ENTREVISTA - ANDRÉ NEVES
por Carla Kühlewein
André Neves nasceu no Recife é Formado em Comunicação Social, paralelamente
interessou-se pelas Artes Plásticas e com seu envolvimento com a literatura passou a dedicar-se exclusivamente universo das imagens para infância. No Brasil, ganhou prêmios importantes: Prêmio Luís Jadim, Prêmio Jabuti, Prêmio Açorianos de literatura. No exterior recebeu o Prêmio Especial do Juri no concurso Lucca Comics e Games, na cidade de Lucca, Itália, em 2007.Também participou de mostras e exposições de ilustração no Brasil e no exterior como: XX Mostra Internazionale d’illustrazione per l’infanzia – Sármede. Bienal Ilustração Bratislava 2005 e 2007 e Eine Imaginare Bibliothek Internationalen Jungendbibliothek, Munique.
Atualmente mora em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
Visite o blog de André Neves, clicando no link a seguir:
LEITURINHAS ILUSTRADAS
LEITURINHAS - Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até a atualidade?
ANDRÉ - Sempre me recordo e ainda continuo lendo algumas histórias da Sylvia Orthof. Gosto muito.
LEITURINNHAS - Suas ilustrações têm um traço caracteristicamente delicado, suave, a que se deve essa sua identidade visual? Comente um pouco sobre o seu processo de criação artística.
ANDRÉ - Acho que carrego muito da minha memória visual da infância nas minhas criações visuais. São referências estabelecidas com o cotidiano popular de Pernambuco e os artistas plásticos que sempre acompanhei e que ainda acompanho como Reynaldo Fonseca, Cicero Dias, Abelardo da Hora, Badida, enfim, É na arte que me vem inspirações. Adoro comprar e ver catalogos. Fora exposições artisticas. Algumas realmente me renovam e trazem alegria.
LEITURINHAS - Durante a elaboração das ilustrações de livros infantis como você lida com o olhar do adulto sobre o universo infantil? Ou você consegue, de alguma maneira, (re) criar uma “maneira infantil” de observar o mundo?
ANDRÉ - Fazer ilustrações para um livro não é fácil. O olhar do observador se concentra mais na apreciação e fantasia.
Tenho dito que faço um trabalho para infância e não para crianças. Esse pensamento é elaborado porque sinto que na minha essência meu pensamento visual dialoga com a memória infantil. Isso na cor, no traço, na forma e nas histórias. É algo natural. Se pensasse de outra forma estaria direto nas artes plásticas, ou mesmo escrevendo romances. Mas estruturar um livro tem uma série de fatores que vai além do desenho puramente plástico. São fatores de composição para que a leitura flua naturalmente e rapidamente, sem cansar. Sendo assim, não posso dizer que penso propriamente na criança ou no adulto. Penso em mim, em satisfazer meu processo de criação, levando em consideração o que acredito e a melhor forma para facilitar essa apreciação no livro.
Se houver um texto, por exemplo, buscar a melhor forma de casá-lo com as imagens. Composição gráfica e tanto outros detalhes. Nossa! Já é muita coisa para pensar! Deixo para imaginar a sensação dos leitores depois, quando o livro começar a ganhar forma.
LEITURINHAS - Qual a função que a ilustração desempenha no livro infantil?
ANDRÉ - Levar para história outros significados. Impulsionando o leitor para o imaginário e fazendo-o pensar naquilo que está lendo. Seja nas imagens ou no texto.
LEITURINHAS - Depois de um longo tempo como ilustrador, recentemente você passou a escrever livros também. Nesse caso, o que vem primeiro: o texto ou a imagem?
ANDRÉ - O que vem primeiro é uma ideia em que palavras e imagens se misturam até quando não posso mais interferir. Meus livros são construídos no momento pré-gráfica.
LEITURINHAS - Dois deles tiveram indicações de livros “altamente recomendáveis” pelo FNLIJ: TOM e ENTRE NUVENS. A que você atribui o sucesso desses livros?
ANDRÉ - Talvez minha dedicação artística. Pensar, inovar criar. Tenho uma insatisfação muito grande com meu próprio trabalho. O que me faz lutar para não me repetir e tentar criar algo que possa ser novo, pelo menos no meu imaginário. Mas sinceramente não sei, não sei mesmo quando o livro vai ser bem recebido ou não pelos leitores. Afinal, ao criar posso errar, sou completamente humano. Falho.
LEITURINHAS - Você já teve a oportunidade de contar uma de suas histórias oralmente, para crianças ou adultos? Há algum projeto seu nesse sentido?
ANDRÉ - Já tive sim, mas meu ofício é contar histórias em livros.
Existe uma relação de pensamento confuso a isso. Acham que quem escreve para infância conta histórias. Mas esses profissionais do contar se dedicam muito e têm uma bagagem de pesquisa e experimentações que fazem atrair leitores ouvintes. É fantástico!
Já faço tantas outras coisas relacionadas à leitura que não tenho tempo para dedicar-me com seriedade a investigações na arte de contar histórias. Conto bem uma, duas, três histórias que naturalmente, por tantas leituras, entraram na minha memória. Fora isso, leio livros.
Não tenho nenhum projeto para o contar, apesar de ser encantado por essa profissão.
LEITURINHAS - Em entrevista para a Revista Crescer, você declara que precisa ter prazer enquanto elabora as ilustrações. Como você concilia a questão do prazer no “tempo artístico” com os curtos prazos e a alta demanda de trabalhos do “tempo editorial”?
ANDRÉ - Sim, isso é um problema. Mas como tenho me dedicado quase exclusivamente a projetos meus. Consigo, graças a editores que entendem, organizar minha criação em prazos razoáveis.
