ENTREVISTA - KIKA E DEKA
(divulgada originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Duas professoras, várias LEITURINHAS e uma paixão: escrever. A entrevista desse mês vem em dose dupla com Andreia Lopes Zanutto Salviato (Deka) e Carla Kühlewein (Kika) e o figurante principal da vez, seu livro infantil: TRIM!
Boas LEITURINHAS!
TRIM! ATRAPALHADAS LEITURINHAS
LEITURINHAS – Qual a história de suas LEITURINHAS da infância até agora?
DEKA – Na minha infância li muito, pois minha mãe fora bibliotecária. Como professora de Língua Portuguesa, não dispenso os clássicos brasileiros, Machado de Assis para mim é o maior, volta e meia retomo leituras deste gênio. Também releio muito Clarice Lispector que revoluciona com sua tenacidade psicológica, mas também me encanto com a delicadeza bucólica de Tomaz Antônio Gonzaga, afinal, fugere urbem é bom, de vez em quando. Por ter participado de um grupo de estudo sobre as teorias pós-modernas Rubem Braga, Roberto Drummond e Marina Colassanti também me cativaram. Mas confesso gostar de crônicas e cartuns, curto muito o humor sobre o cotidiano nas crônicas e a atualidade e a política nos cartuns. Recentemente descobri a cartunista argentina Maitena, nunca ri tanto ao ler um livro, mas atenção: “Mulheres Alteradas” 1, 2, 3, 4 são livros para adultos!
Durante um bom tempo mergulhei em leituras mais técnicas, ao estudar para concursos, e leituras mais teóricas principalmente sobre teoria linguística e educacional foi onde descobri dois fabulosos estudiosos espanhóis: Oliveiros F. Oteros e Victor Garcia Hoz, o primeiro, uma espécie de Paulo Freire espanhol, anseia por uma “rebeldia educativa” que propõe “atitudes rebeldes” por parte do professor e o segundo, idealizador da verdadeira “Educação Personalizada”, ambos leituras muito expressivas para a minha formação e atuação como professora. Nesta busca por entender a completude do “SER” e poder educar cada vez melhor, após ler muita Filosofia Educacional e Antropologia Filosófica em uma especialização em orientação familiar que fiz indico três “O ciclo de Vida Completo” de Erik H. Erikson, “Teia da Vida” de Fritjof Capra e “A busca de sentido” de Viktor Frankl cada qual ao seu modo traz uma reflexão interessante, para não dizer inquietante.
KIKA – Como vocês podem perceber, minha companheira de escrita e grande amiga tem uma base teórica notável, o que não é o meu caso. Sempre fugi da teoria, exceto nos momentos em que isso não me foi possível (como na elaboração de textos científicos e afins). Minha paixão mesmo sempre foi a obra literária em si. A primeira “aventura” nesse ramo foram os contos de fadas, todos eles, lia e relia, orgulhosa de conseguir decifrar cada palavra. Depois vieram coleções como CACHORRINHO SAMBA (lá e acolá), VAGALUME, PARA GOSTAR DE LER, até chegar aos clássicos.
Na infância devorei as Histórias em Quadrinhos, todas que meu pai trazia: Turma da Mônica, Luluzinha, Turma do Mickey, Garfield e até algumas não muito conhecidas como Abot e Costelo (os antigos “gordo” e “magro”), Pinga Fogo e os Irmãos Metralha (da Disney).
Foi no Ensino Médio que fui apresentada à literatura com Machado e demais contistas e romancistas e à poesia. De repente sucumbi a paixões em série: Drummond, Cecilia, Quintana, Vinicius, Pessoa, e a fila foi engrossando ininterruptamente. Mais recentemente ando descobrindo Adélia Prado, Affonso Romano Sant`Anna, Alice Ruiz e outros tantos.
Atualmente dedico-me às LEITURINHAS de obras infantis, principalmente as contemporâneas, e de crônicas compiladas em livros de educadores como Mario Sérgio Cortela e Rubem Alves. Eventualmente intercalo com romances de vertentes diversas, como as obras de Marcia Tiburi, dentre outros contemporâneos.
LEITURINHAS – Vocês podem creditar a alguma experiência na infância (Carla, por exemplo, afirma que frustrou o desejo da mãe de vê-la médica, para dedicar-se às letras e ao magistério) o fato de serem tão próximas dos livros a ponto de escreverem uma obra dedicada às crianças como TRIM?
KIKA – Na infância eu brincava de escolinha, mas sempre era a aluna, a professora era minha irmã Alice. Creio que o contato com professores de português muito bons durante minha escolarização teve uma boa parcela de “culpa” na vontade crescente de lecionar e escrever.
Andreia e eu sempre compartilhamos a paixão pelo magistério, no entanto, ela sempre tendeu mais para o estudo da linguagem e eu para o literário, ela sempre escreveu muito, eu pouco, enfim, o que nos diferenciava, na verdade nos completava. Acredito que foram essas deliciosas “discordâncias” que nos aproximaram e nos levaram a escrever uma obra como TRIM, lúdica e ao mesmo tempo literária.
DEKA – Eu também tive contato com os livros infantis citados pela Carla. Rememorando minha infância, lembro-me diante de estantes enorme cheias de livros, e eu diante delas como que se estivesse num supermercado em frente a gôndolas de doces e com dúvidas sobre qual escolher... (risos).
Com certeza o prazer pela leitura veio de meus pais, meus maiores exemplos e incentivadores. Sempre vivi rodeada de livros, meu pai fiscal da receita estadual por um tempo estudou para concursos e vivia rodeado de livros, minha mãe era professora e ficou um tempo afastada de sala de aula por motivos de saúde, assumindo o comando de uma biblioteca pública, isso durou 16 anos. Para não ficar sozinha por um bom tempo minha mãe levava-me junto (afinal, a biblioteca era pública...). Li de tudo... pelo menos não havia nada de literatura infanto-juvenil daquela biblioteca que eu não tenha lido. Ah! E levava muuuuuitos livros para casa, quando chegavam livros novos então... era uma festa. Lia tanto que minha leitura noturna foi acusada (injustamente) como culpada da minha miopia por meus pais. Minha mãe me apresentava os seus escritores preferidos: Ana Maria Machado, Eva Furnari, Ziraldo e Monteiro Lobato e estes acabaram também sendo os meus, mas também lia fábulas, lendas indígenas e os clássicos de Grimm e Andersen. Na minha infância, o Menino Maluquinho, a Bruxa Onilda e a turma do sítio tornaram-se meus grandes amigos. Na adolescência, na ausência de Harry Potter (paixão da minha filha Beatriz) tinha Marcos Rey por meu preferido, devorei a coleção Vaga-lume e a coleção Para Gostar de Ler (como todos os bons leitores juvenis da época) mas antes me apaixonei por Polyana menina e Polyana Moça e sua lição de vida.
