A versão de Bryan para o conto de fada preserva os fatos principais, relembrados a pouco, porém traz ingredientes inusitados como um romance entre Jack, o João, e a filha do rei, que sequer existem na versão original.

A movimentadíssima animação de Bryan inicia em tom de história aventureira ao relatar que Jack nascera ouvindo as histórias dos gigantes que entraram em guerra com os homens, colocaram-nos sob seu julgo até serem enfim derrotados por um humano. A guerra justifica o fato de Jack nascer e crescer desejando ser o caçador de gigantes. a oportunidade para isso não demora, tão logo João torna-se um moço altivo e perspicaz, conhece a filha do rei, que é raptada pelos gigantes que habitam os céus.

Na versão cinematográfica hiperbólica de Bryan, há vários gigantes reunidos numa sociedade organizada, dedicados ao cultivo de ovos de ouro, não há galinha nem harpa. O incidente provocado pelos feijões mágicos caindo em solo fértil e crescendo rapidamente em forma de árvore enorme, que chega a um reino entre a terra e o céu, retoma a guerra entre homens e gigantes, já que se restitui o acesso destes aos daqueles e vice-versa.
Não é preciso grande esforço para se imaginar que João, na versão cinematográfica, não só torna-se de fato o herói da história como também desposa a princesa e portanto, resolve seus problemas financeiros... para sempre!

Em tempo:
Na lista dos livros infantis premiados pelo Jabuti 2013 as dois primeiros lugares são ocupados por releituras de contos de fadas: 1º) felizes quase sempre, de Antonio Prata; 2º) Os 33 porquinhos, de José Roberto Torero e Marcus aurelius Pimenta.


Boas RELEITURINHAS!

ENTRELINHAS

A febre de Nick Hornby
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em outubro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)

Conhecido inventor de best sellers, o britânico Nick Hornby tornou-se famoso no fim dos
anos 90 por utilizar-se da cultura pop para moldar um estilo muito peculiar. Possivelmente, a obra pela qual Hornby é mais lembrada talvez seja “Alta Fidelidade” (1995), que rendeu um filme homônimo (de 2000), estrelado por John Cusack e Jack Black. A ideia ali era ilustrar em trilha sonora, os feitos e as desventuras amorosas do personagem principal, dono de uma loja de discos. Um de seus últimos lançamentos, “Juliette Nua e Crua” (Rocco, 2010) configura em sua trama sobre um casal de fãs do cantor fictício Tucker Crowe, com direito a reproduções de páginas da wikipedia sobre o mesmo e discografia fake.

Hornby, no entanto, surgiu para a literatura com “Febre de Bola” (Rocco, 2000) obra que transcrevia seus diários de torcedor fanático do Arsenal de Londres (Inglaterra), clube que disputa a Premier League (primeira divisão) britânica. “Febre de Bola” é dividido entre os diários da infância de Hornby entre 1968-1975 e entre 1975-1992, relatando o início da vida adulta e o momento em que o autor se encontrava no ano original de publicação da obra (1992). É a primeira parte de “Febre de Bola” que nos interessa aqui neste espaço do LEITURINHAS.

Arsenal desde criancinha

Os torcedores do Arsenal são chamados de “gunners” (algo como “artilheiros” ou “canhoneiros”)  na Inglaterra. A primeira parte de “Febre de Bola” parece ter sido escrita na forma de memórias do autor. Há a impressão de que Hornby realmente escrevia quando criança sobre aquilo que via, mas não se trata de uma transcrição de escritos do período. Ainda que o mesmo afirme não precisar de muito para se recordar de dados inúteis sobre a sua “obsessão” chamada Arsenal. As memórias se iniciam com Hornby com 11 anos em meio a uma Inglaterra conservadora e em crise, no fim dos anos 60. O autor relata a separação de seus pais e dada a característica reprimida dos britânicos, o futebol acabou sendo a única forma de linguagem entre ele e seu pai em encontros semanais, geralmente num estádio.

Os clubes mais tradicionais de Londres são mencionados. Além do Arsenal, há o Chelsea, o Queens Park Rangers, o Tottenham Hotspur entre outros, até porque o futebol foi inventado na Inglaterra. A paixão consumada pelo Arsenal é descrita de forma hilária por Hornby, que expressa uma ideia do pai em persuadi-lo a trocar os gunners pelo Tottenham: “Numa tentativa desesperada e perspicaz de impedir o inevitável, papai mais que depressa me levou ao campo do Tottenham para ver Jimmy Greaves marcar quatro gols contra o Sunderland numa vitória por 5x1, mas o mal já fora feito, e os seis gols e todos aqueles craques me deixaram impassível: eu já me apaixonara pelo time que derrotara o Stoke por 1 a 0 aproveitando o rebote de um penalti.”

Hornby se descreve enquanto único torcedor do Arsenal durante o que se equivale enquanto ensino fundamental para nós brasileiros. Era amigo de um outro torcedor único do modesto Derby County. Quando o Arsenal perdia, Hornby era vítima do sarro tirado por todos os outros meninos da classe, algo que acontece todo dia com você quando seu time perde, mas numa época menos cretina onde o conceito de bullying ainda não havia sido inventado.

A descrição daquilo que Hornby relata em sua vida adulta se torna um registro histórico importante. Escrito por alguém que frequentou estádios durante o ápice do “holliganismo”, momento dos anos 80 em que as brigas de torcida atingiram niveis absurdos. Hornby relata como a Inglaterra observou a tragédia de Heysel (Bélgica), quando torcedores do inglês Liverpool proporcionaram uma confusão que culminou em vitimas fatais, na final entre Liverpool x Juventus (Itália) da Champions League 1984/1985. Assim como registra as consequências da tragédia de Hillsborough, ocorrida numa partida entre Liverpool e Nothingam Forest. Na transição dos anos 80 para os anos 90 as brigas de torcida foram extintas na Inglaterra, devido a esforços da primeira ministra britânica do periodo, Margareth Tatcher.

HORNBY, Nick. Febre de Bola. Rio de Janeiro, Rocco, 2000.

Em tempo - A Companhia das Letras está relançando Alta Fidelidade de Nick Hornby originalmente disponibilizado em 1995"