LEITURINHAS - Qual dica você daria ao ilustrador que está iniciando sua carreira na busca pela sua identidade visual ou que pretende, como você, ser um autor/ilustrador?
ANDRÉ - Primeiro ser leitor. Ler bastante e tentar libertar o imaginário para narrar de forma visual. Experimentar, rabiscar, criar.
Tentar ver livros pra infância também ajuda. Mas ter muito claro a razão, buscando entender a criatividade do ilustrador e não o seu fazer plástico. Precisamos de novos ilustradores autênticos e únicos. Quem olha só a arte em livros, se torna genérico.
Então estude. As artes plásticas fazem e ensinam isso muito bem, basta observar. É muito prazeroso, rico, inventivo e você ainda estará sendo generoso e honesto em apresentar a um leitor, outra arte, outra forma de olhar.
QUE TAL POESIA?
POESIA, ESCOLA E ENSINO: parte II
Por Márcia Hávila Mocci
(Publicado originalmente em agosto de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Existem muitas formas de trabalhar a poesia em sala de aula, para efetivá-las, no entanto, é preciso que haja um trabalho de pesquisa por parte do professor, a fim de apresentar atividades que resgatem os aspectos lúdicos e os recursos da linguagem poética. Abramovich, em Literatura Infantil: gostosuras e bobices (1989), destaca a leitura de poesias em voz alta, o encontro com poemas que trabalham as sensações e mexem com os sentidos, a procura de poemas que abordem assuntos semelhantes de forma diversa, a troca de experiências pessoais a partir de um mesmo poema, a aquisição de um caderno próprio para anotar poemas preferidos, o musicar poemas diversos, o descobrir ritmos novos e lê-los em voz alta, o escrever poemas a partir de um jogo de rimas, as brincadeiras com o sentido das palavras e o destaque das palavras através da cor, da textura e do movimento, entre outros.
Um aspecto importante a ser observado em relação ao trabalho com a poesia em sala de aula é o da escolha dos poemas. Averbuck (1982) ressalta que os mesmos não podem ser de poetas iniciantes, que ainda estejam experimentando as formas, mas de autores que tenham um bom conhecimento sobre o gênero e que sejam capazes de condensar as imagens provocando encantamento e fazendo com que a criança sinta vontade de ir além: ler mais, repetir e até memorizar alguns versos.
A ideia de que para aproximar a criança da poesia basta apresentar-lhe poemas de qualidade está ultrapassada. Para Averbuck (1982) é necessário que haja um trabalho de sensibilização em relação ao texto poético; trabalho que se inicia pelo entusiasmo do professor. A criança, extremamente sensível, percebe quando o educador aprecia ou não determinado texto. Ao ser lido em voz alta, o poema passa primeiramente pela emoção e sensibilização do educador que, se não apresentar entusiasmo e apreço, tornará a criança insensível e fechada à poesia. “Ensinar” poesia, portanto, não é suficiente, é preciso “vivê-la”, pois “a poesia não pode ser ensinada: o ensino da poesia é, assim, o de sua ‘descoberta’” (AVERBUCK, 1982, p. 70).
Estudos relacionados ao desenvolvimento emocional da criança comprovam ser ela mais sensível à “visão poética” que o adulto. A criança é capaz de associar imagens estranhas aos objetos que descobre; para ela é natural, por exemplo, colocar asas em um pedaço de madeira e imaginá-lo um pássaro; já o adulto, guiado pelo pensamento racional, não o faz. O adulto supre sua falta de imaginação através do conhecimento e a criança compensa sua falta de conhecimento por meio da imaginação.
Partir daquilo que a criança aprecia e reconhece é o primeiro passo para uma mediação bem sucedida, por isso, como etapa inicial para o trabalho com a poesia infantil, é preciso sensibilizar os alunos para o jogo com as palavras, uma vez que “recuperar o conteúdo lúdico da poesia no trabalho escolar significa resgatar sua natureza original” (AVERBUCK, 1982, p. 76). Através da imaginação a criança pode, num exercício de liberdade poética, desconstruir e reconstruir poemas diversos e, ao “decompô-los”, aperceber-se de sua estrutura. Ouvindo e repetindo os versos, a criança descobre os paralelismos, as rimas; enfim, como a poesia se constrói, descobre também que ela também pode participar dessa construção.
Uma forma eficaz de trabalhar com a poesia na escola é através das “Oficinas poéticas”, em que a criança vai desmontando os textos para, criativamente, recriá-los. O fato de “desmanchar” um poema faz com que o leitor-criança perceba, na prática, a organização da sua estrutura verbal e compreenda as regras de criação. O desenho, a colagem e o canto também são atividades que enriquecem a oficina, pois são ferramentas que possibilitam à criança a livre expressão de pensamentos e sentimentos.
Associada a outras formas de expressão como a música, o desenho e o teatro, a poesia desempenha um papel integrador, na medida em que busca a essência da expressão humana. Pedindo para ser desvendado e recriado, o texto poético atrai o leitor apresentando-lhe aquilo que está oculto, não dito explicitamente. Cademartori (1982) argumenta que o estudo da poesia estabelece uma prática libertadora e a escola, para desenvolver o potencial criativo dos alunos, precisa rever seus conceitos em relação à criança, ao homem e ao papel de ambos no mundo contemporâneo. As relações sociais, através da linguagem, trazem as marcas da ideologia de uma sociedade, pois,
o trabalho da linguagem é sempre a expressão de um desejo inconsciente que se articula na língua através de um mascaramento, porque o inconsciente é atravessado pelas relações sociais, e, portanto, traz as inscrições da ideologia dominante. Se a poesia é concebida como a liberação dessa linguagem, decorrentemente, ela deve ser parte integrante do ensino da língua e das perspectivas que esse ensino deve abrir. (CADEMARTORI, 1982, p. 40)
Por agir sobre um processo inconsciente: a emoção, a poesia desencadeia a liberação do “eu” e a descoberta de aspectos até então despercebidos pela criança; sendo que essas descobertas se dão em relação a si mesma e ao mundo que a cerca. Para que a poesia se concretize como texto emancipador é necessário que haja liberdade de criação. Tal liberdade só é alcançada por meio da leitura, da reflexão, da descoberta e da recriação de poemas; alternativas a que as crianças se mostram receptivas, uma vez que, para elas, o elemento básico da composição poética, o jogo com as palavras, é natural e prazeroso.