Acredito que o fato de ter como mãe uma paciente professora (construtivista) foi um privilégio, pois ela me deixava descobrir as palavras e os livros (embora ela fosse muito “arredia” com o recém “imposto” construtivismo, como a maioria dos professores da época). Ter vivido em uma biblioteca no meu contraturno também me estimulou muito, pois além de haver à disposição uma grande quantidade e variedade de livros, estava sempre rodeada de pessoas amantes dos livros o que me causava ainda mais “interesse”.
LEITURINHAS – Que obra lida por vocês é considerada o grande livro, capaz de influenciar a vida que vocês têm?
DEKA – Sem dúvida o livro “A busca de sentido” de Viktor Frankl, pois há muita verdade em seu testemunho de sobrevivente em campos de concentração nazista. Sua teoria, depois chamada de “logoterapia”, nos faz perceber os nossos individualismos e egoísmos e nos ensina a buscar um sentido no outro, ou seja, a fazer sacrifícios e superar obstáculos por amor ao próximo, no caso de Viktor, que sobrevivia ao ter esperança de encontrar sua esposa viva. Um livro comovente, inquietante e que muda paradigmas, inclusive pessoais.
KIKA – Hmmm... essa é uma pergunta muito difícil de responder porque me vejo dividida entre dois livros: O PEQUENO PRÍNCIPE e ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS.
Desde que li pela segunda vez O PEQUENO PRÍNCIPE (na primeira não entendi nada, pois o fiz quando era criança...) fiquei intrigada, e ao mesmo tempo envergonhada, diante da figura obsoleta de um principezinho detentor de tamanha sabedoria. Acredito que o maior mérito desse livro está na “grande sacada” de o autor ter delegado a uma criança as frases compostas de alto teor filosófico, replicadas aos milhares na internet como “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Quanto à ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS sempre fui inveteradamente apaixonada por essa obra porque de certa forma a menina perdida retrata a mim, e a tantas outras pessoas (quem sabe?) na busca de se encontrar no mundo, que me (nos) parece às vezes tão desconhecido. Como se não bastasse a completa falta de senso de direção, noção e tudo o mais a pequena Alice ainda tem como coadjuvantes várias figuras amalucadas, dentre elas o Gato Risonho (ou Gato de Cherlise, na versão original) que usa e abusa da lógica, assunto que Lewis Carol dominava com maestria, já que era matemático. Não me esqueço de uma fala desse gato sorridente, diante do questionamento de Alice sobre a saída do país das Maravilhas: “Se você não sabe para onde quer ir, logo qualquer caminho importa”.
A somatória dos questionamentos levantados por esses dois livros me alertam para ficar atenta às escolhas que faço em minha vida e à responsabilidade que tenho por tudo o que conquisto, do trivial ao essencial.
LEITURINHAS – Comentem um pouco sobre o personagem principal da história, o Tato.
DEKA – É um menino desatento, meio atrapalhado e simpático que fez meu filho Dado (Bernardo) rir muito!! Todos nós nos identificamos com ele em algum momento... quem já não teve seu momento de trapalhada e distração?
KIKA – Tato é o personagem central de nosso livro TRIM. Assim que optamos por elaborar uma história divertida, logo imaginamos um menino que tivesse como característica principal ser atrapalhado, afinal não há nada mais cômico do que se atrapalhar numa atividade tão comum no dia a dia como atender ao telefone. Lembro-me que rimos demais enquanto pensávamos na história, principalmente quando surgiu o insight para o final da história. Tato nos rendeu (e ainda nos rende) boas risadas.
LEITURINHAS – Candido fala que a literatura forma de acordo com a vida, mostrando o belo e o feio, o bom e o ruim. Tudo isso sem deixar a fantasia e a imaginação (bem como a arte) passar ao largo. TRIM assim se apresenta? É um livro que forma sem deixar de lado a arte?
KIKA – Sim, parece que TRIM está de acordo com a proposta teórica de Candido, que concebe a literatura enquanto instrumento formador do homem, tanto quanto a escola e outras instituições o são. Como TRIM tem uma linguagem próxima à poesia e às Histórias em Quadrinhos, seu próprio texto assume caráter artístico, ou seja, não há como lê-lo sem considerar as rimas, os trocadilhos, as ilustrações. Nesse sentido ele se torna artístico, pois estimula a imaginação do leitor a partir dos jogos de palavras literariamente elaborados.
Se considerarmos ainda que a principal diferença entre o texto literário e os demais é o “como” se escreve e não “o quê” se escreve, TRIM mais uma vez se converte em arte, pois muito provavelmente se a mesma história do atrapalhado Tato fosse contada sem o jogo de palavras que a compõe perderia e muito, em seu aspecto artístico. Ainda que Tato passe por dificuldades, e isso remeta ao lado ruim da vida, é possível se divertir com a trajetória conturbada desse personagem justamente por causa do trava-línguas que a união do T e do R sugere.
ANDRÉIA – Como dissemos a mestre em literatura e conhecedora de Cândido já disse tudo.
LEITURINHAS – De onde partiu a ideia de aproximar o diálogo das imagens com o texto do livro e inseri-los num formato redondo?
DEKA – A mestre em literatura responde melhor (rs...), mas na minha opinião acho que a ideia foi mais pedagógica do que pós-moderna. Ocorreu após vermos o original e identificarmos a necessidade de um algo a mais. Pensamos então na possibilidade de transformar o livro em um instrumento lúdico em que a criança pudesse, com o estranhamento, ser desafiada, e ao ter que girá-lo pudesse interagir e estabelecer conexões com objetos que possam ser girados: volante de um carro e até as antigas teclas giratórias de um telefone antigo (mas isso com a intervenção de um adulto explicando... é claro...). A ideia inicial era o formato de um telefone, mas o efeito circular foi ainda mais lúdico e interativo.
