ENTREVISTA COM MARCOS HIDEMI
(Divulgada originalmente em janeiro de 2013 em www.leiturinhas.com.br)
Nome: Marcos Hidemi de Lima.
Nasci em 1967, em Atibaia, São Paulo.
Casado duas vezes, tenho um filho.
Altura: um metro e setenta.
Peso: uns setenta e dois quilos.
Fui bancário, funcionário público de empresa telefônica,
Professor na escola pública.
Na juventude, queria ser diplomata.
Hoje sou professor universitário.
Formei-me em Letras.
Demorei a entrar na carreira docente.
Na época, muito jovem, não me animei com a profissão.
Fiz quase dois anos de Jornalismo. Desisti.
Viajei. Trabalhei. Encontrei-me.
Resolvi enfim voltar à Literatura.
Dez anos de labuta para virar doutor.
Com trinta e oito anos estreei com Dança de palavras e sons, livro de poemas.
Há outros esperando.
Em 2013 sairá Mulheres de Graciliano, crítica literária.
Gosto muito de ler, mas não leio tanto quanto eu gostaria.
Escrevo desde os sete, oito anos. Fazia prosa. Raramente poesia.
Comecei a fazer versos pra valer mesmo após os quinze anos.
Tornou-se um vício. Não consegui mais parar.
Namorei uns dois anos o violão.
Pretendia musicar meus poemas. Não deu certo.
Adoro MPB: Noel, Vinicius e Chico, por ordem de importância.
Não tenho preferência por nenhuma comida.
Gosto muito de café. É meu combustível diário para pensar.
Bebo cerveja com frequência.
Quase não saio de casa.
Quase não visito ninguém.
Conheço pouca gente.
Espero morrer com cem anos.
LEITURINHAS EM VERSOS
LEITURINHAS – Comente um pouco sobre a história de suas LEITURINHAS, da infância até o presente momento.
MARCOS – Minha tia Ângela, irmã de meu pai, foi quem me ensinou a ler e a escrever. Isso foi bem cedo. Creio que tinha cerca de cinco ou seis anos. Isso foi fundamental, pois adquiri o gosto pela leitura. Sorte minha ter aprendido com ela, porque só fui para a escola quando tinha oito anos. A mudança de Atibaia, uma cidadezinha do interior de São Paulo, para Londrina é que atrapalhou meus estudos.
Nessa casa, lá em Atibaia, havia muitas revistas: Manchete, Pais e Filhos, apostilas do Instituto Universal Brasileiro, outras revistas que não lembro o nome, diversos gibis. Eram, sobretudo, as histórias em quadrinhos o que eu mais lia. Mickey, Pato Donald, Tio Patinhas, Cebolinha, Cascão, Mônica, Luluzinha, são alguns dos que eu lia. Não me lembro de livros. Não fazia parte do universo das famílias pobres da época. Não me recordo de ter tido contato com livros antes da vida escolar, a não ser o Caminho suave, com o qual fui alfabetizado.
Quando comecei a estudar, entrei em estado de glória, eu acho. No livro didático adotado, havia tantos textos diferentes, historiazinhas, poemas, canções, coisas que eu nunca havia visto. Fiquei deslumbrado. Li todos de uma vez só. Uma prática que se tornou rotineira ao longo de minha vida escolar: ler antecipadamente todos os textos do livro didático. Era uma maneira de eu suprir a falta de acesso ao livro propriamente dito. No segundo ano, descobri a biblioteca da escola. Aí, comecei a ler compulsivamente. Sem método, sem o direcionamento de pais ou professores. Buscava na biblioteca alguns dos autores que eu encontrava no livro didático. É óbvio que, geralmente, não os encontrava. A biblioteca não era tão bem sortida assim. Em razão disso, eu virei um leitor voraz de quaisquer textos a que tivesse acesso. Devorava tudo que me caía à mão: histórias em quadrinhos, fotonovelas, bolsilivros, jornais, revistas diversas, alguns textos bíblicos, livros emprestados de vizinhos, folhetos, bulas, etc., etc. Parentes e amigos forneciam-me tais leituras, ao perceberem que eu amava ler. Li desde os que eram pedidos na escola, como Memórias de um cabo de vassoura, Éramos seis, Spharion, Menino de asas, A ilha perdida, Cabra das rocas, O caso da borboleta Atíria, O rapto do menino de ouro, Um cadáver ouve rádio – adequados à minha faixa etária – e outros livros não exatamente para minha idade: Podridão (Adelaide Carraro), Memórias de um gigolô (Marcos Rei), O Chacal (Frederick Forsyth) e outros, tidos como literatura adulta, que viessem cair nas minhas mãos.
Mudei para uma escola melhor, o Colégio Estadual Vicente Rijo. Lá me viciei de vez em leitura. Havia uma biblioteca bem mais completa. Até o quarto ano, limitei-me às adaptações de clássicos infantis. Eram muito comuns, suponho, naquela época, as adaptações.
Depois descobri Monteiro Lobato. Li toda a sua obra infantil e cheguei a enveredar pela sua obra adulta. Simultaneamente assistia na tevê à adaptação do Sítio do pica-pau amarelo. Em seguida, entrei de corpo e alma na obra de Júlio Verne. Acho que não consegui dar cabo de toda sua produção literária. Era muito vasta. E havia também a questão de eu ter novos interesses de leitura. Na biblioteca desse colégio, alguns livros foram bastante marcantes. Maravilhei-me com Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnar, com O encontro marcado, do Fernando Sabino, e com S. Bernardo, do Graciliano, lido depois de ter assistido na tevê a adaptação do livro. Como eu já andava escrevendo poesia, comecei a ler as antologias poéticas que havia ali. Estava totalmente tocado pela poesia de Vinicius de Moraes. Na esteira da leitura de seus poemas, conheci Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, Cassiano Ricardo e outros tantos.