REFERÊNCIAS
ABRAMOVICH, F. Literatura Infantil: Gostosuras e bobices. 4 ed. São Paulo: Scipione, 1989.
AVERBUCK, Lígia Morrone. A poesia e a escola. In: ZILBERMAN, Regina. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
CADEMARTORI, Ligia Magalhães. Jogo e iniciação literária. In: ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil: Autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982.
LÁ VEM CONTO!
O MENINO DO OCEANO
por Deusiane de Andrade
(Publicado originalmente em agosto de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Era uma vez um menino que vivia em alto-mar... era a estória que papai me contava naquele momento. Só me lembro desse começo, eu estava preocupado, algumas coisas mudaram em casa: papai estava mais quieto e triste desde uns dias atrás e mamãe havia mudado para o turno da noite no hospital e estava fazendo mais plantões do que de costume, quase não parava em casa. Após o fim da estória, ele beijou meu rosto, me disse boa noite, e chegando na porta ficou me olhando por uns segundos antes de fechá-la. Tão logo dormi, já sonhei que era aquele menino, em cima daquele navio, e tinha que resgatar a rainha do mar no fundo do oceano. Senti um frio por todo meu corpo e um medo de me afogar, mas tomei coragem e me lancei fantasticamente, como se já tivesse feito aquilo muitos vezes na vida. O mundo lá embaixo era maravilhoso, cheio de cores vindas de algas e corais, os cardumes me rodeavam, como se fossem bichinhos de estimação, e uma luz me envolvia, mostrando o caminho que devia percorrer para encontrar a rainha. Eu descia alegre e de forma calma quando, de repente, uma força me puxava cada vez mais rápido para baixo, e tudo ia se tornando escuro, os peixes se afastavam, e fui ficando sozinho, com frio, com medo, até que senti o fim do oceano debaixo de meus pés e toquei em algo parecido com uma concha gigante. Com uma pedra que estava ao lado da concha, abri-a e puxei pelo braço aquela mulher que eu nem conhecia. Fui subindo o mais depressa possível, mas parece que quanto mais tentava, mais longe eu ficava da superfície, até que reanimei minhas forças e fui sem olhar para trás. Logo cheguei ao topo e fui ver a mulher para socorrê-la, estava feliz, mas eu não reconhecia seu rosto, só via seus cabelos negros sobre os ombros, e atrás de seus ombros estava o navio, já de partida, seguindo em frente. Nesse momento, quando quase estava descobrindo quem era, papai me acordou e disse que precisávamos conversar. Já era de manhã, mamãe sentada no sofá, com as malas no chão, me pediu para sentar ao lado dela. Disse que ia embora, pois o relacionamento entre ela e meu pai estava difícil, não estava mais como antigamente, e que tinha que ir para esperar a poeira abaixar e ver com quem eu ficaria. Falou que qualquer coisa ela estaria na casa da vovó, se eu precisasse a encontraria lá. Papai estava na porta, chorando como criança, e eu não entendendo nada. Nesse momento, ela terminou dizendo: “Você vai precisar crescer agora, vai ter que ser forte! Eu te amo! Não se esqueça de me ligar! Tchau!”.
Fui pro meu quarto, e depois de algumas horas, quando consegui parar de chorar, entendi o que tudo aquilo significava: não era minha mãe que estava no fundo do oceano, como eu tinha pensado quando reconheci o rosto, era meu pai, e eu precisava ser forte para cuidar dele, dar forças para ele seguir em frente, e na verdade, minha mãe estava na superfície, era o navio de partida.
KAZUO EM QUADRINHOS
O VERDADEIRO WOLVERINE
Por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em agosto de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Wolverine hoje, a exemplo de Homem Aranha ou Homem de Ferro, é um
personagem adorado por crianças. A incursão de Wolverine por jogos de videogame e o hoje clássico desenho animado “X-Men Adventures” da década de 90; tornaram-no um personagem equiparável aos nomes mais populares da editora Marvel Comics. O conceito original de Wolverine, no entanto, foi muito bem expresso nas histórias dadas ao personagem nos anos 70, 80 e 90 antes da explosão de sua popularidade. No Brasil, muitas histórias isoladas de Logan foram publicadas pela editora Abril. Eram paralelas ao que se via nos números regulares de “X-Men” e no título de “Wolverine”, ainda em formatinho. Séries curtas e principalmente a “one shot” (trama que se fecha numa única edição especial), em formato graphic novel foram vistas em nosso país editadas de forma exemplar.
Este que vos escreve selecionou duas de muitas dessas edições especiais vistas no Brasil na década de 80. Logan, não é um cara bonzinho. A possibilidade de ter um passado embaralhado na mente do personagem era um trunfo interessante, nas mãos dos roteiristas, principalmente aqueles que se ocuparam do personagem antes do evento “A Era do Apocalipse”. O fator de cura impede que Logan adoeça facilmente, estende a sua vitalidade em séculos se comparado a um humano normal. E os trabalhos de agente secreto para o governo do Canadá nos anos 60 e 70 lhe garantiam uma memória incerta, pois o personagem era submetido a lavagens cerebrais para não revelar segredos. Originalmente, Logan era um cara durão, tipo de personagem que corresponde a um Marv (“Sin City”) ou a um John Constantine. Tipo que jamais apareceria num programa infantil diário.