KIKA – Certamente minha explicação para isso é mais literária do que pedagógica (já muito bem esclarecida pela Deka). O modo como o livro foi composto tem muito a ver com seu processo de criação: partimos de uma lista de palavras que tivessem os mais variados encontros das letras T e R; em seguida elaboramos a história tentando inserir o maior número de palavras da lista. O resultado foi uma história humorada e dinâmica muito próxima da linguagem das Histórias em Quadrinhos. Não foi proposital... o dinamismo da história e das ilustrações veio junto com o processo criativo que selecionamos para a composição do texto em si. O feito circular do livro e a disposição do texto seguem essa mesma vertente: mais instintivo do que premeditado.
LEITURINHAS – Como se deu o processo de criação das ilustrações?
DEKA - As ilustrações do Northon foram fiéis às ideias originais... da Carla, que (embora poucos saibam...) com suas habilidades de desenhista (quase ilustradora) tinha feito um rascunho de como queríamos. Ele foi muito sensível às ideias originais, mas com o brilhantismo da técnica da aquarela conseguiu explorar melhor as expressões e as perspectivas com mais propriedade... mas o cabelo do Tato e a roupa como pode-se perceber no logo do site leiturinhas foram criações da Carla!!
KIKA – (risos) Dizem que elogio de amiga é sempre suspeito, mas em partes a Deka tem razão, fiz um esboço das ilustrações em sulfite, algo bem precário, numa tentativa de visualizarmos a história de fato.
A opção por convidar o Northon a ilustrar as histórias não se deve exclusivamente pela amizade, mas principalmente pela sensibilidade e humildade com que ele trata a questão. É o tipo de profissional que ouve todos seus anseios (muitas vezes desencontrados) filtra o que pode ser mais adequado à proposta do livro e pronto, dedica-se à causa. Ele “vestiu a camisa” do TRIM com a mesma paixão que Deka e eu, a ponto de se identificar com o Tato e declarar-se ser como ele.
Quem lê o resultado final pode ter a impressão de que ficamos horas a fio elaborando a ideia junto com o Northon, qual nada! Foi tudo on-line e a “coisa” funcionou como se fosse estivéssemos “ao vivo”.
LEITURINHAS – Quais LEITURINHAS vocês indicam para os pequenos e grandes leitores?
DEKA - Depende muito da idade e do gosto da criança pela leitura... Acredito que é importante colocar à disposição da criança livros diversos adequados à sua idade. Além de terem sido importantes para mim os recomendo até hoje. Atualmente, destaco também a importância de se ler e de se trabalhar em sala de aula com poesia para crianças, além de Cecília Meireles amo a irreverência de José Paulo Paes, inclusive amei ler a sua biografia e constatar que vivia cercado por livros e escritores. Em minhas aulas nos divertimos muito com poesia, encenamos, fazemos competições e desafios diversos, minha mais nova descoberta foi Lalau e seus poemas deliciosos.
Tenho 5 filhos e percebo que o repertório deve ser variado e de acordo com o interesse... para adquirir o hábito de ler, o prazer pela leitura...vale tudo, o que mais importa é que leiam...(aos poucos vamos sugerindo outras opções). A mais velha de 13 anos já leu várias coleções inclusive em inglês (para o meu orgulho!!) O diário da Princesa, Harry Potter, o Senhor dos Anéis além de alguns clássicos de Machado de Assis que ofereci a ela. Se não há interesse ou se são muito pequeno devemos ler para eles... nada melhor que a mãe (ou o pai) abraçadinho lendo para a gente!!! Recentemente ando lendo muito Monteiro Lobato para meus filhos Bernardo (6) e Marina (4), já com o interesse do Thales, de 2 anos, à nossa volta. Bernardo vibrou muito com As caçadas de Pedrinho e se encantou com A Chave do Tamanho... o fato de ler um pouquinho por dia e de não haver muitas ilustrações exige de nós leitores (pais) uma certa dose teatral o que torna a leitura ainda mais divertida! Como é bom ler para os meus filhos... e depois vê-los lendo sozinhos... e tendo prazer pela leitura.
Mas para os pais de plantão, o Menino Maluquinho ainda é quem nos dá a melhor lição, o insuperável Ziraldo nos lembra da importância de deixar a criança ser criança: correr, brincar, chorar, xingar, enfim... ser feliz. Lembro-me de uma ocasião, ao término de uma especialização presenteei meu professor Alvaro Sierra Londoño, médico colombiano, pai de 12 filhos, autor do livro “Educación de La afectividad” com este livro “O Menino Maluquinho”. O objetivo era lhe presentear com o que considerava mais significativo para mim após suas aulas sobre “Educação da afetividade”, encontrei neste livro “O Menino Maluquinho” a resposta daquilo que poderia ser dado a uma criança, sendo difícil traduzir “maluquinho” para ele, resumi: “um menino feliz porque era e agia como criança”, aliás, deixavam-no agir como uma criança... Concluindo, indico Muuuuito Afeto, Muuuuitos livros e Muuuuuitas brincadeiras... esta é a minha indicação, pois mais do que escolher um livro é deixar a criança escolher... e é o modo como conduzimos esta interação do livro com a criança: deixando-a ser criança, deixando-a se divertir sem esquecer de fazê-la perceber que ela é muito amada.
KIKA – Boas LEITURINHAS! (risos)
Para adquirir um “TRIM” envie e-mail para contato@leiturinhas.com.br e solicite a compra.
QUE TAL POESIA?
(divulgado originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
POESIA INFANTIL: ASPECTO LÚDICO, JOGO COM AS PALAVRAS E ALITERAÇÕES -
A ação formadora da poesia infantil
(Marcia Mocci)
Este é o terceiro artigo de uma série que pode ser denominada de “A ação formadora da poesia infantil”, ou seja, textos em que procuramos ressaltar a importância da poesia na formação global da criança, assim como as características e as peculiaridades do gênero, ressaltando os recursos estéticos que atraem a atenção da criança e possibilitam sua aproximação com a poesia. Procuramos ilustrar os preceitos abordados com exemplos de poemas de poetas consagrados da literatura brasileira para crianças e jovens.