Quase saindo do colégio, descobri a Biblioteca Pública. Lá consumi muitas tardes, quase sempre em pé, lendo o que não conhecia do Vinicius, do Bandeira, dos poetas que fizeram o Modernismo. Ali também é que resolvi me aventurar na obra de Jorge Amado. Devo ter lido uns quatro ou cinco livros. Cansei-me. Meus critérios estético-literários pediam alguma coisa diferente. Comecei a descobrir o teatro de Chico Buarque, de Vinicius de Moraes, de Augusto Boal, a prosa fantástica de Cem anos de solidão, a história dos compositores de MPB, etc. Arranjei emprego decente, passei a comprar livros do Círculo do Livro, entrei na UEL para fazer Letras. Reli Machado de Assis, conheci novos escritores, meu horizonte de leituras alargou-se. Para não encompridar demais essa conversa, a partir dos vinte e pouco anos, o leque de autores ficou enorme: Lígia Fagundes, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Antonio Callado, João Cabral, Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant’Anna, Shakespeare, Brecht, Mallarmé, Prévert, Leminski, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Oswald, Dias Gomes, Poe, Camus, Saramago, Cora Coralina, Álvares de Azevedo, Josué Montello, Alice Ruiz, José Castelo, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Clarice, Raquel de Queirós, etc., etc., etc.
Depois dos trinta e poucos anos, de volta à UEL, concentrei-me, primeiramente, em Chico Buarque. Em seguida, dediquei-me à leitura cerrada de Graciliano Ramos. Até então, eu ainda não havia lido totalmente sua obra. Foi o que fiz e o que tenho feito nos últimos dez anos, juntamente com leituras concentradas das obras de Machado, de Lima Barreto, de Autran Dourado e de Lúcio Cardoso. Provavelmente, são esses escritores que serão meus companheiros nos próximos anos. Olho com tristeza para minha biblioteca: uma porção de livros que jamais lerei, porque sei que não existe tempo disponível para isso. Não há o que fazer. Na vida, nem mesmo a leitura escapa da necessidade de seleção.
LEITURINHAS – Por que você escolheu a poesia como forma de expressão artística?
MARCOS – O vício pela escrita veio um pouco depois do hábito da leitura, quando já estava na escola. Eu lembro que adorava escrever textos em prosa. Nem mesmo uma acusação injusta de plágio, no segundo ano do Ensino Fundamental, por parte de uma professora, me fez desistir da palavra escrita. Havia inventado uma historiazinha bacana, bem feita mesmo. Pois a mulher disse que eu havia copiado o texto dalgum lugar! Fiquei muito chateado. Se não me engano, nesse mesmo ano, eu e um amigo combinamos de fazer um texto semelhante ao que tínhamos lido na sala de aula. Era o poema “São Francisco”, do Vinicius. Não me recordo se meu amigo fez. Eu compus um pastiche, mostrei-lhe no dia seguinte. Não tenho ideia do que escrevi. Parecia que havia ficado até razoável. Mas não dá para se fiar na avaliação de dois garotos de oito ou nove anos. De qualquer forma, foi minha primeira incursão pela poesia. Porém, não estava ainda totalmente seduzido por ela. Continuei escrevendo prosa. Tenho guardado um caderno cheio de histórias mais ou menos dessa época. Textos escritos com dez e onze anos.
Tentei a poesia mais algumas vezes, mas minhas produções eram medíocres. Tudo isso instado por alguns professores. Tudo isso ligado a datas comemorativas: Dia da Pátria, Dias das Mães, etc. É óbvio, portanto, que a poesia parecia ser alguma coisa inalcançável para mim. Eu tinha a impressão que tinha que fazer um poema igual ao do Bilac, do Cassiano Ricardo, do Manuel Bandeira, ou seja, os modelos aos quais eu tinha acesso nos livros didáticos. E para piorar, parece que os professores difundiam a necessidade de inspiração poética como uma coisa só para alguns eleitos, pessoas especiais. Isso era complicado. Eu ficava pensando que era preciso entrar em transe para ser poeta. Então, esse negócio de poesia ficou latente em mim. Não se manifestava. Continuava com meus textos em prosa: escrevi uma pecinha de teatro lá pelos doze anos (minha irmã e dois amigos encenaram-na), outra aos quatorze, um monte de textos beirando à ficção científica. Joguei tudo fora.
Lá pelos quinze, dezesseis anos, quando estava em plena adolescência, descobrindo as primeiras coisas do amor, fui possuído pela poesia. A linguagem poética me forneceu elementos para falar de mim, de meus sofrimentos, de minhas angústias – umas verdadeiras, outras postiças –, de minhas paixões e de meus desejos. Finalmente, depois de anos e anos batendo cabeça à procura de uma forma de expressão, deparei-me com a poesia como forma de expressão. Queria ser um novo Vinicius de Moraes. Estudei metrificação no que havia de material disponível. Muito pouco, mas lentamente fui conseguindo expressar-me em versos. Horríveis, quase todos; bons, uns poucos. Publiquei uns dois em jornais estudantis, quando estava no Ensino Médio. Recebi elogios de alguns professores. Isso me deu ânimo para continuar, levando-me a optar definitivamente pela linguagem poética como minha maneira de expressar o que sinto, o que penso, o que me incomoda, o que me deixa feliz.
LEITURINHAS – Qual a sua fonte de inspiração para escrever poesia? Comente um pouco sobre seu processo de criação.
MARCOS – Na verdade, não dá para precisar como ocorre esse fenômeno de inspiração. Aparece a qualquer momento do dia ou da noite. É imperativo. Muitas vezes, acordo de madrugada porque sonhei com alguns versos. Preciso tomar nota daquilo, antes que desapareça da memória. A partir dessas palavras, às vezes começo um poema, ou varo algumas horas da noite atrás de um sentido para os versos ditados pelo sonho. Nem sempre o resultado é bom. Sucede frequentemente não haver nada de aproveitável. A construção do poema vai depender da minha disposição em ficar diante do papel branco lutando com as palavras.
Pode acontecer também de estar lendo um livro qualquer, escrevendo algum texto que nada tenha a ver com poesia, vendo tevê e, de repente, surge uma palavra ou um verso. Tenho que interromper o que estou fazendo e procurar a poesia que se apresenta diante de mim. Isso é meio complicado, pois me prejudica algumas vezes. Como a poesia é algo imperativo, sou obrigado a me dedicar cem por cento a ela. Qualquer atividade que esteja fazendo naquele momento fica em segundo plano. E não é fácil lidar com a poesia. Todo meu tempo, todo meu empenho, todas minhas energias, têm que ser canalizados para ela. Isso pode durar uma hora, duas, três ou mais. Ou mesmo alguns dias de escrita e de reescrita. Nalguns casos, meses e anos sem eu conseguir concluir um poema. E o lamentável é que quase sempre o resultado é pífio.
Se a situação acima é difícil, mais complexo ainda é quando a inspiração poética desaparece. Surge aquele vazio criativo. O papel parece não querer aceitar nada. A cabeça parece vazia. Aí, vem a desolação, o medo de não conseguir escrever mais. Sempre sou acometido por essas crises. Por mais frequentes que sejam, nunca consegui me acostumar à ideia de ter minha poesia silenciada.