“Fusão” e “Fúria Interior”
A primeira grande história que apresento é a minissérie “Fusão” de 1989 (ed.Abril), em quatro edições. A arte era algo de saltar aos olhos tendo sido pintada e realizada de forma incomum. Kent Williams ilustra Wolverine e Jon J. Muth o Destrutor. “Fusão” trazia o nome de Wolverine associado a Destrutor em suas capas. Destrutor na realidade é Alex Summers, irmão mais novo de Scott, o Ciclope. Ainda dependente do traje especial que ajudava a controlar seu poder, Destrutor é alvo de uma conspiração soviética em meio ao fim da guerra fria na década de 80. Após a explosão da usina de Chernobil (Ucrânia), revolucionários da União Soviética veem algum potencial na capacidade de Destrutor em canalizar energia solar, e expandi-la em forma de rajadas de plasma.
Então, imaturo, Alex Summers é presa fácil da conspiração, atraído por uma bela agente russa disfarçada. O “macaco velho” Logan é quem tem que salvá-lo quando ambos estavam de férias no México. Em “Fusão” Wolverine se mostra apto a esse tipo de ofício, enfrentando inimigos soviéticos e utilizando os instintos para sobreviver em território inimigo. Mais do que tudo, mostra-se um matador frio, eficiente e amoral. Nada deve a algum gangster de filmes que Quentin Tarantino ou a algum jagunço de Guimarães Rosa. O roteiro ficou a cargo do casal Walter e Louise Simonson, sendo que o primeiro é muito elogiado e lembrado pelo período em que conduziu o personagem Thor.
O outro especial que aqui apresentamos é “Fúria Interior” (1993, ed. Abril) do pouco lembrado roteirista D.G. Chichester e ilustrado de forma ousada pelo aclamado Bill Sienckewicz. A capa chamava a atenção pelo logotipo Wolverine ser impresso em papel laminado com efeito brilhante. Ali Logan é cobaia de um experimento que sintetiza o adamantium em formato líquido através de um microrganismo. A bactéria é inserida em Logan e seu fator de cura torna-se descontrolado não conseguindo conter o adamantium dos seus ossos, que se torna liquido. O metabolismo de Logan fica descontrolado, pois tenta expulsar o adamantium líquido de seu corpo tal qual uma infecção. No metabolismo humano, infecções causam febre no infeccionado.
O curioso vilão, chamado Baleia, é retratado nos delírios de Logan que se vê em estado febril. Na alucinação propiciada pelo delírio, Logan é caracterizado num barco como Ahab o caçador de baleias de “Moby Dick”, clássico da literatura de Herman Mellvile, numa sequência improvável. O estilo de “Fúria Interior” lembra quadrinhos adultos incomuns. Algo próximo ao que se via na clássica revista “Heavy Metal” (“Metal Hurlant” na França, onde é muito popular), num estilo que se aproxima da obra de Keith Geffen e Simon Bisley (ambos famosos com o personagem Lobo, da DC Comics).
É possível afirmar que a presença de Wolverine em títulos regulares seja prejudicial àquilo que o personagem pode proporcionar nas mãos de bons roteiristas. E por vezes, irrita bastante os antigos fãs, sobretudo com as incursões cinematográficas. O filme “Wolverine Imortal” é um alento mínimo por resgatar parte da clássica minissérie “Wolverine” (1982) de Chris Claremont e Frank Miller.
Curtas:
- Os títulos do Wolverine eram as LEITURINHAS favoritas do autor desta coluna no fim da infância e início de sua adolescência. A saga da “Arma X” de Barry Windsor Smith e a série “Wolverine & Kitty Pride” de Frank Miller também são dignas de menção. Os conflitos desenfreados entre Wolverine e Dentes de Sabre, nos tuneis dos Morlocks em subterrâneos novaiorquinos das páginas da saga “O Massacre dos Mutantes” (publicada pela Abril no titulo X-Men regular), também merecem menção honrosa.
A edição número 38 da antiga série Wolverine regular da editora Abril em formatinho também era notável. Trazia uma capa em papel mais resistente premeditadamente rasgada como se Logan a tivesse cortado com suas três garras. Trata-se do período em que o passado de Logan começou a ser sugerido. O autor desta coluna repudiou completamente a série “Origem” escrita por Bill Jemas, Paul Jenkins e Joe Quesada; a qual sugeriu uma origem definitiva do personagem.
LITERATURA E ENSINO
LITERATURA INFANTO BRASILEIRA: NAS TRILHAS DA RENOVAÇÃO II
Por Leny Fernandes Zulim
(Publicado originalmente em agosto de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
2.1- A NARRATIVA INFANTO EM RITMO DE SUSPENSE
Hoje, vamos falar da segunda tendência que Lajolo & Zilberman (1985) apontam na produção literária pós-70, destinada a crianças e adolescentes, pelas autoras denominada A literatura infanto em ritmo de suspense. É uma tendência que acaba por fortalecer a história policial e a ficção científica nas narrativas infanto-juvenis, como resultado da importação de produtos da indústria cultural norte-americana, de forma específica o cinema hollywoodiano. Afirmam sobre ela Lajolo & Zilberman (1985:141):
O florescimento da ficção científica e do mistério policial na literatura infantil brasileira dos anos 70 não tem similar na literatura não infantil, de tradição bastante pobre nessa área.A prioridade do cultivo de ambos os gêneros cabe à literatura infantil, que, com eles, trabalhou estruturas e conteúdos bastante adequados ao modo de produção industrial característico da literatura infantil contemporânea.