Como forma de discurso e modalidade artística, a poesia revela o trabalho da linguagem sobre si própria. Não é apenas a presença de rimas, ritmo ou sonoridade que conferem ao texto qualidade de poema, mas sim sua organização global, sua natureza poética e sua forma de chegar ao leitor.
Para compreender a poética infantil, Juan Cervera (1992) assevera que é preciso pensar o termo “poesia” de forma ampla e polivalente, analisando seus diversos significados, assim como a relação que eles estabelecem entre si. Para o autor, há três formas de poesia: a primeira, não sendo específica para a criança, surgiu das manifestações populares: canções, trava-línguas, parlendas e adivinhas e utiliza as rimas e os jogos de palavras de forma muito marcada. Apesar de apreciada pela criança, essa poesia não tem sido suficientemente estudada em sua origem, linguagem e relação com o público infantil.
A segunda modalidade poética tem sua origem na intencionalidade educativa e reflete o pensamento e a visão do adulto, é uma poesia feita “para” a criança e nela predominam o didatismo e as lições moralizantes que servem a objetivos pedagógicos. Essa poesia não encanta o leitor infantil por não satisfazer suas necessidades em relação ao lúdico e à fantasia.
A terceira forma poética, para Cervera (1992), é a poesia feita pela própria criança; que expressa espontaneamente através de construções simples e linguagem figurada, tendendo a personificar os objetos através do pensamento irracional e do animismo. Nessas construções, a criança utiliza o jogo para criar expressões poéticas, sendo capaz de utilizar recursos que conferem poeticidade e beleza ao texto, mesmo não sendo capaz de refletir sobre eles. Isso ocorre porque o mimetismo está arraigado à formação da criança, fazendo com que, muitas vezes, seja impossível distinguir o que é criação pessoal e o que são recordações.
Podemos acrescentar às considerações feitas por Cervera (1992) uma quarta modalidade presente na poética infantil contemporânea: a poesia feita pelo adulto, mas que leva em consideração as características do pensamento infantil. Poemas em que o autor é capaz de adotar o ponto de vista da criança a fim de solidarizar-se com suas aspirações. Esses poemas infantis, de elevada qualidade estética, mantêm as mesmas características artísticas dos poemas para adultos, principalmente o uso da linguagem simbólica.
Para que o universo poético seja compreendido pela criança é necessário que se adote uma linguagem com vocabulário adequado a sua faixa etária, com predominância de frases curtas, prefencialmente em ordem direta, e construções próximas da oralidade. Dessa forma, ocorre a identificação entre o mundo da criança e o mundo da poesia.
Um dos elementos básicos da poética infantil é o aspecto lúdico, por isso o jogo com as palavras é essencial, pois atrai a criança pela brincadeira com os diferentes significados possíveis, sendo o ludismo decorrente da confusão do sentido dos vocábulos. Abramovich (1989) salienta que os trocadilhos fazem com que a linguagem poética se aproxime da oralidade, mostrando-se favorável à memorização, fator que contribui para a apreciação do poema pelo leitor-criança.
O uso da aliteração e da assonância também são recursos poéticos que contribuem para a atribuição de sentido ao poema causando, muitas vezes, um efeito cômico. Esses recursos foram utilizados por mestres da poesia infantil como Vinícius de Moraes em “As abelhas”, Henriqueta Lisboa em “Caixinha de música” e Cecília Meireles em:
Colar de Carolina
Cecília Meireles
Com seu colar de coral
Carolina
Corre por entre as colunas
Da colina.
O colar de Carolina
Colore o colo de cal,
Torna corada a menina.
E o sol, vendo aquela cor
Do colar de Carolina,
Põe coroas de coral
Nas colunas da colina.
Regina Zilberman, em artigo intitulado E para a poesia não vai nada? (2005), salienta que a valorização do lúdico através da linguagem é favorecida pela própria estrutura da língua portuguesa que permite a utilização de recursos sonoros, como o jogo e o trocadilho com palavras e letras e acabam provocando o riso e cenas de humor. É o que se observa no poema “Dia de festa” em que Sidônio Muralha faz uma deliciosa brincadeira com os vocábulos sabia e sabiá:
Dia de festa
Sidônio Muralha
........................
E tudo que lá
Havia
E tudo o que havia
Lá,
Que se chamasse alegria
Que se chamasse poesia
Só sabia
O sabiá.
Ouçam como ele assobia
Assobia
O sabiá.
ABRAMOVICH, F. Literatura Infantil: Gostosuras e bobices. 4 ed. São Paulo: Scipione, 1989.
CERVERA, Juan. Teoria de la Literatura Infantil. 2 ed. Bilbao: Universidade de Deusto/ Ediciones Mensajero, 1992.
ZILBERMAN, Regina. E para a poesia não vai nada? In: __________ Como e por que ler a Literatura Infantil Brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
LÁ VEM CONTO
(divulgado originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
MITO DA ATUALIDADE
(Deusiane de Andrade)
Certo dia, numa tarde em que pessoas passavam na rua, algumas alvoroçadas, pois era perto das 5 da tarde, hora de buscar as crianças na escola, os carros no mesmo ritmo... só eu estava parado, na minha janela olhando o movimento todo. Alguns cachorros de rua procuravam o resto de alimento que os vizinhos deixavam todo dia no canto da calçada para eles. Já apareciam algumas crianças correndo para o parquinho do bairro, como sempre faziam na volta da escola. O sol estava se pondo aos poucos, como era de praxe, lançando seus raios alaranjados sobre as folhas das árvores, o rosto das pessoas, as paredes e muros brancos... Tudo como sempre, todo dia acontecia a mesma coisa e eu continuava do mesmo jeito: com o coração vazio, numa nostalgia de outros tempos quando os amigos eram muitos, quando donzelas me rodeavam buscando minha agradável companhia, como viviam dizendo os colegas, época de boas festas regadas à vinho e boa música. Eu dançava muito bem, talvez por isso também era cercado de moças bem distintas, apesar de que, modéstia a parte, minha popularidade sempre foi boa, desde que estudava no Ensino Fundamental, pois tinha fama de ser gentil com as garotas, cordial com os amigos, excelente piadista, porém tinha inteligência para entrar nos papos mais cultos e científicos da época. Hoje, com meus 30 anos, ando entristecido, sorriso amarelo nos lábios, olhar apagado, desde que as pessoas foram se arranjando na vida, tomando novos rumos, e eu continuei cheio de mim, com um ego inflado de tantos elogios falsos e fúteis, pois eu sempre busquei ser o que não era...