LEITURINHAS – É possível ensinar poesia? De que forma? O professor tem o “poder” de formar poetas?
MARCOS – Essa é uma pergunta capciosa. Se eu disser que não, deixo a impressão que poesia guarda qualidades metafísicas, não acessíveis a qualquer mortal. Isso não é verdade. As pessoas não precisam de nenhuma substância mágica na mente para ser poeta. Também não precisa ser místico, santo, louco, bêbado, bruxo, adivinho, etc. Poesia é arte da palavra. Então, o poeta tem que antes de tudo amar o idioma. E ter consciência que a poesia é a mais inútil e a mais perigosa das artes. Por ter não possuir propriamente uma função, a sociedade ama-a e despreza-a.
Agora, se eu responder que sim, que é possível ensinar poesia, eu deixo transparecer que há “fórmulas” para se fazer poesia. Há, sim, regras para escrever versos, de construir um poema. Falo em métrica, em ritmo, em rima, em figuras de linguagem, todos os recursos que a tradição legou ao longo dos séculos. Não significa, porém, que um determinado poema tenha poesia. Poema é a realização gráfica de um texto que pretende ser poético. Poesia seria uma espécie de plurissignificação que consigo transmitir por meio de palavras.
Vou tentar uma analogia: penso que a poesia é como o jogo de xadrez. As peças e o tabuleiro que os dois jogadores veem representam o poema. A poesia seria aquilo que está escondido por detrás de uma jogada, aquilo que somente o jogador tem em mente, que é realizado pelos peões, cavalos, torres, etc. Nesse sentido, poesia tem a ver com intelecto. Mover as peças do xadrez qualquer um aprende em poucas lições; o que não se aprende, ou se aprende com muita dedicação, é converter uma estratégia em movimentos das peças do jogo. Essa estratégia é a poesia, um artifício mental e de sensibilidade. O que o professor pode fazer? Oferecer o tabuleiro e as peças, ensinar o candidato a poeta algumas estratégias. O resto é com a pessoa. Vai depender de cada um saber movimentar o universo das palavras.
LEITURINHAS – Quais os desafios do professor no Ensino Superior mediante o ensino da poesia?
MARCOS – Se o professor do Ensino Superior consegue pelo menos despertar a paixão pela poesia no aluno, isso por si só já é meritório. Precisamos ser realistas. Mesmo no curso de Letras, o que se vê é que boa parte dos alunos não se interessa por poesia. Vêm com um pré-julgamento de que ela se restringe a uma elite, a um grupo de eleitos. Infelizmente, existe uma aura de inacessibilidade quando se trata de poesia. Com a prosa isso não ocorre com tamanha magnitude. A meu ver, fala-se muito de poesia nas faculdades de Letras, mas isso não tem se revelado suficiente para provocar o interesse do estudante. Devia haver uma maneira de fazer uma imersão de longo tempo na poesia. Leitura, declamação, discussão interpretativa da poesia, sem que ninguém precisasse se ater à teoria. Esse é o desafio para difundir a poesia: deixar o aluno sentir prazer em ler poemas. Depois de ser contaminado pelo vírus da poesia, aí sim o aluno vai apreender melhor questões teóricas, elementos técnicos.
LEITURINHAS – Poesia serve pra quê, afinal?
MARCOS – O grande mérito da poesia é esse caráter paradoxal de não servir para nada e ser necessária a nossa vida, é o oxigênio de nosso espírito. Sem poesia, seríamos péssimos seres humanos. Nossas existências seriam mesquinhas, destituídas de sentimento e de arte. Como a poesia está intrinsecamente ligada à palavra, é possível pensar que ela nos distingue dos animais. Para mim, a poesia é que nos confere humanidade. Sem a poesia, o mundo seria caótico. Graças à sua aparente inutilidade, a poesia não nos deixa cair no niilismo. Imagine a humanidade sem poesia. Certamente, seríamos blocos de pedra, se a poesia não existisse.
LEITURINHAS – Há quantas anda a poesia no Brasil?
MARCOS – Não posso falar com tanta segurança. Não tenho lido muito poesia como eu gostaria. Parece que vai de vento em popa. Levas e levas de autores produzindo muito coisa boa e, é claro, muita coisa ruim também. Isso é natural em todas as gerações. O tempo é que vai se encarregar de consagrar algumas vozes e sepultar as que não têm o que dizer ou que estão meio desantenadas com o momento atual, estão além de seu tempo. Estas últimas, às vezes, futuramente, conseguem ser redescobertas e revalorizadas. Interessante é que a poesia hoje em dia ainda continua circulando no livro, mas a internet tem se transformado no seu grande canal de difusão. Veja o “Enter, antologia digital”, organizado pela Heloísa Buarque de Hollanda. Veja o site “Cronópios”. Aquela reviravolta provocada pela Tropicália e pela poesia marginal da década de 1970 tem dado frutos. Nomes se consagraram: Cacaso, Bernardo Vilhena, Chacal, Ana Cristina César, Capinan, Leila Míccolis, uma porção de gente boa. Não dá para deixar de fora nessa citação o Leminski. Olhe aí o Gilberto Gil e o Caetano atuantes. Poesia e canção juntas. E temos hoje poetas como o Arnaldo Antunes, o Glauco Mattoso, a Alice Ruiz, o Rodrigo Garcia Lopes. Há também uns bons poetas nos “Cadernos negros”: Cuti, Conceição Evaristo, Jamu Minka, Esmeralda Ribeiro, Oliveira Silveira. Há muitos outros. A enumeração dos nomes é uma coisa complicada. Sempre se deixa alguém fora da lista. Acaba funcionando como uma discriminação involuntária.
LEITURINHAS – As LEITURINHAS de quais poetas você indicaria aos grandes e pequenos leitores?
MARCOS – Sem distinção de leitores adultos ou mirins, não dá para viver sem a poesia do Vinicius, da Cecília Meireles, do Drummond, do Bandeira, do João Cabral de Melo Neto, do Oswald, do Gullar. É preciso ler também o José Paulo Paes, o Manoel de Barros, o pessoal do Concretismo e da poesia marginal, a Cora Coralina. Paulo Leminski e Alice Ruiz são essenciais. Gregório de Matos, mesmo tão distante no tempo, é uma leitura que não se pode deixar de fazer. Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos ainda têm muito o que nos dizer. Vale a pena lê-los. Quanto aos de fora, sugeriria Fernando Pessoa, Maiakóvski, a lírica de Camões, Neruda, Baudelaire, Shakespeare, Guillén, Iessiênin, Mallarmé para os que querem entender as revoluções pós-concretistas, Georges Péret, do OuLiPo, por conta das experiências inusitadas, etc., etc.