Caracterizando-se pela presença de crianças como protagonistas, tomando para si a função de detetives, responsáveis por solucionar mistérios e enfrentar quadrilhas à margem da lei, essa tendência acaba por excluir o ambiente de violência e corrupção próprios do gênero, mas mantém o suspense que o identifica. Normalmente, apresenta-se com obras em séries, a exemplo do cinema. Exemplifique a afirmação os diversos livros de João Carlos Marinho (O gênio do crime, Sangue fresco, O caneco de Prata, etc..) em que o leitor acompanha as aventuras de um mesmo grupo de personagens, situação similar à série de Marcos Rey (O mistério do Cinco Estrelas, O rapto do garoto de ouro etc..) para ficarmos apenas em dois casos.
A observação sobre a preferência de leitura do público adolescente e de várias faixas etárias mostra número surpreendente de leitores assíduos das chamadas histórias policiais. É possível afirmar que a popularidade desse tipo de romance se deve ao fato de que propõe ao leitor divertimento e participação, desafiando sua inteligência, aguçando sua curiosidade, envolvendo-o de tal modo que só se satisfaz ao término da narrativa, quando desvenda os enigmas e mistérios propostos. Sobre esse sentimento de estranheza e medo que, contraditoriamente, faz o leitor envolver-se com o enredo e não largar o livro até chegar ao fim, diz Gomes (2007:21):
O temor diante do desconhecido, o assombro que produz a resolução de um enigma são traços fundamentais do romance policial. Tudo que produz uma situação perturbadora já é um anúncio do romance policial. Ele está ligado à nossa psicologia, é tão velho quanto o homem. O caçador da pré-história que encurralava uma fera inatingível, com risco de vida, e para vencer imaginava preparar alguma armadilha, já estava vivendo uma história policial.
Nessa tendência, o papel de vilão, de bandido, cabe sempre aos adultos, enquanto à criança ou adolescente, cabe o de desvendar o mistério e encaminhar a aplicação da justiça. Essa divisão de papéis mostra um tipo de confronto entre o universo infanto-juvenil e o universo dos adultos. Não raro, esses enredos se apresentam recheados de ironia e non sense. João Carlos Marinho, com O gênio do crime, obra publicada em 1969 é exemplo do que antes afirmamos. Ele incorpora ao enredo uma paródia dos elementos mais tradicionais do gênero, trazendo à tona o universo infantil dos álbuns e figurinhas, deixando à argúcia do personagem Gordo o desvendamento do crime. Por sua vez, A vaca voadora, de Edy Lima, que pode voar graças à fórmula criada por um adulto, lembra mais o fantástico, a magia, mas o humor e a ironia deixam ao largo os clichês da cultura de massa.
2.2- NOMES E OBRAS DE DESTAQUE NA TENDÊNCIA
Falar dessa tendência, é falar, basicamente, de quatro autores que conquistaram um público leitor fiel para suas obras: Marcos Rey, Stella Carr, João Carlos Marinho e Pedro Bandeira. Fácil de entender e explicar: depois de ler um dos títulos e ser cativado, o leitor segue fiel àquele grupo de personagens e ao autor.
A- Marcos Rey
Edmundo Donato, conhecido como Marcos Rey, iniciou sua carreira de autor infanto-juvenil convidado pelos diretores da Ática, que lhe deram total liberdade de escrita e de estilo e acabou emplacando vários títulos na popular e imensa série Vaga-lume. Seu primeiro livro para o público jovem, O mistério do cinco estrelas (de 1981), traz o típico enredo policialesco cheio de aventuras e mistério. Foi um sucesso imediato. A partir daí até 1997, todo ano escrevia um livro dedicado à juventude. Na década de 80 do século passado, ele era nome disputado para visitas às escolas e conversas com alunos e professores.
O enredo de O mistério do cinco estrelas (que foi seguido por O rapto do garoto de ouro e Um cadáver ouve rádio), sua obra mais popular, fala de um assassinato acontecido no Emperor Park Hotel, o hotel mais luxuoso de São Paulo. O enredo narra a história do boy Leo, que trabalha no Emperor Park Hotel, e, com a ajuda de Gino, o primo paraplégico que é um az do xadrez, e Ângela, sua namorada, consegue desvendar um crime ocorrido no hotel, que mais tarde teria outros desdobramentos. Após perder o emprego e ser procurado pela polícia, ele finalmente consegue demonstrar que estava certo, prova sua inocência e vê os culpados punidos. Sobre a obra em questão, afirma Gomes (2007:66):
Ao analisarmos O mistério do cinco estrelas, consideramos a obra como um romance de suspense, pois os três elementos característicos desse tipo de narrativa estão presentes em toda a história: a ameaça, a expectativa, a perseguição. A trama gira sempre, em torno da vítima, que age como detetive e, com a ajuda dos amigos, segue pistas e decifra enigmas para provar sua inocência.