Até chegar esse dia em que, numa tarde normal em que nada mudava, como a rotina de todos os meus dias, finalmente algo diferente ocorreu: o telefone tocou. Podia ser qualquer coisa, qualquer pessoa, qualquer assunto, mas naquele dia em particular, meu coração bateu mais forte, como se algo inesperado viesse me tirar daquele abismo em que eu me encontrava.
- Ariadne, boa tarde, com quem eu falo, por gentileza?
- Com quem você quer falar?
- Gostaria de falar com o senhor Adonis.
- Não, quem fala é Dionísio.
- Oh, me desculpe, foi engano.
- Ah, tudo bem. – disse num tom de descontentamento e tristeza.
- Está tudo bem com o senhor? Sua voz parece tão tristonha...
- Na verdade não, eu esperava que você viesse trazer algo bom para mim nessa tarde vazia, mas me enganei, não é a mim que você procura.
- Bom, espere, talvez eu possa te ajudar, gosto muito de conversar e conhecer novas pessoas, e por isso fiz um curso de aconselhamento familiar, eu trabalho com consultoria em empresas, por isso contatei o cliente Adonis, a pessoa pra quem eu ia ligar, na verdade. – seu riso era como uma melodia aprazível aos ouvidos. – Talvez pudéssemos tomar um suco numa lanchonete ótima que eu conheço no centro da cidade... Quem sabe não podemos partilhar de nossa história um com o outro? Estou precisando de amigos transparentes e sinceros para conversar, faz muito tempo que não tenho contato com esse espécime de gente. Pode ser depois que eu sair do trabalho, às 6...
Não hesitei, combinei o local e o horário e fui ao seu encontro. Ela me contou toda sua história, de como foi abandonada por seu ex-namorado, Teseu, nas vésperas de seu casamento, e desde então não conseguiu confiar mais em ninguém, por isso também fizera o curso. Nossos encontros continuaram cada vez mais frequentes, no início era apenas uma vez por semana, depois duas, três vezes, até que, sem perceber, já partilhávamos da mesma rede de amigos que juntos escolhemos a partir do mesmo ponto comum: serem transparentes. A vontade de estar juntos cada vez mais aumentava, sem que a gente percebesse, até que um dia, quando saímos com nossos amigos, chegando a hora de ir embora, um a um foi se despedindo e saindo, quando restou somente nós dois. Segurei levemente sua mão enquanto uma música doce tocava como fundo musical para aquele instante... eu a puxei para dançar e enquanto nossos rostos se aproximavam um do outro, nos beijamos suavemente, como se aquilo tudo fosse eterno, interminável.
Minha vida mudou completamente depois que a conheci, ela veio, como a Ariadne do mito grego, me tirar do labirinto em que eu me encontrava, sem saber como havia entrado nele e como escapar... Mas não poderei terminar de contar a minha história agora, pois tem alguém que me espera nesse momento na Igrejinha da serra para que finalmente eternizemos nosso romance épico.
KAZUO EM QUADRINHOS
(divulgado originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
SIMPLESMENTE MAFALDA
(Mariene Boldiere)
Fui convidada a escrever sobre a obra completa das tira da Mafalda, intitulada “Toda Mafalda: da primeira a última tira”, do cartunista Quino, lançada no Brasil pela editora Martins Fontes. O exemplar que tenho em mãos é uma reimpressão de 2012 de uma 2ª edição lançada em 2010. Como fã da garota inquieta com o mundo, aceitei.
É de fato um livro para satisfazer aos fãs, em suas primeiras páginas já traz uma entrevista com Quino, falando de sua origem, sua relação com a esposa Alicia, sua relação com o prato odiado por Mafalda, sopa, sua carreira e gostos pessoais que se refletem em sua obra. Depois da entrevista há uma linha cronológica das publicações da Mafalda, em meio à entrevista e a linha do tempo aparecem tiras com traduções em vários idiomas.
Para finalizar a introdução, um prefácio escrito por Umberto Eco, que procura situar a personagem em seu contexto latino-americano, com os problemas políticos e econômicos de seu país e a confusão com o que acontece no mundo em plena Guerra Fria. Nas palavras do autor: “Mafalda pertence a um país repleto de contrastes sociais que, no entanto, nada mais quer do que torná-la integrada e feliz, algo que Mafalda recusa, resistindo a todas as tentativas”.
Depois de tão rica apresentação, enfim, todas as tirinhas, há também os outros
personagens que fazem parte do universo da Mafalda, o amigo Filipe, que muitas vezes se irrita com o pessimismo da amiga, os pais dela, sempre surpreendidos pelas perguntas da menina, muitas vezes no meio da noite.
Manolito, o filho do dono da mercearia, imbuído do espírito capitalista; Susanita, que sonha com sua futura família, em ser uma mãe orgulhosa dos filhinhos. De férias na praia ela conhece Miguelito e descobre que na verdade moram na mesma cidade, este se torna um amigo e figura recorrente nas tirinhas.
Ao longo dos anos Mafalda ganha um irmão, Guile, que é o único que envelhece, durante um período e a pequena Liberdade, pequena e complexa. Talvez eu devesse citar a figura do globo terrestre que incita tantas dúvidas na jovem Mafalda e está presente em muitas tiras, até mesmo de cabeça para baixo.
Ao final, uma declaração dos direitos da criança comentada pela Mafalda e seus amigos para a UNICEF encerra esta ótima coletânea.
VIDEOTECA
(divulgado originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
O SEXAGENÁRIO ‘FANTASIA’!
(Alexandre Kazuo)
Recentemente uma animação intitulada ‘Detona Ralph’ resgatou personagens clássicos de jogos de videogame, os quais, ao menos na minha infância, povoavam o imaginário e realidade virtual das crianças daquela época. Em ‘Detona Ralph’ temos personagens simpáticos como os fantasmas coloridos que antagonizavam com o mito Pac Man, dos antigos consoles Atari. Passando pelo porco espinho azul Sonic e seu inimigo o doutor Robotnik, até personagens dos primeiros jogos clássicos de luta como o soviético Zangief e o maligno M. Bison, ambos de Street Fighter. No entanto, o caminho oposto com personagens de desenhos infantis sendo levados para os jogos de videogame acontece desde sempre. Não foi diferente com Mickey Mouse que já deve ter figurado em uma centena de versões de jogos para os mais diferentes aparelhos. Este que vos escreve se lembrou do clássico desenho ‘Fantasia’, quando jogou com seu primo
de pouco mais de três anos a recente versão de ‘Epic Mickey 2’ para o videogame X-Box da Microsoft.