QUE TAL POESIA?
O QUE TORNA A POESIA ATRAENTE PARA A CRIANÇA?
(Marcia Mocci)
A poesia, assim como o brinquedo e o jogo, possui um componente lúdico que a torna natural e prazerosa para a criança. Ao brincar com as palavras, o poema abre espaço para a criança fazê-lo também, pois, na poesia, ela encontra os recursos formais, como sonoridade, rimas e aliterações que propiciam a brincadeira e servem como ponte de comunicação entre a fantasia e a realidade.
O texto poético oferece ao leitor a oportunidade de manejar as palavras, analisá-las por vários ângulos e jogar com elas. Sendo que, muitas vezes, os vocábulos servem apenas como suporte ou motivação para criar uma oportunidade de a criança desenvolver o jogo; uma vez que, para ela, o lúdico e o nonsense precedem o sentido e predominam sobre a significação.
A criança aprecia as palavras pela sonoridade; sente prazer em ouvi-las, repeti-las e soletrá-las, associando-as a outros vocábulos e “jogando” naturalmente com seus significados. Ao descobrir novas significações, a criança cria um vínculo afetivo com as palavras, um dos motivos pelos quais a poesia lhe é tão interessante.
Huizinga (1971) ao discorrer sobre a relação entre poesia e jogo, afirma que a atividade poética tem sua origem nos jogos sagrados, nas competições e profecias. Para ele, as características da poesia são similares às do jogo, pois a atividade lúdica é inerente à estrutura da imaginação criadora. A poesia, portanto, é uma atividade lúdica que se desenvolve “na região lúdica do espírito, num mundo próprio para ela criado pelo espírito, no qual as coisas possuem uma fisionomia inteiramente diferente da que apresentam na vida comum”. (HUIZINGA, 1971, p. 133)
O sucesso e a aceitação dos poemas pelo público infantil dependem de os mesmos funcionarem como uma brincadeira a mais para a criança; um jogo com recursos de linguagem como onomatopeias, rimas, repetições, paralelismos e brincadeiras sonoras. O que realmente importa na poesia infantil é que os recursos escolhidos pelo poeta sejam importantes para a expressão das ideias, emoções e sentimentos, promovendo um encontro prazeroso e lúdico entre o leitor e os versos.
Muitas vezes, nos poemas infantis, o aspecto lúdico provém da ênfase ao ângulo engraçado das personagens, como no caso do poema “O barbeiro e o babeiro” de Sérgio Capparelli:
O barbeiro e o babeiro
(Sérgio Capparelli)
O barbeiro comprou um babeiro
Para a baba de seu filho:
__Baba agora, bebê babão,
De babeiro, babar é bom.
Depois foi fazer a barba
Do único pai de seu filho:
Barbeio a barba e não babo,
Sou barbeiro sem babeiro.
Mas ao limpar o babeiro
Sua barba se encheu de baba
E o barbeiro embrabeceu
Com babeiro, barba e baba.
Observa-se que nesse poema Capparelli brinca com a figura de um bebê “babão” e seu pai, o barbeiro que acaba “levando a pior” ao ter sua barba cheia de baba. A aliteração, no poema, manifesta-se por meio da repetição do fonema b, e acaba criando uma equivalência entre sons e significados. O jogo com as significações acontece praticamente no poema todo, entre as palavras que se repetem: babeiro/barbeiro/barbeio, baba/barba, criando situações inesperadas ao juntar um acontecimento cotidiano com o inusitado. Unindo um bebê babão a um barbeiro em um episódio cômico, o poema desafia o leitor à interpretação e leitura em voz alta.
O ludismo, no poema, é decorrente da despreocupação com a concentração de informações, apresentando a valorização do mundo sentido em detrimento do mundo pensado. A seleção e composição das palavras não privilegiam os padrões convencionais de linguagem, mas sim o jogo com os vocábulos, pois, é através deles, que a criança toma contato com a sonoridade da língua, familiarizando-se com a mesma. Poemas como “O barbeiro e o babeiro” oferecem oportunidades à criança de brincar com a língua descobrindo suas possibilidades ao mesmo tempo em que a diverte.
REFERÊNCIA DO POEMA:
CAPPARELLI, Sérgio. Boi da Cara Preta. Porto Alegre: L&PM, 1983. p. 10.
LÁ VEM CONTO!
ENRASCADA
(Deusiane de Andrade)
Essas coisas sempre acontecem comigo! Sempre na hora, no lugar e nas circunstâncias erradas! Presenciei um assassinato e em seguida ligo à polícia... eles sabiam que eu era a única testemunha do acontecido. Então, fui chamada a depor a respeito do que havia presenciado naquele dia. Compareci à delegacia, fiz os procedimentos de cadastro... O senhor não vai dizer que fui eu que prestei depoimento, né? Por que, você não quer expor sua identidade ao acusado? Perguntou o policial. Senhor policial, pelo amor de Deus, ele é mau chefe! E a mulher que foi atropelada de propósito por ele morava ao lado da minha casa antigamente... é minha conhecida de muitos anos!
- Por favor, minha senhora, tenha calma! Se é do teu agrado que eu mantenha em sigilo sua identidade, que assim seja. Conte-me o que ocorreu sossegada.
Que policial gentil... senti mais confiança em dizer naquele momento tudo o que havia acontecido, mas mesmo assim eu temia que alguém descobrisse que fui eu a testemunha.
- eu estava voltando da casa dos meus primos, coisa de rotina, era por volta das 22 horas. Eu sempre tive medo de passar por aquela rua por ser deserta, mas era a única que dava acesso a minha casa. Eu vinha passando rente ao muro das casas... de repente, quase na outra esquina, perto da Pré-escola, um carro veio diminuindo a velocidade, achei aquilo muito suspeito. Me escondi atrás da árvore e liguei a câmera do celular com bastante zoom, localizei a placa e de pronto reconheci os números e a cor do carro, e foi nesse momento que ele acelerou à toda e deu de frente com o meio-fio, arremessando algo que parecia uma pessoa. Até então eu não tinha visto nada de mais, eu sempre ando olhando para o chão... mas o farol do carro me chamou a atenção. Foi aí que ele deu a meia volta entre as árvores e fugiu acelerando. Eu entrei em pânico, e no instinto , naquela rua deserta que tinha casas de um lado e em frente só árvores e mato, ninguém tinha visto nada, só eu. Esperei ele virar a esquina para ter certeza de que não tinha me visto. Ao que me aproximei da pessoa que estava estirada no muro, a reconheci, lembrei comovida da família dela, de como era boa gente... nunca fez mal a ninguém!