B-Stella Carr
Ainda no gênero policial, Stella Carr tem seu nome marcado com uma obra de destaque. Personalidade marcada pela contemporaneidade, a autora busca os elementos responsáveis pela extraordinária comunicabilidade de sua obra na fonte do best-seller contemporâneo. A partir do título, seus livros trazem o apelo forte de locais conhecidos e populares. Como se manchetes de jornais, os títulos reforçam a excepcionalidade do enredo e geram o suspense: O caso da estranha fotografia, O enigma do autódromo de Interlagos, O incrível roubo da loteca, O fantástico homem do metrô, O Segredo do Museu Imperial para ficarmos apenas com alguns títulos. Segundo Coelho (1995), sua mente, olhar e linguagem estão constantemente em alerta para a redescoberta de um novo homem em um novo mundo, sempre em modificação, no qual a sociedade atual está mergulhada. Ainda de acordo com Coelho (id. Ib.), o experimentalismo é uma das características mais marcantes da autora, resultante da nova atitude que foi assumida pelos escritores atuais devido a uma sociedade em contínua movimentação. Por visar à comunicação imediata com seu leitor, a escritora (como os demais colegas do gênero) tenta se comportar como jornalista, pesquisadora, socióloga, sem deixar de ser uma escritora inventiva e altamente criativa.
C-João Carlos Marinho
João Carlos Marinho publicou sua primeira obra infanto-juvenil, O gênio do crime, em1969, apresentando uma sátira do detetive norte-americano popularizado que, paralelamente a Gordo e seus amigos, pretende descobrir a fábrica clandestina que falsifica figurinhas de futebol. Seguem-se após O caneco de prata, que afeta o mundo das crianças com o mistério que ocorre na disputa de um campeonato de futebol entre escolas de São Paulo, cujo prêmio, um caneco de prata, leva o diretor de uma delas a lançar mão de todos os expedientes para garantir a vitória de seus jogadores; a trilogia que popularizou Gordo e sua turma, se fecha com Sangue fresco que traz uma quadrilha internacional, liderada por um norte-americano, a fazer contrabando de sangue de crianças, cuja idade varia de 9 a 11 anos.
Para Lajolo e Zilberman (1985: 143), desde sua primeira obra, o estilo de João Carlos Marinho se define pelo acúmulo de detalhes de violência, ou pela forma ora natural ora exagerada, de narrar as ações, promovendo um discurso crítico que se caracteriza pela ironia e pelo riso. As autoras explicam:
A forma pela qual o texto desse autor envereda por uma representação crítica do real é muito sutil e rigorosamente literária: por via da redundância vertiginosa e agressiva dos detalhes da violência ou, paradoxalmente, na naturalidade de registro de ações e instrumentos mirabolantes, ou ainda na sucessão de apelos a recursos sofisticados da técnica. A naturalidade com que o narrador e personagens enunciam os exageros de violência e referem-se aos mais sofisticados artefatos da tecnologia soma-se ao non sense com que certas seqüência se engastam umas nas outras... Isso confere ao texto de João Carlos um traço de modernidade e lhe permite inovar esteticamente em um gênero de perfil tão marcado quanto o livro policial.
Por sua vez, Turchi (1995:132) frisa que João Carlos Marinho sabe construir, "com humor e ironia, personagens vivas e dinâmicas, muitas delas verdadeira paródia a personagens dos romances de enigma e dos romances negros". Aliás, este é um dos critérios para enquadrar a obra de Marinho como de suspense: ela surge a partir da combinação do romance de enigma e do romance negro (de que falaremos quando formos analisar obras de suspense, em artigos posteriores).
D-Pedro Bandeira
Pedro Bandeira foi, desde sempre, um ser versátil. Já em 1960, bastante jovem, arrebatou o Prêmio de Melhor Ator por sua atuação na peça O Escorial, de Michel de Ghelderode, atuando no Teatro Amador. Durante o período de 1959 a 1961, Bandeira teve participação ativa no movimento teatral da cidade de Santos, trabalhando com Plínio Marcos e Patrícia Galvão em A Árvore que andava. Morando em Santos, ao ser aprovado no vestibular para jornalismo da USP, mudou-se para São Paulo onde trabalhou como jornalista do Última Hora e apresentador de programas juvenis na televisão. Entre 1962 e 1967, participou de teatros profissionais em São Paulo: Calígula (de Albert Camus), A visita da velha senhora (de Durrenmatt), A ópera dos três vinténs (de Bertold Brecht), Romão e Julinha (de Oscar Van Phful) e Veredas da Salvação (de Jorge de Andrade), tornando-se editor, em 1966 da Editora Senzala. Durante os anos 70, passa a editar coleção Livro da vida e, em 1972, publica suas histórias infantis em revistas de banca da Editora Abril. Nessa mesma editora, entre 1972 e 1983, ocupa vários cargos como redator, editor e gerente de marketing de revistas femininas e infantis. Somente em 1984, deixa a Abril com o objetivo de se dedicar exclusivamente à literatura infanto-juvenil.
A partir da década de 80, com a série protagonizada pelos Karas o escritor atinge uma popularidade única. São cinco títulos que integram a série, por ordem de publicação: A Droga da Obediência (1984), Pântano de Sangue (1987), O anjo da Morte (1988) ,A Droga do Amor (1994) e Droga de Americana! (1999). O primeiro título da série fez tanto sucesso que, já no início da década 90 estava em sua centésima edição. O enredo é construído a partir das aventuras vividas por esse grupo de adolescentes, com o qual o jovem leitor se identifica por reconhecer em cada um dos componentes o retrato do detetive corajoso, ético, ágil, solidário, que busca a justiça e o bem comum. Por outro lado, sua linguagem bem ao gosto do público a que se destina – caracterizada pela informalidade, pelos apelidos e códigos que desafiam o leitor - além de um foco narrativo em câmera, que dá agilidade e dinamismo à ação, são também atributos que prendem o leitor adolescente. O sucesso do primeiro título abriu caminhos para os demais que foram arrebatando leitores. Zulim (2011:71) afirma a respeito:
Se é verdade que a literatura nos permite viver num mundo em que as regras da vida real podem ser subvertidas, quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço; onde tudo é possível e podemos desfrutar de uma soberania sem limites, Bandeira demonstra com A droga da obediência que a sociedade livre e democrática requer cidadãos responsáveis, críticos, independentes e difíceis de manipular, cientes de examinar continuamente o mundo em que vivemos para tentar aproximá-lo do mundo em que gostaríamos de viver.