Ainda na primeira tela de ‘Epic Mickey 2’ há uma sutil referência ao desenho quando Mickey pega o item do chapéu de feiticeiro e enfeitiça as vassouras para que estas levem baldes d’água pelo casarão, enquanto um mago narra a história. Creio ter visto o relançamento de ‘Fantasia’ (1940) em virtude dos seus 50 anos na época, início dos anos 90 ainda em formato VHS disposto em fitas de videocassete. Eu deveria ter 10 ou 11 anos e era um desenho incomum. Um maestro (Leopold Stokovski) conduz a orquestra da Filadélfia, ambos reais, tendo ainda pouquissimas intervenções de um narrador. Desenrola-se uma trilha sonora composta de peças clássicas não havendo diálogos nas sequências. A introdução se dá com ‘Tocata e Fuga em ré menor’ de Johan Sebastian Bach, num momento bastante abstrato em que os animadores tentam ilustrar o som da orquestra. Mickey aparece apenas numa curta sequência em que a orquestra executa ‘Aprendiz de Feiticeiro’ de Paul Dukas (1865-1935), a clássica sequência em que ele, Mickey, usurpa o chapéu de seu mestre, o mago Yen Sid, e erroneamente induz as vassouras a fazerem a limpeza que ele deveria fazer. A peça originalmente foi composta a partir do conto homônimo do alemão Johan Wolfgang Von Goethe, cujo título na língua alemã é ‘Der Zauberlerhling’.
Animação ou musical?
Há momentos diversos em que as sequências sugerem a criação do universo, início do surgimento da vida no planeta Terra com os primeiros seres evoluindo das águas. Os dinossauros são vistos em seu ápice e num vislumbre de um desequilíbrio climático que causou sua extinção. Casais de centauros, pégasus voando e cupidos sugerem a ‘Teogonia’ de Hesíodo, poeta helênico do século VI a.C. quase contemporâneo a Homero. Um entediado Zeus também é visto arremessando seus raios dos céus do Olímpo. Este momento helênico, sem exagero algum, o mais sublime da história dos desenhos animados, surge ao som da ‘Sinfonia Pastoral’ de Ludwig Van Beethoven. O fim da era pagã é contrastado com o advento da cultura judaico/cristã na ilustração da noite de Valpurga onde demônios e bruxas desatrelam numa madrugada medonha. A qual encerra-se com a aurora onde os beatos se apresentam para celebrar seu Deus, num novo dia, ao som da ‘Ave Maria’ de Schubert. Constam ainda na trilha sonora ‘A Sagração da Primavera de Igor Stravinski e ‘Suite Quebra Nozes’ de Tchaikovski.
‘Fantasia’ teve uma segunda edição na virada do milênio incluindo sequências que contavam com o Pato Donald, intitulada ‘Fantasia 2000’ dirigida por Roy E. Disney, sobrinho de Walt. O ‘Fantasia’ original foi agraciado com dois Oscars na premiação de 1942. Não é uma produção da Walt Disney Pictures similar às que abundam locadoras e salas de cinema atualmente. O ‘Fantasia’ original foi de fato produzido pelo criador Walt Disney (1901-1966) num tempo em que a computação gráfica era um sonho despudorado e o desenho animado não era tão diferente de uma obra de arte.
Teaser:
- Mencionamos alguns lançamentos de adaptações de personagens da Marvel e DC Comics que ocorrerão agora neste primeiro semestre, na coluna de janeiro. Temos os meses exatos onde, ‘Homem de Ferro 3’ entrará em cartáz no Brasil no mês de junho. Em julho ‘Superman: o homem de aço’ será lançado e pouco depois o novo filme do Wolverine que algumas fontes tem chamado de ‘The Wolverine’ e outras ‘Wolverine – Imortal’. Voltaremos a falar sobre os citados em muito breve.
- Em nota veiculada pelo MTV Geek e repercutida pelo site brasileiro Omelete, Todd McFarlane mostrou-se favorável a uma nova incursão cinmatográfica de seu personagem Spawn. ‘Spawn o soldado do inferno’ foi lançado há mais de 15 anos e uma sequência era mencionada desde então. McFarlane ainda afirmou que um ator que já venceu Oscar o procura há muito tempo solicitando um roteiro para o novo filme do Spawn, roteiro este que ainda não foi escrito. Por Al Simmons (alter-ego do Spawn) ser negro o site Omelete acredita que o citado ator cujo nome não foi revelado por Todd, seja o afro-descendente Cuba Gooding Jr.
LITERATURA E ENSINO
(divulgado originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
HISTÓRIA DA LITERATURA INFANTO, 1920-1945 I: TEMPOS DE LOBATO
(Leny Fernandes Zulim)
Cá estamos nós, dando continuidade à história da literatura infanto brasileira. Tomando como base o livro de Lajolo e Zilberman (1985) Literatura Infantil Brasileira: história e histórias, hoje vamos abordar a segunda fase, que compreende o período de 1920 a 1945, no qual reina quase absoluto, José Bento Monteiro Lobato, considerado o pai desse segmento no país. Quando em 1921 publica sua primeira obra infantil, Narizinho arrebitado, a sociedade brasileira vivia fatos de natureza renovadora de que é exemplo a Semana de Arte Moderna e o Centenário da Independência. O Brasil que se modernizava em vários setores da vida nacional, modernizava-se também na preocupação com uma produção literária para crianças seja em número de obras publicadas, seja no interesse das editoras em publicá-las, começando a perceber aí um lucrativo filão. Lajolo & Zilberman (1985: 46), assim comentam o assunto:
Entre esses dois limites cronológicos, 1920-1945, toma corpo a produção literária para crianças, aumentando o número de obras, o volume das edições, bem como o interesse das editoras, algumas delas, como a melhoramentos e a Editora do Brasil, dedicadas quase que exclusivamente ao mercado constituído pela infância. E, se Lobato abre o período com um best-seller, o sucesso não o abandona; nem a ele, nem ao gênero a que se consagra...