- A senhora trouxe o vídeo?
- sim.
Bom, vamos averiguar o material para ver se corresponde a seu depoimento e diante de mais informações entraremos em contato.
- Por favor, não diga que fui eu! É meu emprego... não posso ser demitida! Tenho família pra criar, estou fazendo faculdade... Inclusive, sugiro que vocês encaminhem esse homem ao Psicólogo, pois no trabalho ele é uma pessoa dócil, alegre, nunca apresentou comportamentos bárbaros como esses! Eu tenho certeza de que é ele porque só ele possui esse tipo de carro, o senhor verá no vídeo.
- Tudo bem, fique tranquila!
No outro dia, fui trabalhar e os policiais estavam na empresa, rendendo meu chefe, e olhei com espanto, perguntando o que havia acontecido. Com certeza ele não me reconheceu. Posteriormente foi preso, encaminhado à psicoterapia e diagnosticado como sociopata. Ele nunca soube que fora eu quem apresentara as provas. Quem assumiu a empresa foi o filho dele.
As notícias locais são de que um carro estaria atropelando as pessoas pelas ruas sem que se reconheça o assassino. Seria isso hereditariedade ou vingança?
KAZUO EM QUADRINHOS
PELEZINHO E OUTROS CRAQUES DAS HQ’S
(Alexandre Kazuo)
O Mundial de Futebol 2014, vulgo “Copa do Mundo”, já começou no Brasil há muito tempo. Preparativos que esperamos, estejam cumpridos nos prazos quando o torneio começar já se veem em curso. Neste ano de 2013 ocorrerá em junho a Copa das Confederações em nosso país, torneio que a FIFA, entidade maior do futebol no mundo, utiliza como prévia do Mundial um ano antes do mesmo acontecer.
No fim de 2012, a Mauricio de Sousa editora que tem seus títulos distribuídos pela Panini, colocou nas bancas em formatinho o número 1 da reedição das antigas histórias do personagem Pelezinho. Pelé dispensa apresentações enquanto jogador de futebol e atleta do século XX. Por ter atuado por quase toda a sua carreira no Santos Futebol Clube, criou entre os anos 60 e 70 grande identificação não apenas com a torcida santista; mas também com os torcedores brasileiros. Isso além da presença nos três grupos da seleção brasileira que venceram as copas de 1958, 1962 e 1970. Pelezinho foi criado no fim da década de 70 por Mauricio de Sousa, que já conseguia êxito em tiras de jornal e com as revistas da Turma da Mônica inicialmente editadas pela Abril. Pelé queria criar identificação com o público infantil e o crepúsculo de sua carreira, foi finalmente no exterior, mas na ascendente liga norte-americana de futebol. O único clube estrangeiro defendido por Pelé foi o New York Cosmos.
Pelezinho tinha uma turma curiosa aparentemente ambientada em algum lugar da baixada santista. Dentre os personagens estavam o cachorrinho amarelo Rex, o ‘parrudo’ perna de pau Cana Braba, sua namorada, a grandalhona Bonga, e Samira de descendência árabe e que sabia fazer quibes. Pelezinho vem de outra época, em que meninas que jogavam bola eram discriminadas, as garotas da turma do Pelezinho acabavam virando torcedoras ou gandulas tendo que buscar a bola quando era chutada para longe. O goleiro jocosamente se chamava Frangão e Pelezinho tinha um par romântico de descendência nipônica, a Neusinha que trocava a letra L pela letra R como manda a dificuldade dos japoneses em falar português brasileiro. Outro detalhe interessante era a presença numerosa de personagens afro-descendentes, lembrando que no Brasil; Pelé e Mussum (já falecido, ex-integrante dos Trapalhões) foram os primeiros ícones midiáticos afro-brasileiros em anos que se via o declínio da censura e ditadura militar
Ronaldinho, Ronaldo fenômeno e sim... Diego Maradona!!
Tempos depois com a explosão de Ronaldinho Gaúcho no futebol europeu na primeira metade dos anos 2000, Mauricio de Sousa criou o Ronaldinho, que também tem revista regular editada pela Mauricio de Sousa editora. Porém devido a pouca identificação com clubes brasileiros, Ronaldinho o personagem não conseguiu uma popularidade tão grande. Numa iniciativa inédita, Mauricio de Sousa, aproveitando-se da popularidade dos personagens da Turma da Mônica em outros países, criou para o público argentino o simpático personagem Dieguito. Isso no início da década de 80, inspirado no craque maior da Argentina, o controverso Diego Maradona. O plano nunca saiu dos arquivos e Dieguito só foi visto em versão desenho animado exibido no extinto programa ‘La Noche Del Diez’ que Maradona apresentava na televisão argentina na metade da primeira década dos anos 2000. Supostamente há engavetado também um projeto ‘Ronaldo fenômeno’ feito pelo criador, mas que também nunca foi publicado. Há informações de que Mauricio de Sousa pretende fixar uma linha ‘futebol’ entre suas HQ’S, com Pelezinho, Ronaldinho e um vindouro Neymarzinho.
A relação entre futebol e histórias em quadrinhos ainda é pequena, mas vale o registro. Vale também ressaltar que na última entrevista concebida pelo craque Sócrates (1954-2011) há pouco mais de um ano, na revista brasileira da ESPN, o ‘magrão’ revelou que desejava criar um personagem infantil inspirado em si mesmo.
VIDEOTECA
TSUBASA, HERÓI DE INFÂNCIA DO CRAQUE FERNANDO TORRES: NEM ZIDANE, NEM RIVALDO ERAM PÁREOS PARA O MAIOR DO JAPÃO!
(Alexandre Kazuo)
“Eu me lembro de quando era criança (...) todos na escola falavam sobre um desenho animado sobre futebol, feito no Japão. Era uma série chamada ‘Oliver y Benji’, na Espanha, e no Japão era ‘Captain Tsubasa’, e esses dois jovens jogadores começaram como atlétas do time juvenil, chegando a seleção nacional e vencendo uma Copa do Mundo, e chegaram a Barcelona e Bayern de Munique, chegaram a Europa, como num sonho. Eu comecei a jogar futebol por causa disto, e porque meu irmão me obrigava, e eu amava o desenho animado. Eu queria ser Oliver, porque ele jogava na linha e Benji era o goleiro. Esse foi o primeiro contato que tive com o Japão.”