Escritor versátil que é, com a mesma competência reconhecida nas obras de suspense, Bandeira usa e abusa da criação de enredos em que a meta-narrativa e a intertextualidade estão presentes. Lembre-se aqui, para ilustrar, os sucessos O fantástico mistério de Feiurinha (em que com uma linguagem ao mesmo tempo irônica e emotiva, ele revisita os sedutores contos de fadas) e A marca de uma lágrima (releitura do clássico Cyrano de Bérjerac).
Exatamente pelo fato de o leitor jovem se encontrar em uma fase de descobertas, em um processo transitório, no qual deixa para trás sua infância e migra para a idade adulta, é que se torna importante seu contato com obras literárias que expressem seus temores internos e estimulem seu pensamento crítico a respeito de temas que tenham pontos de contato com sua vida. Além disso, a obra literária dialoga com o leitor e pode emocioná-lo, diverti-lo e sensibilizá-lo. O mundo cruel que aparece nesses textos pode, também, preparar o jovem para uma ampla visão a respeito dos conflitos sociais que certamente serão observados ao longo da vida, instigando-o a encontrar a melhor solução. Por hoje encerramos. O próximo encontro vai abordar a terceira tendência da literatura infanto brasileira contemporânea: a renovação da linguagem poética na literatura infanto. Até lá, ou a qualquer momento, se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
BIBLIOGRAFIA
BANDEIRA, Pedro. A droga da obediência. São Paulo: Moderna, 100 ed. 1992.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira – Século XIX e XX. 4ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1995.
GOMES, Gilda Maria das Graças. Mistério e suspense na narrativa policial de Marcos Rey. Dissertação (Mestrado em Letras). Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2007.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história & histórias. 2. Ed. São Paulo: Ática, 1985.
MARINHO, João Carlos. O gênio do crime. São Paulo: Global, 2 ed.1986
REY, Marcos. O mistério do Cinco Estrelas. São Paulo: Ática, 1981
TURCHI, M. Z. Gênio do crime: do suspense à crítica social. In: MELLO, A. M. L. et al. Literatura infanto-juvenil: prosa & poesia. Goiânia: UFG, 1995.
ZULIM, Leny Fernandes. Literatura no ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala-de-aula. Londrina: Amplexo, 2011.
RELEITURINHAS
ERA UMA VEZ UM DESENCANTO
Por Carla Kühlewein
(Publicado originalmente em agosto de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Seguido pelo famoso E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE, o clichê ERA UMA VEZ dá início aos contos de fadas que permeiam a infância de muita gente, mesmo no século XXI. Chapeuzinho Vermelho, Branca de neve, Cinderela, João e Maria e uma Cia de personagens encantadas povoam o universo infantil, porém, não se reduzem a ele: a fase adulta está repleta dessas figuras, ainda que sob o efeito do desencanto.
A magia do ERA UMA VEZ invade, volta e meia, as telas de cinema, o teatro, a televisão, a dança, ou mesmo a música. O curioso é quando essa “invasão” alcança o terreno fértil da arte, pois os efeitos são os mais variados, no entanto, a maior parte deles tende para a desconstrução de um valor que o conto de fada original luta por afirmar: a felicidade eterna. Essa insistência no eterno tem tirado o sono de muito artista e inspirado outros tantos.
A banda Terra Celta, de Londrina (PR), é um exemplo dessa revelação. A banda carrega esse nome devido ao seu estilo musical, fortemente influenciado pela música tradicional irlandesa, oriunda da cultura celta. Além do estilo musical diferenciado, a banda usa vestes típicas, o que ajuda a criar uma marca bem distinta num país de tamanhas diversidades.
Se a proposta é diferenciar, a banda conta com um repertório vasto de músicas autorais, dentre elas, a ERA UMA VEZ, que rompe e corrompe com a suposta felicidade eterna dos contos de fadas:
E essa é a parte da história
Que era pra gente não saber
'E viveram felizes pra sempre'
Não vai mais me convencer.
Que era pra gente não saber
'E viveram felizes pra sempre'
Não vai mais me convencer.
E se o conto de fadas atual
Passar no Jornal Nacional,
Pode apostar, meu amigo,
Deu tudo errado no final.
Passar no Jornal Nacional,
Pode apostar, meu amigo,
Deu tudo errado no final.
Como se não bastasse o goto amargo da felicidade efêmera a qual todo ser humano está sujeito, a letra cita alguns exemplos, pra que o destino óbvio das personagens desencantadas fique bem claro:
A Branca de Neve casou com um anão,
Cinderela foi para um pancadão,
E a Bela Adormecida tomou um chá pra deitar,
Porque não queria acordar
Nesse mundo maluco, do jeito que tá.
Cinderela foi para um pancadão,
E a Bela Adormecida tomou um chá pra deitar,
Porque não queria acordar
Nesse mundo maluco, do jeito que tá.
Não é difícil imaginar que pra encarar “o mundo maluco do jeito que tá” até a bruxa má optaria por não acordar. E nesse banho de realidade, revela-se, então, que o final feliz também não acontece por um motivo muito simples: “A gente acaba dormindo antes da história acabar”.
Como nem tudo são lamúrias, a letra da música sugere um fio de esperança, em meio a tanto desencantamento:
Mas não sei porque eu prefiro acreditar
Que um pouco de mágica, sorte ou fé,
Ajuda muito se quiser,
Com um final feliz, como poucos por ai,
É tanta gente igual, é tanta história sem final.