O sucesso de Narizinho arrebitado motiva o autor que continua a escrever, tornando-se também editor. Em 1944 encerra o ciclo de aventuras dos netos de dona Benta com a narração de episódios da Grécia clássica com Os doze trabalhos de Hércules. Ele fixa, desde logo, em sua obra infantil, o espaço e parte do elenco que vai ocupá-lo: é o sítio do Picapau Amarelo, ambiente rural, onde vive dona Benta, a proprietária, sua neta Lúcia (a Narizinho Arrebitado) tio Barnabé e a antiga cozinheira tia Nastácia. É uma população pequena para um cenário tão grande. As personagens, porém, se multiplicam rapidamente com a inclusão de novos seres humanos (Pedrinho, o neto de doma Benta que, morando na cidade, passa as férias no Sítio); seres mágicos (os bonecos Emília e Visconde de Sabugosa; de animais falantes (o porco Rabicó, o Burro Falante e o rinoceronte Quindim) além de eventuais seres aquáticos que habitam o Reino das Águas Claras, localizado nos arredores do Sítio. Esporadicamente, outros seres do mundo da ficção universal visitam o sítio tais como O Pequeno Polegar, a fada Sininho, o gato Felix, e toda sorte de criaturas dos contos de fadas universais. Lobato consegue mesclar com engenhosidade personagens tradicionais, vindos das fábulas e contos de encantamento (veja-se o caso de Branca de Neve e O Pequeno Polegar) e os contemporâneos, saídos de filmes e histórias em quadrinhos (como Popeye); personagens de carne e osso (caso do cow-boy Tom Mix) (Kupstas (1998). É Kupstas (1998:43) ainda que comenta: “Essa união do real e imaginário é essencial para seduzir o jovem leitor. (...) viver no imaginário é tão mais possível que viver no real a possibilidade concreta de que se pudesse morar num sítio como o de Dona Benta, onde uma caçada à onça termina com ataque de feras inteligentes (...) frustrado graças à esperteza emiliana(...)”
O pedagógico, o fantasioso e o estético em Lobato
O Sítio do Picapau Amarelo é sempre o ponto de entrada de todas as narrativas infanto de Lobato, representando a concepção de mundo e de sociedade, e a tomada de posição do autor quanto às obras para a infância. Ele representa, em síntese, a aspiração política de Lobato para o Brasil e um projeto estético para a literatura infantil (Lajolo & Zilberman: 1985).
Nesse sentido, Lobato é dissidente em relação ao ufanismo eufórico tão em voga nos tempos de Bilac e, ainda que em dimensão diferente, nos modernistas de primeira hora, seus contemporâneos. Não se omite de descrever as terras de dona Benta como ordinárias, cheias de saúva e sapé. O valor delas é subterrâneo, como se vê em O poço do Visconde, tem petróleo. Contudo, o Sítio não deixa de ser idílico, bucólico mesmo, com sua casinha branca onde moram dona Benta e os seus. Assim, com seu caráter metafórico o Sítio é o Brasil, estando nele embutido tudo o que o escritor queria representar da pátria via literatura. Percebe-se, então, que Lobato:
a- renega o mito da fertilidade da terra, mas crê na abundância de petróleo no solo brasileiro, crê no caráter agregador da terra, aberto a todos, de forma indistinta, mas em especial às experiências mais modernas (veja-se O Petróleo é nosso e O Poço do Visconde; ao mesmo tempo, seu famoso Jeca Tatu é a ferrenha crítica da situação da terra e do homem que nela trabalha;
b- rejeita os cânones gramaticais escritos, desde os que regulam a produção literária até os que disciplinam as manifestações verbais (para exemplificar lembremos Emília no país da gramática (1978:106), quando a boneca, que muitos estudiosos afirmam ser na verdade a voz de seu criador, abre a porta para liberar os neologismos e deixá-los criar quantas palavras quiserem)
c- crê em novo modelo de escola: moderna nos métodos, nos conteúdos e nos professores; moderna também na estrutura física, pois qualquer ambiente da casa é cenário para aulas de acordo com as circunstâncias e a curiosidade dos pequenos. Nesse caso, dona Benta é a professora exemplar, dona de grande cultura, sempre informada sobre seus os acontecimentos, aberta a mudanças e, sobretudo, Capaz de ensinar de uma forma diferente, saborosa. Por isso, Pedrinho, o neto, afirma que na verdade, o que ele aprende de fato, é com Vovó, e não na escola.
d- mescla elementos nacionais com aqueles que sinalizam para a cultura internacional, venham eles dos clássicos como O Minotauro e Os doze trabalhos de Hércules, ou do cinema e das histórias em quadrinhos como Tom Mix ou o gato Félix;
e- o mundo de Lobato é contemporâneo, mas os produtos estrangeiros se naturalizam no contato com o Sítio. Por outro lado, ele não se cansa de criticar, pela voz de dona Benta, os rumos adotados pelo progresso e pela tecnologia. Ao mesmo tempo, é um admirador, até embasbacado, dos produtos culturais, sobretudo os de massa, como o cinema.
f- Lobato valoriza o folclore nacional de que é exemplo o Saci e a Cuca, além de tia Nastácia com suas narrativas de negra velha; tio Barnabé, negro sabido, entendedor de mágicas e feitiçarias (Vasconcelos: 1961). Mas, ele entrelaça sua literatura com personagens das grandes obras infantis universais. É assim com Peter Pan e Sininho, que vez por outra aparecem no Sítio; é assim com uma plêiade de personagens conhecidas no mundo dos contos de fadas que determinado dia aparecem no Sítio, deixando preocupada dona Benta que não sabe como acolher a todos.
Lobato é, reiteradamente, citado como um autor que inundou a infância brasileira de livros de caráter pedagógico. E de fato é assim. Basta lembrar os diversos conteúdos escolares abordados em obras como Emília no país da gramática, Geografia de dona Benta,, o Poço do Visconde, para citar apenas algumas. Mas vale a pena ver como Kupstas (1988: 48-49) comenta esse fato:
A obra infantil de Lobato foi reunida e hoje a coleção tem 24 volumes. Podemos separar esses livros em três áreas de interesse: os francamente didáticos, em que a intenção de ensinar é muito forte (claro que ensinar, para Lobato, mistura-se ao prazer de aprender); os declaradamente venturosos e as adaptações, em que Lobato, usando personagens do sítio, conta determinado clássico da literatura ou história desconhecida das crianças brasileiras.