(FERNANDO TORRES, atacante do Chelsea e da Espanha, em entrevista coletiva durante o Mundial de Clubes FIFA no Japão em dezembro último, livre tradução da entrevista reproduzida na fanpage do atleta no Facebook)
Entre o fim dos anos 70 e início dos anos 80, era Zico quem vestia a camisa número 10 da seleção brasileira e brilhava pelo Flamengo. Zico jogou quase que por toda a carreira no Flamengo, a não ser por uma breve passagem pela Udinese da Itália na metade dos anos 80. O ‘galinho de quintino’ encerrou a carreira no Japão para onde se transferiu no início dos anos 90. Tentando ganhar tradição no esporte, o Japão criou a J-League, liga profissional japonesa de futebol, uma vez que o país ansiava sediar o Mundial de 2002. Algo que aconteceu em conjunto com a Coreia do Sul. Zico era o astro maior do Kashima Antlers junto a outros brasileiros como Alcindo e Leonardo (ex-seleção brasileira, atual dirigente do Paris-Saint German).
Uma vez que a montadora japonesa Toyota patrocinava a Taça Intercontinental (atual Mundial de Clubes da FIFA) os times brasileiros que disputaram o mundial de clubes que ocorriam no Japão obtiveram grande popularidade no país, tais quais o bi-campeão (1992-1993) São Paulo Futebol Clube (mais) e o Grêmio porto-alegrense (menos) campeão em 1980 e derrotado pelo holandês Ajax em 1995. Zico também disputara a competição, pelo Flamengo em 1981 quando o clube carioca foi campeão vencendo o britânico Liverpool. A Taça Intercontinental era uma tentativa antiga dos japoneses em fazer o futebol se tornar um esporte mais popular em seu país. A linha editorial voltada à publicação de mangás de esporte da editora Shueisha não perdeu tempo e criou o nipônico Captain Tsubasa que no Brasil tornou-se popular com o desenho animado que manteve o título espanhol ‘Los Supercampeones’. O anime ‘Os Supercampeões’ era exibido pela extinta TV Manchete e as vezes se via ‘perdido’ na programação da Rede TV.
Tsubasa, o craque da terra do sol nascente!
Oliver Tsubasa (Ozora Tsubasa no original) era o camisa 10, líder da seleção japonesa e foi criado ainda no começo da década de 80 quanto a Taça Intercontinental era disputada no Japão em todos os meses de dezembro. O mangá original durou de 1982 a 1997 sendo retomado em 2001 às vésperas do Mundial Japão/Coréia de 2002. Era ilustrado por Yoichi Takahashi. O anime foi reeditado e relançado posteriormente também em novas versões. Pela popularidade do São Paulo Futebol Clube no Japão, aconteceram momentos em que Tsubasa atuou pelo clube brasileiro, no desenho chamado de os ‘brancos’. Alusões a grandes clubes mundiais e personagens gritantemente inspirados em atletas existentes eram vistos, assim desta forma, pelo fato de os produtores não disporem dos direitos autorais dos mesmos. No anime ‘Tsubasa Road to 2002’ observava-se Zedane do Piemonte, inspirado no mito francês Zinedine Zidane que a época atuava pela Juventus clube piemontês da Itália. Ou o brasileiro Rivaul que Tsubasa precisa superar para provar que poderia atuar junto a ele no Catalunha. Tratava-se do pentacampeão Rivaldo, brasileiro que obteve a bola de ouro de melhor jogador do mundo em 1999, jogando pelo Barcelona.
Os clichês e arquétipos típicos dos mangás de esporte como disciplina, treino e superação ficavam bem expressos. Porém a ação muito dinâmica do futebol não funcionava bem no anime, pois os desenhos japoneses sempre trouxeram narrativas lentas permeadas por fluxos de consciências dos personagens. Era um tanto quanto esquisito Tsubasa começar um episódio correndo pelo campo e chegar a área adversária apenas ao fim dos 21 minutos do tempo total de um episódio. Infelizmente o mangá Captain Tsubasa permanecesse inédito em nosso país.
Hoje o Japão apresenta uma seleção de futebol razoável, com atletas respeitados no futebol europeu como o lateral esquerdo Yuto Nagatomo da Internazionale da Itália. Ou o atual e disciplinado camisa 10 japonês, Shinji Kagawa, bi-campeão alemão pelo Borussia Dortmund, atualmente jogando pelo poderoso Manchester United da Inglaterra. E captain Tsubasa foi citado publicamente por ninguém menos do que o astro espanhol Fernando Torres, atacante do Chelsea e da seleção da Espanha. Durante a disputa do último Mundial de Clubes FIFA no mês passado, Torres, na entrevista coletiva reproduzida no inicio deste texto, afirmou que quando criança queria ser Oliver Tsubasa!
Teaser:
- Calendário dos lançamentos de filmes que adaptam personagens da Marvel e DC Comics para o primeiro semestre de 2013: abril – ‘Homem de Ferro 3’ completa uma trilogia do Homem de Ferro vivido por Robert Downley Jr. Junho: ‘Man of Steel’ ainda não se sabe se o título será vertido para ‘Homem de Aço’ no Brasil mas trata-se do mais novo filme do Superman.
LITERATURA E ENSINO
CONTOS DE FADAS: PRÁTICAS NOS CURSOS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES
(Leny Fernandes Zulim)
Nesse primeiro encontro de 2013, não podemos nem queremos iniciar nossa conversa sem antes desejar, a cada um que acesse e leia esse artigo, os melhores votos de que ele traga saúde, paz e sucesso a todos. Porque na verdade, se formos abençoados com essas três graças, todo o resto se busca e se consegue em maior ou menor quantidade.