Que um pouco de mágica, sorte ou fé,
Ajuda muito se quiser,
Com um final feliz, como poucos por ai,
É tanta gente igual, é tanta história sem final.
Em verdade a banda londrinense capta uma essência de qualquer história de encantamento: acreditar. Por mais inverossímil que pareça a história, a crença ou a suposição, acreditar nela já parece ser o suficiente para que algo bom se materialize e de repente se possa acreditar em bruxas, fadas e cia.
Ouça a música ERA UMA VEZ da banda Terra Celta, clicando no link a seguir e... Boas RELEITURINHAS!
https://www.youtube.com/watch?v=tc8I8XNmcWI
"WOLVERINE IMORTAL", UM FILME DIGNO PARA LOGAN!
por Alexandre Kazuo
(Publicado originalmente em agosto de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
É bem verdade que os personagens de “X-Men” são usados como “bucha de
canhão” pela Marvel, devido a sua popularidade. Sobretudo, no cinema, pois se o filme feito com algum deles (ou todos) tem um mal desempenho, a demanda de público mínima pode custear a produção. Até o novo “Wolverine Imortal” (2013), o ator Hugh Jackman encarnou o personagem Wolverine por 5 vezes em 5 filmes, quatro com o nome X-Men no título e um solo (“X-Men Origens: Wolverine”/2009). Nenhum deles agradou completamente aos fãs das HQ’s, tal qual “Batman: O Cavaleiro das Trevas” ou o filme dos Vingadores. Com muita boa vontade pode-se dizer que as melhores aparições de Wolverine no cinema se deram em “X-Men 2” (2003) e em parte do filme solo de 2009.
A revista Mundo dos Superheróis de julho em matéria de capa sobre o novo filme do Wolverine, ressalta um dito do próprio Hugh Jackman. O ator afirmou a imprensa internacional que a minissérie “Wolverine” de 1982, escrita por Chris Claremont e desenhada por Frank Miller, a qual serviu de base para o roteio de “Wolverine Imortal”; era sua história favorita. Jackman afirma que esperava pela oportunidade de viver uma história do Wolverine em meio a ninjas e a máfia yakuza no Japão, desde o primeiro filme dos “X-Men” (2000).
“Wolverine Imortal” estreiou agora no fim de julho sob direção de James Mangold, que entre outros filmes dirigiu a cinebiografia “Johnny & June”, do casal de cantores Johnny Cash e June Carter. Não é uma adaptação total da citada minissérie da dupla Claremont/Miller, mas 90% dos personagens nipônicos inseridos na trama, foram trazidos daquela história. Logan/Wolverine é levado ao Japão por Yukio a mando do lorde Yashida, vítima de câncer em estágio terminal. Yashida foi um oficial do exército japonês, salvo por Logan no momento da explosão da bomba de Hiroshima, durante a II Guerra. Logan, questiona sua existência prolongada pelo poder mutante do fator de cura e (seus bem inseridos na trama) fluxos de consciência, trazem a mente Jean Grey; devidamente interpretada por Famke Jansen. A atriz viveu Jean Grey nos 3 primeiros filmes de “X-Men”.
Reconectando com a trilogia “X-Men”?
A menção é direta ao fato de Wolverine ter matado Grey em “X-Men 3” (2006), uma vez que a personagem se viu possuída pela entidade destruídora chamada Fenix. Convencido a ir ao Japão por Yukio, Logan encontra Yashida que revela o interesse em replicar em si, as capacidades do fator de cura e dos ossos de adamantium. Um tipo de transfusão de capacidades que poderia prolongar a vida do japonês. Não apenas a citada série de Claremont/Miller é citada pelo roteiro, como também o esquecido especial “Furia Interior” de D. G. Chichester e Bill Sienckewicz. Neste especial Logan é infectado por um organismo vivo que torna líquido o adamantium de seu corpo. No filme, o organismo introduzido pela vilã Vibora, é parecido, pois retarda o fator de cura para que seja viável uma possível transfusão do adamantium.
Víbora aliás, vilã secundária nas HQ’s, muito bem aproveitada na trama, encarnada pela atriz russa Svletana Khodchenkova. Yukio (Rila Fukushima), originalmente uma amante de Logan na série de Claremont/Miller, ganha uma caracterização diferenciada. Lembra muito a sino-americana Jubileu, que acompanhava Wolverine em muitas aventuras fora dos X-Men, em histórias da década de 90, atuando como uma espécie de Robin.
Num todo parece haver uma re-conexão com os três primeiros filmes de X-Men e um tipo de rompimento com o primeiro filme solo do Wolverine. Até porque o título que deveria ser “X-Men Origens: Wolverine II” foi alterado, como muitos tem observado. É preciso lembrar que o diretor do primeiro X-Men, Bryan Singer está envolvido no próximo filme dos X-Men que reaproveitará a história “Dias de um Futuro Esquecido”, nas HQ’s também escritas por Chris Claremont.
É claro que para um fã antigo como este que vos escreve, fica uma monstruosa pulga atrás da orelha em relação ao que poderia ter sido feito pelo diretor Darren Aronofsky (“Cisne Negro”, “O Lutador”); que por motivos de força maior teve de abandonar o projeto. A citada matéria da Mundo dos Superheróis confirma um temor da Marvel em ter que classificar o filme para 16 anos, caso o roteiro trabalhado por Aronofsky fosse levado a diante. Wolverine nunca foi um personagem para o grande público, nem para o público infantil. Por outro lado, o Wolverine de James Mangold mostrou-se minimamente digno, com o roteiro resgatando muitos elementos das melhores HQ’s dedicadas ao personagem.