O mais importante no trecho citado é o que a autora emprega entre os parênteses. Sim, Lobato aborda conteúdos escolares, certamente. Mas ele consegue se afastar do mero utilitarismo. Essas obras se afastam da ideia de “pretexto” para ensinar. Como mais uma vez afirma Kupstas, ensinar, para ele, se mistura ao prazer de aprender, de conhecer. Vai além, contudo. Os conteúdos que veicula nessas obras consideradas didáticas, ele o faz com uma linguagem altamente estética e uma estrutura de enredo que lhes dão caráter artístico, como quer a literatura.
A verdade é que Lobato é grande demais para “caber” nesse artigo. Assim, paramos aqui por hoje. No próximo encontro fecharemos a segunda fase da história da literatura infantil brasileira concluindo o tema Lobato e falando de alguns outros autores para a infância, contemporâneos desse grande escritor. Encerremos este nosso encontro com uma citação de Sandroni (202: 64):
No começo os livros do Sítio eram visivelmente dedicados às escolas (...) A forma do texto era didática e havia comentários como: “Que pena! Tudo aquilo de um lindo sonho!” Tempos depois, quando Lobato já havia percebido a importância do mundo que estava criando, passou a misturar a fantasia e a realidade
KUPSTAS, Márcia. Monteiro Lobato. São Paulo: Ática, Coleção Ponto por Ponto, 1988
LAJOLO & ZILBERMAN. Literatura infantil brasileira: história e histórias, 2 ed.. São Paulo, Ática, 1985.
LOBATO, Monteiro. Emília no país da gramática. 21 ed. São Paulo, Brasiliense, 1978.
SANDRONI, Luciana. Minhas Memórias de lobato. São Paulo; Companhia das Letrinhas, 202.
VASCONCELOS, Bárbara. Compêndio de literatura infantil. São Paulo; Edições Leia, 1961.
RELEITURINHAS
(divulgado originalmente em março de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
ONCE UPON A TIME - VILÕES E VILANIAS
(Carla Kühlewein)
O seriado americano que retoma os contos de fadas numa perspectiva dúbia, ficção e realidade, tem como maior trunfo humaniza-los. O curioso é que quanto mais próximos da essência humana, mais maléficas ou benevolentes se tornam as personagens que os compõem. O efeito provocado parece obedecer a um aspecto óbvio: a índole má dos vilões das histórias encantadas, ao contrário do que se pensava, não nasce com eles, é criada, despertada por uma situação que eles não puderam ou não souberam superar.
O seriado americano que retoma os contos de fadas numa perspectiva dúbia, ficção e realidade, tem como maior trunfo humaniza-los. O curioso é que quanto mais próximos da essência humana, mais maléficas ou benevolentes se tornam as personagens que os compõem. O efeito provocado parece obedecer a um aspecto óbvio: a índole má dos vilões das histórias encantadas, ao contrário do que se pensava, não nasce com eles, é criada, despertada por uma situação que eles não puderam ou não souberam superar.
Talvez essa seja a estratégia mais eficaz do seriado, uma vez que o que prende o telespectador aos sucessivos episódios é o fato de se desvendar, gradativamente, o passado que antecede o que já se conhece das personagens encantadas. Numa tentativa de justificar o porquê de este ou aquele personagem ser tão maléfico, apresentam-se fatos realísticos que antecederam o que se apresenta nas versões originais dos contos de fadas. Pronto! Está criada a receita de maldade mais terrível que a humanidade conheceu: vilões “de verdade”.
Os feitos maléficos mais tenebrosos ficam por conta da madrasta de Branca de Neve e seu, ora aliado ora arqui-inimigo, Humpelstiskin. Tal personagem, oriundo de um conto alemão “Rumpelstilzchen”, no original, basicamente gosta de fazer acordos com pessoas desesperadas. Característica que ele conserva ao longo de todos os episódios.
Quanto à madrasta de Branca de neve, sua tirania e seu ódio mortal pela desbotada personagem se justifica pelo fato de esta ter revelado um segredo que custou caro à mãe postiça. Esse “detalhe” acrescentado à trama não só explica a maldade da bruxa como também a torna ainda mais cruel, se se imaginar que ela é capaz de qualquer coisa para vingar-se das humilhações que o rei, seu marido, lhe fizera passar após a revelação do segredo.
Tão ou ainda mais maléfico do que a madrasta é o tenebroso Humpelstiskin, dotado de perspicácia nos negócios, faz acordos com os personagens encantados à medida que passam por situações complicadas, quase impossíveis de serem solucionadas. Isso lhe confere um poder tamanho, que em pouco tempo, todos os eventos sucumbem a sua vontade.
O curioso é que no seriado a vilania não se reduz às personagens malvadas já mencionadas, qualquer um dos personagens encantados está sujeito a tomar atitudes de índole duvidosa, mesmo as princesas imaculadas, como Cinderela e Branca de Neve, também se rendem aos acordos perniciosos propostos por Humpelstilstkin.
Além disso, é interessante notar também, que ao mesmo tempo que se revelam as origens da semente do mal nessas personagens, revela-se um lado bom, humano delas que jamais se poderia supor, afinal, quem poderia imaginar que a rainha má na verdade tivera uma mãe terrivelmente malvada e o tal Humpelstiskin fora um pai e marido covarde?
A dificuldade em superar a humilhação pela qual passam, leva ambos, rainha e negociador, a buscarem o mal como forma de vingança. A madrasta assume imediatamente os poderes da mãe e os triplica, enquanto Humpelstistin adquire poderes das trevas para ficar forte e poderoso. Formam-se, enfim, os dois maiores vilões do seriado.
A dupla de vilões se alia e ao mesmo tempo se degladia em nome de uma disputa de poderes, cujos joguetes são as personagens românticas, com certa dose realística, dos contos de fadas. A trama ora pende para a rainha, ora para o “barganhador de almas” perpetuando a eterna dicotomia das histórias encantadas: a luta entre o bem e o mal.
Por falar em bem... falemos sobre ele no próximo artigo!
Boas RELEITURINHAS!