Quanto à temática de hoje, ela é a última parte de uma série já abordada em encontros anteriores: contos de fadas e práticas em sala-de-aula. Fechamos o ciclo apresentando uma reflexão sobre como trabalhar os contos maravilhosos nos cursos de formação de professores (Letras e Pedagogia) visando ao preparo desses profissionais para atuar de forma competente no Ensino Fundamental. È preciso, sim, que o professor obtenha um conhecimento mais aprofundado sobre o tema para que assim, se utilize de estratégias adequadas ao enfocar esse tipo de leitura com os alunos. Afinal, não se questiona mais a importância desse tipo de leitura na infância, auxiliando os pequenos no entendimento de sua realidade e de aspectos da vida cotidiana. Diana e Mário Corso (2006:29), na esteira do trabalho desenvolvido por Bettelheim, afirmam textualmente:
Testemunhos em análise sobre a força dessas histórias são freqüentes, é comum pacientes adultos mencionarem um conto de fada (...) que nunca esqueceram e que jamais, desde que a escutaram, foram os mesmos. (...) E ainda há quem diga que as coisas mais duras que já escutaram estavam contidas em algum conto de fada e que nunca mais vivenciou uma empatia tão intensa junto a outra forma de arte.
E continuam afirmando que, nesses relatos, a lembrança vem associada à figura de quem apresentou a história, quando e onde isso se deu. Há, portanto, um encontro entre as crianças e os contos de fadas mediado pelo narrador que os apresenta. Ora, pois se são tão marcantes assim a história lida e também o narrador que a apresentou ao pequeno leitor em formação; se essa importância se reveste do encantamento que causam no leitor essas narrativas porque o ajudam a “entender e resolver” os conflitos psíquicos inconscientes, parece correto afirmar que o professor pode e deve se utilizar desse tipo de leitura em sua sala de aula para contribuir com a formação de seus pequenos alunos, seja como leitores, seja para formar-lhes o caráter e fazê-los melhor compreender a si próprios e à vida.
Estudos vêm referendando essa verdade. Vieira (2006) lembra que há aspectos interessantes a considerar quando o assunto são os contos de fadas: a) eles sempre falam de relacionamentos humanos, exprimindo sentimentos arcaicos de nosso psiquismo; b) porque arcaicos, enfatiza ela, não deixam de ser atuais, atraentes e instigadores desvelando o que se evita manifestar em nossa sociedade contemporânea: a raiva, a inveja, a mentira, o amor, a fidelidade, a generosidade. Por isso, esses contos, assim como as lendas e os mitos, embebem-se de princípios éticos universais. Por sua vez, contrariando pais e professores que, defendendo a idéia de que é preciso afastar os males capazes de “ameaçar o mundo cor-de-rosa” pintado às crianças por adultos, querendo mudar enredos, higienizando-lhes as chamadas “violências”, Wajskop (2009:122) afirma peremptoriamente que essa idéia revela “desconhecimento do papel dos mitos no desenvolvimento infantil – afinal, personagens como a princesa, o príncipe, o lobo e a bruxa são emblemas de valores bons e ruins, como a coragem, a covardia, e beleza e a feiúra.” E continua, de forma enfática, a doutora em educação:
O contato com esses arquétipos bem definidos do bem e do mal – como a antropologia e a psicanálise já provaram- leva a criança a reconhecer e a calibrar os próprios sentimentos e impulsos. A crueza dos enredos facilita as distinções e não há risco de [a criança] confundi-los com a realidade. Pelo contrário, no inconsciente, ela os transforma em símbolos que ajudam a lidar com emoções, que, de outra maneira, seriam aterradores, como ter raiva dos pais e sentir inveja ou medo.
Acertado, portanto, que essas narrativas contribuem na formação do ser, é preciso então, repetirmos mais uma vez, que professores e outros mediadores de leitura como bibliotecários e pais, tenham um conhecimento razoável para utilizá-la de forma adequada. Nesse sentido, os cursos de licenciatura como Letras e Pedagogia, que formam os professores que irão atuar com as crianças, precisam prepará-los para a tarefa, posto que ela exige bem mais que meramente ler esses contos como mais uma atividade4 de sala. Vejamos, então, algumas práticas possíveis e coerentes de serem levadas a cabo no trabalho pedagógico diário:
1- A primeira coisa a fazer é fundamentar o conhecimento sobre tais narrativas. Para isso propor: a- um estudo da estrutura, da origem, classificação e simbologia dos contos de encantamento - podem ser auxiliares os textos de Wladimir Propp, Morfologia do conto e os de Bettelheim e Cashdan, citados a seguir, além de O conto de fadas, de Nelly Novaes Coelho; b- propor estudos (individual ou em pequenos grupos), de alguns textos fundamentais. Entre eles sugerimos: A psicanálise dos contos de fadas, de Bruno Bettelheim; Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas, de Sheldon Cashdan; Literatura infantil: análise, prática, didática, de Nelly Novaes Coelho; Fadas no divã, de Diana & Mário Corso;
2- Proceder a uma discussão sobre o conteúdo dessas leituras. Elas irão garantir ao futuro professor um conhecimento necessário para trabalhar com as narrativas dos contos de encantamento junto aos pequenos;
3- É preciso também que o futuro professor entenda que, quanto mais fiel à versão original for o conto escolhido, melhor. Nesse sentido, Ceccantini (2004:161) vem em nosso auxílio afirmando que encontramos, hoje, “tanto edições de baixa qualidade gráfica, vendidas em banca de revista, quanto edições luxuosas, muitas vezes bastante atraentes e de grande impacto visual, que apresentam textos absolutamente distorcidos, adulterados, glosados, muito distantes do trabalho original dos escritores pioneiros [Perrault, irmãos Grimm e Andersen]” Lembro aqui uma dessas aberrações em que editoras que se valem do domínio público dessas obras colocam no mercado edições com pecados de toda ordem: entre as edições que os alunos levaram para estudo estava uma imagem de capa da conhecida Branca de Neve (uma das poucas, senão a única heroína dessas narrativas, com cabelos curtos e negros, ornados com bela faixa colorida) bem criança, de longos e loiros cabelos cacheados. A proposta para que os acadêmicos percebam isso é a seguinte: organizar a turma em duplas e sortear os títulos de contos de fadas mais conhecidos, pedindo que, em dia marcado, tragam ao menos quatro edições diferentes, já lidas, do conto sorteado para a dupla. Determinar um tempo para que façam um levantamento das mudanças ocorridas entre as diferentes versões tanto na linguagem, omissão de detalhes e fatos importantes, ilustração, adulteração do enredo, etc.. Organizar uma plenária para que cada grupo relate as conclusões do estudo dessas diferenças, apresentando uma síntese ao grande grupo concluindo se houve prejuízo para o leitor em alguma das versões. Esse estudo permitirá ao futuro professor ter mais cuidado na escolha da versão a ser levada para sua turma;
4- Há contos menos conhecidos, mas igualmente bons, caso de A pequena vendedora de fósforos (Andersen); O lobo e os sete cabritinhos (irmãos Grimm); A fada da represa do moinho (irmãos Grimm) e Pele de asno (irmãos Grimm). O ideal é conhecê-los também para que os acadêmicos tenham um rol de narrativas maior. O professor pode apresentar uma lista desses títulos (ou pedir que pesquisem) e leiam para depois apresentarem uma síntese à turma;
5- Alunos das séries finais do Fundamental têm interesse por releituras dessas narrativas. E a literatura infantil brasileira contemporânea tem inúmeros e belos exemplos desse diálogo entre textos. Apenas como alguns exemplos lembremos: Pintinho Pelado (Cristina Luna); Chapeuzinho Amarelo (Chico Buarque); A história do lobo (Marco Antonio de Carvalho) O fantástico mistério de Feiurinha (Pedro Bandeira); Eu tropeço e não desisto (Giselda Laporta Nicollelis); Chapeuzinho Vermelho, de raiva (Mário Prata). E ainda ler o título Sete faces do conto de fadas (FTD) em que vários e conhecidos autores apresentam releituras dos mais conhecidos contos de fadas. Destaque para Luz verde, de Carlos Queiroz Teles, recontando o famoso A Bela e a Fera. Instigados a conhecer essas releituras, os alunos poderão ser desafiados a escolher um conto original e fazer a sua própria releitura, reescrevendo-o;
6- Outras leituras que os acadêmicos podem ser instigados a fazer são os novos contos de fadas contemporâneos. Alguns belos exemplos entre tantos outros: História meio ao contrário, de Ana Maria Machado; Onde tem bruxa tem fadas, de Bartolomeu Campos Queirós; A fada que tinha idéias e Soprinho, de Fernanda Lopes de Almeida; finalmente, lembremos as maravilhas escritas por Marina Colasanti trazendo de volta um elenco do tempo do Era uma vez... Citemos: Uma idéia toda azul; Entre a espada e a rosa; Longe como o meu querer; Doze reis e a moça no labirinto do vento; De seu coração partido.
Ficamos por aqui, na torcida para que este artigo seja útil a você que trabalha com leitura da literatura. Até nosso próximo encontro ou a qualquer momento se você quiser fazer contato pelo e-mail lenyfz@ibest.com.br.
BIBLIOGRAFIA UTITLIZADA
CECCANTINI, João L. O conto de fadas, imemorável patrimônio da humanidade. In: PEREIRA, Rony & BENITES, Sonia A. (orgs.). Há roda da leitura: língua e literatura no jornal Proleitura. Assis, Ed. Cultura Acadêmica, 2004.
CORSO, Diana & Mário. Fadas no divã:psicanálise nas histórias infantis.Porto Alegre, ARTMED, 2006.
VIEIRA, Isabel M. de Carvalho. O papel dos contos de fadas na construção do imaginário infantil. In: Revista do professor de educação infantil: criança. Brasília: Ministério da Educação, Imprensa Oficial, janeiro de 2006.
WAJSKOP, Gisela. O lobo mau ficou bonzinho? In: Revista Cláudia. Ed. Abril, 2009.
ZULIM, Leny F.. Literatura no Ensino Fundamental: da teoria às práticas em sala-de-aula. Londrina: Ed. Amplexo, 2011.
RELEITURINHAS
BRUXAS E BRUXARIAS (parte I)
(Carla Kühlewein)
“Se eu fosse uma pizza, eu tenho diversas fatias, uma fatia é a Bruxinha” (Eva Furnari)
Na Literatura Infantil brasileira e mundial o que não faltam são exemplos de bruxas que fogem ao que costumeiramente chamaríamos de “vilãs”. Ao contrário, pululam nas páginas de obras infantis bruxas simpáticas e divertidas que não perdem em nada para fadas e cia.
A Literatura Infantil conta com a famosa Bruxinha, de Eva Furnari, como representante de peso nesse contexto. A personagem é a protagonista de um punhado de livros que está longe de se esgotar, a maior parte deles são livros de imagens que contam apenas com as ilustrações da própria autora.
Sem a pretensão de ser escritora, Eva Furnari iniciou suas histórias “sem palavras” por volta de 1981, quando timidamente foi até a Editora Ática e se ofereceu para escrever livros de histórias. A editora gostou tanto da proposta que encomendou logo de início quatro livros de imagens. Nascia a Bruxinha mais docemente atrapalhada da Literatura brasileira.
A carreira de Furnari decolou a partir de sua estreia da Ática. Atualmente a autora conta com diversos prêmios, dentre eles sete Jabutis (prêmio máximo da literatura no Brasil). Pouca gente sabe, mas ela é também a vencedora do concurso de elaboração dos figurinos dos personagens do Sítio do Pica-pau amarelo, na versão televisiva.
Enfim, a Bruxinha de Furnari tem ultrapassado os séculos com sua magia atrapalhada e bem humorada ao lado de seu amigo gato, coadjuvante e boa parte de suas histórias.
O artifício cômico de que Furnari abre mão para compor uma Bruxinha tão simpática ao leitor se consolida principalmente pela inversão de valores de que ela é fruto. Ou seja, ao inserir atitudes boas, porém atrapalhadas, a uma personagem tida tipicamente como má, pelas narrativas tradicionais, naturalmente se produz um efeito cômico. Uma vez aceita a inversão, o restante é consequência gradativa do sucesso que a personagem faz por si só. É o que a autora define como a “independência da personagem”.
Numa RELEITURA original e bem humorada, Furnari presentai o universo infantil com a possibilidade imagética que a literatura tão bem pode proporcionar. Afinal, se é possível transformar em boa uma personagem que há séculos se revestiu da maldade, o que não se pode fazer com outros tantos personagens da literatura ou fora dela?
Eva Furnari presenteia-nos com uma Bruxinha que faz as mais grandiosas bruxarias, sem, no entanto, prejudicar algo ou alguém, ao contrário, a personagem atrapalhada só faz pensar nas diversas maneiras com que pode ajudar a solucionar dificuldades do dia a adia, como fazer servir em seu amigo gato um suéter que ela mesma tricotou, em tamanho bem menor, ou retirá-lo de dentro do aspirador, que ela mesma deu conta de sugar.
No mais, confira o site oficial de Eva Furnari, interativo, criativo, enfim, um belíssimo acervo da vida e obra dessa autora brasileira tão peculiar!
Boas RELEITURINHAS!




